Escrituras Heréticas - blog da Dinah Lemos

A velha amada

A velha morava só, em uma casa construída pelo marido, incrustada, agora, num jardim de árvores e trepadeiras perfumadas e coloridas, plantadas havia anos por ela e aquele homem que salvara sua vida, "em todos os sentidos" como ouvira da boca de personagens dos melhores filmes românticos de Hollywood. Tinha sido mais feliz do que a maioria das mulheres, naquele tempo em que os mais respeitados psicólogos sugeriam, ao final, que buscar a felicidade tornara-se uma armadilha. Mesmo assim, sempre soubera que, se viúva e velha, saberia ser feliz, ainda. Não só por aquilo que todos esperavam: netos, bordados em panos, escritos, comidas inventadas, cachorros e gatos, flores e o sol ainda; ela fazia sexo, além de tudo, e não aquele pensado como condescendência, esmola, miséria restante, tal qual o desejo dos piedosos, metendo-se em tradições apenas para "estar com". Ela estava só e fazia o sexo dos jovens, o único real quando os outros eram violência, violação, quando com menores ou mulheres e homens agredidos, ou melancolia degradada, como o sexo permitido aos velhos, ou aos "casados para sempre", acomodados a uma mesmice protegida.  Não fazia apenas o amor apaixonado dos jovens, o único válido; ela o fazia transportada para os melhores momentos cúmplices de sua juventude, um sexo de um tempo real, enredo complexo, detalhes trêmulos e tremendos.
A velha não mais acreditava em novelas de tv, com mocinhos e protagonistas bonitos porém vazios, genéricos, inquestionáveis em cenas onde tudo parava nos beijos, muitos, repetidos à exaustão, momentos nos quais ela não mais conseguia inspirar-se. Aquelas novelas tinham ficado parecidas com a velha e inculta pornografia masculina, sem enredo, sem tesão, só que uma mostrava as bocas e a outra mostrava os genitais, mas as duas sem acontecimentos, tramas nas quais pudesse se ver e emocionar. Ah...e o velho vestido de noiva nos últimos capítulos, a lembrar cenários emocionais do escritor Nelson Rodrigues, famoso por suas histórias de famílias perversas no estilo inconfundivelmente brasileiro. Aquilo tudo,  que em outra época, servira como anestésico, agora havia adquirido uma semgracês enfadonha. O sexo dos jovens, apreciado pela velha, acontecia com a sua própria história e a dos seus conhecidos cenários. Quando ela sentia desejo e possibilidade de gozo, podia até, inicialmente, lembrar-se daquele homem cheirando à pó de café, canela e alecrim, tudo misturado com suor novo, recém vertido, e a quentura de músculos fortes; aquele encaixe  impreciso e reinventado inúmeras vezes no dorso daquela mulher clara, de imensos cabelos lisos e pendurados, roçando suas ancas erguidas, duras, redondas. Mas logo sua lembrança migrava a um real vivido.
Lembrava-se do homem que a amara por merecimento, jovem ainda, apaixonado por ela a dizer-lhe, o hálito quente das palavras escoando em sua nuca eriçada: "olha só, eu sou maratonista...(rindo cretinamente)...pode ficar calma: vou ficar dentro de ti, de todas as maneiras, te tratar até os pássaros começarem a cantar, de manhã (disse, sussurrando no ouvido do mundo, e a voz escondida de um homem é beira de praia em dia perfeito); disse, "relaxe e se apóie na guarda e nos travesseiros, deixe comigo, deixe comigo, deixe tudo comigo...". Só em pensar que aquele cara tinha sido gentil todos aqueles anos, que era seu amigo, e que eles nunca tinham tentado ter uma relação com pessoas tais como eram, um para o outro, pensado ser aquilo possível, durante o início de suas juventudes, eles casando sempre com outras pessoas; só ali, aos quarenta, quando os sonhos já estavam um pouco mais falidos, quando ter algo no lugar da família parecia ser o significado restante, do nada, se viram finalmente. 
Não havia relhos, algemas e nem botas pretas de salto fino; acessório nenhum além de um gel esquentando as bordas de suas tecituras escondidas. Era só ela nua, com os pés nus e unhas curtas e sem esmalte. Ela prendera o cabelo com um elástico fino, macio, pra não atrapalhar em nada, assim , no alto da cabeça, como uma dançarina ensaiando, ele de banho tomado (ela também, é óbvio), o pau bem limpinho e cheiroso. E ele ainda dizia: "cheira aqui, tá bem limpinho, eu lavei pra ti". Não que demorasse mais de meia hora, mais ou menos assim, mas ela sabia que iria demorar um tempo a mais do que o tempo que ela suportaria ficar largada à deriva e, só em saber que podia confiar nele, um cara  querendo vê-la assombrada em seu desvario, em saber do destino esgotado daquela sua vagina irrequieta e cheia, já ficava sem planos. Como obedecer o comando de abrir mais e abrir mais, se não tinha mais o que arreganhar? Só abrindo por dentro e mais dentro ainda. Abrir até um fundo onde nem mais alma havia, só avessos desvirados. 
Aquele mesmo cara de sempre, ela soubera, tinha feito aquilo  mais milhares de vezes na vida dela, dentro da vida dela afora, até quando mais velhos, ainda que necessário ativar a lembrança nos momentos de sexo envelhecido e restante. Sempre que lembrava dele, de seu cheiro, aquela sua tenacidade, só em pensar já ficava vertendo uma ânsia desatinada e sem absolutamente nenhum deus por perto. Mesmo velha e só, gozava aquele gozo dos heróis retornados ao descanso merecido. Às vezes pensava que morrer deveria ser, provavelmente, algo parecido com isso.