Querida Zeferina - carta onze - como e quando vendemos a alma ao diabo


Querida Zeferina,


O Mal é burro, no fim das ilusões sobre ele: “como puderam nos fazer tanto mal?” fica sendo a sua lembrança. O Mal, esse com eme maiúsculo, é o diabo, um deus a ser vencido, disposto à vingança, a maltratar muitos viventes, à guerra. O Mal é uma doença simples que quando é novidade, não tem antídoto. Assiste o sofrimento da maioria dos seres vivos se espalhando diante de seus olhos e justifica dizendo que não há outro caminho. E o Mal sabe que mente e os humanos que se deixam contaminar pelo Mal sabem que ele mente. Pode acontecer de se passarem mil anos sombrios, mas quando nasce a flor-de-lótus, a luz, a beleza, todo o mundo vê e o Mal passará a ser contado como um deus vencido, “aqueles tempos sombrios”. Eu sou humana, Zeferina, uma fêmea sapiens, e só posso entender a nossa história, a do gênero humano, inventada nesses setenta mil anos alcançados pela minha consciência, não posso falar sobre uma hipotética história de uma “nova espécie não mais sapiens”. Só humanos capturados pelo Mal poderão falar em “novas espécies mais inteligentes que os sapiens”, porque eles são sapiens e estão mentindo sobre quererem ver todos iguais a eles, todos seus descendentes, mortos em uma guerra. São neonazistas. Uber nazistas, ou os mesmos nazistas de sempre, agora disfarçados de radicais libertários, programadores e pesquisadores bem sucedidos. Nós, humanistas republicanos, entendemos assim: a beleza está nas formas que alegram, dão prazer, acalmam, nos fazem sentir paz, desejo de “mais daquilo” ou simplesmente o encontro de um ócio, um soninho, um sonho bom. Então, uma hora o Mal será vencido e serão realizadas festas, comemorações, danças e cantorias para dizer “viva! O Mal maior sumiu, finalmente”. E nesse momento alegre serão contadas histórias de como o grande tirano foi derrubado, como foi derrotado e por quem. O Bem, assim mesmo com bê maiúsculo, são os heróis e eles poderão deixar de ser um sujeito super forte e único, um super humano, porque afinal já sabemos que esses caras acabam sendo ou ditadores ou apenas personagens de um filme caro. Mas não precisamos ser ingênuos e tecer teorias enfadonhas para dizer que “oh, não queremos mais os heróis”, “queremos ser nós mesmos, sem deuses”. Bobagens, porque desde aí, se conseguirmos matar o mal, ou ao menos prendê-lo em uma tumba, mesmo sendo só nós mesmos, pensaremos “oh, somos heróis!” e é isso. E os bons momentos serão os nascimentos, os renascimentos, o fim das guerras, a prisão do Mal e nós mesmos. Viva nós mesmos!
Mas para chegar ao ponto em que o Mal é preso ou destruído, não basta evitar praticá-lo ou não se deixar contaminar por ele, porque alguém precisa ficar vivo para contar a história e depois juntar outros para ir lutar contra o mal. Então há que se vender a alma ao diabo, em alguma medida, quando tudo é escuridão e o deus sumiu. Sim, o deus não precisa ser um velho barbudo sentado numa nuvem branca no céu azul. Numa cadeira de rei. Pode ser um monte de deuses de tudo quanto é sexo e variações misturadas que andam chamando de gêneros, tipo misturas de os e de as que uns aqui, nesse tempo sem luz do Mal absoluto, chamam de xis. Pode ser um monte de divindades entre animais e coisas humanas. Tanto faz. Eu queria escrever “uarever”, gosto tanto dessa fala do tanto faz em inglês, o tal “uarever”, mas como estão querendo acabar com o português brasileiro e criar um dialeto de inglês e português misturado, e ainda um português só falado, com gírias e sem uma escrita cheia de significados complexos, eu peguei nojo e estou me esforçando para não falar nada em inglês, nem uarever, porque afinal, partir para uma língua mutante e definida por uma oralidade volátil e desnacionalizada é mesmo o reino do Mal. Mas não vou falar em línguas hoje.
“A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa certa”, escreveu Achille Mbembe, um historiador africano divulgado em 2017 no facebook. Não concordo, não acho que é “especialmente entre os pobres”. Os pobres falam abertamente sobre isso, talvez defendam essa ideia de um modo ingênuo, sorridente, piadista. Mas eles acabam por se ajudar, não sobra outra escolha: cai o telhado de um numa chuva, todo mundo ajuda; outro foi abandonado pelo cônjuge, todo mundo releva e não faz drama, o trágico perdoado. Os pobres perdoam seus presidiários. O pobre não tem quase nenhuma chance de vender a alma ao diabo. Ou, por outra, ele vende a alma ao maldoso quando cai numa cachaça, gasta o dinheiro do gás na partida de futebol, entra em um romance que é certo que vai dar errado. Mas não passa disso, via de regra. Quem vende caro a alma ao diabo é aquele sujeito que pode conseguir melhorar de vida, deixar de ser tão pobre, conseguir a alforria. É sobre isso que quero falar, sobre conseguir a alforria. Mas o que era a alforria no Brasil de 1870? E o que era a alforria no Brasil de 1600? O diabo de 1600 creio ter sido mais poderoso do que o das vésperas da lei do ventre livre, 18 anos antes da abolição. Imagino que a venda da alma ao diabo em 1600 era muito mais necessária para a sobrevivência do que em 1870. As alforrias em 1600 deveriam ser muito raras e para conseguir sofrer menos o esquema provável era o mesmo narrado por Primo Levi, sobre o campo de concentração na Alemanha onde para ganhar comida o prisioneiro precisaria estar disponível a delatar, torturar, queimar e fazer os serviços de limpeza dos corpos. Levi contou só terem sobrevivido os que venderam de alguma maneira a alma ao diabo. Deve ter sido assim para o início do acontecimento “alforrias”, no Brasil de 1600. Depois, em 1870, já havia espaços de dignidade mais significativos, a julgar pelas ações de liberdade, os processos judiciais onde escravos provavam ter direito a alforria e eram representados por advogados abolicionistas. Ali já havia a presença de alguma alma, portanto algum deus, ou deuses e deusas, cenários de direitos padronizados, leis a protegerem todos os capazes de construir esperanças para si e os seus. Contratos, vamos dizer assim. "Você trabalhou a vida inteira para mim, dedicado, confiável, você é humano como eu, dá pra ver, merece a alforria, ter sua vida em família”. Já havia, em 1870, a ideia de proteção aos escravos velhos e essa ideia – proteger a velhice – está sendo destruída agora, em 2017.
Fico me perguntando sobre o quanto o Harari, o autor israelense do livro Homo Deus, vende sua alma ao diabo, quando fala sobre a alma humana e quando fala que: "Na essência, nós humanos não somos diferentes de ratos, golfinhos ou chipanzés. Como eles, tampouco temos alma. Como nós, eles também têm consciência e um complexo mundo de sensações e emoções. É claro que todo animal tem traços e talentos exclusivos. Os humanos têm suas aptidões especiais. Não devemos humanizar os animais desnecessariamente, imaginando que são apenas uma versão mais peluda de nós mesmos. Isso não só configura uma ciência ruim, como igualmente nos impede de compreender e valorizar outros animais em seus próprios termos". Na página 135. O Harari retira a alma dos humanos e continua a não aceitar esse grande conceito para os outros animais. Não havendo alma alguma no mundo real, bom, então tudo são objetos, pois tudo o que a palavra “alma” ilumina é o mundo exterior ao objeto manipulável pelo ser humano, desde minerais, passando por outros animais e chegando ao corpo humano interferido pela química, a biologia e a medicina.  No final do livro, o Harari vai perguntar se não deveríamos acreditar na vida como algo além dos algoritmos, mas será apenas uma manobra de engenharia de linguagem, talvez para registrar a ideia de que os nazistas têm sentimentos, que lhes sobra uma alma, talvez mais valiosa do que a alma de todos os humanos sapiens e os outros animais que já a tiveram proibida desde o início do livro.
Descobri o título desse capítulo ao ler uma carta iniciada em 2012, assim: “Desde o dia em que fugi de Porto Alegre estive mergulhada em um susto permanente, euforia camuflada pela astúcia atenta de um estrangeiro fugitivo. Somente hoje senti a emoção consolidada de estar morando em uma cidade pequena de interior, quando voltava quase à noite pelas ruas vazias, um ou outro voltando também, pequenas ruas fluindo em direção à praia, calma e cheiro e barulhos de mar lá longe e tão perto. Estou ficando menos maluca do que estive lá, durante quase vinte anos. Como se um espírito de angústia, um estado de alerta, estivesse evaporando de meu corpo, aos poucos. Tenho variações de medo, do dia até à noite, como as mudanças de cor nos joelhos contundidos das crianças, nos olhos espancados das mulheres e dos prisioneiros. O roxo escuro, inchado, vai se transformando em espaços amarelados e fica parecendo haver uma possibilidade de que aquilo deixe de acontecer e desapareça. Tudo o que aconteceu comigo, nas margens do Guaíba, conosco, com toda a gente comum e, sobretudo, com os líderes de acontecimentos dissidentes; o assédio moral em todos os lugares, na política e no trabalho, os homens atacando mulheres subversivas tanto no Islã como no interior de qualquer ponto geográfico e político do Brasil da década de noventa, tudo deve ter contado, em algum sentido, com a nossa própria participação. Nós migramos em direção ao lugar da bruxa, do louco, do decaído; nós aceitamos a representação. A pessoa participa do sofrimento que lhe foi proposto. Sente culpa pela derrota. O homo sacer, do pensador Giorgio Agamben, o sujeito escolhido para o sacrifício atola, não sai do lugar, não vai embora”. Em 2012, eu desejava que em noventa os dissidentes tivessem sido capazes de fugir.
Não é uma questão de falta de informação, Zê, de engano. Há uma entrega ao estilo Fausto, do Goethe, e no caso brasileiro dos dramas atuais ela foi realizada desde 1990 e atinge todos os que tentaram "se dar bem" no hiperconsumo do início da revolução tecnológica da informática. Lá, desde setores da tal esquerda (de todos os tipos de agrupamento), passando por uma grande parte da juventude com 10 anos de idade em 1990, que cresceu nessa lenha de se entupir de imagens e mercadorias voláteis, e chegando nas massas pobres e em pânico que adicionaram o fundamentalismo evangélico como imagem de potência politica e catártica, todos esses setores aderiram a uma linguagem mentirosa, perversa, cheia de silêncios e falsificações. Então, já lá, todos sabiam que "a cada quatro pessoas mortas pela polícia três são negras". Todos os que sabem ler sabiam. Então o direito penal alimentador de presídios e polícias foi robustecido lá. Houve uma destruição em massa, no campo da ética, a partir de final da década de oitenta, no Brasil. Podemos, então, distinguir dois acontecimentos distintos para a situação “vender a alma ao diabo”: o tipo dos que obedeceram a tiranos para salvar suas vidas, nos campos de concentração alemães, na segunda guerra mundial, ou os escravos das senzalas brasileiras – nos séculos XVII, XVIII e XIX - que se acomodaram em relações perversas para conseguirem alforrias ou algum tipo de proteção, são um tipo de “venda da alma ao diabo”, para sobreviver dentro de um cenário de tortura emocional e física praticada contra toda a sociedade civil. Nesses mesmos cenários, de inauguração de uma guerra ou um genocídio, há o tipo de acontecimento dos que fogem para ficar entre os torturadores, também para sobreviver, mesmo não sendo o próprio Mal, não sendo o próprio diabo, mas para sobreviver entre os que mandam, os que tomam de assalto os governos, os que gerenciam as máquinas de adestramento da sociedade civil, os que detêm o controle sobre as armas e os exércitos.  Nem lembro dos motivos alegados pela Hannah Arendt para o que ela definiu como sendo a banalização do mal. Talvez eu discorde dela, talvez o Mal não seja banal. Talvez a gente precise entender e perdoar. Entender que lá em noventa foram produzidos discursos de aceitação do mal, de integração no modelo que estava sendo criado ali, naquela cena da queda do muro de Berlim, mas por medo, por covardia, e não por maldade da esquerda surgida no fim da União Soviética.  “Não há propriamente um 'fascismo’ agora, ele aconteceu no furor do consumismo, lá no Lula paz e amor desenvolvimentista e conciliador. Lá implantaram os coach e a neurolinguagem. Lá era um fascismo, dentro da esquerda e da direita, todos querendo ter um carro enorme de tração na quatro rodas, uma geladeira de inox, com enormes compartimentos, falar inglês, viajar para Europa e Miami todo ano, ser chique e vitorioso. Isso era fascismo e isso chegou na produção de consumo da tal classe média nova e baixa, que não cresceu para ser política, mas para ser massa de manobra. A tal esquerda bem sucedida vendeu a alma ao diabo em 1990 e a população foi junto. O golpe sobre a Dilma foi só a cereja do bolo”, escrevi no facebook, dias atrás.
Como se vende a alma ao diabo? Indo aos poucos, aparando arestas aqui, aumentando arestas ali, ou mesmo ficando quietinha num canto de um emprego público. Eu penso ter vendido um pedacinho da alma ao diabo quando aceitei ficar viva e silenciar, apostar em uma saída individual e, mesmo com sofrimentos de longa duração, chegar a uma aposentadoria integral, sair na "lista de Schindler" dos aposentados federais de antes do golpe e da "reforma" da previdência. Há um passo a passo na fórmula do Fausto, do Mephisto. O problema é: quem vende a alma ao diabo sabe que está fazendo isso e, ao fazer o pacto, decide por um caminho quase sem volta. A população que aderiu a rituais catárticos, fundamentalistas, como grandes festas e shows, grandes programas de reality show na televisão, grandes resultados de pesquisas eleitorais, no momento em que se deparar com o fim do sonho e da catarse, quando ficar de frente com o cenário do “campo de concentração”, dos modos de destruição de populações inteiras por meio de um etnocídio, poderá desistir das ilusões e se reagrupar em movimentos defensivos. Mas a parcela que aderiu a estratégias de participação em ambientes de elite só poderá sair da cena dominada pelo grande Mal, pelo diabo, se migrar, novamente aos poucos, para linhas de ação abolicionistas, quando a elite sapiens republicana começar a abandonar o robô Darth Vader e tentar se reinventar como gerência do que sobrou da sociedade civil depois da guerra.

Por esses motivos, Zeferina, eu não desprezo as manifestações do Ciro Gomes, ou de qualquer outro membro de uma elite capaz de algum discurso visível no campo abolicionista, defensor de alforrias, apto a disputar o poder. Por essas razões valorizo as possibilidades da fala do Lula de agora, não mais o do Duda Mendonça. Para entender as diferentes formas de vender a alma no passado que engendrou o estado de exceção é preciso perdoar e colocar-se em posição compassiva, generosa. Do contrário, até por dentro de falas libertárias e radicais os mais apavorados poderão estar tecendo novos pactos com novos estados policiais. O Mal é o mais bem sucedido inventor de novidades. O Diabo aparece como o revolucionário mais eficiente, o discurso mais exato, mais competente (como falava a Chauí, em oitenta). Lamento ter escrito essa última frase, eu queria que não fosse assim. Precisamos pensar sobre a ideia de “assalto”, de revolução como uma tomada do poder central em uma sociedade civil. Acho que para romper com o Diabo precisamos deixar de querer vencer totalmente.

versão dois         foto: Daisy Weston  

Querida Zeferina - carta nove - Lulalá e o nascimento da população escravizada




                                     Querida Zê,


                                 Essa carta vai sair meio Henry James em A volta do parafuso, ou então Mary Shelley e seu Frankenstein.  É isso, para falar a verdade, estou agora a descrever um enredo sinistro ou uma monstruosidade. Preciso fazer isso. Há uma falsa calmaria, o medo cega, paralisa. Em geral os autores falam sobre a injustiça dos sofrimentos impingidos aos subordinados, sobre os modos de revolta, sobre a natureza econômica da relação, sobre aspectos menores jurídicos e culturais da situação vivida como realidade cotidiana. Falam como quem olha para um objeto exterior a um observador tranquilo. Não falam sobre uma totalidade, lavam as mãos como Pilatos. Tem gente da esquerda falando calmamente, como se uma greve geral fosse só questão de decidir: "bom, vou entrar em greve", como se fôssemos gregos capturáveis pelo dinheiro alemão. Já eu, assustada, quero falar sobre o dilaceramento interno num humano conduzido à escravidão em caráter definitivo. Quero falar a partir da dor que sinto. Nunca li sobre como nasce um escravo assim como se lesse um diário. Vou resumir porque tudo nas minhas cartas demanda uma sequência bem mais alargada, coisa que deixo para depois. Até porque dói, muito, e estou para escrever isso aqui faz mais de mês. Estou exausta, para falar a verdade. Não só porque o assunto dói, como também porque é um assunto quente no Brasil de 2017, no momento em que estão impondo leis ameaçadoras para todos os trabalhadores subordinados, principalmente os que fazem trabalhos repetitivos e têm pouca capacidade de negociação individual ou coletiva.
                                           O escravo nasce em um adulto capturado e exposto como um sujeito nu. Ele nasce quando o sequestro fica claro como definitivo, quando ele entende que perdeu – para sempre - a identidade, o território, qualquer poder sobre o próprio corpo. A desonra é o maior problema do escravo recém-nascido. O escravo que nasce de um escravo já não é mais tão escravo, porque ele já nasce em ambiente de luta abolicionista; nasce como um filho de guerreiro, mesmo sendo o mais emudecido cativo da senzala. O escravo, em seu nascimento como tal, aparece em um sujeito sequestrado e humilhado, um refugiado sem qualquer território seu, um cativo, que foi um sujeito com cidade e nome até antes do sequestro. Então, o maior problema do escravo, na inauguração do fenômeno, é justamente sua vergonha de sua nudez, de sua derrota, de seu abandono. "Como me deixei aprisionar? Como deixei que todos os que estavam comigo se perdessem de mim?”, são as angústias do escravo nu e revelado a si próprio como tal. Vai demorar um tempo até que ele se permita estar nu e sem nome, entenda a sua condição praticamente "pornográfica" e se acalme.  A nudez em público não é só a ausência de vestes, ela é a ausência de nome próprio com dignidade perante os outros. Os carteiros prestes a serem demitidos em março de 2017, no Brasil, devem estar se sentindo, Zeferina,  como se seus nomes não valessem nada para quem decide sobre a vida deles. Eles são sacrificáveis, como falou Giorgio Agamben no livro Homo Sacer, e seus nomes não importam mais, assim como suas vestes. Eles estão nus.
                                          Então, um escravo nascendo não é uma pessoa aprisionada subitamente, sequestrada e apavorada. Isso é um prisioneiro. Também não é um filho de escravo acostumado a sê-lo, por exemplo, filho de uma ama de leite em uma casa grande no Brasil colonial, uma criança nascida em um ambiente de enredos emocionais estáveis, habituais. Um homem que desembarca de um navio negreiro em uma época em que já se sabe bem o que são essas embarcações, já se foge delas na África e, ao chegar ao Brasil, 1730 vamos supor, ele entra em um enredo que aparece cheio de entendimentos claros e acomodações. Um africano chegado nesse cenário verá um mundo, uma sociedade. Verá nos olhos dos outros escravos a evidência de que ali há um modo de vida, ainda que difícil de viver.  Cenários possíveis e roupas correspondentes, nomes. Nesse caso, a condição de escravo está lá, mas também está lá a resistência –mesmo difusa e sem exército - e o recém-chegado mergulha nesse enredo tentado entender o ambiente, ajustar-se a ele adaptando-se às regras visíveis desde o início.  A escravização de uma população inteira, toda ela colocada sob a condição de “sem nomes e sem cidade” começa em uma violência desmedida, com muitas mortes e enlouquecimentos, mas inaugura para os sobreviventes um acontecimento que eu vou chamar de abolicionismo, para, desde já, estabelecer uma comunicação de memória entre o que podemos fazer agora e o que conseguiram fazer os escravos brasileiros desde 1550 até 1888, quando os donos do poder, neste país, precisaram inventar uma saída no sentido jurídico de liberdade formal. Então foram mais de trezentos anos de luta, mas construindo um caminho de vitórias parciais e progressivas. Podemos aprender com eles.
                                                 Eu quero falar sobre o sujeito que se entende por livre, integrado a uma vida em comunidade, e é aprisionado em uma situação desconhecida e inaugural, para ele e para todos a sua volta. Então, tenho que falar sobre o que Franco Berardi informa acerca de um crescimento assustador dos suicídios entre os jovens homens de 18 a 34 anos, no mundo, “sendo a depressão – patologia emocional mais presente no comportamento suicida – identificada como a segunda forma de incapacidade mais recorrente no planeta, até 2020”. Quero falar sobre os jovens nerds da base eleitoral do Trump, um agrupamento niilista que faz o elogio da rejeição às mulheres e se diverte com a própria identidade de “fracassados”, segundo li na Folha de São Paulo de 19 de março de 2017. Quero falar de quando as memórias coletivas e individuais se esvaem de dentro de um corpo humano e ele se transforma em um outro animal, durante um tempo sem saber quem virá a ser no final de uma metamorfose dilacerante, macabra. Penso em todos os que dançam essas músicas estúpidas de ritmos anestesiantes e depois imitam as propagandas das televisões e morrem e matam em ultrapassagens suicidas nas estradas brasileiras. Penso no enjoativo excesso de bundas expostas em imagens repetidas e no aumento evidente da solidão nas grandes cidades. Todos esses estão ficando nus, perdendo seus nomes próprios como símbolos que importam.
                             O escravo aparece como tal no momento em que se entrega emocional e cognitivamente ao encarceramento definitivo. O Harari, que tem quarenta anos e é professor na universidade Hebraica de Jerusalém, nascido em Israel, conta, em seu último grande best seller, Homo Deus, a tortura cometida contra ratos que boiam em um tubo de ensaio:  
Por exemplo, as companhias farmacêuticas usam rotineiramente ratos como objetos experimentais no desenvolvimento de antidepressivos. De acordo com um protocolo amplamente utilizado, pegam-se cem ratos (em nome da fidedignidade estatística) e põe-se cada um deles em um tubo de vidro cheio d’água. Os ratos esforçam-se incessantemente para escalar a parede do tubo, sem sucesso. Depois de quinze minutos, a maioria para de se movimentar. Eles apenas flutuam no tubo, apáticos ao seu entorno. Pegam-se então outros cem ratos, que são jogados nos tubos, mas são puxados para fora depois de catorze minutos, pouco antes de estarem prestes a entrar em desespero. Na sequência, eles são secos, alimentados e lhes é concedido um breve descanso – e então são jogados no tubo novamente. Na segunda vez, a maioria dos ratos luta durante vinte minutos antes de entregar os pontos. Por que esses seis minutos a mais? Porque a memória do sucesso obtido desencadeia a liberação de algumas substâncias bioquímicas no cérebro que lhes dá esperança e adia o advento do desespero”.
Está na página 130, do Homo Deus. Eu fiquei imaginando que o rato, quando para e fica boiando, poderá ser tirado dali e, em um certo tempo necessário para superar o trauma, sair correndo atrás de um canto seguro, uma toca, uma moita no meio da mata, se lhe fosse possível fugir. Seria um luto traumático do rato, ele ficaria para sempre um rato paranoico, mas conseguiria uma retomada, cheia de adrenalina, de um chance de vida a mais. Fico pensando que esses pesquisadores devem ter tentado estudar o quanto essa memória de crença na vida digna pode ser resgatada pelo rato e em quanto tempo ele cai definitivamente numa deriva deprimida, para sempre. Um rato morto vivo ou um rato autista, manifestando sentimentos em frequências gravadas em repetições não mais no padrão inteligível da sua espécie.  Eles devem ter feito essa parte da experiência, mas o Harari não inclui, em seu livro essa situação. No livro Homo Deus, esse jovem phD. em Oxford, está tentando mostrar a crueldade do animal da espécie homo sapiens, abrindo espaço para que o discurso sobre a ética da tradição moderna seja sentido pelos leitores como falácia, invenção delirante. Mas essa narrativa sobre a crueldade só poderá ir até o ponto em que fica mantida a comparação entre a frieza do pesquisador e o sofrimento do pequeno branquinho peludo. Quando essa comparação se estende para o significado do tempo de sofrimento e da condição apática em situação de sobrevida do rato, aí perde o sentido – no livro cheio de algoritmos – porque irá despertar o conhecimento que todo o leitor mestiço, negro ou indígena poderá trazer da memória coletiva sobre a escravidão, o encarceramento definitivo dentro de um corpo sem direito algum, dependendo de favores até para comer e caminhar.
                                               Quanto tempo deve ter demorado para  que os cem ratinhos brancos se tornassem apáticos em definitivo? Para o resto de suas vidas, não importando a beleza e gostosura de alimentos e gramados e matinhos oferecidos pós-trauma? Imagino os cientistas colocando séries de ratinhos, em grupos de cem, dia após dia, e esticando o tempo dos naufragados dentro dos tubos de ensaio e depois os retirando e oferecendo boa condição de vida até eles se recuperarem. Fazendo isso com várias séries de ratos, alongando mais e mais o tempo, fazendo séries diárias durante meses, até que se realize a mágica: pronto, aqui está a situação emocional de um escravo com banzo, pensaria um estudioso do escravismo colonial brasileiro.  Ou pensaria  um estudioso sobre a formação deste neo-escravismo tecnológico do século vinte e um. Não podemos saber como se sentiram os primeiros africanos sequestrados para o Brasil em navios atravessando o Atlântico, né, Zeferina? Não temos as narrativas dessa pesquisa que começou nos primeiros navios negreiros, quando chegavam quase todos mortos, poucos sobreviventes da travessia no oceano Atlântico, empilhados em um porão úmido de navio, doentes, pestilentos, imundos, desesperados dias a fio. Chegando aqui, eram apartados uns dos outros, vendidos e jogados em senzalas com outros africanos estranhos, de falas estranhas, ninguém se entendendo. Ganhavam a denominação de negros boçais, a palavra significando, até hoje, o sujeito que não entende nada do que se passa a seu redor. Quanto tempo e quantas vezes de travessia para os traficantes entenderem que estavam a perder tempo e dinheiro, dado o elevado número de mortos?  Quando os navios começaram a utilizar espaço para colocar redes, para armazenar fezes e separá-las dos prisioneiros, para fazer algum tipo de higiene, alguma água do mar para lavarem-se; quando começaram a usar redes para dormirem os mais velhos, as mulheres, os adoecidos de medo e melancolia?  Teria sido, esta experiência com negros sequestrados em 1540, no sentido contrário ao dos testes com ratos da indústria química de 2010: reduzia-se aos poucos o tempo e a intensidade de sofrimento dos africanos para alcançar o nível mínimo de dignidade e aptidão para o trabalho nas grandes plantações de cana-de-açúcar no Brasil. Isso porque o banzo, a desistência da vida, era uma doença  frequente entre os primeiros negros sequestrados nos tempos coloniais.  Mas o Harari fala quase invisivelmente em maus tratos entre humanos, o assunto abrigando poucos parágrafos do livro em cenários de confrontos entre nações antigas, como se todo o conjunto da espécie homo sapiens fosse ignóbil, ignorante e má. Nada de luta de classes, extração de mais-valia, nada de maldade dos perversos que por serem cruéis sempre se tornaram as classes dominantes, nada desse tipo de pensamento. Pelo contrário, Harari afirma, sem necessidade de explicações detalhadas, que o comunismo foi uma religião estúpida semelhante ao nazismo e o capitalismo é a própria essência do que seja o gênero humano. O livro do professor israelense, lançado em 2015 com o subtítulo de “Uma breve história do amanhã”, propõe a hipótese de ser toda a espécie sapiens essencialmente violenta, perversa e, sobretudo, estúpida e que poderia estar fadada ao desaparecimento.
                                                   Ele não conta detalhes sobre esse pedaço das pesquisas feitas pelas indústrias farmacêuticas durante pelo menos o final do século vinte e o início do vinte e um, em ratos, sobre a depressão e seus limites diante da vida, mas podemos supor que os pesquisadores devem ter estudado o momento em que a apatia da depressão se torna um acontecimento permanente no roedor, e do quanto a administração de químicas pode fazer retornar nele alguma capacidade de agir, ainda que em uma dinâmica autista. Essas pesquisas eram feitas para a descoberta de hormônios que poderiam compor a fórmula de antidepressivos a serem administrados em seres humanos. Remédios que se tornaram tão comuns, na segunda década do século vinte e um, quanto as aspirinas, quase todos os adultos trabalhadores tomando algum, durante alguns meses ou anos, muitos a vida inteira. Muitos destes encontrando um modo apático de levar a vida adiante, um fracasso estável. Talvez o Trump seja um dos primeiros acontecimentos a provocar a impressão de que as estratégias de gerências do Capital cognitivo não estejam dando resultados esperados ou, ao menos, seguros para os gerentes.
                                              A nudez de um escravo não depende da roupa que veste, ou do nome que usa, ela se realiza na perda de uma memória coletiva de pertencimento a uma cidade, a uma etnia concreta, não essas etnias de embalagens, de modelos fazendo propagandas de televisão com aparências de “o negro”, “o ruivo”, “o japonês”, todos jovens lindos, magros e saudáveis, modelos inseridos em um mundo de bricolagens sem passado.  A nudez que nasce em uma população escravizada é, portanto, a destruição das memórias coletivas anteriores ao sequestro de todos, anteriores à imersão de todos em um território estrangeiro e hostil. Só sobrevivem os que  lembram, os que recordam por meio de músicas, de rezas, de danças, as lendas e os ensinamentos de seus antepassados. Talvez – apenas talvez, como falou o Jacques Derrida – o apego ao nome Lula, e à ideia Lulalá, se explique como uma razão coletiva de defesa de memória, a lembrança de um tempo em que a esperança de nomes próprios dignos e cidades de pertencimentos eram nossas bagagens, roupas e territórios simbólicos. Bom dia, Zeferina.

versão dois - foto: Luiz Eduardo Robinson Achutti, loja em Havana


Querida Zeferina - carta oito - estupro e cultura

               



                                      Querida tataravó,


                              Decidi acomodar uma série de cartas sinceras e irreverentes em um arquivo privado, para serem publicadas quando o que vivemos agora, no Brasil, tenha se tornado história, quando estivermos mortos, a maioria de nós.  Elas não têm nada demais, apenas registram uma mágoa que era legítima até dois mil e quinze, mas agora não existe mais, pois fomos tomados todos, nós os subordinados aos que mandam nesse país, por uma condição de refugiados que nos apavora e nos põe em guarda, desolados e combatentes. Mas ainda retornarei ao assunto das mágoas, sempre legítimas, sempre necessário o direito de serem faladas e entendidas.
                                    Nessa carta aqui, também iniciada em 2012, o assunto era uma cena de estupro que eu não vi,  mas ouvi. Estava eu falando a você sobre a Simone de Beauvoir e o Fernando Henrique Cardoso em suas teses sobre a condição de coisa no agir da espécie humana. Lembro agora de Paul Veyne, no História da Vida Privada, quando ele diz ser o escravismo um objeto de estudo mutante, que não se deixa apreender inteiramente nunca, isto é, a cada vez que tentamos entender uma situação de indivíduos ou coletividades escravizadas notamos que há conteúdos ou formatos que escapam ao nosso entendimento. São híbridos. Lembro também de um brasileiro chamado Ricardo Benzaquen de Araújo que definiu um conceito (um enredo conceitual) sobre o território simbólico e emocional no qual acontece a situação de escravidão. Ele descreveu como uma situação onde violência e confraternização se realizam juntas, imbricadas, sem que haja propriamente um confronto, uma antítese e uma consequente síntese. A situação do escravo e do dono é um lugar onde não há negociação entre contraditórios, há um enredo mole, líquido, polimórfico e perverso. Uma perversidade que começa na maldade, mas cansa e acaba se estendendo para formas sadomasoquistas ambíguas, perenes, equilibradas. Daí Ricardo buscar em Gilberto Freyre, outro brasileiro pensador da década de trinta do século vinte, a ideia de equilíbrio híbrido e estável.
                                    Esta carta trazia um relato de uma cena muito incômoda testemunhada por mim, lá por 2009 em Imbituba, Santa Catarina, Brasil. “No início de minha vida no exílio que escolhi, pois fugi de Porto Alegre, como já contei, não sabia dirigir carros, ainda, embora já estivesse com quase cinquenta anos, por essa razão aluguei uma casa perto do trabalho, longe da praia onde moro agora. Na casa ao lado havia um jovem aparentando uns 28 anos e uma mulher mais jovem ainda que o visitava nos fins-de-semana. Eles faziam sexo umas duas vezes por dia, durante os dois dias de sábado e domingo, e ela gritava, desesperada, pedindo para ele parar: "Chega! Chega”! Gritava como se fosse esfaqueada, torturada. Depois ela soltava risadas nervosas e debochadas. Na primeira vez entrei em alerta máximo e pensei em chamar a polícia, socorrê-la, salvá-la; depois vieram as risadas e entendi ser aquilo um ritual estranho. O pescador que alugava o andar de baixo de sua casa para mim, estivador aposentado, disse ser uma cena habitual, parecendo um estupro mas sendo apenas um jeito ruidoso e maluco de fazer sexo. Naquele dia, eu imaginei que ela estivesse sofrendo uma penetração anal violenta, dolorida; gritava pedindo para que ele parasse, gritava sem parar. A meu ver ela sofre de alguma maneira, é incômodo e a deixa esgotada, abusada, sofrida. Imaginei uma cena onde a mulher está à mercê de sofrer uma violência insuportável, mas essa violência acontece de um modo mitigado. Parece então estar a mocinha magra e branca atuando para dar limite a seu parceiro, acelerar a ejaculação e reduzir o risco de ser machucada, ela grita por achar que é assim que se deve fazer, representar, existir como fêmea no mundo do encontro sexual. Ela aprendeu a fazer sexo dessa maneira. É uma cultura que preserva a idéia de sexo violento, no qual a mulher padece de dores na vagina e no ânus. Sangramentos, deformações. Muitas prostitutas provavelmente comportam-se assim e mulheres casadas, fiéis e cristãs praticantes, também. Mas todos estamos cansados - sobretudo cansadas - de saber que o pênis dos homens comuns está longe de ter tanta potência de invasão e desejo de maus tratos como esses gritos descrevem, em se tratando de uma mulher adulta e experiente. Creio que, até onde eu vivi, a maioria dos homens tende a machucar o parceiro penetrado, vez ou outra, mas mais por imperícia e ignorância do que por uma perseverante maldade. Essa falta de competência do parceiro que penetra ocorre até mesmo em relações entre lésbicas, porque até ali predomina a intuição humana de que o sexo deve mover-se por meio de uma virilidade inconsequente, insensível ao sentimento e ao corpo alheio. E é intuição porque brota de um entendimento anterior à linguagem, ao pensamento; sentida como inata, natural, orgânica. O que esse ato sexual da menina branca e do guri de vinte e oito anos(ato no sentido de teatro) faz é recordar o estupro de crianças ou pessoas muito jovens por adultos transtornados, ou a violência de um coito anal  consentido porém descuidado. É um código, uma linguagem, uma memória. E, ainda, as risadas nervosas e debochadas acabam por dar a impressão de ser uma memória traumática, como poderia ser a de uma menina rotineiramente abusada pelo padrasto, pelo irmão ou tio, ou mesmo o próprio pai. Mas por que me ocorre tudo isso? Por que eu conheço esse imaginário, essa intuição? Acho que ela é um tabu, uma presença demonstrada desde o berço do bebê, mas não falada, não pensada. Uma tradição arquetípica presente nas cartas do tarô, na bíblia, no alcorão, nas rezas em todos os cantos do mundo humano há setenta milhões de anos”.
                                               Mas o que é o viril, Zeferina? Lembro-me agora de uma vez, no trabalho em Porto Alegre, quando rimos tão divertidas e aconchegadas, nós, as jovens operárias do judiciário trabalhista brasileiro. Foi lá por mil novecentos e oitenta e nove, pouco menos ou mais, quando éramos ingenuamente políticos todos nós. Foi outra cena. Uma de nós estava lendo um processo e falou, em voz alta, para ser ouvida e respondida: “mas o que é o varão”? Isso porque em processos judiciais é preciso saber exatamente o conteúdo jurídico implicado no termo para tentar evitar erros de interpretação. A moça que perguntou queria saber o exato sentido da palavra, ali naquele contexto. Foi quando assomou, em uma cena mágica, um belíssimo homem adulto no balcão, lindo mesmo, forte, belo, jovial, energizado. Eu diria agora, em 2017, já velha, um belíssimo exemplo de acontecimento viril. No segundo seguinte à pergunta o sujeito mostrou-se e disse: “É o marido!”. E nós quedamos embevecidas, entre risadinhas disponíveis ao sexo bom. Ele riu, foi atendido e foi embora. Voltamos a trabalhar, na época, tranquilas, porque em oitenta o local de trabalho, comparado com o de hoje, era muito bom. Penso agora que a mesma intuição onde o ativo sexual tem a prerrogativa – e talvez a função – de atacar e machucar tem, no interior de suas composições simbólicas e emocionais, a noção de proteção, prazer e segurança para o subordinado.
                                              Dizia eu na carta posta aqui, em 2012, “As práticas sexuais da humanidade estão longe de serem efetivamente viris, no sentido de levarem as mulheres e homens penetrados a maravilhosos orgasmos ou, ao menos, a um intenso prazer. No sentido de viril como aquele responsável por garantir a segurança, a tranquilidade, a conveniência e perfeição do ato sexual feito por um sujeito inteligente, capaz de seduzir e convencer com a palavra e o gesto sutil. As tentativas do movimento feminista para divulgar a reflexão sobre o tema foram pouco difundidas e durante muito pouco tempo; logo depois do feminismo ser combatido, no Brasil, pelo próprio sindicalismo nascente após a ditadura militar e pelo pensamento autoritário comum, surgiram as delegacias de mulheres, as organizações não governamentais, as leis de proteção ao idoso, à mulher, aos negros e às crianças, fazendo com que a preocupação contra a violência e o abuso ganhasse o foco da filantropia, do controle do excesso, do combate ao espancamento, ao assassinato, ao encarceramento privado e ilegal. No entanto, as feministas das décadas de 1970 e 80 propunham a reflexão sobre todos os aspectos, até os mais sutis, da violência embutida no erótico e no sexual, dentro da tradição cultural. As primeiras feministas da luta contra a ditadura queriam discutir o prazer conjunto entre os parceiros humanos. Em  2012, o sexo que aparece e é falado nas grandes mídias não existe, na realidade cansada e assustada a imensa maioria; o avanço do empoderamento das mulheres é um discurso voltado para o consumo individual, imerso na fragilidade. O imaginário do estupro é mais forte do que as modernas regras civilizadas porque talvez ele esteja relacionado com o conjunto do mundo e da história humana, o mundo do trabalho, da escravização. Ficam duas perguntas: a violência tem mais potência de realizar e manter memória, na espécie humana atual, do que a confraternização, solidariedade e delicadeza? O campo mórfico das atitudes violentas tem mais ressonância desde sempre, nos humanos, do que o campo mórfico da solidariedade”? Eram estas as perguntas da carta posta aqui.
                                               Hoje, retomando aquela carta, Zeferina, eu me pergunto como é possível termos um país devastado pelo medo e o aumento explosivo da violência urbana e, ainda assim, sendo cenário de sorridentes e belas mulheres falando nas televisões sobre direitos das mulheres e injustiça dos homens. Elas usam saltos muito altos, às vezes muito finos, ou muito grossos, roupas inventadas como se fossem fantasias de carnaval, ou outras que se parecem um pouco –ainda que apenas insinuem – com aquelas roupas da nobreza europeia dos reis e rainhas do século dezoito, antes da revolução francesa. Algumas delas brincam de intimidades femininas, risonhas e despreocupadas, em frente às telas das tevês. E nós aqui, chorando, sofrendo, apanhando nas ruas. Homens e mulheres perdendo empregos, salários devidos e não pagos, perdendo postos de saúde, remédios e escolas, perdendo frágeis casinhas erguidas com sofreguidão. Isso tudo traz a minha memória aquela antiga frase do Paul Veyne, quando ele diz ser o escravismo um cenário mutante e terrivelmente resistente. Ou Ricardo Benzaquen, afirmando ser a perversidade escravista híbrida e estável. Só um sujeito escravista pode divertir-se pujantemente enquanto o outro, objeto de seu domínio, tem medo, sofre e chora. E somente um escravo consegue acionar uma cena na qual ele teatraliza a inversão de um domínio, inversão possibilitada pelo excesso, o vício e a insensatez do mandante.  A escravidão é uma fórmula, um enredo, próprio da história e não da bioquímica do macho e da fêmea, penso eu. Há quem pense exatamente o contrário e defenda o desmanchamento dessas constituições físicas da mulher e do homem, milenares, para dar lugar a invenções bioquímicas. Estes se pensam como sendo os melhores humanos, os que pensam melhor, os inventores. E eles estão no poder.


versão dois. 
                                                                                                     





Querida Zeferina - carta sete - Fernando Henrique Cardoso e Simone de Beauvoir

  



Querida Zeferina,


                           Uma vez briguei, indignada, com o Zézinho, porque ele havia dito ser a luta feminista uma luta burguesa. Na época, oitenta, era um campo de atuação política chamado de “luta das mulheres”, creio que para diluir as possibilidades que o “ista” acoplado a “femin” erguia. Era quase ilegal uma jovem mulher identificar-se como “feminista”, naquele tempo onde as que se identificavam assim, em Porto Alegre, cabiam em duas ou três Kombis (a Van da época). Seriam, caso fossem mais do que uma brincadeira entre nós, Kombis lotadas de sonhos imprecisos e desconhecimentos sobre os caminhos possíveis. Nem lembro como foi a briga, sei apenas que ele dava risinhos em caretas-espelhos olhando para mim, caretas tensas, rígidas, rápidas, cortantes, a revelarem uma mulher sem conteúdo que merecesse pleno respeito, posta a sua frente, furiosa. Eu.  Ele era um líder, o José Carlos de Oliveira, na época parecia ter lido todos os livros interessantes do mundo e havia se construído como dono de uma livraria chamada “Combate Socialista”. Trabalhei na livraria do Zé. Lembro do dia em que sentamos no chão para assistir a uma conversa quase íntima com Luiz Carlos Prestes. E ele me disse aquilo. Um homem pequeno, franzino, de pele bem branca, enormes e aveludados olhos negros e uma cabeleira farta, preta e encaracolada. Eu contagiada pelas intensidades emocionais de uma escolha minha em tornar-me uma das “feministas de carteirinha” de Porto Alegre, escolha que provocaria, mais tarde, em minha vida pessoal, a passagem de muitos furacões, durante muito tempo, embora tenha realizado as condições subjetivas para a minha própria salvação na vida madura.  E o cara me diz aquilo, que só de escrever aqui, nesta carta, já me dá vontade de nem continuar o assunto. E agora estou eu, em 2017, combatendo o uso corrompido do feminismo por Hollywood, o feminismo da multidão de fãs da Meryl Streep, da Madonna e da Hillary Clinton, e prevendo que uma gigantesca greve mundial de mulheres, chamada para o oito de março de 2017, rompa brutalmente o vínculo ainda mantido entre a memória desta data e a memória das operárias que morreram queimadas por serem operárias e não por se pensarem como feministas, as memórias da revolução russa e as memórias das diferentes tradições marxistas do planeta azul. Ponho-me aqui encurralada entre um desprezo registrado em oitenta e uma deprimente constatação de que aquela afirmada captura do feminismo pelos discursos padronizados dentro do capitalismo, defendida pelo Zé, está em questão hoje. Imagino Zeferina do lado do Zézinho, ambos rindo carinhosamente e curiosos sobre por quais caminhos seguirei nesse assunto ocupado por aquelas unanimidades que tanto irritavam Nelson Rodrigues, o crítico e teatrólogo brasileiro. Penso: a unanimidade é sempre burra e o feminismo é inteligente. “Qual feminismo”? Vocês dois, às gaitadas de galpão, me perguntam.
                                             Daí, sem saber por onde ir, sozinha dentro de uma única e velha Kombi intelectual, resolvi ler, finalmente, a Simone de Beauvoir. Surpreendo-me, encantada, com a evidência, ao menos nas cinquenta primeiras páginas do “O Segundo Sexo”, de que a Simone entendia o trabalho doméstico como um lugar vazio de dignidade. Fico então feliz e tranquila por ter, ao menos, um fio da meada de um longo e emaranhado novelo por meio do qual posso me assegurar de que há saída desse labirinto no qual a maioria das mulheres do mundo se encontra agora. Há saída, vamos bem devagar.
                                        “Se a mulher se enxerga como o inessencial que nunca retorna ao essencial é porque não opera, ela própria esse retorno”. Não vou citar as páginas, procurem.  “As mulheres não dizem nós”, escreveu Simone de Beauvoir, os proletários e os negros conseguem se ver como um sujeito coletivo, ela falou. “Efetivamente, ao lado da pretensão de todo indivíduo de se afirmar como sujeito, que é uma pretensão ética, há também a tentação de fugir de sua liberdade e de se constituir em coisa”. Exatamente aqui parei e lembrei-me de Fernando Henrique Cardoso, quando ele dizia – junto com outros tantos intelectuais das universidades brasileiras da década de sessenta – que o negro escravo só não era coisa quando cometia um crime. Depois fui me olhar no espelho, eu, quase uma velha de quase sessenta anos, e pensei:
                                     “eles nos colocaram novamente mudas, Zeferina; transformaram em coisa tudo aquilo que não fosse ideal vendido pelos artistas, modelos, jogadores de futebol, cantores e âncoras de televisão. Tudo aquilo que não fosse discurso de pós-pós-doutor de centros acadêmicos impulsionados desde os Estados Unidos, a França, a Alemanha e o Japão. Transformaram nossos bordados, rendas e colchas de crochê em nadismos da tradição, nossas comidas feitas em casa, nossas limpezas contínuas e intermináveis, nossos cuidados de fraldas de todos os tamanhos em resiliências aparvalhadas dentro de um mundo incompetente em distribuir food trucks (as antigas carrocinhas de cachorro quente) e restaurantes étnicos para todas as populações, incompetente em distribuir restaurantes e creches baratas em tempo integral, para filhos de operárias postas em jornadas de 12 horas por dia coladas em sistemas operacionais informatizados. E o que está fora do que eles desejam, esses humanos famosos e falantes, é coisa ou crime. E nós ficamos aqui, em casa, quase todas héteros tão fora de moda (mas não todas), comportadas com nossos velhos homens ou nossas já acalmadas solidões de mulheres velhas, nós e eles e as nossas casas embrulhadas em um lugar novamente, como sempre – desde milênios – transformado em um nada sem direito à palavra política, civil, pública”. Fiquei furiosa.
                                     Voltei pra frente do computador, ajeitei a página da próxima carta e escrevi: “Querida Zeferina, esses bem falantes nas telas das multidões, eles que vão todos às putas que os pariram”. Mania que essa gente famosa tem de chamar a casa e os corpos das gentes de coisa. Que gente doida! Como se sonhos de sermos carismáticas, importantes, livremente irreverentes, livremente ociosas ou intelectuais devessem nos inundar e definir. Como se a história dos homens, dos coronéis, das fábricas, dos centros tecnológicos, dos donos e dos grandes artistas devesse definir o essencial da espécie humana.
                                       Zeferina, queria eu ter dito ao Zé uma vidência falada assim: “a única coisa que vai sobrar de pé no mundo, no século vinte e um, vai ser aquilo que a pessoa puder chamar de lar, de minha casa, de “minha terra”, minha cidade”. E isto se ela, a pessoa, puder falar assim. O resto vai estar virado em coisas. Coisas mutantes de significado, coisas atiradas ao pedaços nos lixos, nas sarjetas, nos campos de refugiados, nas telas de televisão, por aí.

                                        Segundo Simone, “mantida à margem do mundo, a mulher não pode definir-se objetivamente através desse mundo e seu mistério cobre apenas um vazio”. Mas ela, Simone de Beauvoir, era o que de melhor se podia ser em 1949, depois da segunda grande guerra. Para honrá-la, deveríamos ser muito mais múltiplas e complexas do que ela. Deveríamos, sobretudo, poder habitar uma pequena Kombi de um pensamento individual, sem referência em telas de tevê, e, desde este pequeno lugar, nos entendermos como nós. Nós. 


versão um

Querida Zeferina - carta seis - o fim do espaço público



Querida Zeferina,


Imagino que teu filho, pai da minha avó, tenha nascido entre 1880 e 1890, bem próximo da lei áurea, a lei que aboliu a escravidão negra no Brasil. Nasceu no Rio Grande do Sul, não é? E, embora tenha ido parar em uma região próxima às charqueadas, quando adulto, ele nasceu nesta capital, Porto Alegre, onde choramos hoje o medo de uma nova forma de estado de exceção. As charqueadas eram lugares de escravismo mais brutal, os negros fugitivos enviados pra lá, de todo o Brasil, morrendo não raro em dois anos, em meio à lida em lugares encharcados de sangue de gado, contaminações, sofrimentos, apodrecimentos e sal. O relato colhido por meus ouvidos diz ter sido este bisavô um dos três filhos retirados de ti para serem criados por “dindas” brancas e bem situadas na vida, os três que você pariu claros, sararás. Zeferina uma alforriada, possivelmente uma filha de ventre livre. Negros branqueados por terem pai de descendência portuguesa. Os outros, reza a lenda, ficaram com você para serem pobres e esquecidos. Havia um desses filhos negros que era um violeiro, artista, e era muito bonito.
O Graciano era seu amante, casado com uma branca, mas dela não teve filho algum. Muitos filhos dele você teve, filhos teus, mas só os claros foram entregues para “gente de bem”. Depois falo daquele seu neto que virou senador, que incrível!  Estou pensando que muitas dessas amantes pobres do século dezenove eram, na verdade, uma espécie de prostituição em espaço privativo, ou seja, uma prostituta de um homem só, mulheres forçadas a um tipo de vínculo ainda escravo, porém agora cheio de nuances mais ainda ambíguas do que as que sempre houve, no Brasil, desde as primeiras indígenas amásias, nos tempos do descobrimento. Algumas chegaram ao poder e à relevância de Chica da Silva, a negra que experimentou um lugar nobre, de amante favorita e oficial do contratador João Fernandes.  Tem até um filme, com a Zezé Motta de Chica e o Valmor Chagas como comendador. Um filme caro e famoso, do diretor Cacá Diegues. O mito de que eram mulheres com um poder especial guardado em suas vaginas mágicas. Chica da Silva teve treze filhos. Você teve quanto, Zeferina? Ninguém sabe ao certo, uns dez também. Imagina dez vezes grávida, dez vezes parindo. Parindo um verdadeiro exército.  Ficaram para a história apenas seus três filhos mais claros, um deles meu bisavô. Dele, nasceu minha avó, lá por 1909, e dela, nasceu minha mãe, lá por 1930, já no primeiro tempo de Getúlio Vargas mandando no Brasil.
 O escravismo é tão perto de nós, no tempo, que às vezes eu penso ser a ideia de algo longínquo e inexistente plantada não apenas pela enganação da lei áurea, mas, sobretudo, por termos várias gerações de gente descendente de imigrantes italianos e – em menor número –alemães, nos quadros intelectuais das universidades brasileiras. Tivemos vários mestiços e alguns poucos mais negros ou negros sem grandes misturas, nos bancos das universidades desde os tempos do Brasil império até o começo das políticas afirmativas dos governos petistas, já no século vinte e um. Mas mesmo esses negros ou pardos estiveram sob forte influência do mito do fim da escravidão, abolida por uma lei decidida e imposta pelos donos dos plantéis de escravos. Foi assim que chegamos aos tempos atuais com a predominância da ideia de que existem apenas resquícios, preconceitos sem fundamentos materiais, sem serem acontecimentos orgânicos da sociabilidade, sem efetuarem estruturas concretas, apenas mitologias a serem extintas por insistente propaganda propositiva de um novo viés comportamental – predominantemente estético, cabelos como bandeiras – a ser adotado pelas pessoas comuns, negras puras ou não. Nesse entendimento, os pardos, mestiços de todo o tipo, os branqueados por gerações de tentativas de fuga através de linhagens de “criados por gente de bem” não são pensados pelas teorias acadêmicas destes que foram sempre brancos, principalmente de origens italianas, ou os poucos negros, e gentes de outras etnias migrantes, ocupantes dos postos de enunciação discursiva nas universidades. Nós, os descendentes dos filhos que não foram esquecidos, os entregues para “dindas” brancas criarem, colocados em escolas boas, feitos intelectuais em vários graus diferentes de importância e poder dentro do mercado de trabalho, nós não somos considerados negros, nem pensados como envolvidos por efeitos daquela dominação, nem temos direito à palavra como setor social com semente na cena da escravidão e morada em seus prolongamentos atuais. Somos mudos, invisíveis silenciados para este assunto. Somos condenados a uma brancura que não possuímos, sem, contudo, deixarmos de sofrer as penas de uma presença étnica exterior aos núcleos que se sabem realmente brancos. Nós somos os mestiços sem direito a qualquer inclusão étnica.
Essa carta havia começado por uma explicação dolorida sobre como os governos do Partido dos Trabalhadores não conseguiram realizar o propósito inicial da fundação deste partido, qual seja o de romper com os paternalismos da Era Vargas, atitudes de elites nos governos regionais e nacional do Brasil que, sem deixar de ser vinculadas a coronelismos locais, orgulhavam-se de seus contornos desenvolvimentistas e estimuladores de alguns níveis de bem estar social, ampliação de espaços jurídicos republicanos e, portanto, expansão de possibilidades de exercício de cidadania para largos setores da população subalterna. Era uma carta focada na preocupação sobre o entendimento do que, afinal de contas, poderíamos entender como sendo um “espaço público” no país Brasil. Qual poderia ser uma narrativa sobre a história desse espaço público, suas inconsistências, suas aberturas de identidades civis.
Fico imaginando que não havia esse desejo, ideia, conceito de “espaço público”, naquele tempo de crueldades normais. Lamento muito comentar, mas aqui não é uma rede social e então eu posso dizer sem rodeios: o espaço público desapareceu no Brasil, agora em 2017. Não sei se ele existe em algum outro lugar do mundo, mas aqui ele sumiu como some qualquer possibilidade de paz em um casamento, quando é anunciado o seu término, aquela frase finalmente dita: eu quero o divórcio. Na verdade, no segundo seguinte a essa frase se instala uma paz nascida naquilo que é irremediável. A morte muitas vezes é assim, uma bala perdida, um atropelamento, um acidente de carro, ou de avião, fatal. Da noite para o dia. Os casamentos sempre terminam em um dia, é um, é dois e já! Fim. Mas depois fica aquela ideia de que há muito tempo já era muito ruim: “eu só fui feliz com ele durante quatro anos, depois levei com a barriga, aguentei de tudo”. O fim do espaço público, no Brasil, está com essa sensação de algo que aconteceu em um dia, mas que vinha de antes, muito antes.  Como nos casamentos, depois de alguns meses deles desfeitos as partes envolvidas sentem saudades, mesmo daquele longo período no qual as coisas já eram levadas com a barriga. Fica pesando a morte, ficamos sentindo a dúvida se não teria sido possível remendar, arrumar antes do fim. Fica sempre a culpa.
Assim acabou a democracia no Brasil, não sei dizer quando se pode identificar aquele momento da calma de quem entende que realmente acabou, se quando da votação contra a Dilma – por amor às famílias deles – ou se quando caiu o avião do Teori e logo depois morreu a Marisa. Para ser sincera não há mais o que se possa dizer que realmente se realize como uma fala pública. Até nas redes sociais se diz que estão contaminadas por robôs e invadidas por organizações secretas de exércitos de grandes elites financeiras. Há um enorme silêncio se abrindo nos computadores pessoais. Tudo o que é dito carrega uma escolha definitivamente privada.
Eu sei que o pessoal que lê tem dificuldade para entender o que quero dizer e onde quero chegar. Um dia desses uma leitora reclamou. Lamento, mas escrevo para minha tataravó obviamente morta. Então não há problema algum na falta de entendimento, em qualquer tipo de angústia ou abandono, se tudo é privado, se o espaço público desapareceu, não há a necessidade de entendimento legalizado, normal, regulamentar. Falamos desde nichos domésticos e o meu é esse tipo de carta aqui. Todas as dinâmicas de alteridade em espaços civis, públicos, foram silenciadas, extintas, extirpadas. Mais do que proibidas, foram desconfiguradas por fragmentações esquizofrênicas das linguagens políticas. No mundo todo acontece essa extinção, mas a partir de mecanismos distintos em cada lugar, cada país, cada continente. E se não há mais dinâmicas normativas e públicas de alteridade, as diferenças, as contradições acabam sendo ou jogos de nobrezas distintas, conflitos entre feudos, tribos ou gangues, ou guerras sanguinárias. Você começou a entender, mas não me peça explicações, elas seriam o nado da tartaruga emaranhada em farrapos de uma rede de pescar, sozinha, sem um socorro humano. Explicações fadadas ao naufrágio em tessituras agressivas das redes sociais. Escolha seu lado, aguente as nojeiras que nele habitam, submeta-se às hierarquias dos muros que te conferem um pouco de pertencimento e cale-se. Ah, você dirá, mas onde há mais de um humano sempre haverá alteridade. Pode até ser, mas quando um casamento termina, uma morte acontece, há um luto, há um comer, dormir e rezar. Mas não estou falando com você, repito, falo com Zeferina, a avó da minha avó, que é morta, e isso confere a essa carta um lugar de fofoca. As fofocas são escondidas nos lugares onde o surgimento da alteridade é clandestino. Lembra-se do filme 1984? Aquele que ninguém pode falar com ninguém? Sim, sei, você lembra de outros filmes, como THX1138, de George Lucas, por exemplo.
Voltando ao assunto: como uma mulher negra, talvez nascida de ventre livre, tornada amante de um homem branco, saberia ver seus filhos mais negros rejeitados e seus filhos mais claros escolhidos, reconhecidos pelo amante branco? Se você se detiver examinando esse problema verá o quanto ele tem uma enorme violência bordada, pregada, costurada dentro da situação. Como uma mãe vai tendo filhos e vai vivendo uma vida inteira testemunhando o abandono de um grupo deles e a proteção de outra parte, pelo homem que a tem como propriedade privada? Pensa. Ela não podia reclamar, aquilo era uma situação normal, cotidiana. Certo, Zê?  Talvez agora você tenha começado a entender, mas não falo com você, falo com ela.

Querida Zeferina, o que poderia ter você a ver com Simone de Beauvoir? Vamos continuar nossa fofoca por aí.

versão três.  foto: Luiz Eduardo Robinson Achutti

Querida Zeferina - carta cinco - amor infinito





Querida Zeferina,

                         Desde o século passado queria ler o livro Werther, do Goethe. Um livro famoso na sua época. Ele contava a história de um moço que se matou. Era uma sequência de cartas do jovem Werther para não me lembro quem, um editor eu acho. Li recentemente. Era um amor doente, uma solidão tremenda. Esse livro provocou uma epidemia de suicídio em 1774. O suicídio é contagioso, parece. Muitas formas de violência são contagiosas, acho até que tudo é contagioso na espécie humana, mas a violência e o medo são mais. Pois nesse livro o autor, o Goethe, quis escrever bem e então mudava o vocativo inicial. Não quero fazer isso, estou triste. Não quero imitar ninguém, escrever bem – ou melhor do que simplesmente sei escrever escrevendo – ou tornar a leitura confortável. Sei que estão e estarão lendo, porque a única forma de falar contigo é jogar essa fala no mundo. Mas quero falar contigo e não com o mundo, esforço-me neste sentido. Então como te chamo pode ser algo semelhante à reza, ao mantra, àqueles começos de confissão, que afinal pareciam ser a parte mais sincera do evento. Ao menos pra mim, que só me confessei criança, querendo ir a algum lugar com roupa bonita de domingo, ver alguém, estar com gente em um lugar estranho e sedutor. Então tinha aquele “senhor, me perdoa porque pequei”, ou algo assim, não lembro. Depois vinha um envergonhado relato sobre copos quebrados e brigas com o irmão. Nada que importasse ao padre, em uma vida de criança tão disciplinada e sem graça. Isso era em 1966. O padre devia achar que crianças como eu era não sabiam nem mesmo o que significava pecar. Não consigo imaginar alguém indo lá e contando uma daquelas merdas enormes que acontecem na vida da gente adulta. Contamos para alguém considerado amigo de verdade. As piores merdas não contamos a ninguém.
Essa carta começou em 2012, como várias outras. “É sábado, sol e vento, e eu estou cansada de proibições. Sobretudo, sinto falta da crença de que nós, seres humanos, possamos nos incluir em um ambiente de sinceridade, fraternidade, leveza e paz. Há uma predominância, hoje em dia, de falas dirigidas à contenção preventiva de supostas atitudes inusitadas, antes mesmo que elas se anunciem, fazendo com que as atitudes agressivas inundem as relações, como fantasmas, desejos invisíveis, mudos e incomensuráveis. Há um afastamento do ato de crer em relação ao ato de pensar o que, sem dúvida, ergue deuses tirânicos metamorfoseados em razões científicas e deuses brutais refugiados na ausência do pensamento”. Não sei exatamente o que estava querendo dizer, mas sei que hoje, 2017, está muito pior.
                   Sou sobrevivente de uma doença antiga. Sobre ela existe até mesmo um mito grego, descrevendo uma mulher vagando em desespero inútil.  Creio ter sido um conjunto de sintomas compartilhado por gente que se matou ou morreu aterrorizada e imóvel em um canto de hospício. Agora temos os antidepressivos, pílulas aliviando e reduzindo aquela dor insuportável a um discreto comportamento permanentemente um tanto assustado, um pouco assustador de vez em quando. Mesmo depois dessa cicatriz em meu modo de sentir, e ainda que eu avise a todos ser uma pessoa com cicatrizes, volta e meia aparece alguém inadvertidamente querendo expor-me a medições de forças, angústias disfarçadas de otimismo, aprendizados estúpidos e sem sentido, velocidades desequilibrantes e desnecessárias e toda sorte de burrices consolidadas. Não quero falar com ninguém, só com Zeferina, só contigo.
Aconteceu uma coisa no Brasil, Zê, daquelas que não dá pra falar para o padre, naquela casinha dele, cheia de cortinas, penumbras, janelas protegidas com aramados de madeira. Uma coisa bem grande, que é quando ninguém fala mais nada sobre aquilo.  Essa carta aqui era pra dizer, em 2012, que os caras que mandam tinham inventado um modo de agir, no Brasil, no qual os gerentes, chefes e diretores falavam sorrindo, falavam sobre grandes novidades importantes e a gente - que achava ser apenas mais um modo de nos fazer sentir dores nas juntas e em todo o corpo, sentir medo e solidão - ficava com cara de assustado. E os gerentes continuavam sorrindo, como se a gente estivesse assustado por ser burro, louco ou idiota. Ou tudo isso junto. O bom dessa coisa grande que aconteceu agora, em 2017, é que agora todo mundo já ficou sabendo que não é louco, nem idiota. Talvez um pouco burro a gente continue a se achar. Somos desengonçados, para falar a verdade. Mas antes éramos individualmente incompetentes, inadequados, incômodos, desagradáveis, desnecessários. Agora estamos nos sentindo todos juntos, ao mesmo tempo mudos, dormindo e acordando pacientes, tementes. Eu não diria nem para o padre, mas isso não é algo que tenha desabado dos céus, de repente. Uma coisa que junta todo mundo num medo comum não pode aparecer do nada, a menos que seja um tsunami, uma bomba atômica. Mas daí não seria esse medo ordeiro, silencioso, normal, seria um desespero para ser socorrido, uma gritaria pedindo ajuda. Esse medo de hoje é muito interessante, Zeferina, ele precisa ser escondido dentro de cada um, mesmo que todos saibam, ao mesmo tempo, que ele está ali, em todos.
Na cidade grande, como Porto Alegre, ou na praia, onde moro, em todo lugar há este medo como um filtro, como aquelas pinturas das faces das mulheres, quando elas querem parecer estar com seus próprios rostos, mas estão com máscaras e todo mundo vê. Como quando as mulheres estão sobre saltos enormes e finos e fingem que andam em paz, enquanto aquilo dói ou avisa que vai doer. As modelos magérrimas nos desfiles andando sobre enormes saltos, como se estivessem caminhando livres. Uma verdadeira arte do disfarce: confesso que não confesso nada.   Medos com máscaras diferentes, conforme o lugar, mas todos sabendo ser o mesmo medo. Um enorme medo normal, inconfessável, sobre o qual esquecemos por não poder falar nem para um padre. E se alguém fala, nossa! Todos olham com cara de psiu! Cala a boca!     
               “O sino da igreja católica bateu às sete horas da manhã de domingo”, escrevi quando morava no centro de Imbituba, em 2009.  E segui nessa carta, naquela época, quando o medo era infinitamente menor e mais individual, “há sempre um recomeço, quando um grande coletivo humano mergulha na destruição; sempre brotam casais sobreviventes, das cinzas”. Por que escrevi “casais”? Talvez pelo sino da igreja, pelas ideias de dilúvio e arca de Noé. Mas não precisariam ser exatamente “casais”, poderia ser um “todo mundo” de algum lugar qualquer. Não poderiam ser casais em um navio, creio que só se fossem lugares inteiros onde todo mundo conseguisse se livrar desse medo comum, todo mundo junto. Mas se nem isso fosse possível, se esse medo fosse por causa de uma bomba atômica qualquer, então poderiam ser cartas, quem sabe. Cartas de um amor abandonado. Não o do jovem Werther, mas um que não pudesse morrer. Um amor gigante, sereno, infinito.

        Versão quatro       

Querida Zeferina - carta quatro - Simone de Beauvoir está morta

(Uma grande fofoca sobre a história do Brasil – 1977/2017)



Querida Zeferina,


Comecei a ler Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo. Um texto de mil páginas, e ela talvez seja a mulher mais importante do feminismo do século vinte. Eu fui o que se chamava “militante” feminista desde o final de 1979 até 1989. Hoje se diz ativista. Dez anos. Durante esses anos todos aprendi que tinha sido feminista desde menina, quando protestava por ajudar na cozinha e meu irmão não. Depois de noventa fiquei sabendo que não só não era mais “militante feminista”, porque não mais pertencia a um grupo organizado, seja uma ong ou uma secretaria de partido, bem como carregava uma memória que não interessava a qualquer uma das organizações feministas de Porto Alegre. De militante desde criancinha, passei a ocupar o status de uma mulher comum, ou qualquer. Diz a fofoca que foi porque fiquei louca. Bom, continuei me achando militante feminista, mas já tinha sobrevivido mais de dez anos sem ler diretamente a Simone de Beauvoir, talvez a fala dela entrando em mim por vias transversas, outros textos, outros livros. A partir de noventa passei a não ter necessidade daquela leitura. Descobri recentemente que é um livrão. Agora, sem qualquer compromisso, estou com aquela mulher. Nas duas primeiras folhas senti zero identificação: eu sou tão menor e tão maior que ela.
Descobri hoje que o subtítulo deste meu livro deveria ser: uma grande fofoca sobre a história do Brasil. E, ainda, ao modo das teses acadêmicas, um corte preciso de datas, 1977, quando comecei a ser “militante”, e 2017, ano em que escrevo, ou reescrevo estas cartas para ti. Sim, porque alguém poderia dizer que esse livro seria “isso”, ou “aquilo”, ou “aquilo outro”, e que sendo isso seria inconsistente, sendo aquilo seria inadequado e sendo aquilo outro seria falho. Daí lembrei-me da tese defendida faz anos por mim, a de que a fofoca é revolucionária, porque é uma fala proibida e, não obstante, milenar, sempre presente, imune à censura feroz. O recorte de datas condizente com o começo da minha participação política e o momento atual. Então, eu fazendo fofocas sobre a história do Brasil para minha tetravó, obviamente morta. Vou ler a Simone e explicar uma hora dessas, aos pedaços e parcialmente, do que gostei e o que entendi como próprio daquela época muito particular quando ela escreveu. Ela, Simone de Beauvoir, é um arquivo pessoal, embora seja também um arquivo de época e, portanto, coletivo. Eu sou um arquivo pessoal, embora seja um corpo de restância de um rastro – isso é de Derrida - muito importante na história do Brasil. O rastro, não eu (antes que me chamem de megalomaníaca, como fizeram inúmeras vezes). Eu fui a gaúcha que foi entregar as assinaturas em favor da emenda popular da saúde da mulher na assembleia nacional constituinte, em 1987. Não fui eleita ou indicada em qualquer instância de movimento de mulheres ou feminista do Rio Grande do Sul. Eu não sei como é que aquilo aconteceu, só sei que fui posta num ônibus do PCB – o partidão – por uma amiga que eu não vou botar nome de ninguém neste livro, que é fofoca e não dá, né Zê? Criatura, aquela campanha foi tão doida, mergulhada em um memória coletiva – uma intuição consagrada – que acabou nos vendo como diabas, figuras medonhas, de tal sorte que só eu e Lelê – vou dizer só esse apelido – conseguimos chegar até aquele ônibus e não tenho a menor ideia de como aquilo se deu, que nem reuniões mais as mulheres do começo daquela campanha conseguiram continuar fazendo. Aquela situação de terror informal e a mulherada entregando folhas de emendas assinadas, umas para as outras, e aquilo chegando até a minha casa, sendo postas as folhas massarocadas por baixo da porta, gente me entregando montinhos de papel. Lembro que a Lelê desmaiou na porta do edifício onde eu morava. E eu subindo nesse ônibus, que era do PCB, e indo a Brasília sentada em cima de um pacote pardo com quatro mil assinaturas de pessoas, homens e mulheres, com seus documentos oficiais, na época ou o título de eleitor ou o registro geral, que o CPF não era ainda o padrão.
Então, a Simone de Beauvoir é um arquivo pessoal e é um arquivo de época e eu sou um arquivo pessoal e um rastro restante. Uma pegada, um osso enterrado, um monte de folhas assinadas da emenda que colocaram pelo vão da porta de casa quando eu já tinha embarcado. Cheguei impressionada com Brasília e a entrega das emendas e me deparei com aquele amontoado de folhas de emenda assinadas, ao abrir a porta. Como se tudo aquilo tivesse se desenrolado em um desespero propriamente heroico, as mulheres tendo que enfiar folhas pelo vão da porta, nos últimos minutos, na esperança de que alguém conseguisse fazer aquilo ir adiante. Depois eu volto a contar essa história.
Então “o meu arquivo pessoal tem uma configuração incomum”, escrevi em 2012: “Todos acabam tendo. Mas o meu mostra um tipo de loucura produzida nos grandes centros urbanos e uma especificidade que o caracteriza como pertencente a uma fronteira, abrindo o sentido de produção de novos formatos de memória, novos hábitos, em ruptura com as tradições milenares”. Em 2012, eu falava de um modo hermeticamente contido, não acredito que desse pra entender, exceto se se considerasse uma espécie de abstração poética. Mas eu falava, envergonhada e temente, numa busca de auto entendimento e de preservação de registros como “um patrimônio de importância vital”, “em um momento histórico no qual as memórias são perdidas, desfeitas, mergulhadas nas profundidades do excesso”. Falava com muito medo e agora não. Em 2012, escrevia de um modo agoniado, obscuro, ininteligível. E escrevia, Zeferina, naquele modo quase autista, coisas assim: “Isso será decisivo, na era que se inicia, aos que querem sobreviver”. E, ainda: “Não a memória de uma massa amorfa aprisionada nos censos nacionais, mas os arquivos de uma específica família, de cada família para si, a sua particular identidade na multiplicidade de suas raízes e bifurcações”. E mais: “Com o desenvolvimento da investigação, os arquivos pessoais irão adquirindo um determinado espírito (um fluxo de devir infinito) e, alguns, serão ousados o tanto necessário para que lhes seja dado um nome. O meu arquivo pessoal se chama Zeferina”. Não era um nome de arquivo, você é uma tataravó morta, verdade seja dita. O nome do meu arquivo pessoal é Dinah Lemos.
E escrevi, tímida e louca ainda, em 2012: “Na tradição dos últimos milênios, um arquivo pessoal ganhava o sobrenome de um homem, fundador de uma árvore genealógica inscrita em uma determinada propriedade privada e acumulação de riqueza e poder. Alguns raros arquivos pessoais com sobrenome de homens ganharam status de espírito e fluxos de devires infinitos ao serem convertidos em arquivos públicos, coletivos e indestrutíveis, imortais. Por exemplo: Cristo, Buda, Marx, Freud, Lacan”. Bom, digo hoje, em 2017: lembro ter lido em um livro sobre a história de Jesus, que as palavras “Jesus” e “Cristo” eram genéricas, na época, ou seja, significavam algo assim como “o cara salvador”. Tipo o “Lula da Silva”, no Brasil de 2017, quando quem está no governo quer prende-lo e a maioria da população o escolhe para ser presidente do país. Bom, “Lula da Silva” é um nome próprio, mas a ideia é a de um sujeito que, ainda com todos os problemas nos quais estamos mergulhados, poderia arrumar o governo e o Brasil de um modo melhor do que qualquer outro indivíduo.
Já tendo fugido de Porto Alegre e antes de 2013, escrevi, finalmente: “Agora, no terceiro milênio, surgirão os arquivos pessoais bloqueados para esse tipo de conversão. Nietzsche tentou dizer isso”. Outros falaram sobre, recuperando a ideia bíblica da torre de babel, mas só agora, em 2017, muitos já sabem que um número grande demais de seres humanos não tem a menor ideia do que está acontecendo com o mundo humano e seu planeta.
Justo agora achei Simone de Beauvoir. Isso acontece com quem passa a vida lendo, a gente se depara com um livro que estava ali, na estante, há décadas, e ele então te pede para ser lido. Agora vou ler O Segundo Sexo, um livro de mil páginas que sempre foi tão bem entendido por um número muito grande de gentes. Bom, a Simone também é uma morta, mas as frases do seu livro não falam comigo, ela não tem vida para mim e seu texto é perfeito. Eu não, nem você, né Zê?
                                                                         
                            versão cinco         foto: calles onde se anda, Luiz Eduardo Robinson Achutti