O texto que segue surgiu em um comentário de uma postagem sobre o policiamento dentro dos campus universitários, segundo decisão já feita em Santa Catarina, na universidade federal. Gosto de entender como o conjunto da sociedade está se movendo para depois tentar ver problemas localizados. Não estamos mais em um tempo democrático, onde se pode almejar que um conjunto populacional imenso dentro de um território enorme realize, em cada comunidade, em cada município uma mesma noção de cidadania, de pertencimento. Isso começou a ser destruído na década de 1990, no Brasil, embora nunca fosse realmente um grande acontecimento. A cidadania plena sempre foi um sonho, nesse país de tradição escravista. Mas na saída da ditadura militar foi recuperado um processo anterior que já vinha sendo pensado desde o Estado Novo do Getúlio Vargas e do Oliveira Vianna, dos intelectuais de 30 e sua proposta de erguer um Volksgeist (espírito do povo) brasileiro baseado na cidadania generalizada. Acontece que tudo isso desabou a partir de 90, e o que o PT construiu, a partir de 2003, foi mais na linha da inclusão em direitos mínimos, em políticas afirmativas também, que praticamente acabaram por fortalecer dinâmicas de formação de tribos específicas, mas não em estruturação de um conjunto harmônico de cidadania política. Até porque durante todo esse tempo dos mandatos do PT foi avançando, na sociedade brasileira, o processo das terceirizações (ainda que os petistas se orgulhem de terem desacelerado esse acontecimento), que foram decisivas para a desagregação das solidariedades em comunidades específicas. O próprio discurso central do PT começou, a uma certa altura, a apontar para um determinado valor da "pobreza", da "simplicidade", em oposição a uma ideia genérica de "classe média", favorecendo a antipatia entre esses dois setores sociais e favorecendo também a proliferação do assédio moral à parte mais fragilizada dos setores de classe média. O espaço público ficou sempre controlado pela grande mídia, seja ela evangélica ou mais modernosa, como a Rede Globo. E foi justo nesse período que explodiu a revolução da informática no Brasil, inaugurando uma "desterritorialização simbólica" de gigantescas proporções. Tivemos então a proliferação de uma cultura do hiper-consumo, da aceleração e da velocidade como deuses, uma cultura agonística ao máximo, decadente, sendo o agonístico hipertrofiado uma espécie de endeusamento da competição, do super herói, dos Olimpos, das celebridades. Um dos espaços onde a concentração de renda foi defendida como um valor positivo foi no espaço do futebol, onde os considerados craques tiveram legitimado o direito, diante da opinião pública, de receberem salários de um milhão e meio por mês e de terem integrado em seus corpos montantes patrimoniais de até trinta ou quarenta milhões de reais. Isso dentro de uma normalidade - portanto dentro de uma normatização - onde a maioria dos jogadores de futebol continuaram com remunerações mínimas. Outro espaço onde a cidadania foi desconfigurada foi o da beleza feminina, que já era comandada por esteriótipos, mas passou a produzir normalidades que legitimaram a anorexia como uma doença a ser investigada por todas as meninas que pudessem "ir até lá". Foi nesse processo que houve uma ruptura do conceito de cidadão e cidadã, uma implosão interna e uma fragmentação desse conceito em um feixe esquizofrênico e que realizaria progressivamente o "devir tribal", esse devir digamos medieval, de feudos, de espécies de micro nações autônomas. Essas micro nações entrariam no cenário social para competir, para lutar entre si. O conceito de "agonístico", aqui, tem a ver com a disposição para a luta, para o enfrentamento e ele está em ruptura com o conceito de cidadania. Em uma sociedade toda ela agonística não há como evitar o policiamento no espaço exterior às tribos. Nessa situação, não há mais esse espaço público como em uma República, o espaço público agora é a Floresta, o espaço do homo sacer de Giorgio Agamben, o lugar dos "matáveis". Em situação de barbárie, como estamos, os lugares da Universidade tendem a se restringir às salas de aula, e olhe lá. A própria "universidade" tende a desaparecer, agora cedendo espaço para espécies de "mosteiros" de temáticas e linguagens localizadas. Como sair disso? Não será indo para trás, não poderemos voltar atrás, teremos que integrar tribos e tentar sair dessa idade média a longo prazo. Precisamos começar a pensar em novas linguagens, em ecumenismo, em diálogos entre pequenas nações. Nunca, desde o ano mil do calendário cristão, a palavra diálogo teve tanta importância para o destino e até a sobrevivência da espécie humana. Mas, veja bem, a palavra em sua significação verdadeira, verídica, e não em suas simulações dissimuladas e agonísticas.
Era Dioniso contra o Crucificado, agora é a Luz contra o Desespero. E cada um com seu próprio Deus.
O lado de fora do textão
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| Ilustração: Brecht Vandenbruck |
Apresento um
pensamento e uma escrita anti-textão. É a premissa. Um textão carrega um
determinado séquito de adeptos. Para confronta-lo sempre precisaremos ter outro
textão, com outro séquito. A lógica dos textões é uma legitimidade intrínseca,
um ordenamento entre as palavras que encaixa no território político do vivente
que diz e dos viventes que aplaudem de um modo exatamente perfeito. É próprio
da episteme do textão ele ser naturalmente perfeito para seus seguidores.
Decorre que haverá outro grupo de outros viventes que também entenderão o seu
textão como perfeito, as duas perfeições se roçando, se tocando, negociando uma
mesma realidade, um mesmo contexto ontológico. O textão assim é um negócio
entre partes. Uma mesma guerra, um mesmo ritual. Assim, o textão reflete a
guerra quando reflete um exército dentro dela. É possível sair da guerra por dentro
dela mesma? Sair da guerra por meio de um fim? Essa era a questão das duas
grandes guerras mundiais e de todas as guerras menores. Exceto algumas guerras
milenares que já prefiguravam a impossibilidade de sair da guerra por dentro
dela: a guerra das etnias religiosas no oriente médio e a guerra das etnias
brancas contra as negras, no recorte do continente africano, e nas Américas. E
outras guerras étnicas. Fora a dúvida sobre as possibilidades futuras do homem
e da mulher. Ou de que homem e de que mulher. Sempre deixaremos o grande oriente de fora, por ora. Ele com suas
milenares muralhas a conter a guerra do lado de fora. Esse "lado de
dentro" do grande oriente agora se expande de um modo inédito e
imprevisível. O tempo não urge para quem não segue ninguém. Para quem tem
inadequação consagrada. O circo perdeu grande parte da graça porque ele não funciona sem o pão. E os economistas falam sobre como produzir o pão e a gente não entende e têm medo. A inadequação
agora se conjuga, surpreendentemente, com as grandes muralhas do grande
oriente. A inadequação agora é um lado de dentro, um outro lado de dentro que
não tem mais tempo algum e, portanto, tem todo o tempo do mundo. E, vamos
começar a reflexão a partir daqui, esse lado de dentro agora ocidental e
mundial é, por natureza, doméstico, comum e sacrificável. Eu estou falando de
uma economia que me autoriza e que é a única sobre a qual eu posso falar.
Deus é mãe
Há uma fala hegemônica entre os "pobres" que é definida no ditado popular "manda quem pode e obedece quem precisa". Bom, aqueles caras, Lenin e sua turma, costumavam dizer que não há como fazer uma revolução sem partido. O sujeito e a sujeita comuns sabem disso, como o ditado demonstra: é preciso aparecer alguém 'outro' que 'mande' outra coisa, para que se possa escolher a quem se deve obediência.
Olha, eu também preferiria que ninguém obedecesse ninguém e que as escolhas humanas fossem magicamente regidas por um somatório encantado de autonomias, essa é a minha mais arraigada crença, religião, da qual eu precisei para sobreviver do nascimento até os 19 anos e, depois que me perdi do Partido dos Trabalhadores, dos 32 anos até hoje. Mas acho que a minha religião é a mais improvável na história da humanidade. Ao menos até o século XXI, em seus primeiros 20 anos, a autonomia dos indivíduos humanos só cabe aos artistas, e mesmo entre esses, só aos mais audaciosos e inauguradores.
Sendo assim, eu diria que a sujeita e o sujeito comuns tentam nem se lembrar que os malvados comandam as sociedades, pois temem afundar na depressão, no "banzo" do negro africano recém-chegado ao Brasil, o 'boçal' do Império brasileiro antes da proibição do tráfico negreiro, antes da República Velha. Agora o banzo se chama depressão e é uma melancolia mortal de saudades de um lugar inexistente no mundo; e os deprimidos ou tomam drogas permitidas, ou proibidas ou entram em uma religião de gritos, ou outra de silêncios e não são mais só os negros, já é um quase todo mundo.
Assim, os comuns colocam sua descrença no sistema em um canto da consciência e se entregam a um cotidiano no qual a fé em alguma crença projeta a vida em dois sentidos: conformar-se com o mal do ambiente, acreditar em uma bondade interior ao si mesmo do sujeito e da sujeita que crê e desejar que o exterior produza um poder alternativo que modifique a impossibilidade de seguir alguém justo, bom. Esse é o desejo do 'salvador', do 'herói', do 'deus' ou de uma representação do 'deus'. Poderia ser um partido, mas infelizmente não tivemos essa chance até hoje, apenas ensaios muito tímidos e de fácil desmonte.
O Papa Francisco já sabe disso, alguns pouquíssimos teóricos e pensadores acadêmicos e orgânicos (a um sonho e não a uma organização real) também já entendem o drama da ausência de 'religião', algo a respeitar no mundo, na sociedade. Alguns outros religiosos também meditam sobre isso. Então, o sujeito e a sujeita comuns se esforçam por esquecer a Samarco e o desastre da inundação da cidade de Mariana pela lama tóxica da barragem da mineradora de Minas Gerais, Brasil. E se esforçam para não dar atenção aos náufragos da Síria; e se esforçam para nem pensar nos desgovernos no Brasil. Não querem saber de um exterior que, convulsionado, comprime a suas vidas a um "temor do tirano" cotidiano. Rezam para que o que vier a acontecer não seja perto de onde ele vive.
Para Giorgio Agamben, essa é a impotência do homo sacer, o matável, o sujeito e a sujeita comuns que vivem uma vida nua, desprotegida de um estatuto normativo respeitável, 'religere'. O indivíduo dentro do Campo de Concentração só poderá ser libertado por algo exterior, de fora, um agente salvador. Para Lenin e Trotsky, um partido. Para algumas feministas, uma PartidA. Está mesmo quase impossível, mas a água atravessará a muralha, deus é mãe.
A aposentadoria reduz gastos públicos e aumenta empregos e bem-estar social
Estou tendo sentimentos estranhos: entre uma tristeza e outra, uma indignação e outra, uma revolta e outra sinto um modesto bem-estar derivado da sensação de memória de que o tempo não passou, ou que ele passou muito pouco e que eu estou em meio ao cenário da década de 1970, em uma ditadura, eu jovem portanto, só que agora não tenho adultos cruéis mandando em mim, sou uma senhora aposentada.
Sinto-me livre e com direitos de ir e vir (e manifestar-me aqui no facebook e em blogs) e vivendo uma vida livre de aposentada. É um ótimo sentimento de que consegui sair do inferno e chegar em um paraíso pessoal. Talvez muitos velhos sintam isso: sobreviveram às ditaduras, conseguiram se aposentar e chegar em uma vida calma e doce.
Retirar a aposentadoria dos velhos é suprimir uma espécie de "luz no fim do túnel" para todas as pessoas que são obrigadas a trabalhar para viver. O trabalho é penoso para a grande maioria das pessoas, ainda e até mais ainda no século XXI já que agora os ritmos, velocidades e formas gerenciais da era da informática compõem uma espécie de neo-escravismo de entrada em um novo mundo, o dos robôs, androides, avatares.
A aposentadoria é um direito fundamental para os velhos da espécie humana. E, não se enganem, a gente fica velho desde o momento da menopausa. Os homens na mesma época ou antes até, dado o tamanho do desgaste na opressão do mundo do trabalho capitalista. Em 2016, a experiência cotidiana de qualquer brasileiro ou brasileira demonstra, comprova, que todos temos alguma ou mais de uma doença séria ou merecedora de cuidados importantes, isso desde os quarenta e cinco ou cinquenta anos.
Reduzir a jornada para quatro ou cinco horas, aos cinquenta anos e aposentar-se integralmente aos cinquenta e cinco seria uma possibilidade de reduzir enormemente os gastos com doenças, prolongar a vida boa útil e, com isso, retornar ao mundo da organização da vida coletiva para fazer coisas boas aos jovens e crianças, tais como cuidar dos netos, das hortas públicas, de atividades lúdicas e educativas para os pobres. E, de quebra, seria um incentivo para a redução do desemprego dos jovens.
Os ricos brasileiros e do mundo inteiro não querem tirar a aposentadoria dos velhos pobres e remediados para ajudar alguém. Dinheiro pra eles é brinquedo e fórmulas tais como "dívidas públicas" ou "superávit" são engrenagens da brincadeira de produzir pobreza, sofrimento e guerras. Os ricos brasileiros e do mundo inteiro são loucos, malvados e burros.
Nós só precisamos ser inteligentes livremente e falar uns com os outros em espaços públicos. Se fizermos isso conseguiremos tirar os loucos burros do poder.
O segredo da maçonaria e a verdade feminista
Apareceu no facebook uma lista de cento e um homens brasileiros maçons. Nela estão presentes Tiradentes, Fábio Junior (o cantor), Alceu Collares (prefeito de Porto Alegre pelo PDT de Brizola), Fernando Gabeira e até Luis Eduardo Greenhalgh, o advogado famoso do Partido dos Trabalhadores; todos esses nomes entremeados por nomes de generais e políticos da tradição da direita brasileira. Nos comentários da postagem alguém fala que Tiradentes não era maçom, se fosse não teria sido morto e despedaçado; que outros da lista também não o são. O objetivo desta listagem neste post não é ser fiel à verdade mas sim querer dizer que eles, os maçons, estão em qualquer estrutura social, que eles são onipresentes e oniscientes e que pretenderiam ser onipotentes em seu desejo utópico, isto é, serem os tais "illuminati", seres super-humanos que dominariam o mundo completa e irrevogavelmente. Uns semi-deuses, mais ou menos. Em muitos momentos eles conseguem vender essa ideia e disseminar essa vontade. Em muitos lugares eles conseguem hegemonizar toda a estrutura em questão, tornar-se uma pregnância.
O segredo da maçonaria é mover-se de modo a fazer os "outros" não saberem quem é maçom e quem não é. Eles acabam obrigando o conjunto de um ambiente a conviver com eles sem debater a sua presença. Funciona como se só eles tivessem o direito a uma clandestinidade e como se essa clandestinidade gerasse poder aos seus adeptos; um poder difuso e obscuro, um risco de que o sujeito que subordina você possa ter o apoio de muitos outros para fazer isso ou o que quer que seja determinado por esse conjunto desconhecido e inacessível. É interessante analisar sobre o porque essa ordem secreta foi um recurso importante para o golpe do impeachment da Dilma. A maçonaria como tal não define os rumos da espécie humana atualmente, quem faz isso é quem é dono dos meios de produção (incluso os meios de produção dos discursos públicos). Mas, assim como as igrejas evangélicas, ou islâmicas, ou cristãs, pode fornecer o meio para um determinado espaço de articulação discursiva de tomada de poder. E, não se enganem, não obstante um dos pilares desse ordenamento seja a condição masculina de seus membros, esse não é o pilar central e insubstituível. O que define a maçonaria é sua capacidade de ser ao mesmo tempo hiper-exposta e hiper-invisível, por meio de seu "segredo". Ora, isso é passível de ser feito por ambientes mistos e até mesmo com participação de sujeitos ambivalentes ou híbridos no que diz respeito ao gênero. O que não poderia nunca, jamais e em tempo algum, faltar na ordem maçônica são dois ingredientes: primeiro - seus dirigentes precisam ser também dirigentes de lugares importantes de poder na sociedade onde vivem; segundo - é preciso que poucos maçons sejam muito conhecidos e muitos maçons sejam clandestinos, invisíveis à sociabilidade. Bom, esses dois ingredientes fundamentais da maçonaria são muito utilizados também pelas organizações da tradição filosófica marxista-leninista. Registre-se que em quaisquer desses ordenamentos secretos a participação feminina é dificultada, contida nas bases, assediada a limites definidos pelas cúpulas masculinas. As cotas seriam apenas mais um indicador desse modo operacional restritivo.
Talvez também por isso o impeachment da primeira presidenta do Brasil, em 2016, tenha alçado voo por meio de uma articulação maçônica. Muito se falou sobre esse impeachment ter sido uma espécie de "estupro político" e, diante do ocorrido, os movimentos feministas amplificaram as denúncias sobre a predominância social e histórica de uma determinada "cultura do estupro". Podemos definir a cultura do estupro como aquele conjunto de filosofias que se constroem sobre uma base na qual há um espaço restrito e mais seguro (por suposto) para as mulheres fora do qual elas estarão à mercê da invasão, violação e tortura por parte de qualquer um, por suposto um estranho. Esse espaço restrito uma vez foi o ambiente doméstico, depois pode tornar-se a base das organizações religiosas e políticas e, também, o chão das fábricas e as salas de aulas. Os feminismos denunciam que as estatísticas apontam serem os estupros praticados predominantemente em ambiente familiar e que as mulheres não estão protegidas em lugar algum; as feministas tentam conduzir mulheres a níveis superiores de espaços de poder e até mesmo nas ordens religiosas e secretas as mulheres lutam para ter maior influência. A cultura feminista, assim, é o conjunto de filosofias que se propõem a ampliar o direito de ir e vir e a liberdade de manifestação das mulheres. Nas organizações de tipo marxista-leninista há a presença de mulheres nas cúpulas, ainda que de um modo dificultado e restrito, mas assim como a tal "política" sempre foi um ambiente de domínio para sujeitos pertencentes às ordens secretas maçônicas, desde o surgimento dessa estrutura organizativa na idade média, a "revolução" veio sendo um lugar privilegiado para sujeitos masculinos das ordens secretas da esquerda.
Nunca saberemos quantos maçons existem e o quanto eles se fizeram presentes dentro dos partidos de esquerda brasileiros e dentro dos governos liderados por Lula e Dima Rousseff. Nunca saberemos quantos maçons habitaram ou irão habitar as televisões e os ministérios da cultura. O que já sabemos, e isso é decisivo na mudança de rumos e de éticas na história da humanidade, é que não há espaço escondido e restrito no qual as mulheres estejam mais seguras em um mundo onde predominam as atitudes competitivas, bélicas, consumistas. As mulheres, consideradas a parte mais frágil da espécie humana juntamente com as crianças e os velhos, só estão seguras em ambiente pacificado e com predomínio de princípios jurídicos ligados à ideias de proteção, cuidado. Fora de ambientes tutelados pela paz, as mulheres são sujeitas a todo o tipo de assédio, de violação e a vários tipos de "estupro", inclusive o político.
O silêncio interior
Um desmonte
partidário, desconfiguração de diferenças entre partidos políticos, começa a
ser descrito no interior da linguagem que se ergue nesse novo governo
excepcional (todos concordam que não é um governo normal?). Os interinos
afirmam que representarão o próprio Estado, sem limitarem-se aos seus próprios
partidos. Foi o que disse José Serra, em 20.05.16, ao globo news da Miriam
Leitão, falando sobre o comportamento da diplomacia no "Temerismo".
Ora, isso nada mais é do que a velha fórmula "O Estado sou eu", de Luís
XIV, fórmula que o próprio Serra disse combater, anos atrás. Em paralelo, o PT
decide não proibir alianças com o PMDB nos municípios, revelando que a tese do “golpe”
não atinge a esfera municipal. Como pode haver uma ditadura ‘aprisionando’ a ‘presidenta
afastada’ no palácio da Alvorada (quem vai lá tem que mostrar a identidade para
seguranças postos lá pelo governo interino) e, em paralelo, amizades fraternas
entre os dois lados em municípios brasileiros? Bom, a linguagem está um caos, uma torre de
babel, e disso decorre que os partidos tendem a ser camaleônicos, abrigando
misturas de fascismos, teologias repressivas, liberalismos nos detalhes e
condutas, republicanismos fakes, esquerdismos fakes, marxismos banalizados e
inúteis, trotskismos evangélicos e pregações evangélicas que não precisariam
ser, mas são esquizofrênicas. A prova é a presença de discursos que criticam
ardentemente os humoristas políticos e elogiam os reality shows, ao mesmo tempo
em que criticam ardentemente o neoconservadorismo yuppie, dos cabelinhos
escovados. Alguém ligado à Marina Silva disse isso nas redes sociais. Ou então
quando um homossexual diz, ameaçador, estar certo de que as diferentes manifestações
de gêneros e sexualidades devem ser protegidas e todos os ‘preconceitos’
punidos com exemplar rigor, sugerindo que os modos de ver a vida devem ser
forçados a uma uniformização por meios repressivos e não pelo debate cultural.
Alguém ligado à Dilma disse isso nas redes sociais. Meleca geral.
Disso abre-se
um portal para fluxos defensivos nas ruas, nas escolas, nas praças, no teatro,
no cinema, nos quais os partidos não existirão, dando lugar para pequenos
agrupamentos, tribos políticas, múltiplos 'ninguéns', inúmeras partições,
partidos reais? Ora, mas isso não se mantém, disse um. Será? Será que a
prática de 'estar na rua juntos' não veio para se consolidar como um modo de
fazer política? Invertendo a lógica é de se perguntar então até quando as
polícias especializadas em repressão às tribos nas ruas conseguirão manterem-se
agressivas e agredindo? Há que se considerar que uma das coisas em questão é
justamente a importância filosófica e prática da rua e do espaço doméstico. Em
uma sociedade onde a casa só é um bom lugar, um lugar de poder e vida boa se
for a casa dos ricos, dos classe média bem colocados e dos habitantes rurais e
praianos, podemos investigar os motivos para os moradores das grandes cidades,
dos grandes centros urbanos, nos quais a casa dos pobres, da classe média mais
empobrecida e dos jovens dos grandes edifícios são lugares dormitório onde só
haverá a televisão e o computador para realizar afetos, vínculos comunitários,
podemos investigar se a rua, as praças não estão já há mais tempo se revelando
espaços de construção de uma nova forma de inclusão política. Ou seja, a
família só é a célula básica da estrutura política para os “de cima”, para os “dos
castelos”. Para os sem poder econômico a família não protege, não garante mais
nada.
Com um olhar
sobre as novas relações entre o que é público e o que é privado, vemos que
vivemos um desmonte das tradições republicanas não só porque uma determinada
elite econômica brasileira resolveu, do nada, retroagir, voltar a tempos de violência
pura, ação direta militar. Podemos começar a falar, se somos adeptos da
liberdade de manifestação, em um caos generalizado, na linguagem e nas formas.
Nesse caos, o que há de mais sólido parece ser a ineficácia e a desagregação
das velhas fórmulas dos partidos políticos nacionais e uma espécie de tentativa
de defesa dos não representados pelos partidos em ruína e nem pela elite
econômica por meio da simples e direta presença nas ruas, nas praças e em
lugares marcados como tentativas de defesa das coletividades, como as escolas.
A partir dessas desconstruções irruptivas, da linguagem e das formas,
poderíamos investigar se isso que vivemos trata-se mesmo de um ‘golpe’ ou se é
uma espécie de migração formal, por
meio de uma precipitação por transbordamento, de uma civilização em direção a
outra. Afinal, a passagem do Império Romano para a modernidade ocidental
precisou de uma idade média de mil anos porque foi esse o tempo necessário para
uma produção tecnológica capaz de inaugurar o mercantilismo e os
correspondentes escravismos e colonialismos modernos, dos quais derivou a
existências dos chamados “primeiro mundo” e “mundo subdesenvolvido”. Esse tempo
de mil anos teve suas formas correspondentes, suas roupas, seus deslocamentos
espaciais, suas linguagens. Mas, considerando a velocidade da produção
tecnológica moderna, aumentada por uma aceleração incrível, seria de investigar
a hipótese de termos chegado a uma situação na qual não mais seria
materialmente possível passar de uma civilização a outra por meio de sucessivas
modas e mudanças de estruturas alavancadas de tempos em tempos por momentos súbitos
promovidos aos “golpes”, às “guerras nacionais” e às “revoluções partidárias”,
mas agora por novos processos descritíveis apenas por palavras tais como “transbordamento”,
“precipitação”, “degradação” e etc, palavras mais aproximadas das ideias de
acontecimentos próprios da natureza, daquilo que não é fabricado pela espécie
humana, mas se realiza a partir dos ventos, das marés, do cosmos, das águas,
das pressões, das químicas micromoleculares.
A humanidade
sempre se moveu a partir de dois fenômenos: a memória e a invenção. No momento
político brasileiro atual podemos levantar a hipótese de que as memórias estão
em uma desordem de tais proporções que mundos díspares, do ponto de vista
cronológico, começam a se organizar, e que formas rudimentares e tribais se
estruturam em paralelo a formas vinculadas a tradições de tempos coloniais,
feudais propriamente ditas. Do lado da invenção temos, pulsando em um silêncio majestoso,
as dinâmicas governadas pela tecnologia da informática que apenas anunciam a
hipótese de um futuro sem outra palavra a descreve-lo que não a palavra
incrível. Vivemos atualmente dentro de um filme de ficção científica,
dinossauros e blade runners e os protagonistas somos nós mesmos. E eu termino
esse texto com uma citação da Clarice Lispector: “Mas há um momento em que do
corpo descansado se ergue o espírito atento, e da Terra e da Lua. Então ele, o
silêncio, aparece. E o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da
gente.”
Obrigada, PT!
Se a opinião pública não fosse
controlada pela grande mídia e se a mídia não fosse controlada pelo Capital eu
acharia razoável o argumento de que a jogada do Maranhão na presidência da
Câmara teria sido indevida. Isso supondo que ela fosse fruto de uma artimanha
dos defensores do mandato de Dilma, e não de um aviso do presidente anterior,
suspenso pelo STF. Mas todos os acontecimentos são híbridos, desde a retirada
da ditadura militar como formato de controle político. Em todos os
acontecimentos desde então, vide a manipulação eleitoral via o binômio
pesquisa/mídia, tem havido violência do poder econômico. Foi isso exatamente
que capturou o Partido dos Trabalhadores e seus aliados (e não podemos dizer
"se tivesse sido de outro modo", porque ninguém conseguiu fazer de
outro modo). Deriva daí que o Congresso Nacional é um dos produtos finais da
violência enorme dos gerenciamentos de controle social. E resulta que um dia esse produto final
realizaria seu esplendor, sua maturidade dentro de um ethos desde sempre não apenas autoritário, mais que isso, perverso.
Aliás, o começo deste hibridismo
no qual as leis, as regras, são descumpridas ou insuficientes foi o modo como
se deu a ocupação do território nacional, com seu escravismo de características
únicas no mundo moderno. Só aqui, diferentemente do processo abertamente
violento dos Estados Unidos, a confraternização entre escravos e senhores era
estimulada e vivida como moldura de uma crueldade acintosamente perversa. No
campo jurídico, esse hibridismo migra para a primeira república, e
subsequentemente para todas as outras, por meio da própria Abolição da
escravatura. A Lei Áurea foi um ato violento, pois a força dos escravocratas
impôs a ideia de indenização aos donos dos escravos, seguindo a lógica de que o
mal chamado “mercado” é um “deus”. Essa força impediu a reflexão, tímida na
época, sobre a necessidade de indenização aos prejudicados pela injustiça da
escravidão. Ora, se era uma injustiça a ser abolida, precisaria ser retirada do
cenário produzido por ela, ou seja, precisaria ter identificados seus
responsáveis e estes precisariam ser coagidos a indenizar os prejudicados. Ao
contrário, a pressão dos escravocratas no parlamento da época acabou impondo a
ideia de que simplesmente abolir a regra do escravismo, sem indenizar ninguém,
seria uma dádiva generosamente ofertada pelos donos das minas, das charqueadas,
das grandes plantações de café e açúcar. Afinal, precisamos relembrar, as
extinções de escravismos e colonialismos da era moderna foram realizadas como
generosidades efetuadas pelos que os produziram e estiveram apoiadas em
justificativas muito mais relacionadas a ideias de produtividade e eficiência
dos mecanismos do tal “mercado” do que a algum tipo de descoberta lógica no
campo da ética.Então, é preciso entender todos os acontecimentos como imersos
em um tipo de guerra, no Brasil, desde sua fundação, em 1500, como um
território invadido e colonizado por um império. Em uma guerra há um hibridismo
na codificação: parte dela se dá com um grande acordo sobre regras onde haverá
um vencedor aceito por todos; outra parte é um espaço de violência pura, na
qual todos os lances são válidos e vence o mais forte, o mais sagaz, o mais
violento (e a violência máxima é o ataque inesperado com força descomunal, como
em Hiroxima). Há, inclusive, uma parte que é o hibridismo do hibridismo e ela
realiza um conjunto de jogadas-trapaças, que são jogadas inesperadas, mas
supostas na estrutura geral do acordo sobre regras.
Além da especificidade brasileira,
é preciso lembrar que toda a história da humanidade até hoje foi conduzida pela
violência do mais forte, que, em última instância é a lei do pai, do patriarca.
O patriarca é simbolicamente “o mais forte” porque um dia ele foi de fato o
mais forte, em termos de força física, e ele ocupa aquele lugar em
representação a todos os homens efetivamente mais fortes; e também em
representação às mulheres mais fortes e associadas aos homens fortes. E ele
será destituído, derrubado, morto, exilado ou silenciado em um mosteiro ou
asilo quando não mais puder representar esse conjunto hierárquico de força
bruta. E outro representante maior do signo da força bruta ascenderá ao poder,
podendo ser eleito por um conselho de anciãos ou mesmo por um colégio de
eleitores confiáveis. Essa é a ideia que fundamenta a palavra "deus"
nas religiões monoteístas, bélicas e articuladoras de muitos impérios. O
conceito de "verificável" do pensamento científico também abriga um
conteúdo bélico e patriarcal, pois muitos acontecimentos humanos não podem ser
medidos, talvez a maioria deles, e entre os que podem ser verificados,
reproduzidos, somente os que os poderes patriarcais escolhem são alavancados
por um conhecimento tecnológico de verificação. Mesmo a ação de uma maioria,
uma parte da população insuflada por uma liderança, poderá ser um acontecimento
violento e inaugurador de intenso sofrimento coletivo, como o nazismo, por
exemplo. Então, precisamos nos mover dentro de uma guerra, mesmo quando
queremos combate-la e extingui-la.
A jogada do Maranhão não produziu
violência, ao contrário, ela jogou um balde de água, conteve a velocidade dos
mais fortes, acalmou os ânimos. Foi
quase uma trégua, dado o fato de ter sido anulada por ele mesmo, na madrugada
do dia seguinte. No intervalo de um dia, uma pequena jogada mostrou a
importância da presidência da Câmara dos deputados federais e o motivo pelo
qual ela esteve ocupada, durante todo o período de aprovação do processo de
impeachment da presidenta, pelo Eduardo Cunha e tudo o que ele significa. Obviamente o processo retomaria seu curso, a
derrubada da presidenta Dilma, já que o que determina esse acontecimento é o
controle do congresso pelas bancadas da bala, do boi e da bíblia, garantido
pela grande mídia, com liderança central da Rede Globo de televisão. Esse
controle, não obstante inúmeras diferenças de escala e particularidades
próprias ao mundo dos espetáculos e das multidões, é o mesmo que produziu a lei
da Abolição e a retirada de cena da ditadura militar.
Falo tudo isso para assinalar que
uma parte do golpe efetuado hoje, 11 de maio de 2016, não revela uma grande
inauguração macabra e de consequências trágicas incalculáveis, como parte do
discurso dos defensores do mandato da presidenta eleita, Dilma Rousseff, quer
registrar. Sim, um grupo grande de brasileiros está muito triste e preocupado;
sim, viveremos um período de ampliação dos acontecimentos repressivos. Mas não
é corajoso e lúcido afirmar que caímos em um abismo. Ainda não é, não obstante
as ameaças que são praticadas e anunciadas na atualidade contra grande parte
dos seis bilhões de habitantes do planeta. O risco de que bilhões de humanos
sejam jogados na condição em que foram os sírios é visível a olho nu. Mas os
brasileiros ainda estão bem longe de uma situação de devastação das cidades e
da sociedade civil, em que pese as enormes dificuldades de garantias de
direitos constitucionais pétreos para a maioria dos habitantes dos centros
urbanos. A hegemonia que realiza um ataque formal por meio do impeachment da
presidenta já vinha sendo desenhada faz tempo e todos sabemos que se a aliança
com o PMDB não produzisse o lastro para a eleição de presidentes do Partido dos
Trabalhadores, Dilma não teria sido eleita.
Ora, mas se todo o processo de chegada do PT ao poder se deu a partir de
alianças com forças que hoje o derrubam, a queda da Dilma estaria a anunciar um
cansaço por parte dos donos do poder com relação a estratégias e formas
humanistas e republicanas? E esse cansaço, produtor do ataque midiático e
político ao governo do PT, resultaria em um mergulho imediato do Brasil e dos
brasileiros em um momento de radical e imediata perda dos espaços exíguos de
garantias constitucionais?
Não creio que a derrota tenha
essa dimensão, embora esse risco esteja posto. A diferença é que a nossa
memória, a dos descendentes dos escravos e dos abolicionistas, está muito mais
potente agora, mais capaz de introduzir novas regras no jogo, novos instrumentos
de pacificação e desconstrução das guerras conhecidas, de muitas guerras já
vividas. Sim, estamos muito mais ameaçados do que estivemos durante a década de
1980, mas desde o início das terceirizações e das práticas de desregulamentação
e exposição dos trabalhadores e das trabalhadoras ao assédio moral como regra
de gerenciamento, já na década de 1990, começamos a sofrer importantes perdas
de direitos. Temos uma enorme população plenamente consciente de que não pode
perder mais nada. Parte dessa capacidade
de resistência e entendimento devemos à experiência vivida no período de
governos do Partido dos Trabalhadores e seus aliados, tanto por seus acertos
quanto por seus erros, uma vez que o erro cometido produz sua crítica e
movimenta as possibilidades . A ideia mestra de “governabilidade”, por exemplo,
carrega um duplo significado, mais uma vez híbrido: de um lado ela é
constrangedora porque explicita o real controle do poder nas mãos do Capital, o
verdadeiro dono de todas as engrenagens; de outro, ela é revolucionária, porque
alimenta a experiência de que violentos são eles, os donos do poder. Nós, os
escravos e abolicionistas de sempre, somos pacíficos e ordenadores do bem estar
comum e os únicos recursos potentes que temos são a memória coletiva humana, a
consagrar a ética da pacificação, do cuidado e do equilíbrio ecológico, como
única chance de sobrevivência no planeta.
Precisamos perdoar o PT e
assumir, daqui para a frente, uma nova história, com novos atores e novas
regras do jogo. E, para que isso aconteça, precisamos interpretar o dia de
hoje, com a derrubada da presidenta eleita Dilma por meio de uma articulação de
um congresso nacional comprometido com uma elite autoritária e perversa, não
como o mergulho nosso em um abismo do qual só poderemos sair por meio do
desespero e de catarses políticas sangrentas, ao modo de sacrifícios culposos.
Precisamos entender o 11 de maio de 2016 como um novo começo para a luta pela
democracia no Brasil, utilizando tudo o que pudemos consolidar de
esclarecimento e dignidade coletiva acumulada até agora e desde as lutas
quilombolas e rebeldes do Brasil escravista colonial. Perdoar o PT, assim,
significa não mais entendê-lo como uma espécie de “pai” impotente a quem se
deva responsabilizar pela ausência de um “pai poderoso”. Perdoar o PT significa
dizer: “Obrigada!Obrigado!Obrigadx! Valeu! Mas daqui pra frente sou eu mesma (mesmo,
mesmx)! Somos nós e nossas cacofonias, dissonâncias e multiplicidades étnicas e
éticas!”. Ou seja, vamos sair, nos mesmos, do espectro do patriarcado para
poder lutar contra os patriarcas escravocratas de sempre. Vamos nós mesmas,
mesmos, mesmxs, sem lenço e sem documento. Nunca esquecendo que é
imprescindível que essas novas regras de luta, essas novas bandeiras, articulem
a leveza dos jovens e a memória dos velhos para que se possa partejar qualquer
tipo de tentativa de nação, ou nações, no território Brasil.
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