Escrituras Heréticas - blog da Dinah Lemos

As meninas e Nosferatus



Aquela mulher era uma escritora, sem dúvida, porque a única coisa que a deixava em paz era escrever. Escritores não são as pessoas aplaudidas em suas publicações, são todos os que têm necessidade de escrever para continuar vivendo, são escritores, são da casta dos escritores. Só isso. Não importa se escrevem mal ou bem, apenas precisam escrever para se sentirem tranquilos. Ela era uma escritora porque somente as palavras a tratavam com normalidade. Entenda-se: quando completou 20 anos, percebeu que o grupo ao qual tinha se vinculado rapidamente, com entusiasmo e lealdade, a achava estranha: foi um breve momento em que não a escolheram para participar da chapa do diretório acadêmico da faculdade. Ninguém disse o porquê e todos sabiam que ela desejava muito estar naquela diretoria. Porque ninguém disse o porquê ela entendeu que o motivo era ela mesma. Ela mesma era inadequada. Ponto. Foi por essa época o nascimento de seu vínculo com as palavras escritas. O renascimento, porque desde os dez anos de idade seu pai já a avisara: você escreve como gente grande. Foi a arma que seu pai lhe deu. Um pai não precisa dar mais nada a um filho, apenas uma única arma ele deve oferecer: o filho andará mundo a fora, para sempre, empunhando aquela ferramenta. E só isso importa. Os filhos desarmados perambulam sem sentidos, ao vento dos acontecimentos mais inconsistentes.
Depois daquele aviso, de que ela não era normal, de que não era percebida como normal sentiu, no meio de uma calçada, atravessando uma rua do centro da cidade natal, sentiu um instante de desaparecimento de sua condição de indivíduo. Sumiu, por um instante, de si mesma. Entendeu que era um horror e que deveria esquecer, com-ple-ta-men-te, no minuto seguinte, aquele instante de lucidez: não vou conseguir vencer, eu não sou capaz de conter o monstro que me habita. Esqueceu imediatamente.
Mais tarde, já vitoriosa em sua sobrevivência heróica, carregava o consolo de saber que os monstros de cada um acabavam por emergir, cedo ou tarde. Vingativa? Sim, era, mas isso era um direito seu. Aqueles monstros camuflados um dia iriam gostar de mim, ela pensava. Todos sempre foram intensamente solitários, era uma questão de tempos diferentes o aparecimento da solidão de cada um. Como aquele amigo dela, rejeitado toda a juventude por todos. Agora ele era um belo homem de quase cinquenta anos, acostumado a ser só, mantendo cotidianos cuidados intensos consigo mesmo, para conseguir ficar vivo e lúcido e vendo, agora, aquela gente viver decadências de diversos tipos. Quem sobrevive a uma juventude estigmatizada e se mantém lúcido e saudável vê os outros decaindo e não tem a menor piedade. É mesmo um luxo só o encontro entre duas pessoas humilhadas na infância e na juventude, quando elas se tornam adultos tranquilos e consistentes. Elas riem juntas do sofrimento dos seus algozes, sem pena. Penso que os jovens rebeldes foram usados para erguer os partidos de esquerda no Brasil da ditadura militar; penso que os adultos que os utilizaram não estavam preocupados com a segurança, o futuro e o bem estar daqueles jovens. Penso que alguns daqueles adultos fizeram sexo com meninas sabendo que não iriam se responsabilizar pela segurança emocional e física das garotas.
Pois bem, as garotas cresceram, entenderam, tiveram filhos, os educaram, limparam e alimentaram do modo como podiam, cheio de precariedades. Seus filhos casaram, as criticaram, herdaram algum instrumento de defesa e estão por aí, em alguma trincheira, quase todos desprezando os adultos que manipularam suas mães e pais.
Vou escrever um livro chamado “Nosferatus”: um cristal de reflexos de acontecimentos masculinos violentos e solitários; tenho de reler Bom dia para os defuntos de  Manuel Scorza, e O outono do patriarca, do Vargas Llosa.
Ah...tenho de rever o filme Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia.
Olho o meu reflexo no vidro da prateleira e vejo, feliz, realizada, que estou velha, estou velha.

                                                       versão dois: (ainda em elaboração, inconclusa, imprecisa, íntima, frágil)


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