Escrituras Heréticas - blog da Dinah Lemos

Dos erros da esquerda - autocrítica feminista


Sei lá, mas sempre que houver o estado nacional construído pela ação dos poderes patriarcais e, portanto, pela história do capitalismo, a ideia de política de cotas para hipossuficientes políticos será instrumentalizada. Nessa longa história liderada pelos homens, a história das cidades antigas, depois a do império romano, depois a da idade média, depois a da era moderna com seus escravismos e invasões coloniais, os partidos políticos sempre foram erguidos pela guerra, pelo confronto entre os homens. A política de cotas para negros, mulheres, gays e deficientes físicos surgiu no interior desse tipo de domínio - em meados do século vinte - e foi permitida por gerência alçadas por poucas famílias bi ou multimilionárias mantidas sob a mais sólida tradição de controle masculino, controle esse -claro- sempre com a presença de algumas, poucas, mulheres dominadoras, dirigentes, e isso desde as cidades antigas. Talvez apenas em nações de enorme e radical separação entre o lugar do homem e o lugar da mulher - como nas tradições islâmicas mais violentas e fundamentalistas - não se pudesse ver mulheres dentro de cúpulas dirigentes. Nas igrejas judaicas os homens sempre foram separados das mulheres, estas ficando em mezaninos descentralizados da pregação. A política de cotas para hipossuficientes políticos foi erguida dentro dos Estados Unidos da América e de lá migrou para países de tradição colonial, como o Brasil. Migrou também, creio eu (não tenho essa informação) para uma Europa do euro, do mercado comum europeu, e de um feminismo que saiu das revoltas do maio de 1968 francês para confortáveis cátedras acadêmicas, para formação de conjuntos teóricos para gestão de estados nacionais saindo dos colonialismos cruéis para tentativas de projetos da socialdemocracia, todos fracassados diante da enorme e devastadora onda senil do neoliberalismo do final do século vinte. Não ignoro as tentativas feministas das mulheres com erudição herdada de Simone de Beauvoir, respeito toda essa tradição, nasci nela. Acho enormemente válido o caminho de novas contradições plantado por essas antepassadas de quem hoje precisa se insurgir na condição de mulher. Mas a história se move e as grandes bandeiras, as grandes religiões surgidas revolucionárias sempre acabaram sendo capturadas pelos "donos do poder" (sim, estou citando Raymundo Faoro, mas pensando seu estudo iluminando o mundo inteiro, até chegar nas grandes famílias da globalização neoliberal).
Só os concursos sem identificação de candidatos para os que selecionam, sem preparação de provas visando um determinado contingente a ser selecionado, só concursos com avaliação de valores universais e desejados pela opinião pública para o lugar a ser ocupado podem retirar de um grande grupo uma representação de um indivíduo desejado por todos para aquele lugar. Sendo um desses concursos os processos eleitorais, conforme recentemente falou a Dilma Rousseff. Registro, para pensar depois, que as mulheres expostas à condição de apedrejamento e que sobrevivem podem erguer novos caminhos de uma autocrítica bem rica em conteúdos. Ou podem tornar-se fantasmas de um passado fincado na memória delas como trauma. A ver. Claro, pensando eleições não como espaços de controle de mídia e de grandes capitais. Se o desejo é colocar mulheres em representações de poder em partidos ou instituições, bom, esse desejo é da base do partido? É das bases sociais dessas instituições? Se for, então que a base realize escolhas especificamente de nomes femininos para determinadas posições em paralelo com os homens. Se a base é machista, patriarcal, a cúpula do partido vai botar as mulheres mais aptas a serem subordinadas dessa cúpula. Ou então vai colocar as mulheres mais identificadas com éticas utilizadas por essa cúpula, como sempre ocorreu com mulheres a se destacarem dentro de formações patriarcais, mulheres matriarcas. "ahhh, mas a base social é machista, incluindo as mulheres". Bom, então o feminismo deve atuar na base social e não junto à cúpula do partido. Isso acaba sendo uma autocrítica minha, confesso. Quando fui feminista do PT eu atuava tentando o convencimento dos dirigentes e isso foi um trágico erro meu, a me conduzir a uma inevitável marginalização e necessário afastamento, como uma Cassandra, a sacerdotisa troiana vista como louca e que gerou o nome para um tipo de sofrimento psíquico especificamente feminino analisado tão bem pelos psicanalistas junguianos.
Por outro lado, a atuação junto à base social, das mulheres que me combatiam em Porto Alegre, naquela época de 1988, era apenas para faze-las massas apoiadoras do PT e das estratégias da esquerda da época, como foram mobilizadas as "Margaridas" (vinculadas à FETAG - uma federação de trabalhadores da agricultura) e que acabaram também se tornando "Marchas", no interior de uma intensa e orquestrada uniformização hegemônica dos movimentos de mulheres no mundo inteiro, durante o processo de consolidação neoliberal senil (toda uniformização destrói memórias, exceto a uniformização dos exércitos, ela própria uma memória de forte consolidação arquetípica). Não era com foco para criar nelas um ímpeto, uma curiosidade feminista insurgente e aberta a possibilidades fora do controle das gerências do projeto. Claro que sempre há feminismos brotando em qualquer um desses lugares, como certamente nascerão feminismos em ruptura com o hegemônico feminismo da Madonna, de Hollywood e da Rede Globo do "Saia Justa" e do "Amor e Sexo". O feminismo autêntico sempre coube dentro de meia dúzia de Vans (dizíamos Kombis, em 1980).
Vou resumir, provisoriamente: as feministas, os negros quilombolas e abolicionistas e os gays humanistas e democráticos, os indígenas pouco aculturados junto aos brancos, todos esses deveriam atuar fora dos partidos e fora dos financiamentos de grandes e médias empresas. Fora dos governos dos estados, municípios e União. Fora dos sindicatos. Poderiam participar dessas estrutura, mas apenas se conscientes da natureza patriarcal contaminante e pregnante dentro delas. Todos esses lugares de poder são dos homens brancos, ou que se pensam como tal. Ou de homens da etnia predominante nas elites do lugar. Ou de configurações de memórias permitidas pelas famílias das tradições dominantes dos lugares, com a participação coadjuvante de mulheres matriarcais (ainda que com os cabelos verdes ou azuis, tatuadas e com as pernas metidas em meias arrastão). As mulheres emudecidas, as etnias escravizadas, os refugiados, os hipossuficientes políticos são lugares dentro do mundo humano e de nada adianta querer tirar de dentro deles os indivíduos, um por um. Os lugares sempre estarão lá e, talvez, até crescerão em paralelo ao aumento de indivíduos que dele são protegidos, como troféus do mundo bem sucedido. Vide a gigantesca tragédia das prisões brasileiras, autênticos campos de concentração. E esse mundo é perverso, autofágico e genocida, vide a imagem perfeita da barbie - a boneca americana imposta ao mundo -que a Fernanda Lima integra com perfeição de uma androide do filme Blade Runner, no programa Amor e Sexo da Rede Globo.
Precisamos ser quilombolas e ganhar uma autonomia nunca tentada por nós. A guerra nunca foi tão mundial, nunca tão devastadora, tão cruel. Os históricos nazistas alemães riem, às gargalhadas, em seus túmulos.

versão um. sem revisão imagem encontrada no google pela busca "Fernanda Lima".

Querida Zeferina - carta 1.1 - o feminismo silencioso



Querida Zeferina,

Consegui, quem diria, começar a publicar as cartas... A vó Nair dizia sempre “essa menina é inteligente”, a mãe parecia ter inveja como se aquele dito fosse mesmo uma verdade a determinar grandes destinos para mim, mas não para ela, que afinal tinha penado tanto para ter seus filhos. Aquele positivismo do século dezenove produziu – ou permitiu que vingasse – um feminismo brasileiro no qual se popularizou a ideia de encontrar inteligência nas meninas. Algumas tinham essa sorte de alguém decidir dizer delas “alguma chance lhe será oferecida, aproveite com presteza”. Pobre mãe, um dia entendi o tamanho do carma carregado por ela, tanto que escrevi,  já mais velha, um texto de menina para vê-la sorrir: “Às vezes o mundo se agita”, começava assim e terminava dizendo “e se às vezes o mundo se agita é que ele não conhece a bravura e a ciência, a lisura e a eficiência da minha grande mamitita”. Eram, e ainda são, valores apreciados por ela e todas aquelas moças de caligrafias perfeitas dos livros de poemas de cada uma, nos quais todas depositavam uma lembrança, uma poesia copiada em letras tão bem desenhadas a ponto de esconderem os medos das meninas, de deixa-las parecendo dispostas a passar pela vida sem problema algum. Letras de bonequinhas de luxo hollywoodianas, as moças inteligentes do tempo do Getúlio Vargas.
As mulheres têm filhos muitas vezes por um desespero, como se elas tivessem organizando um exército, uma trincheira. Ou então como se estivessem em uma corrida de revezamento com bastões, para passar uma linhagem adiante com algumas chances não mais possíveis para elas, mães. Sim, claro, há muitas mulheres que têm filhos porque sentem – mais do que entendem – que isso é o que toda mulher deveria fazer. Mas há as que os têm para renovar alguma esperança em vias de desaparecer. Escutamos sempre que os homens adonaram-se das mulheres desde as cavernas porque eram mais fortes e a humanidade nasceu covarde e violenta. Liamos isso, as feministas de oitenta, do tempo de Lula como líder metalúrgico. E então os homens garantiam serem mesmo seus os filhos delas e assim formavam dinastias em torno das patrilinearidades, os filhos homens levando adiante os sobrenomes dos pais, que é como ainda é, embora já não seja mais obrigatório por lei, ao menos pela lei escrita. Mas não colocar o nome do pai no fim do nome do filho é algo que talvez não passe pela cabeça de muitas seguidoras do feminismo de dois mil e dezesseis, o da Madonna e da Meryl Streep. Pelo menos não ainda.  Mesmo assim muitas jogaram, e jogam, todas as fichas nos filhos, como se as suas possibilidades ali se bifurcassem em projeções e em pequenas fugas ocasionais, limitadas, com territórios e prazos estreitos mesmo para as mais feministas.
Isso está nos livros de história sobre o escravismo brasileiro, onde – para determinadas situações – um filho do dono poderia promover proteção. É isso, Zeferina? A amante, a concubina, a amásia, a outra mulher e outra família, dentro da qual estariam meninos e meninas a terem menos possibilidades do que os filhos da esposa oficial, mas com algum nível de proteção. Ao menos para os mais branqueados, os que poderiam passar por brancos, não é? Nunca saberei de Zeferina como foi ter os filhos “brancos” apoiados e os filhos “negros” rejeitados. Ela é morta, não fala. Os mortos só ouvem. Então eu descendo de um filho que passou por branco e aqui estou, uma menina reconhecida como inteligente em 1964, ano do golpe militar no Brasil. Até hoje se vê, olhando em volta, filhos que maridos de umas têm com outras e suas mães, as concubinas, os veem receber alguma proteção.
Um amigo budista falou sobre o necessário respeito devido à intuição humana. Fico pensando ser isto uma memória coletiva manifestada nos olhares de cada um, como se fosse uma imagem colada no real, um ato de ver o óbvio. Disso diz o ditado popular “ver com o coração”. Mas isso advém de uma memória coletiva construída pelos ordenamentos sociais, que nada têm de espontâneos. E essa tal intuição acaba por nos oferecer a capacidade de julgamento sobre o que vemos, na relação entre nós mesmos e o mundo exterior aos nossos corpos. A intuição diz “faça isso”, “não faça agora”, “escolha imediatamente”, “pare”. A intuição é um saber do mundo que ocorre no olhar de cada um. Mas eu entendo que as mulheres conseguiram chegar ao feminismo dada uma capacidade, nascida nelas mesmas, da sua experiência coletiva de sexo submetido aos homens que sempre mandaram. Isso significa que elas não podiam decidir e viviam em ambientes nos quais não se podia reclamar dos homens. Suponho então que ali havia uma memória coletiva se impondo como tradição sobre o “faça isso”, “não faça agora”, “escolha imediatamente”, “pare”. Decorre que as imagino tecendo um clandestino e perigoso universo feminino contra-intuitivo, ou seja, “é errado fazer isso, mas é o que eu quero”.
Falo do feminismo sem nome, de quando ele não é chamado assim. Não aquele que se autonomeia e sabe dizer precisamente o que é certo e o que é errado para as mulheres no mundo civil e político. Não o feminismo que explicita, determina, indica. Não o feminismo que fala. Este se tornou um universo regrado e escrito, falado aos borbotões e tensionado por referenciais exteriores aos corpos das próprias mulheres. O feminismo falado se descolou tanto da intuição milenar quanto de uma atividade contra-intuitiva rebelde. Acredito que o nascimento do primeiro feminismo possível, na história da humanidade, se deu em um dia – lá nos tempos muito, muito antigos – em silêncios e formações de linguagens iniciais em padrões contra-intuitivos experimentados por mulheres diferenciadamente audaciosas. E penso que ele nasce e ressurge todos os dias nesse mesmo lugar, exterior ao mundo controlado pelos homens, porque –afinal de contas- vivemos ainda em um mundo controlado pelos homens e, diga-se de passagem, talvez o mais violento de toda a história humana. Penso também que ele, o feminismo, só sai daí em ocasiões onde se manifesta como confronto, ao menos ainda hoje. Não raro confronto entre mulheres. Decorre ser a exigência de solidariedade feminina irrestrita, essa sororidade normatizada pelo feminismo falante um impedimento a mais para as falas desse feminismo contra-intuitivo originário, esse feminismo que nasce todos os dias em lugares de mando masculino.
Eu tive uma fama, na minha família, de ter dito com quatro anos de idade “mas como é que eu quero”, depois de um longo debate sobre uma proibição a mim dirigida. E meu pai seguiu falando até os seus oitenta anos que minha vida tinha sido regrada por essa afirmativa. Penso ser essa ideia uma contra-intuição feminista erguida através dos milênios. Penso que ela só ocorre em meninas julgadas inteligentes por seus pais.

Me ajude a pensar, Zeferina. Eu me sinto muito só.


versão um. sem revisão. foto: Luiz Eduardo Robinson Achutti (mulher cubana)

Hold on


Há um número cada vez maior de brasileiros assustados e entre eles há os que veem um ataque organizado por serviços de inteligência militares infiltrados em movimentos sociais pretensamente populares, isso aqui no Brasil, lá nos EUA e em vários lugares do mundo. Estou ficando preocupada com esse tipo de pensamento evoluindo dentro de uma parte da esquerda brasileira. Em paralelo, temos outra parte dessa mesma esquerda que se esforça para evitar aquilo que entende ser um tipo de pensamento ligado às tais "teorias da conspiração". Essa segunda turma, a do "deixa disso", escolhe então fazer análises de aparência tranquila, discutindo candidatos às eleições de 2018, no Brasil, por exemplo, como se não houvesse a menor chance de estar ocorrendo um verdadeiro apocalipse ou o desenrolar de um cenário de guerra mundial. Essas duas vertentes parecem, a meu ver, dois polos de uma polaridade fóbica, que não consegue imaginar estarmos vivendo uma grande passagem civilizacional, complexa e inédita.
É preciso pensar de um modo que não seja paranoico, ao vermos semelhanças entre as manifestações anti-Trump e as manifestação brasileiras de 2013. Temos a CIA, certamente, dentro de tudo isso. E temos vários tipos de interferências, militares ou civis, que são coordenadas por projetos de elites, sim, de vários tipos diferentes de elites econômicas ou culturais. Isso abrange movimentos de tipos variados, desde evangélicos (que vem sendo acionados até onde eu sei desde a década de setenta de um modo dirigido às populações indígenas não aculturadas da América Latina), passando por movimentos católicos, ordens secretas como as maçonarias e outras e até por franquias de tipo "feministas" que são operadas no mesmo formato desde a Rússia, passando pelo Canadá e EUA e chegando aos países latino-americanos. Até mesmo o anarquismo tem vários modelos que são padrões e que acontecem no mundo inteiro. As polícias de choque são semelhantes também. Há um acontecimento que é o mesmo e que é mundial. E nesse acontecimento mundial temos esquerdas, que também têm os mesmos formatos no mundo inteiro. É um grande, complexo e único acontecimento planetário e ele se caracteriza por um determinado conjunto de padrões. E dentro desse único acontecimento explodem lugares de violência limite, como a fuga de civis de cidades bombardeadas ou as rebeliões nos atuais campos de concentração, os presídios da população pobre integrada a configurações de comportamentos ilegais.
Há uma dose grande de uma nova racionalidade - que aos olhos dos mais velhos parece uma irracionalidade - e ela se move em dinâmicas que teóricos mais recentes tentam descrever usando novos conceitos. Como o Bauman, e suas ideias de mundo líquido. Eu, por exemplo, dentro dos meus modestos limites de conhecimento, passei a usar a ideia de "transbordamentos", para descrever essas precipitações que alguns teóricos chamam de "acidentes", não por serem "naturais", mas por serem súbitos e explosivos. Nesses casos, sim, podemos encontrar enormes semelhanças nas manifestações contra o novo presidente americano, o Trump, e as manifestações de 2013 no Brasil. Mas essas padronizações se dão em muitos outros níveis da vida em sociedade, elas ocorrem o tempo inteiro, desde a necessidade de uso de uma bolsa Luis Vutton, mesmo que falsificada ou revendida em brechó, até a evolução da história das tatuagens, que ainda na década de setenta do século passado era uma prática restrita a presidiários, marinheiros e poucos jovens rebeldes. Hoje, em 2017, a tatuagem é um padrão dominante para a maioria da população jovem. O que estou tentando insinuar é que existem várias camadas de uniformização de comportamentos coletivos, e que muitas dessas camadas acontecem hoje na forma de precipitações, de um modo explosivo. Quando falo que todo o conjunto das dinâmicas no Planeta Terra estão a revelar uma grande guerra mundial, a terceira guerra mundial, estou tentando dizer que o conjunto do acontecimento indica o aumento progressivo do número de mortes de seres humanos posicionados em lugares mais fragilizados das sociedades civis. E digo que é uma guerra inédita, e que sobre ela as elites proíbem que se fale como sendo uma guerra e mundial, justo para que as reações à ela sejam impotentes, ou por alienação ou por paranoia coletiva. E não porque essas elites tenham o controle do conjunto da obra, mas talvez porque o controle severo de direitos de palavra e entendimentos visíveis (mídias grandes e médias) seja mesmo uma atitude inevitável de elites fragilizadas e mergulhadas em um acontecimento tendente ao caos. Talvez seja preciso que fique claro estarmos vivendo uma grandiosa passagem de uma civilização a outra, em uma velocidade jamais sequer sonhada por nossos pais.
Mas uma coisa é certa: não é possível culpar a CIA e um específico e antigo "imperialismo americano" por esse conjunto que estamos chamando de "barbárie". Eu acho mesmo que esse discurso antigo de culpar um certo imperialismo americano é parte dessa nova racionalidade, que parece cacofônica, autista, esquizofrênica. A CIA está na cena, certamente, mas tão atordoada quanto nós, a esquerda antiga, a esquerda dos veteranos. Uma coisa é certa: não adianta surtar e entrar em pânico. A velocidade disso tudo vai passar, chegará num limite, mesmo que seja a explosão de várias bombas atômicas ao mesmo tempo, ou a explosão de surtos incontroláveis de vírus transmitidos por mosquitos comuns. Ou bactérias imunes a qualquer medicação inventada por humanos. Mas de alguma maneira esse processo vai chegar a um final e um novo tempo começará. É preciso desapegar-se, assumir a compreensão de que isso tudo é um momento histórico e que vai passar. E, não querendo migrar para uma teoria fantasmagórica qualquer, há mesmo a possibilidade de que uma epidemia de quebra de racionalidades acompanhadas da emergência de padrões fóbicos seja um desses acontecimentos em série, no interior do aprofundamento da decadência da moderna civilização humana.Talvez apenas os que não entrarem em pânico consigam sobreviver e talvez o pânico mate mais gente do que as bombas. Mantenha a calma, estamos todos juntos.

versão um. sem revisão. foto: mercado (Cuba) Luis Eduardo Robinson Achutti

Dos erros da esquerda - a guerra, o Lula, a Dilma

                    


                          O principal problema em uma guerra é sempre o total desentendimento intelectual das partes em conflito, seja em que momento histórico ela ocorra, na história da humanidade. Salvo algumas guerras muito localizadas e particulares, como entre reinos na idade média europeia, sobre as quais não conheço quase nada, mas sei que se davam às vezes por capricho de linhagens de nobres, quando as batalhas eram interrompidas para descanso e festas, prosseguindo posteriormente, dentro de um código de conduta acordado entre os inimigos. Fora esse tipo de acontecimento, as guerras sempre foram o uso da violência direta para matar os soldados do exército inimigo; a falta total de um mundo jurídico qualquer a regular as relações entre as partes em litígio, exceto as regras acordadas sobre limites da violência exercida sobre prisioneiros.
                    Não estudei o assunto “guerra”, mas tenho a impressão de que as grandes guerras mundiais, a primeira entre 1914 e 18 e a segunda de 1939 a 45, organizaram a prática da guerra de um modo disciplinado por muitas regras acordadas entre as partes. Tínhamos então um cenário de guerra, com toda uma indústria mundial erguida para alimentá-lo. A primeira guerra tendo como base a norma de trincheiras definidas, locais de guerra, onde morriam homens às pencas, e o avanço da guerra era julgado pelo número de mortos, mais do que por alterações em conquistas de territórios. Já a segunda guerra mundial aconteceu em inúmeros cenários, tanto geográficos quanto políticos, tendo todo um histórico dos dramas de sua evolução – principalmente os campos de concentração – até encontrar seu final nas bombas atômicas de Nagasaki e Hiroshima. De lá, 1945, até meados de 2008, a ideia de “grande guerra mundial” era pensada como algo terrível e apocalíptico, a delimitação do assunto impulsionando uma profusão de documentários e filmes sobre o chamado holocausto, algo que não deveria nunca mais ser vivido pela humanidade. Passamos a viver em um mundo onde os discursos visíveis e validados pelas forças políticas difundiam a ideia de que jamais deveria acontecer uma “terceira guerra mundial” porque se ocorresse poderia ser a última, dado o poder destrutivo em armas acumulado pela indústria bélica de todo o planeta. Einstein havia falado que a quarta guerra mundial teria por armas os arcos e as flechas, sinalizando que uma terceira guerra não evitaria o fim de um mundo moderno, construído desde 1500, pelas caravelas, as primeiras armas de fogo, o começo dos burgos e das novas ideias comerciais e industriais.
                  Não sei dizer em que momento exato começou essa nova guerra mundial na qual estamos enfiados e sofrendo de modos indescritíveis (ainda, mas já começamos a falar sobre isso), mas posso afirmar sem receio que a expressão “guerra mundial” tem sido proibida pelas mídias grandes, pelas grandes gerências dos países mais investidos de poder, pelos donos das grandes empresas mundiais e grandes fortunas. O grupo hegemônico, liderado pelo Capital financeiro e suas articulações políticas a quem podemos referir – provisoriamente – como encabeçados pela candidatura Hilary Clinton, narra todos os acontecimentos bélicos do mundo atual, em suas grandes mídias, mas se recusa terminantemente a agrupar todo o conjunto e identificá-lo como uma grande guerra mundial. Ao contrário, esse grupo aponta o que seria um “risco de guerra” e dirige o dedo acusador para a face de seus inimigos, que hoje e aqui vamos – também provisoriamente – referir como sendo Putin, Trump, a vitória do Brexit, o gordinho coreano, e, claro, as organizações bélicas islâmicas (desde que não sejam as que a CIA articula ou investe). E tem mais gente nessa lista de inimigos da turma da Hilary Clinton (do Obama), essa lista só cresce desde o onze de setembro de 2001. Tem um pessoal nesta lista que sempre esteve lá, desde os nacionalismos libertadores latino-americanos, de meados do final do século dezenove até meados do século vinte, até os recentes governos de Lula, Dilma e seus aliados nos países vizinhos. Há quem queira, apressadamente, reconhecer e agrupar toda essa gente em uma trincheira “anti-Clinton e seus aliados”, tentando recuperar uma forma e uma energia semelhante à segunda guerra mundial. Estes não conseguem admitir a hipótese de um novo tipo de guerra mundial, inédito, de múltiplas facetas, lógicas e cenários mutantes. É aqui que reside a ausência sentida de uma esquerda mundial (e brasileira) capaz de descrever essa terceira guerra mundial, sem recorrer a modelos permitidos pelas classes dominantes, elites no poder, gerências de capital hegemônico, seja o nome que se quiser dar aos que mandam nos exércitos mais poderosos do Planeta Terra. É uma guerra inédita e ela está matando refugiados, migrantes, pobres, presidiários, velhos, mulheres e crianças, todos indefesos.
                 Em um grupo fechado de discussões no facebook, encontrei uma publicação da qual faço este recorte: "Relatório da ONG Oxfam aponta que os seis homens mais ricos do Brasil possuem uma fortuna equivalente ao registrado pela metade da população mais pobre do país, cerca de 100 milhões de pessoas; na lista dos mais ricos estão o sócio da Ambev, Jorge Paulo Lemann, o dono do banco Safra, Joseph Safra, outros dois sócios da Ambev Marcel Hemann Telles e Carlos Alberto Sicupira, o cofundador do Facebook, Eduardo Saverin, além do herdeiro das Organizações Globo João Roberto Marinho; fortuna acumulada por estes empresários chega a US$ 79,8 bilhões; em nível mundial, oito pessoas acumulam a mesma riqueza que a metade mais pobre da população, cerca de 3,6 bilhões de pessoas" (Trecho de postagem no grupo MEU BRASIL BRASILEIRO, de Paulo Timm). No mesmo dia recebi um compartilhamento de uma entrevista feita por Marcelo Coelho para a Folha de São Paulo, com o intelectual brasileiro Jessé Souza, presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vinculado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, e doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), publicada em dez de janeiro de 2016. Nesta entrevista o sociólogo Jessé critica parte dos intérpretes atuais de Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Holanda e Roberto DaMatta, a parte que atua dentro das articulações do PSDB, e afirma que essa turma ligada ao Fernando Henrique Cardoso vê o Brasil dentro de uma espécie de “complexo de vira-lata”, construído por conceitos tais como o de patrimonialismo. Jessé entende que o problema fundamental do Brasil é o mesmo no restante do mundo: a formação de um exército de excluídos do uso das riquezas produzidas pela economia moderna e contemporânea. Penso então, salvo engano, que Jessé Souza é da turma que sonha e defende algum tipo de distribuição paulatina de renda, projeto central dos governos Lula e Dilma.
            Mas eu entendo que não é um problema de distribuição de renda. Se esses oito donos da mesma riqueza que é usufruída por perto de quatro bilhões de humanos fossem desapropriados e sua riqueza distribuída, ela desapareceria como sal na água. É um problema de organização da sociedade, do modo como as pessoas e as coisas são feitas e envolvidas em engrenagens de uso, circulação e modificação.  E os quatro bilhões de humanos pobres não são excluídos, ao contrário, eles integram o modelo como parte de um único mecanismo. Toda a lógica dos governos do Lula e da Dilma era baseada em aceitar o mesmo modelo de organização planetária que hoje mergulha nessa guerra mundial que não pode ser falada, não pode ser descrita como tal. Somos proibidos de falar sobre esse fim de mundo no qual estamos mergulhados e precisamos de líderes que tenham coragem de fazê-lo: falar sobre a grande guerra mundial atual. Se a esquerda quer reafirmar o Lula e/ou a Dilma como líderes nacionais, ela precisa parar de ser obediente às lógicas dos grupos poderosos mundiais, precisa abandonar o discurso impotente e subalterno da “distribuição progressiva de renda”, um discurso que protege este capitalismo senil e apocalíptico.
               Se o Lula e a Dilma querem mesmo nos ajudar, precisam ter a coragem necessária para falar sobre essa novíssima forma de guerra mundial. Uma guerra de explosões de barbáries, fugas em massa, bombardeios e destruição de cidades inteiras, morte pelo frio de refugiados, mortes de fome, mortes de sofrimentos extremos por perda de direitos de sobrevivência mínima, mortes por tortura, feminicídios, abandono de crianças e velhos, rebeliões em presídios, esquartejamentos, degolas, falta de água, de salários, de comida. E se eles não têm intelectuais que, por meio de um consenso de esquerda, digam para eles o que devem dizer, bom, então eles devem começar a falar com suas próprias vozes, eles mesmos, os indivíduos que são, e dirigirem-se diretamente ao conjunto dos brasileiros. É isso o mínimo que um líder pode e deve fazer, caso se pense como tal.

versão um. sem revisão. foto:  Farol. Luiz Eduardo Robinson Achutti, do blog "A vida como ela é".


Dos erros da esquerda - o admirável mundo novo


Li um comentário, na timeline de um amigo, sobre os tais acertos do PT. Acabei escrevendo o que segue:
"Dá vontade de copiar e guardar como memória de uma época. Senhor, bom dia. Eu tenho 58 anos e fui da fundação do PT, antes disso, do movimento contra a ditadura, no final da década de 70. Olha, não dá pra combater o capitalismo achando que os donos do poder vão deixar a socialdemocracia ganhar eleições e distribuir renda, aos poucos, até transformar um país colônia e de tradição escravista em uma Dinamarca. Essa ideia, levada adiante pelo "lula paz e amor" de 1990 em diante, alavancada por publicitários e por economistas que desejavam gerenciar a economia nacional para ver se conseguiam fazer um capitalismo mais legal, mais equilibrado, essa ideia de distribuição de renda paulatina dentro do capitalismo é ligada às teses da segunda internacional, teses que o brizolismo do PDT formulava também, mas de um modo articulado com a ideia de sindicalismo forte. Era um tema difícil e o PT surgiu combatendo esse olhar do PDT. Só por isso o PT se formou, para ousar em um sindicalismo forte. Quando o Lula se elegeu, as terceirizações e os processos de mudança dos modos de produção gerados pela tecnologia dos computadores estavam entrando e durante os governos do Lula se desenvolveram freneticamente. E foram esses processos que paulatinamente derrubaram a força de qualquer sindicalismo. Somado ao combate que o Lula efetuou diretamente sobre sua base social mais fiel, os servidores públicos federais, quando fez a reforma da aposentadoria do setor, logo após se eleger no primeiro mandato. Aí o partido dos trabalhadores deveria e poderia ter construído um pensamento, a partir de seus intelectuais, sobre a importância da vida dos velhos, da qualidade de vida da população, não em termos de "ganhar dinheiro e comprar", mas em termos de tempo livre e paz de espírito.
Esse combate do Lula gerou uma espécie de efeito (aquele do sequestrado que se apaixona pelo sequestrador bonzinho) masoquista, produzindo uma liderança sindical ligada diretamente à propaganda do governo, nos sindicatos de servidores federais. Nas universidades, a política de financiamentos e produtividades anunciava um nível de perda de direitos, de perda de valor para a pesquisa independente, e isso tudo gerou um entendimento subconsciente de que algo havia dado muito errado na estratégia da esquerda. Em paralelo, os partidos de direita cresciam na Europa, anunciando a crise do pensamento socialdemocrata e a não existência de resposta eficiente vinda dos movimentos marginais, punk e anarquistas de todo o gênero. Progressivamente o sentido do agrupamento formado como "terceiro setor", reunido nos Fórum Social Mundial, foi anunciando a falta de projeto potente e descortinando os seus encontros como grandes feiras, shoppings de organizações não governamentais que mais pareciam empresas acomodadas em suas estratégias de sobrevivência dentro do capitalismo em mutação. Isso gerou uma espécie de pânico coletivo, subconsciente, como se a inteligência comum da sociedade inteira, a memória coletiva, soubesse haver algo de trágico por acontecer. Como quando o esposo(a) sente que o companheiro(a) está traindo e imediatamente nega, na sua cabeça, porque não suporta a ideia. Foi uma negação coletiva de uma realidade trágica. Precisamos entender o emburrecimento generalizado, investido nessa lógica do tal "salto de qualidade de vida que o PT promoveu". Não foi o PT, aos governos petistas foi permitido estar na gerência de um momento de desregulamentação das lógicas no mercado de trabalho, de explosão do consumo provocado pela irracionalidade capitalista do capital financeiro impulsionado pelas novas tecnologias. A loucura do golpe foi, de certa maneira, um vômito reacionário insurgente contra essa esquizofrenia do sequestrado que havia tomado conta dos petistas, das universidades, de grande parte da população. Foi, dialeticamente, um movimento contrário, louco também. Esse fenômeno de um enlouquecimento da memória coletiva é próprio de uma sociedade invadida, como a dos indígenas latino-americanos por ocasião da invasão dos espanhóis, com suas armas e seus cavalos. Ou como quando os portugueses invadiram a África e sequestraram negros em navios negreiros. E quem invadiu? A nova tecnologia, trazendo a ideia de um maravilhoso mundo novo, apaixonante, inevitável.  Mas os marxistas sabiam que novas tecnologias eram apropriadas pelos donos do poder em formatos de superexploração para acumulação primitiva de capital. Quando uma invenção surge, não há lei que determine seu valor e os donos da invenção jogam-na sobre a comunidade como tiranos, donos da vida de todo o mundo. Deuses. Vivemos um problema de natureza filosófica e religiosa, no sentido que a palavra religião carrega de dimensão desconhecida, onde fica o sagrado, onde a psiquê coletiva e individual planta suas imaginações belas e  ou terríveis. 


versão um. sem revisão

Dos erros da esquerda


Hoje resolvi imitar um amigo blogueiro que publica textos de um modo espontâneo, sem deixar num canto amadurecendo, sem esperar ter certeza, sem querer segurança em uma ideia já publicada por alguém  e já aceita. Costumo escrever assim, mas hoje serei mais audaciosa ainda. Vou dizer em público que um dos maiores erros da esquerda mundial - e da brasileira - foi aceitar a transformação do título acadêmico - da pós-graduação - de "doutor" em mercadoria para vender e distribuir no mercado, esse mercado das "commodities", dos produtos descartáveis, dos plásticos, das coisas sem importância decisiva. Mesmo tendo uma origem histórica patriarcal e elitista, o título de doutor foi construído na inauguração da Era moderna a partir de muito sofrimento de pessoas como Galileu e Nicolau Copérnico, por exemplo. Não sou doutora, e há algum tempo deixei de acreditar que isso poderia retirar autoridade intelectual à minha fala e escrita. Ganhei esse desprendimento depois de ler e ver uma profusão de futilidades e e inconsistências ditas e escritas por doutores (os com título e não a multidão de advogados e médicos, esses inclusos em outra tradição de uso da palavra "doutor") e, sobretudo, depois de me sentir terrivelmente abandonada diante do fracasso "tsunâmico" da esquerda brasileira e mundial. Só por isso, por orfandade absoluta, consigo agora afirmar que a adesão ao sistema de propinas e caixa dois pode ter sido um erro devastador do Partido dos Trabalhadores, provocado por uma espécie de emburrecimento da estrutura de produção de ideias no interior de uma  instituição que desde o início da modernidade havia sido inaugurada como  lugar de solução potente e eficaz dos problemas mundanos, a universidade, a Universidade Pública. Precisamos então pensar, e muito sobre o significado, o conjunto dos significados historicamente determinados, dessa palavra que perdeu sua capacidade de sustentar outra palavra chave, a República.

É isso, essa a ideia, o chute inicial. Aproveitem, reflitam e acrescentem novas ideias e relatos inteligentes e honestos ao que foi dito acima. Os doutores, se quiserem silenciem, como sempre fizeram quando um menor, um hipossuficiente em títulos falava algo incômodo, tanto faz agora. Registre-se um exemplo, para enriquecer o tema, de que o Luis Inácio Lula da Silva era um líder, um líder mundial e brasileiro, e a palavra líder sempre teve um conjunto de sentidos totalmente distintos  dos sentidos da palavra "doutor". E que, portanto, conferir a ele inúmeros títulos de "doutor honoris causa" foi, de certa maneira, um dos modos de construir sobre ele uma imagem deturpada, enfraquecê-lo, desarma-lo.

A saída do modelo aristocrático, machista e racista, de produção de saber, de linguagem permitida, de máquinas e tecnologias, modelo este reconfigurado na passagem do poder intelectual dos mosteiros e das igrejas, na idade média, para os novos padrões "científicos" da Era moderna via universidades, jamais poderia se dar pela simples e falsificadora transformação do nome - nome do lugar do saber - em mercadoria para consumo estético de uma fração de classes superiores e médias. Muito menos poderia se dar pela popularização - de fato populista - do uso do nome "doutor" como um enfeite de políticas afirmativas do Estado.

O saber, Saber com S maiúsculo, nasce, emerge, em lugares estranhos, incríveis, inéditos e desconhecidos dos poderes constituídos. Ele pode emergir e ser apreciado e entendido por uma elite no poder, pode virar linguagem e técnica usada pelos poderes instituídos, pode até ser desenvolvido por gente dessas elites, mas ele não pode ser contido em disciplinas limitadoras, redutoras de sua inviolável e pétrea capacidade de invenção. Na modernidade, a duras penas, pensadores construíram dentro da palavra "doutor" uma determinada validade e eficácia que nesse mundo pós-moderno e apocalíptico foi perdida. Da mesma forma, a ideia de "liderança", embora distinta da ideia de "doutor", jamais poderia ser manipulada por mecanismos de produção de mercadorias de baixo valor, ou de valor disciplinável. Há um saber, no corpo e na mente do líder - ou da líder, agora em tempos feministas - não apropriável por estruturas de controle social e produção de gestões de riquezas. É exatamente em uma insubordinação inédita que nasce o gesto de liderança.
 Pensemos de um modo inédito. Pensemos para passar.