Escrituras Heréticas - blog da Dinah Lemos

Mulheres capturadas são seguras


Kawé estava a escrever uma poesia, sentada em sua mesa branca, na frente do seu novo, pequeno e bom computador, do qual sentia agora orgulho:

 Mulheres precisam ter um lar
Mulheres precisam ter um homem
Mulheres precisam ter um, pelo menos um filho
Mulheres precisam ter uma aparência de pouco uso
                                         para poderem ser    capturadas
                                         pelo homem dono do lar e do filho
Mulheres capturadas possuem poder
Mulheres capturadas são seguras
Mulheres capturadas são firmes
Mulheres capturadas possuem a capacidade de brincar
                                                 entre elas e nos quintais
                                                 dos seus lares bonitos e limpos

Kawé era uma mulher grande, bonitona como disse um cara uma vez. Ela se achava uma gorila porque tinha os ombros largos como os de um homem, como as nadadoras, os olhos pequenos e próximos e o maxilar robusto. Pensava que todos os humanos tinham uma semelhança definitiva com um único animal, embora pudessem iludir e tentar parecer outro, ou nenhum, como se um ser humano pudesse não ter origem em um outro animal do mundo. Sua amiga Magnólia, por exemplo, enganava ser uma gata, era manhosa, com um caminhar silencioso, olhos verdes grandes e intensos, um corpo pequeno, toda ela pequena, delicada. Mas quem observava as pessoas detidamente, como Kawé, encontraria em Magnólia, ao longo de um tempo grande de estudo, uma aranha. Magnólia parada, rígida, de um silêncio monacal, reta mesmo quando caminhava ligeiro. Ela era dura, presa, atenta demais e guardava uma frieza gigante e levemente melancólica. Kawé chorava por “dá cá aquela palha”, era tristonha e compenetrada e gostava de estar só em seu canto. As pessoas vestidas com armaduras, isso era muito comum naqueles tempos de guerra, costumavam falar sem pensar direito e acabavam achando que pareciam com cachorros, ou gatos, sempre cachorros ou gatos. Mas Kawé pertencia ao pequeno grupo dos mutantes, dos que não usavam armaduras, dos que tentavam entender as palavras que saíam de suas bocas e das bocam alheias. E Magnólia, embora parecesse uma mulher militar de algum daqueles exércitos do dia a dia, era um mutante nascendo. Porque algumas pessoas daqueles tempos abrigavam mutações em processo, como se fossem cobras trocando a pele. Não todas, só uma minoria era mutante, poucos sobreviveriam àqueles tempos da última grande guerra.
  
Kawé escrevia aquele poema depois de ter lido, avidamente, o livro “A História da Aia”, de Margaret Atwood. Tinha lido também no blog de uma moça de nome Tânia de Souza: “na Republica de Gilead, outrora Estados Unidos da América, num futuro próximo, literatura, arte, direitos, escolhas, pensamentos... quase tudo se tornou proibido. O tema não é novo: humanidade em perigo, um regime fundamentalista e patriarcal toma o poder. Um Muro exibe os corpos dos pecadores, condenados que servem de aviso a todos. E nessa sociedade, as mulheres estão divididas em castas e categorias bem definidas: aias, esposas, martas, tias, antimulheres, economesposas... Algumas já foram Moira, Janine, Lydia, Elizabeth, Serena... Mas estes nomes, principalmente para as aias, estão proibidos. E no absurdo dos sistemas totalitários, de controle e como sempre, nos jogos de poder o lícito ou proibido é extremamente relativo”. A mulher gorila das montanhas, solitária, pensativa e rude, Kawé, estava naquele momento mergulhada em pensamentos sobre a história do livro, sobre  as  Aias, mulheres férteis aprisionadas por todo o território continental da República de Gilead, escravas das esposas inférteis e submetidas a cópulas regulares com os maridos das esposas, os comandantes, para que produzissem filhos a serem propriedade de cada casal gerente dos feudos militares. Nos tempos de Kawé, ainda, as mulheres eram quase todas feministas tal como o grande império propunha ou aceitava, menos as escravizadas que eram pertencentes àquela maioria esmagadora que não contava para definir mentalidades. Isto é, talvez setenta por cento (ela não sabia) talvez mais ou menos ao menos a metade da população mundial de mulheres passava fome ou era espancada em algum momento de um ano, e tinham de fazer sexo dolorido ou sem graça nos momentos mais incômodos, com seus próprios maridos, ou namorados, ou homens eventuais que as atacavam e muitas eram torturadas e tinham parte de seus corpos mutilados. Mas essas mulheres não contavam para definir a mentalidade daqueles tempos do grande império gerencial, elas eram “vida nua” como dizia o filósofo Giorgio Agamben, matáveis, desnecessárias às definições culturais e jurídicas. As mulheres que contavam, a minoria, eram possuidoras de muitos direitos: de trabalhar, estudar, ter carros, apartamentos e casas bonitas, ter filhos ou não, trocar de marido ou ficar transando com um ou outro ao deus dará, quando desse em suas telhas de irem a uma festa barulhenta. Havia as mulheres lésbicas, agora até podendo casar (embora a “vida nua” às convidasse o tempo inteiro) e serem, algumas, semelhantes a homens em público; dava pra assistir mulheres lutando esses lutas de bater de todos os modos, agarrar de qualquer maneira e rolar em um aquário de telas e sem água, e o público discutindo entre sorrisos entusiasmados se, afinal, elas seriam lésbicas ou não, ou poderiam ser mulheres de seus treinadores.

Escrevia o poema por sentir que o livro da Aia estava mais próximo da realidade de seu tempo do que as falas das televisões e dos computadores. As mulheres que Kawé conhecia eram guerreiras solitárias, lhes era muito difícil não ter marido e era uma tarefa gigante conseguir um que não as machucasse. As que tinham marido ficavam a todo instante se refestelando para todo o mundo ver: “eu tenho marido! Eu tenho marido!”. Parecia, aos olhos tristonhos de Kawé, a mulher gorila da montanha, que ter marido era ter um castelo, um lugar protegido. As mulheres sempre precisaram de maridos para se sentirem calmas e protegidas e eles, os maridos, resolviam ter mulheres quando decidiam ter uma casa com filhos, cachorros e gatos. E empregadas domésticas.  Mas, nos últimos tempos, outros animais começavam a aflorar nas aparências do mundo, não eram mais apenas cães, gatos e humanos. A humanidade pura dos humanos estava diminuindo e suas animalidades mórficas começavam a aparecer. A coisa era tão visível que chegava ao ponto de ser assim: se você conseguisse entender qual era o animal da pessoa a sua frente saberia como lidar com ela e, até mesmo, como aceitá-la melhor. O que a pessoa dizia importava menos do que o modo como ela suportava seu medo, como ela se mantinha coesa, estável, integrada. E as pessoas estavam se mantendo a partir de recursos de memória (mórfica) não humanos. Não era um acontecimento físico na aparência delas, os que usavam armaduras não conseguiam entender, era algo como os arquétipos do psicanalista e pensador C. Jung, como os devires animais do filósofo Gilles Deleuze, algo que a astrologia e as cartas de tarô tentavam alcançar sem a eficiência necessária.  Como aquele funcionário público que havia sido policial civil por vinte anos, o Amâncio, que se lembrava de ter espancado e atirado nas pernas e na cabeça de jovens assaltantes. O Amâncio parecia um cão policial, em uma observação menos atenta, porque sempre estivéramos acostumados a cães e gatos, mas, olhando bem ele era um enorme jacaré velho e transtornado. Atacava crianças tentando aproximarem-se da água, na margem da lagoa. Ela sentia estar acontecendo uma mutação de todo aquele único e enorme ser vivo que era o Planeta Terra. Uma só mutação acontecendo em todas as suas células, seres vivos, pedras, metais, ventos e marés. Não podia falar sobre isso nem mesmo com Magnólia, sua amiga aranha, não só porque a pequena Mag era arisca a pensamentos arriscados, sempre tecendo suas teias no trabalho, sempre querendo somente trabalhar e trabalhar mais, mas também porque Mag a acharia louca e confusa, já que a pequena gostava de estar envolvida em falas comuns, as falas que todos diziam e eram disciplinadas e fáceis de entender. Kawé não gostava das falas burras daquele mundo, gostava de seus peitos, de seu corpo, de seus interiores sutis e preguiçosos; gostava de ter um homem bem homem e de que ele fosse, como era, bom, alegre e corajoso, adorava ser mãe, ser vó, mas tudo aquilo parecia pouco, precário, indefinido, inadequado, impreciso. Impróprio. Sempre faltava algo precioso e decisivo. Essa inteiritude só deixava de faltar quando ela se dava conta e entendia o fato evidente de ter em si uma gorila compenetrada e tristonha. Plena.


Nietzsche, Marina e eu


Pois fui ler Nietzsche, acreditem, durante a viagem de ônibus para Porto Alegre, para participar do lançamento de uma candidatura da Insurgência, uma corrente do Psol, para deputado federal, o Almerindo Cunha, um gari. Assim, tentando relaxar, comprei um livrinho de bolso, da L&PM, e era o cara, o Anticristo, o livro. Estava em uma estante, na lojinha do restaurante de beira de estrada, eu olhando, sonolenta, para quem sabe comprar um velho e bom Agatha Christie, dos tempos de infância. Estava lá o bigodudo furioso contra tudo e contra todos, o cara do super-homem, de quem a maioria tinha medo.Em quem votaria Nietzsche, hoje, no Brasil? Claro, esse tipo de pergunta é por si equivocado, porque o texto do filósofo de Zaratustra só poderia existir no exato tempo em que apareceu e, ainda que recorrêssemos às noções de reencarnação, poderíamos, quando muito, recuperar a proposta básica do autor, a da crença na paixão, na potência do desejo: “O que é bom? – Tudo o que eleva a sensação de poder, a vontade de poder, o próprio poder no homem. O que é ruim? – Tudo o que provém da fraqueza. O que é a felicidade? – A sensação de que o poder cresce, de que uma resistência é superada.”, (pg.14). Ou seja, poderíamos transferir uma personalidade, um espírito para alguns, uma índole ou um ethos, mas não as mesmas circunstâncias históricas.
Lendo, no ônibus, atirada em duas cadeiras já que poucas pessoas viajam em dia de semana e no inverno, da praia para a capital gaúcha; vestida irreverentemente com uma calça de pijama, tênis, camiseta e casaco velho, vejo que não amo mais o bigodudo tanto assim quanto amava na virada de ano, 2001, na qual passamos sós, eu e Nietzsche, eu querendo provar para mim que sozinha era melhor do que mal acompanhada, ele defendendo que os inteligentes eram solitários e minoritários, um grupo de seres humanos mais lúcidos do que a grande maioria. Não que ele tenha deixado de ser delicioso também para os tempos atuais, se menos neurótico um tanto, se mais sensual e alegre outro tanto, se um pouquinho adaptado ao feminismo do meu século, mas o furor com o qual ele rejeitava o pensamento transcendente não se aplica mais, nos mesmos termos, a um Planeta Terra habitado por uma espécie humana que não tem a menor ideia de como conter eficientemente a sua própria extinção, ou seja, já há quem diga que a maior objetividade viria de uma organização social que conseguisse estabilizar um contexto na relação ambiente e ser humano que não apontasse para uma vitória das bactérias e dos vírus sobre nós, nós os maiores predadores de toda a existência desse planeta, que ninguém sabe se é ou não o único que tem gente como nós, ou ao menos parecida. E, a essas alturas, essa organização social não precisaria estar baseada nem ideais “Kantianos”, que eu não sei direito quais são, mas que Nietzsche dizia que não continham “retidão intelectual”, tão pouco em ideais “nietzschianos” da potência da liberdade:
“Todos eles [intelectuais] fazem o mesmo que as mulherzinhas, esses grandes entusiastas e bichos raros- eles tomam os “belos sentimentos” já por argumentos, o “peito erguido” por um fole da divindade, a convicção por um critério de verdade. Por último, ainda Kant, com inocência “alemã”, tentou tornar científica, sob o conceito de “razão prática”, essa forma de corrupção, essa falta de consciência intelectual: ele inventou uma razão expressamente para o caso em que não é preciso se preocupar com a razão, ou seja, quando a moral, quando a sublime exigência “tu deves” se faz ouvir”, (pg.26).
 Há em Nietzsche uma boa quantidade de descompromisso com o dever ser e com a culpa, qualidades por ele atribuídas aos intelectuais e aos sacerdotes que, por sinal, o bigodudo furioso dizia serem todos iguais, dizia assim, esse alemão, desse jeito feminino e niilista, como as mulheres são com relação aos homens. O alemão igualava racionalistas e criacionistas, esses dois blocos que hoje, no Brasil, são vistos pelos publicadores da opinião normal como sendo inimigos mortais: segundo os fluxos de mídia, os brasileiros racionais e cultos, favoráveis à candidatura Dilma,  e os brasileiros alucinados e incultos, favoráveis à candidatura Marina. Será? Será que Nietzsche não veria hoje com bons olhos essa oposição entre a modernidade empedernida e a insubmissão fundamentalista ao mundo prostituído e drogado pelo consumo? O alemão denunciava, com a galhardia de um rockeiro punk, a tal modernidade e sua “religião” do progresso e a igreja papista da época,  que ele denunciava andar a par e passo com essa mesma modernidade, contendo a mesma enfadonha racionalidade, por sinal herdada pelos cristãos de tradição, no Brasil, os católicos, que desenvolveram na pátria descoberta – invadida, violada - mais um papel de Estado nacional do que teológico, organizando os casamentos, fazendo registros em cada lugar de um país que nem Estado tinha, um país de coronéis e sinhozinhos, donos, donos de todo mundo.
Minha paixão por Nietzsche arrefeceu porque me dei conta de seus limites históricos. O alemão não tinha a menor ideia de que a potência da espécie humana encontraria seu limite em um planeta pequeno e frágil. Bom, nem ele e nem todos os filósofos dos séculos XVIII e XIX, pelo pouco que roubei de informações e conhecimento do mundo dos super-homens do conhecimento racionalista. O bigodudo brabo não pensava nos problemas derivados da fragmentação da memória coletiva, na liquidificação dos ordenamentos micromoleculares e macrossociais da cultura dentro do modo de vida fabril-eletrônico do capitalismo tardio. Nietzsche foi um crítico ao mundo moderno sem avançar a crítica ao seu componente fundamental, o mito da inevitabilidade do sentido fabril no funcionamento humano, a crença, a fé inabalável no dom da invenção, a criação, o fundamento maior da identidade dessa espécie humana atual. Pelo pouco que li, Nietzsche não era nada ecologista, até por viver em uma época na qual as roupas eram lavadas por mulherzinhas intensamente oprimidas, em tinas enormes e cheias de água quente e algum solvente bruto, precário. O paradigma da felicidade como vontade de poder nem de longe esbarrava em limites exteriores às possibilidades reveladas pela inteligência humana (limites dessa própria capacidade de criar). As águas dos rios e dos mares não estavam contaminadas pelo óleo, o sabão, os detritos industriais e o lixo produzido pelos humanos, insensatos, ainda que exibindo e confiando em sua elite feliz e inteligente.
Certo, mas Nietzsche reencarnado não poderia estar na liberdade para criar uma solução de continuidade ao impasse do modo de vida fabril-eletrônico? O alemão bigodudo não teria o cerne de seu pensamento, seu ethos, posto exatamente na crítica à moralina(moralinfrei), palavra inventada por esse maluco punk do século XIX, para combater o dever ser em geral:
Chamo um animal, uma espécie, um indivíduo de corrompidos quando eles perdem os seus instintos, quando escolhem, quando preferem o que lhes é prejudicial. Uma história dos “sentimentos superiores”, dos “ideais da humanidade” – e é possível que eu tenha de narrá-la – também seria quase a explicação de por que o homem está tão corrompido.  Considero a própria vida como instinto de crescimento, de duração, de acumulação de forças, como instinto para o poder: onde falta a vontade de poder, ocorre declínio. Minha tese é a de que todos os valores supremos da humanidade carecem dessa vontade – que sob os nomes mais sagrados há valores de declínio, valores niilistas no comando.” (pg.18)


Quem tem medo de Marina Silva? Certamente não os que se ocupam com as misturas obtidas por qualquer uma das duas frentes em disputa (esquecendo o homem e focando apenas nas mulherzinhas aptas ao segundo turno das eleições presidenciais), engendramentos utilitaristas entre defensores das privatizações e do fortalecimento do Estado nacional. Todos sabemos que não há meios democráticos de enfrentar o controle que o Capital estabelece nas dinâmicas da macroeconomia, porque esse controle se dá mediante a violência das guerras fiscais e financeiras globalizadas. Sabemos que o desejo de lucro, associado ao abandono dos trabalhadores subalternos só arrefece diante de riscos consolidados de desarranjo geral por meio da revolta dos oprimidos. E sabemos que essa revolta só consegue acontecer no limite do risco de perda de sentido na sobrevivência dentro de parâmetros escravizadores do sujeito comum. Não vamos aqui analisar o quanto o bloco no poder abusou da violência legal e extrajurídica para conter os insurgentes de junho de 2013, no Brasil; vamos ensaiar uma reflexão sobre os limites daquela revolta. A tese é, usando Nietzsche naquilo que ele me oferece, de que os limites dos movimentos de revolta brasileiros têm estado na inclusão das crenças dos rebeldes dentro dos parâmetros da racionalidade ocidental moderna, aquela mesma combatida pelo alemão bigodudo, aquela racionalidade do dever ser em geral, dos direitos de todos, da liberdade de cada um, dos regulamentos e gerenciamentos da vida baseada nos ideais das declarações dos direitos iguais e das liberdades de ser, pensar e estar.
O medo “tamanho” não é das fragilidades conceituais da candidatura Marina, ao contrário, é um medo da potência insurgente que as práticas fundamentalistas cristãs têm inaugurado neste país sincrético e polimórfico. Veja bem, quem não identifica semelhanças nas performances dos grandes shows de rock pesado e punk, onde os indivíduos deixam de existir para naufragar em um mar catártico de paixões coletivas irracionais, com as performances dos cultos pentecostais híbridos, perfeitamente xamãnicos, de pequenas multidões alucinando seus terrores ocultos? Por que, perguntaria Nietzsche, os kuarups dos indígenas não aculturados são considerados belos, as festas de dia inteiro dos grupos de jovens em haves de música eletrônica regada a ácidos energéticos são consideradas perfeitamente normais, e os cultos pentecostais são aterrorizantes do sujeito racional padronizado pela mídia e a intelectualidade no poder? Simples, porque os cultos pentecostais estão na margem de uma nova abertura de potência irruptiva e desconstrutiva da racionalidade moderna, aquela do dever em geral Kantiano (segundo o alemão brabo). É, portanto, “a sensação de que o poder cresce”, revelada no fenômeno do novo fundamentalismo cristão, que tanto assusta os “moralinos defensores da décadence”, como diria meu amante alemão do réveillon de 2001.
Eu diria que os modernos não deveriam se assustar com Marina Silva, ao contrário, deveriam ver em sua candidatura uma possibilidade de dar vazão controlada às inquietações evangélicas, de rearranjar de um modo organizado e intelectual as linhas de força dentro desse campo insubordinado e pagão da subjetividade coletiva. Marina seria, pasmem, uma chance de adestrar fluxos de revoltas fundamentalistas cristãs para objetivos de “governabilidade”, sim, em escala espaço/tempo diferente mas da mesma série dos que adestraram e apagaram a memória de um contingente enorme de militantes petistas por ocasião da ascensão de Luis Inácio ao poder. Mas não é esse o meu interesse e simpatia com relação à candidatura Marina Silva. O que me move é a crítica aos limites evidentes do secular “voto nulo” anarquista de tradição. Ora, se sabemos que as elites da espécie humana nos últimos milênios estiveram sempre organizando as guerras e a concentração de poder, se estamos carecas de saber que essa estrutura da posse de renda se deu na esteira da crença na capacidade de invenção que os humanos têm, de suas artimanhas e geringonças fabris e tecnológicas, e se, por fim, está claro para todos que o Capitalismo Senil tem vida própria dentro dos engendramentos sempre bélicos, em última instância, da sucessão de dinastias gerenciais, a alternativa de uso do voto como arma (e não mais como manifestação pacífica de opinião) para reduzir a estabilidade das estruturas de poder não seria uma novidade a inaugurar um novo tipo de anarquismo, ou um neo-anarquismo retomando,com potência, a ideia de que “se há governo, sou contra”? Um neo anarquismo da era das estatísticas e das pesquisas de opinião, com erros de cinco pontos para mais ou para menos, as grandes mídias a conduzirem uma eleição orquestrada pela virtual inexistência de um “segundo turno”, ou seja, as candidaturas pequenas não participam objetivamente da eleição, não aparecem, não tem visibilidade e nem são pensadas como algo factível, vindo a ser, olha só!, o que há de mais fundamentalista em todo o processo ilusoriamente democrático? Sim, irmãos, os pequenos herdeiros do bolchevismo mais puro e sincero e o eterno mesmíssimo voto nulo do anarquismo de tradição compõem a parte mais íntegra do processo eleitoral baseado nas premissas da Era Moderna, ainda que essa Era pareça um acontecimento do passado, dos séculos que inauguraram o Iluminismo até o instante do surgimento do vírus HIV, do medo dos chineses, dos furacões e das extinções de espécies animais não humanas, revelando um Planeta pequeno demais para essa espécie humana fabril. Não obstante, são completamente obscuros, ausentes de qualquer coisa em disputa e, por isso mesmo, dizem o que querem. E quem realmente concorre, diz o que precisa dizer para vencer. Ninguém diz a verdade sobre a realidade previsível ou provável do país e seus habitantes subalternos porque o acontecimento eleitoral é virtual, televisivo, midiático, dionisíaco, alucinadamente falso.

Nesse quadro, a retirada da estabilidade dos gerentes no poder com a sucessiva escolha do “partido outro”, da “frente outra”, seja ela quem for, anulando as sucessões formadoras de dinastias justificaria a força eleitoral de Marina Silva, afinal ela não está enquadrada na dinâmica PSDB versus PT do pós ditadura militar e seria, portanto, o “outro” do que vimos e vivemos desde Fernando Collor e os primeiros ataques do pós queda do muro de Berlim e da fragmentação da União Soviética, no mundo e no Brasil, do fundamentalismo liberal em um quadro geral de senilidade do tal “mercado”, o grande deus absoluto dos discursos racionais do século XXI.
Não tenho a menor ideia de quem hoje em dia poderia estar carregando fluxos dos espíritos que ocuparam Friedrich Wilhelm Nietzsche  no final do século XIX, mas desconfio que não sejam os eleitores que carregam o medo de ser feliz da tradição petista, medo próprio de uma socialdemocracia impostora em um país estruturalmente escravista nos modos de trabalhar, sentir e trocar afetos. Eu, por meu lado, carrego a vontade de poder, a potência do desejo e o desprezo pela moralina moderna.
Eu voto em Marina Silva sentindo-me, como ela, uma super-mulher, o que já é uma enorme e inusitada novidade nietzschiana: o desejo irreverente de ver as super-mulheres derrotando o mundo fabril dos super-homens modernos e seus deveres ser, sempre tão limitadores do direito de ir e vir e da liberdade de manifestação e expressão dos animais, humanos e não humanos, comuns.
                                                                       
                                                             (versão um, sem revisão e direto de um cérebro febril)