Escrituras Heréticas - blog da Dinah Lemos

O começo da guerra e as novas catacumbas - parte um




Sempre que a pergunta certa é construída podemos ir adiante. Alguém, finalmente, argumentou: não há projeto nacional em discussão. Eu responderia que há, ele vem sendo debatido por poucos desde que o projeto PT fracassou e o Lula virou paz e amor. Discutia-se lá o problema da via eleitoral e havia os que queriam retornar à via revolucionária do tipo soviético, sempre houve porque isso foi integrado em um mundo mítico tal como o cristianismo.  E havia os que queriam construir outra via, uma terceira via, o tal mundo das “organizações não governamentais” que acabaram virando, a maioria delas, um modelo de retorno à primeira via, as empresas privadas do mundo gerencial capitalista, só que pelo viés das terceirizações praticadas pelo Estado a mando do Capital. Uma via por meio de ações diretas de pacifismo ativo anarquista, do tipo ações educativas ao modo do cristianismo inaugural das reuniões em catacumbas sempre foi defendida por mim, mas pouquíssimos conseguem entende-la.

Então, não temos projeto nacional porque as vias tradicionais estão tão completamente esgotadas que não conseguem mais se organizar em um número maior do que meia dúzia de adeptos. O que acontece? Acontece que o território Brasil é maravilhoso e o mundo está padecendo de falta de espaço e de necessidade de guerras poderosas para que o Capital consiga alavancar a sua taxa de lucro. Do jeito que estava o Capital estava reduzindo assustadoramente sua reprodução e o Capitalismo estava vivendo um potencial de se transformar em outra coisa, que não “capitalismo”. Estávamos começando a vislumbrar caminhos de saída do modo de produção das manufaturas, da indústria para o consumo desatinado, via caminhos solidários, de respeito ao bem comum. Então, agora seria a hora do "espírito do Capital" fazer uma grande guerra no mundo para retomar a produção de seu modo de produção, agora visando um caminho ecológico, cuja matriz passa a ser não mais a indústria, mas agora a tecnologia virtual e bioquímica. Mas sempre com um índice de reprodução do lucro que lhe garanta a manutenção do seu ETHOS, qual seja o de humilhar o subalterno, o mais fraco, o que será um perdedor em um enfrentamento. Porque o que realmente alimentou todos os modos de produção dos seres humanos, desde o tempo das cavernas, foi aquilo que as feministas chamam de “patriarcalismo”, e que no mundo psicanalítico foi nomeado em algum momento como sendo “o nome do pai”, uma estrutura simbólica na qual a ideia de “lei” se organiza a partir de uma série de acontecimentos onde o primeiro é o ato de subordinação do mais fraco ao poder do mais forte, por meio de uma coação alimentada pela humilhação do que não pode se impor.
E qual o lugar do mundo melhor para uma guerra de dimensões planetárias? O mundo árabe em primeiro lugar, que é o mais resistente em seu ethos insubmisso, depois o lugar grego porque ele é o ponto atrator do humanismo moderno e essa referência precisa ser destruída, e...o Brasil que é uma terra poderosa e seus habitantes são frágeis demais. Voilá!!! A guerra no Brasil já vem desde 1989, com a derrota do Lula nas eleições de forma manipulada. A pergunta agora é: mas isso foi construído pelos “iluminati” ou outra ordem secreta de super poderosos humanos, ou extraterrestres infiltrados no planeta terra? Não necessariamente, esse ponto de origem não precisa ser identificado por nós, os comuns, os sem poder. Qualquer que seja o lugar de produção deste fluxo, ele é um lugar inteligente, como eram os espanhóis diante dos indígenas da América pré-colombiana, que os pensavam como deuses. Mas não é um lugar imortal porque a imortalidade não pertence ao mundo material que conhecemos e é apenas sobre ele que podemos agir ( o sagrado podemos pensar e orar e isso também deve ser feito). É até possível que os agentes de toda essa construção histórica que desagua na guerra atual sejam muito mais aproximados da imortalidade do que nós, os comuns, mas sobre isso só poderão atuar nossas orações, as rezas que se destinam aos lugares espirituais, fora do mundo material visível.  Então, só poderemos identificar novos entendimentos se nos colocarmos na condição de enfrentamento a essa atual guerra, sem nos preocuparmos com a definição precisa – epistemológica e ontológica – sobre os limites de nossos inimigos.

 A guerra continua com a manipulação do PT por dentro dele mesmo, para que ficasse um partido de araque. Agora a guerra expande a sua visibilidade para destruir o que resta de "desejo de ser de esquerda" em parte da população. Essa guerra vai muito longe. Precisamos construir uma vida normal e uma parte dela voltada para a ação dentro da guerra. Isso porque essa guerra, como qualquer uma das guerras, pressupõe o desmanchamento das formas de vida cotidiana regulares, ela aciona um desmonte das agendas de todos os indivíduos.  Ao que parece, esse desmonte está a ocorrer de um modo lento – não vão jogar uma bomba em São Paulo e destroçar toda uma cidade – mas ele já começou a se realizar com um discretíssimo mecanismo de desabastecimento, desorganização de formatos, supressão de possibilidades de agir, ir e vir e realizar procedimentos.

Vamos precisar construir nossas grutas de reuniões, catacumbas da pós-modernidade. Vamos precisar de um demorado e duradouro processo de organização da resistência. A velocidade máxima sempre foi, desde as cavernas da pré-história humana, o combustível dos patriarcalismos. A resistência agora será desconstrutiva desse ethos, o apolíneo eficiente, e recorrerá à ética do cuidado que sempre, desde tempos imemoriais, respeitou a delicadeza e a lentidão dos pequenos, dos frágeis, dos que perderiam sempre em uma situação de combate. Por isso, ao buscarmos a construção de nossas novas catacumbas protegidas não poderemos crer que dentro delas estará um Jesus Cristo a nos dizer todas as verdades. Pode até - e talvez devam - existir profetas e líderes em nossas novas trincheiras, mas certamente eles não serão um só ou poucos e inevitavelmente não serão homens, não os homens que se construíram das cavernas até hoje. Também não serão as mulheres que desses homens foram coadjuvantes. Serão um novo tipo de ser humano, já em formação. E serão muitos.