Escrituras Heréticas - blog da Dinah Lemos

Querida Zeferina - carta nove - Lulalá e o nascimento da população escravizada




                                     Querida Zê,


                                 Essa carta vai sair meio Henry James em A volta do parafuso, ou então Mary Shelley e seu Frankenstein.  É isso, para falar a verdade, estou agora a descrever um enredo sinistro ou uma monstruosidade. Preciso fazer isso. Há uma falsa calmaria, o medo cega, paralisa. Em geral os autores falam sobre a injustiça dos sofrimentos impingidos aos subordinados, sobre os modos de revolta, sobre a natureza econômica da relação, sobre aspectos menores jurídicos e culturais da situação vivida como realidade cotidiana. Falam como quem olha para um objeto exterior a um observador tranquilo. Não falam sobre uma totalidade, lavam as mãos como Pilatos. Tem gente da esquerda falando calmamente, como se uma greve geral fosse só questão de decidir: "bom, vou entrar em greve", como se fôssemos gregos capturáveis pelo dinheiro alemão. Já eu, assustada, quero falar sobre o dilaceramento interno num humano conduzido à escravidão em caráter definitivo. Quero falar a partir da dor que sinto. Nunca li sobre como nasce um escravo assim como se lesse um diário. Vou resumir porque tudo nas minhas cartas demanda uma sequência bem mais alargada, coisa que deixo para depois. Até porque dói, muito, e estou para escrever isso aqui faz mais de mês. Estou exausta, para falar a verdade. Não só porque o assunto dói, como também porque é um assunto quente no Brasil de 2017, no momento em que estão impondo leis ameaçadoras para todos os trabalhadores subordinados, principalmente os que fazem trabalhos repetitivos e têm pouca capacidade de negociação individual ou coletiva.
                                           O escravo nasce em um adulto capturado e exposto como um sujeito nu. Ele nasce quando o sequestro fica claro como definitivo, quando ele entende que perdeu – para sempre - a identidade, o território, qualquer poder sobre o próprio corpo. A desonra é o maior problema do escravo recém-nascido. O escravo que nasce de um escravo já não é mais tão escravo, porque ele já nasce em ambiente de luta abolicionista; nasce como um filho de guerreiro, mesmo sendo o mais emudecido cativo da senzala. O escravo, em seu nascimento como tal, aparece em um sujeito sequestrado e humilhado, um refugiado sem qualquer território seu, um cativo, que foi um sujeito com cidade e nome até antes do sequestro. Então, o maior problema do escravo, na inauguração do fenômeno, é justamente sua vergonha de sua nudez, de sua derrota, de seu abandono. "Como me deixei aprisionar? Como deixei que todos os que estavam comigo se perdessem de mim?”, são as angústias do escravo nu e revelado a si próprio como tal. Vai demorar um tempo até que ele se permita estar nu e sem nome, entenda a sua condição praticamente "pornográfica" e se acalme.  A nudez em público não é só a ausência de vestes, ela é a ausência de nome próprio com dignidade perante os outros. Os carteiros prestes a serem demitidos em março de 2017, no Brasil, devem estar se sentindo, Zeferina,  como se seus nomes não valessem nada para quem decide sobre a vida deles. Eles são sacrificáveis, como falou Giorgio Agamben no livro Homo Sacer, e seus nomes não importam mais, assim como suas vestes. Eles estão nus.
                                          Então, um escravo nascendo não é uma pessoa aprisionada subitamente, sequestrada e apavorada. Isso é um prisioneiro. Também não é um filho de escravo acostumado a sê-lo, por exemplo, filho de uma ama de leite em uma casa grande no Brasil colonial, uma criança nascida em um ambiente de enredos emocionais estáveis, habituais. Um homem que desembarca de um navio negreiro em uma época em que já se sabe bem o que são essas embarcações, já se foge delas na África e, ao chegar ao Brasil, 1730 vamos supor, ele entra em um enredo que aparece cheio de entendimentos claros e acomodações. Um africano chegado nesse cenário verá um mundo, uma sociedade. Verá nos olhos dos outros escravos a evidência de que ali há um modo de vida, ainda que difícil de viver.  Cenários possíveis e roupas correspondentes, nomes. Nesse caso, a condição de escravo está lá, mas também está lá a resistência –mesmo difusa e sem exército - e o recém-chegado mergulha nesse enredo tentado entender o ambiente, ajustar-se a ele adaptando-se às regras visíveis desde o início.  A escravização de uma população inteira, toda ela colocada sob a condição de “sem nomes e sem cidade” começa em uma violência desmedida, com muitas mortes e enlouquecimentos, mas inaugura para os sobreviventes um acontecimento que eu vou chamar de abolicionismo, para, desde já, estabelecer uma comunicação de memória entre o que podemos fazer agora e o que conseguiram fazer os escravos brasileiros desde 1550 até 1888, quando os donos do poder, neste país, precisaram inventar uma saída no sentido jurídico de liberdade formal. Então foram mais de trezentos anos de luta, mas construindo um caminho de vitórias parciais e progressivas. Podemos aprender com eles.
                                                 Eu quero falar sobre o sujeito que se entende por livre, integrado a uma vida em comunidade, e é aprisionado em uma situação desconhecida e inaugural, para ele e para todos a sua volta. Então, tenho que falar sobre o que Franco Berardi informa acerca de um crescimento assustador dos suicídios entre os jovens homens de 18 a 34 anos, no mundo, “sendo a depressão – patologia emocional mais presente no comportamento suicida – identificada como a segunda forma de incapacidade mais recorrente no planeta, até 2020”. Quero falar sobre os jovens nerds da base eleitoral do Trump, um agrupamento niilista que faz o elogio da rejeição às mulheres e se diverte com a própria identidade de “fracassados”, segundo li na Folha de São Paulo de 19 de março de 2017. Quero falar de quando as memórias coletivas e individuais se esvaem de dentro de um corpo humano e ele se transforma em um outro animal, durante um tempo sem saber quem virá a ser no final de uma metamorfose dilacerante, macabra. Penso em todos os que dançam essas músicas estúpidas de ritmos anestesiantes e depois imitam as propagandas das televisões e morrem e matam em ultrapassagens suicidas nas estradas brasileiras. Penso no enjoativo excesso de bundas expostas em imagens repetidas e no aumento evidente da solidão nas grandes cidades. Todos esses estão ficando nus, perdendo seus nomes próprios como símbolos que importam.
                             O escravo aparece como tal no momento em que se entrega emocional e cognitivamente ao encarceramento definitivo. O Harari, que tem quarenta anos e é professor na universidade Hebraica de Jerusalém, nascido em Israel, conta, em seu último grande best seller, Homo Deus, a tortura cometida contra ratos que boiam em um tubo de ensaio:  
Por exemplo, as companhias farmacêuticas usam rotineiramente ratos como objetos experimentais no desenvolvimento de antidepressivos. De acordo com um protocolo amplamente utilizado, pegam-se cem ratos (em nome da fidedignidade estatística) e põe-se cada um deles em um tubo de vidro cheio d’água. Os ratos esforçam-se incessantemente para escalar a parede do tubo, sem sucesso. Depois de quinze minutos, a maioria para de se movimentar. Eles apenas flutuam no tubo, apáticos ao seu entorno. Pegam-se então outros cem ratos, que são jogados nos tubos, mas são puxados para fora depois de catorze minutos, pouco antes de estarem prestes a entrar em desespero. Na sequência, eles são secos, alimentados e lhes é concedido um breve descanso – e então são jogados no tubo novamente. Na segunda vez, a maioria dos ratos luta durante vinte minutos antes de entregar os pontos. Por que esses seis minutos a mais? Porque a memória do sucesso obtido desencadeia a liberação de algumas substâncias bioquímicas no cérebro que lhes dá esperança e adia o advento do desespero”.
Está na página 130, do Homo Deus. Eu fiquei imaginando que o rato, quando para e fica boiando, poderá ser tirado dali e, em um certo tempo necessário para superar o trauma, sair correndo atrás de um canto seguro, uma toca, uma moita no meio da mata, se lhe fosse possível fugir. Seria um luto traumático do rato, ele ficaria para sempre um rato paranoico, mas conseguiria uma retomada, cheia de adrenalina, de um chance de vida a mais. Fico pensando que esses pesquisadores devem ter tentado estudar o quanto essa memória de crença na vida digna pode ser resgatada pelo rato e em quanto tempo ele cai definitivamente numa deriva deprimida, para sempre. Um rato morto vivo ou um rato autista, manifestando sentimentos em frequências gravadas em repetições não mais no padrão inteligível da sua espécie.  Eles devem ter feito essa parte da experiência, mas o Harari não inclui, em seu livro essa situação. No livro Homo Deus, esse jovem phD. em Oxford, está tentando mostrar a crueldade do animal da espécie homo sapiens, abrindo espaço para que o discurso sobre a ética da tradição moderna seja sentido pelos leitores como falácia, invenção delirante. Mas essa narrativa sobre a crueldade só poderá ir até o ponto em que fica mantida a comparação entre a frieza do pesquisador e o sofrimento do pequeno branquinho peludo. Quando essa comparação se estende para o significado do tempo de sofrimento e da condição apática em situação de sobrevida do rato, aí perde o sentido – no livro cheio de algoritmos – porque irá despertar o conhecimento que todo o leitor mestiço, negro ou indígena poderá trazer da memória coletiva sobre a escravidão, o encarceramento definitivo dentro de um corpo sem direito algum, dependendo de favores até para comer e caminhar.
                                               Quanto tempo deve ter demorado para  que os cem ratinhos brancos se tornassem apáticos em definitivo? Para o resto de suas vidas, não importando a beleza e gostosura de alimentos e gramados e matinhos oferecidos pós-trauma? Imagino os cientistas colocando séries de ratinhos, em grupos de cem, dia após dia, e esticando o tempo dos naufragados dentro dos tubos de ensaio e depois os retirando e oferecendo boa condição de vida até eles se recuperarem. Fazendo isso com várias séries de ratos, alongando mais e mais o tempo, fazendo séries diárias durante meses, até que se realize a mágica: pronto, aqui está a situação emocional de um escravo com banzo, pensaria um estudioso do escravismo colonial brasileiro.  Ou pensaria  um estudioso sobre a formação deste neo-escravismo tecnológico do século vinte e um. Não podemos saber como se sentiram os primeiros africanos sequestrados para o Brasil em navios atravessando o Atlântico, né, Zeferina? Não temos as narrativas dessa pesquisa que começou nos primeiros navios negreiros, quando chegavam quase todos mortos, poucos sobreviventes da travessia no oceano Atlântico, empilhados em um porão úmido de navio, doentes, pestilentos, imundos, desesperados dias a fio. Chegando aqui, eram apartados uns dos outros, vendidos e jogados em senzalas com outros africanos estranhos, de falas estranhas, ninguém se entendendo. Ganhavam a denominação de negros boçais, a palavra significando, até hoje, o sujeito que não entende nada do que se passa a seu redor. Quanto tempo e quantas vezes de travessia para os traficantes entenderem que estavam a perder tempo e dinheiro, dado o elevado número de mortos?  Quando os navios começaram a utilizar espaço para colocar redes, para armazenar fezes e separá-las dos prisioneiros, para fazer algum tipo de higiene, alguma água do mar para lavarem-se; quando começaram a usar redes para dormirem os mais velhos, as mulheres, os adoecidos de medo e melancolia?  Teria sido, esta experiência com negros sequestrados em 1540, no sentido contrário ao dos testes com ratos da indústria química de 2010: reduzia-se aos poucos o tempo e a intensidade de sofrimento dos africanos para alcançar o nível mínimo de dignidade e aptidão para o trabalho nas grandes plantações de cana-de-açúcar no Brasil. Isso porque o banzo, a desistência da vida, era uma doença  frequente entre os primeiros negros sequestrados nos tempos coloniais.  Mas o Harari fala quase invisivelmente em maus tratos entre humanos, o assunto abrigando poucos parágrafos do livro em cenários de confrontos entre nações antigas, como se todo o conjunto da espécie homo sapiens fosse ignóbil, ignorante e má. Nada de luta de classes, extração de mais-valia, nada de maldade dos perversos que por serem cruéis sempre se tornaram as classes dominantes, nada desse tipo de pensamento. Pelo contrário, Harari afirma, sem necessidade de explicações detalhadas, que o comunismo foi uma religião estúpida semelhante ao nazismo e o capitalismo é a própria essência do que seja o gênero humano. O livro do professor israelense, lançado em 2015 com o subtítulo de “Uma breve história do amanhã”, propõe a hipótese de ser toda a espécie sapiens essencialmente violenta, perversa e, sobretudo, estúpida e que poderia estar fadada ao desaparecimento.
                                                   Ele não conta detalhes sobre esse pedaço das pesquisas feitas pelas indústrias farmacêuticas durante pelo menos o final do século vinte e o início do vinte e um, em ratos, sobre a depressão e seus limites diante da vida, mas podemos supor que os pesquisadores devem ter estudado o momento em que a apatia da depressão se torna um acontecimento permanente no roedor, e do quanto a administração de químicas pode fazer retornar nele alguma capacidade de agir, ainda que em uma dinâmica autista. Essas pesquisas eram feitas para a descoberta de hormônios que poderiam compor a fórmula de antidepressivos a serem administrados em seres humanos. Remédios que se tornaram tão comuns, na segunda década do século vinte e um, quanto as aspirinas, quase todos os adultos trabalhadores tomando algum, durante alguns meses ou anos, muitos a vida inteira. Muitos destes encontrando um modo apático de levar a vida adiante, um fracasso estável. Talvez o Trump seja um dos primeiros acontecimentos a provocar a impressão de que as estratégias de gerências do Capital cognitivo não estejam dando resultados esperados ou, ao menos, seguros para os gerentes.
                                              A nudez de um escravo não depende da roupa que veste, ou do nome que usa, ela se realiza na perda de uma memória coletiva de pertencimento a uma cidade, a uma etnia concreta, não essas etnias de embalagens, de modelos fazendo propagandas de televisão com aparências de “o negro”, “o ruivo”, “o japonês”, todos jovens lindos, magros e saudáveis, modelos inseridos em um mundo de bricolagens sem passado.  A nudez que nasce em uma população escravizada é, portanto, a destruição das memórias coletivas anteriores ao sequestro de todos, anteriores à imersão de todos em um território estrangeiro e hostil. Só sobrevivem os que  lembram, os que recordam por meio de músicas, de rezas, de danças, as lendas e os ensinamentos de seus antepassados. Talvez – apenas talvez, como falou o Jacques Derrida – o apego ao nome Lula, e à ideia Lulalá, se explique como uma razão coletiva de defesa de memória, a lembrança de um tempo em que a esperança de nomes próprios dignos e cidades de pertencimentos eram nossas bagagens, roupas e territórios simbólicos. Bom dia, Zeferina.

versão dois - foto: Luiz Eduardo Robinson Achutti, loja em Havana


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