Escrituras Heréticas - blog da Dinah Lemos

A prostituta - Escravismo e Prostituição no Brasil da Era Lula - parte 11

Dizer que a prostituição é um modo deplorável de sobrevivência de um ser humano é tão óbvio quanto dizer que as prostitutas têm o direito de serem respeitadas em uma sociedade na qual todos os indivíduos são desrespeitados pela violência da guerra e do modo predador e antropofágico de vida engendrado na organização social.

 A regra é, portanto, todos os desrespeitados têm o direito de serem tratados como iguais em direitos. Claro, perfeito. O problema é pensar sobre o que significa o verbo "prostituir-se", como aquele que se prostitui vive em meio à sociabilidade e que poder ele tem. Isto é, não estamos estudando o que o seviciado pode fazer de sua vida, desde o momento em que se submete ou é submetido pela primeira vez a usar seu corpo como ferramenta de trabalho. Entre a criança torturada e o adulto que pode até formar patrimônio e escolher parceiros que lhe interessem e agradem, dentro de uma prática de compra e venda de seu corpo, há uma série com múltiplas variações. O fator que move a série, no entanto, é, precisamente, fazer do corpo um instrumento a serviço do usuário, independente do desejo do proprietário deste corpo. Há, na série deste acontecimento, uma incapacidade do dono do corpo em controlar a quantidade e a intensidade de violência a que é submetido, incapacidade esta diretamente proporcional ao tamanho e ao poder social que este corpo prostituído tem. Há sevícias, portanto, na origem e no fluxo deste acontecimento. Então, estudamos o que emana do seviciado como padrão de comportamento pregnante e difuso. 

Refletimos agora sobre a expansão e o predomínio de atitudes e desejos oriundos de um “ponto atrator estranho” (isso é física, e é um lugar no espaço onde o acontecimento inicia e sustenta seu percurso, o lugar onde, por exemplo, se forma e sustenta o furacão), ponto este no qual está a emersão à superfície da história humana, a cada momento, de um comportamento individual que é nomeado como prostituição.

Para entender o sujeito prostituído, é preciso fotografar suas várias formas camaleônicas, mutantes e construir narrativas sobre semelhanças e diferenças entre essas múltiplas imagens. Agora, vamos começar pelo mais abstrato, pelo que vemos com nossos olhos de águia, de lince, no lugar do predador. Ao olhar nessa escala, estaremos tanto no lugar do usuário que toma para si o indivíduo/objeto prostituído, quanto no lugar do que se prostitui e que acolhe o usuário como presa de seus objetivos de empoderamento ou de aquisição de bens materiais ou simbólicos. Se fôssemos ocupar a escala da presa não veríamos o predador como um objeto e sim como um ícone, um fantasma. E o predador é o pedófilo, o perverso, o solitário, o deprimido o viciado, mas também é a prostituta, o profissional do sexo, o que vende uma cena erótica fabricada, o que se vende em um teatro de externalidades falsificadas. O que alinhava a série é, então, a oferta de um prazer/poder unilateralmente recebido pelo comprador e vendido pelo sujeito que se prostitui, sem que haja uma reciprocidade como motor dos efeitos. O que move o efeito do ato da prostituição é a relação de compra e venda do corpo concebido como ferramenta deste efeito. E a prostituição não se dá necessariamente pelo funcionamento de órgãos sexuais estrito senso, genitálias, como todos nós sabemos. Ela pode se realizar por uma oferta de companhia, ou mesmo pela produção de um bem que não dependa do gosto, da opinião ou do desejo do sujeito que se prostitui. Poderíamos afirmar, a partir desse olhar, que o próprio trabalho subordinado e subalterno acaba sendo um ato de prostituição, e que a subordinação condicionada a um valor, um preço, envolve um princípio violento, explícito e integralizado nas sevícias cometidas contra o sujeito aprisionado.

A prostituição como lógica

A prostituta padece de uma “ausência de si”, pois manifesta um “eu” simplificado, reduzido à vontade do poder que a mantém cativa, capturada, ou comprometida. Uma vez ela foi aprisionada e destituída de direitos de sobrevivência, talvez na infância, provavelmente. Ou, ainda, uma primeira vez ela foi destituída do direito a cuidados, proteção e amor, ganhando a identidade de"personalidade indesejada" e dali em diante a sua sobrevivência passou a refletir o desejo do estuprador, do seu primeiro torturador, primeiro de uma série a partir daí sem fim. O desejo da prostituta se realiza em ela ser apenas objeto de desejo, e ela  muda de imagem ou de produto na medida em que seu usuário assim também o faz. A prostituição é um circuito que inicia no estupro e se mantém imune e circulante, estável, em organizações de modos diversos de poder sobre o corpo, os corpos humanos em sociedade.

Todos os seres humanos carregam múltiplos instintos e intuições, culturas díspares dentro de um mesmo indivíduo, linhagens diversas de caráter e personalidades. É sobre isso que a Astrologia se propõe a sistematizar em sofisticados ou simplórios mapas astrais e signos do zodíaco. É sobre as perturbações e distúrbios que emergem a partir desses sistemas que a psicologia e a psiquiatria constroem seus discursos competentes, mas muitas vezes ineficientes para qualquer tipo de “cura”, de retomada de fluxos mais “limpos”, nos quais o sujeito escolhe os modos de manifestação de seus desejos. Mas a prostituta é algo distinto do “louco” do “transtornado”, ela carrega diferentes linhagens de personalidades em movimentos cacofônicos também, porém integrados em diversos objetivos de obediência às ordens e aos desejos emanados do sujeito usuário. A prostituta é uma exímia malabarista manipulando significados éticos diferentes em relação ao desejo, ao prazer, ao poder, ao bem, ao mal, ao justo, ao injusto, ao belo, ao bom, à dor.

A prostituta é a metódica presença de um “ninguém”, de um “alguém” sumido no interior de seu corpo rigorosamente ordenado. Seria como se ela fosse uma estrangeira abrigada dentro de si, escondida embaixo de uma personagem que ela faz emergir à superfície do modo de produção da sociabilidade, superfície ordenada como espaço de estupro consentido e legal. Nesse sentido, a prostituta é o prolongamento de seu estuprador, ela é a imagem do indivíduo que manda refletida no sujeito que obedece.

A maior recompensa da prostituta é a solidão, onde ela descansa de ser reflexo e acontece como uma velha criança abandonada, manipulando brinquedos mudos e antigos, perdidos com ela em um fluxo de tempo sem memória.

Isso está um pouco em todos nós, mas se aglutina com mais eficácia na figura dos administradores menores, dos gerentes de distrito, dos pequenos comandantes de sistemas produtivos em um mundo autofágico e adorador da violência da guerra e do consumo predatório.

                                                            (versão  um, dez.2013, versão dois, ago.14 - começando algum desenho)



Prescrição - Escravismo e Prostituição no Brasil da Era Lula - Parte 6

Lee Jeffries
Vamos começar alinhavando simplicidades: quem pode falar sobre o Direito? Não, não o "direito", que esse todos falam, o Direito, aquele que é afirmado e não pedido.  E se somente uma minoria de juristas pode falar sobre o Direito, e um grande grupo de profissionais devem fazê-lo acontecer em sociedade (advogados, policiais, procuradores, contadores, servidores, professores, jornalistas, escritores) porque todos os trabalhadores têm de conhecê-lo a ponto de em apenas dois anos terem perdido parte  do direito de reclamar sobre injustiças e danos na esfera onde são mais sacrificados, no trabalho, e  neste não poderem reclamar sobre o que lhes aconteceu cinco anos atrás?

Prescrição é: "Durante a vigência do contrato de trabalho, o empregado que tem um direito violado dispõe de 5 (cinco) anos para pleiteá-lo na Justiça Trabalhista. Assim, para um empregado que tinha o direito mas não recebeu suas férias em janeiro/2004, terá até janeiro/2009 para reclamar, ou seja, 5 (cinco) anos após ter ocorrido a lesão ao direito. Se não o fizer neste prazo, diz-se que o direito está prescrito, não podendo mais ser reclamado. Quando da rescisão de contrato de trabalho, o prazo prescricional é de 02 (dois) anos, isto é, o empregado dispõe de dois anos para reclamar os direitos referentes aos últimos cinco anos de trabalho (de vigência do contrato). (www.guiatrabalhista.com.br )

Os trabalhadores que conseguem se manter em um mesmo emprego durante mais de cinco anos o fazem por meio de um subordinação que inclui aquilo nomeado por historiadores especialistas no tema do escravismo brasileiro como sendo o tripé  "fidelidade, obediência e humildade":

"A inserção social do escravo, sua aceitação pelos homens livres numa sociedade fundamentada no trabalho servil, dependerá estreitamente da resposta que o trabalhador-escravo dá a seus senhores no plano da fidelidade, da obediência, da humildade. Essas três qualidades essenciais conformam a personalidade do 'bom escravo', pois assim o negro, que estava marginalizado e a quem o senhor deu um devoir faire, adquiriu uma competência, um savoir-faire, fonte de poder. Essa força proveniente do savoir-faire arrefece o temor, trata certas feridas abertas pelo desenraizamento da terra dos ancestrais, devolve ao homem escravo uma certa linguagem, uma nova morada, uma identidade particular numa espécie de contrato tácito e sólido." (Kátia Mattoso, 1982, Ser escravo no Brasil)

É imprescindível, para o Direito Moderno, que a noção de contrato esteja sobredeterminada pela noção de liberdade da vontade. Isso significa que esse contrato descrito pelos historiadores do escravismo, esse contrato que se realiza por diferentes facetas da prostituição,  não é entendido como Norma pelo Direito do Trabalho, nem mesmo como norma cultural de um direito vivido. A doutrina desse campo do Direito mal tangencia, em descrições de bordas dos fenômenos, de margens atípicas, o acontecimento das tradições perversas, híbridas e polimórficas nas relações de trabalho no Brasil e no mundo.

Vivemos em um país no qual a Norma diz terem todos, os seres humanos abrigados por ela, liberdade e dignidade para livre contratarem e que esses mesmos seres humanos são conhecedores de todos os seus direitos sendo capazes para livremente falar e negociar contratos. Essa Norma geral é aplicada e divulgada ao lado de normas específicas usadas para combater e conter os ilícitos que anunciam elevados graus de violação de direitos humanos fundamentais. Entre a Norma geral e as específicas leis de proteção dos mais desvalidos ( violentados, humilhados publicamente, torturados e mutilados) resta um amplo e majoritário espaço de silêncios e escuridões nos quais transita aquele direito vivido baseado no tripé descrito por Kátia Mattoso.

No caso daquilo que chamam de "assédio moral", na maioria esmagadora dos casos ele somente ganha visibilidade depois de ser vivenciado até a efetivação de danos morais e materiais crônicos e agudos, muitos anos depois de ter iniciado.

A prescrição da legislação atual tem a índole da  Lei da Abolição da escravatura, no Brasil. Anistiar os opressores e violadores de direitos e abandonar os violados à ausência de memória.

Uma mulher de origem das camadas mais pobres da população se torna gerente de uma loja de roupas de grande porte e filiais em todo o país. Vive a sua vida até não acreditar mais em homens, mas vê televisão todos os dias e deseja o mocinho da novela, deseja ser respeitada, sonha com o dia em que real e substancialmente falem com ela com amor, liberdade e intimidade. A gerente se torna uma algoz porque não tem ninguém da família para defendê-la, de uma família qualquer, nem a sua, nem as famílias políticas possíveis, seja em um sindicato, seja dentro da própria estrutura de poder que a elevou a um posto de comando. Será julgada como réu em um processo por dano moral e material, praticado contra um subalterno seu. Ela vai  dar-se conta que foi vítima de uma era chamada de "neo-liberal", que de liberal não tem nada, ao contrário, é um tempo de controle total, público e privado, de todas as manifestações humanas, inclusive as mais íntimas e pessoais, quando tiver 75 anos, viver em outro tempo e puder olhar de longe o seu drama dos 30 anos. Seus direitos de reclamar terão prescrito.

A prescrição, na norma jurídica brasileira, principalmente no campo do direito do trabalho, é uma consagrada atitude de apagamento da memória coletiva. Sobram as mágoas, os rancores, os transtornos, as perdas, a solidão devastadora de qualquer Outro possível. Sobra um outrencídio legal, nos dois sentidos dessa palavra, no jurídico e no simples e cotidianamente perverso.

Há ainda um significado mais amplo, de tempo longo, para os efeitos dessa Norma da Prescrição. Já que é uma memória curta e imposta em um campo da existência social - o trabalho - que organiza toda a vida humana, e já que é o mundo do trabalho que dispõe a História do Brasil entre um "antes" e um "depois" do escravismo, a prescrição acaba impondo uma lógica de tempo cíclico que se acopla às lógicas modernas do tempo sucessivo das grandes narrativas de impérios, repúblicas, revoluções, Eras disso, Eras daquilo. Os intelectuais sempre tentaram descrever esse acoplamento como uma permanência de um caráter digamos macunaímico, ao lado de uma evolução tortuosa pelos caminhos da modernidade, o que preservava ou um estar sólido, ainda que aristocrático, ou uma evolução difícil mas segura, como qualquer signo moderno. O que não havia sido dito, até hoje, e parece que o "hoje" começa a dizê-lo, é que esse acoplamento de duas lógicas tende ao hibridismo, se assim o processo geral da humanidade o permitir. Isto é, se o mundo entra em desgoverno, qual é a específica forma desse desgoverno em um território composto por uma nação baseada na curta memória?

Começa a se delinear uma cacofonia preenchida por algo da natureza de uma "ausência de sucessão", o que nos remete a um caminho em direção ou à loucura coletiva no sentido tirânico, ou à vida baseada num absolutamente simplificado conjunto de signos. Ou os dois, sucessivamente, em séries de curta duração e sem memória.
                                                                 (versão dois - véspera das eleições de 2014)

                                                                                                 

Guerrilha brasileira - Escravismo e Prostituição no Brasil da Era Lula - Parte 5

Segue um conjunto de recortes do texto Autocrítca da PO, assinado por Raul Villa e encontrado na “revista teórica da tendência socialista”, janeiro de 1980, número um. Parece que as prisões de Genoíno e José Dirceu nos fazem querer entender o que foi a guerrilha no Brasil. O texto abaixo surpreende porque mostra uma percepção, dessa vanguarda da época, de que a ditadura militar era frágil e teria pouca duração. Em alguns pontos se torna tragicômico porque  mostra militantes sendo presos e soltos logo após para esperar o julgamento em liberdade e voltando à clandestinidade para preparar organizações com objetivos de luta armada.  Era um mundo no qual a Revolução Cubana batia às portas dos corações desses militantes.  O texto foi reproduzido na ordem em que aparece na revista, com grandes recortes. Foi feita uma revisão delicada, trocando “z” por “s”, em alguns momentos, modificando algumas concordâncias, corrigindo pequenos erros de datilografia (máquina mecânica). Há uma pressa e fragilidade imensa de quem o escreveu, parecendo ter alguma origem no português de Portugal. Isso é um início de leitura do texto abaixo, em breve retomaremos com uma segunda versão, com mais comentários.

O que virá a seguir é em parte uma autocrítica, em parte um esboço de balanço da PO (e do POC no período 68-69). É só em parte uma autocrítica porque seria desmedida uma discussão sobre minha atuação passada. Não me centro pois nas minhas responsabilidades, mas o balanço da PO é evidentemente uma autocrítica minha, pois foi aí que vivi toda minha militância no Brasil.(...) Se me aventuro a dar este primeiro passo é justamente porque uma das características da derrota que sofremos em 68-70 foi que atomizou nossas forças. O esforço coletivo para retomar o fio com as experiências passadas se encontra bloqueado por que fomos separados pelas prisões, mortes, exílio e repetidas divisões políticas. Este esboço de balanço é assim apenas uma parte da autocrítica necessária da esquerda revolucionária nesses seus 16 anos que se iniciam com o triunfo da revolução cubana.
(...)
Creio que podemos formular uma periodização para facilitar o estudo. De 1961 a 64 a PO se enfrenta numa luta ideológica contra o reformismo dominante. De 64 a 67 numa luta ideológica contra o reformismo em crise. Em 68 e 69 se lança à constituição de um núcleo partidário para buscar organizar as lutas da classe. Com a cisão de 70, a nova PO se lança numa prática obreirista até 72. 72 e 73 são anos de sobrevivência burocrática. A partir de 74 temos o doutrinarismo revisitado.
(...)
A Organização Revolucionária Marxista Política Operária se constituiu no início de 61, reunindo pequenos grupos marxistas de vários estados (Rio, Minas, São Paulo, Bahia, estendendo-se logo para Goiás, Brasília, Pernambuco, Paraná). Teve por núcleo o grupo do Rio, portador das tradições da III Internacional Leninista transmitidas pela fração de Thaelheimer, que rompera com Stalin sem unir-se a Trotski. Fôra o grupo do Rio que, após reunir militantes saídos do PC, depois do XX Congresso e bases da juventude do PSB, articulou o desenvolvimento de outros grupos estaduais a partir de discussões sobre o reformismo do PC, o caráter do desenvolvimento capitalista brasileiro, das linhas gerais para uma política de classes em nosso país. Para a reunião acorreram grupos marxistas da juventude socialista ou trabalhista e ainda um pequeno grupo de São Paulo que se considerava “luxemburguista” (seu núcleo, extremamente sectário, irá retirar-se da PO, caracterizada por eles de oportunista).
(...)
Mas é importante notar que a PO surge, a bem dizer, fora do movimento operário e qualquer organização de massa existente. O fato dela não ter surgido como cisão organizada do PC, de alguns partidos populistas, ou como fração de vanguarda de alguma frente de massa, terá consequências no seu estilo de atuação. Se observarmos as Organizações que surgem como fração organizada de um movimento maior (os bolcheviques da social-democracia, o PC brasileiro do anarquismo, a AP da JUC, o MIR venezuelano da PARA, a ALN e o MR8 do PCB, etc.), veremos que elas se alinham por muito tempo (o tempo necessário para que seja gerada sua dinâmica própria) da crise do movimento de onde surgem. Isso se traduz em parte do fluxo de militantes e de áreas de apoio, relações e experiências acumuladas.
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Para captarmos o papel da PO naquela conjuntura será importante examinarmos como a esquerda e o movimento operário reagem ante a crise que se anuncia. Para a ideologia nacionalista, o desenvolvimento industrial do país traria sua emancipação econômica (pois ele deixaria de ser exportador de primários e importador de industrializados, segundo a divisão de trabalho imposta pelo imperialismo) e liberaria as grandes massas da miséria causada pelo atraso rural (pois industrialização implicaria mercado interno e logo “reforma agrária”) e pela espoliação imperialista (dada a dependência da economia agro-exportadora). A vitória de JK em 55 expressa a vitória dessa corrente, que vai desde o PC até o PSD. O predomínio dessa ideologia é tal que desaparecem de cena as próprias categorias marxistas da exploração capitalista e da luta de classes. Constitui-se o ISEB, matriz ideológica dominante desse pensamento.
(...)
O ISEB se divide, ficando sua maioria apoiando o projeto desenvolvimentista com todas as suas implicações. O PC constata perplexo o aspecto “objetivamente progressista” do “desenvolvimento”, mas insiste em que ele só se dará plenamente quando se liberar dos entraves semi-feudais do latifúndio e da espoliação imperialista: com isso ele permanece apoiando os aspectos positivos de JK e condenando os negativos.
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Na medida pois, em que a esquerda é incapaz de apresentar uma perspectiva de classe frente ao desenvolvimento capitalista, a própria classe se divide. Enquanto os setores sindicalmente mais sólidos tendem a apoiar o esquema desenvolvimentista dentro da ótica que lhe dá o PC – pois os reajustes frequentes lhes defendem contra a inflação, apresentada como condição de ampliação dos empregos – os setores menos sindicalizados vão procurar proteger-se através do populismo janista que lhes promete acabar com a “ladroagem” dos “cartolas”.
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De 61 a 64 a crise vem à tona e exige uma decisão. A renúncia de Jânio, a tentativa de golpe, a conformação de um movimento pela legalidade e a constituição do governo de Jango controlado pelo parlamento abre um período de deliberação acelerada. A burguesia não sente garantias para a continuidade do processo de acumulação diante do vulto das lutas econômicas da classe operária. Na esquerda desencadeia-se então um processo de radicalização. A revolução cubana já passa a ser o principal estímulo e exemplo a questionar as teses reformistas tradicionais. A partir do movimento camponês se espalham as ligas camponesas no pais, as quais servem de base para o desenvolvimento da uma variada militância que foge dos padrões reformistas vigentes. A Juventude Católica, predominante o movimento universitário, será afetada com a constituição da Ação Popular e o movimento universitário como um todo tenderá cada vez mais para a esquerda. Finalmente, do próprio PCB desprende-se o PcdoB reivindicando as posições chinesas.
(...)
Nosso desenvolvimento teórico se fez para combater as teses reformistas dominantes, mas muito pouco para orientar nossa prática. E, do outro lado da moeda, o fato de que não era nossa prática que alimentava nosso desenvolvimento teórico só poderia reforçar os aspectos teoricistas deste. A estrutura organizatória será expressão e instrumento dessa prática diletante onde o espontaneísmo, o federalismo, o professoralismo teriam que impedir a PO de soldar num só elemento os vários que lhe constituíram e dirigir sua energia para a constituição de uma efetiva força revolucionária.
(...)
Ao final de 63, a Direção Nacional toma consciência da necessidade de dar um salto no sentido de uma prática profissional de massas. Seu órgão central, “Política Operária”, até então uma revista teórica (em 62 saíram como jornal apenas 3 números, em 63 saíram 4 números da revista), passaria a ser um jornal semanal voltado para a classe operária. Sua tiragem realmente representou um grande impulso nesse sentido, a partir do começo de 64. Mas já o tempo foi curto para promover as profundas transformações que seriam necessárias.
(...)
Face ao golpe, os aparelhos reformistas caíram como um castelo de cartas e a perplexidade e a debandada dos dirigentes não será mais que a expressão da miséria de suas concepções. Abre-se um período de crise profunda de seus aparatos, particularmente do PCB. Os setores combativos passam a voltar-se crescentemente para as forças da esquerda revolucionária. (...) embora evidentemente não se tratasse de que as massas do reformismo se passavam para a esquerda revolucionária, o fato é que teremos núcleos inteiros de marinheiros, cabos, sargentos, buscando-nos para organizar uma luta armada contra o regime; algumas bases pioneiras do PC que começavam a questionar a linha e se dispunham a uma prática comum; grandes setores da juventude estudantil que se incorporam à luta política a partir das políticas revolucionárias.
(...)
Logo após o golpe, reunindo militantes passados à clandestinidade e núcleos de marinheiros e fuzileiros navais que se dispunham à luta, a direção procura organizar as bases para um foco guerrilheiro e, ao mesmo tempo, para a atividade conspirativa no interior das FFAA. Poucos meses depois, a partir de uma infiltração, a quase totalidade dos quadros investidos nessa tarefa caiu presa. Mas essas perdas não se revelaram irreparáveis. De um lado, o conhecimento de que a PO organizava uma resistência armada lhe faz aumentar a audiência e o respeito. De outro, pelas condições legais do momento, após o período “normal” das torturas, as denúncias e campanhas feitas lograram que, pelo fim do ano, todos já esperassem o julgamento em liberdade, podendo voltar à clandestinidade.
Naquele clima de crise nacional, a idéia de uma luta armada contra o regime não aparecia como um projeto de minorias extremistas, mas apenas como a iniciativa de uma vanguarda capacitada que se visse de catalisador de uma enorme energia das massas batidas e dispersadas. Brizola e o núcleo nacionalista estimulavam tal resistência, mas fundavam seus projetos em levantes armados a partir de setores da própria oficialidade do Sul. A base ativa para qualquer empresa do gênero era constituída pelos suboficiais, soldados e marinheiros expurgados das FFAA e passados à clandestinidade. O CN retoma em 65 o projeto foquista, opondo às concepções brizolistas as de Guevara: um foco guerrilheiro como catalisador para uma luta insurrecional. Dependendo-se mutuamente, a PO e os nacionalistas chegam a acordos para o apoio aos dois projetos e à agitação comum. O fato é que o apoio nacionalista jamais chegou sob a forma de recursos para a instalação do foco e, de outro lado, os sucessivos alertas para iminentes levantes no sul paralisaram sistematicamente a preparação da guerrilha. Em suma, os dois projetos na prática não se apoiavam, mas se excluíam, disputando uma base comum.
(...)
No começo de 66, a direção faz o balanço dos recursos políticos e materiais para a guerrilha e decide que ela deve ser vista num prazo mais longo, constatação que não vai ao fundo de nenhuma das concepções que lhe haviam presidido. Por outro lado, a concepção de um foco guerrilheiro, catalisador de uma luta insurrecional, permanece como uma pela chave na arquitetura teórica de nossa estratégia, ocupando um lugar que sem ele ficaria vazio.
(...)
Com o AI5 então a Direção se paralisa, mesmo politicamente. Fundados em que o regime não possuía base social e em que a retomada econômica teria fôlego curto, julgávamos que o endurecimento militar não conseguiria se estabilizar. Nesse sentido, víamos o refluxo de massas mais como um fenômeno passageiro.
         (versão um – sem revisão)


Corpo e Alma - Escravismo e Prostituição no Brasil da Era Lula - Parte 4

A separação entre o corpo e o Eu do escravo (que é também o primeiro ato do fenômeno prostituição) cria, inaugura um fora e um dentro na pessoa humana, tanto no escravizado quanto no seu dono, o proprietário, em uma dinâmica na qual o fora e o dentro são antagônicos de um modo irreconciliável, introduzindo nos seres da dupla – o escravo e seu dono – lógicas ligadas àquilo que a psicologia e a psiquiatria contemporânea nomeiam como transtorno. Grosso modo e de forma provisória vamos transcrever aqui a definição da Wikipédia para esta palavra: “Transtorno tem por característica um comportamento que exprime contrariedade, decepção, marcadas por atitudes que revelam desarranjo ou desordem neurológica”.   Já dissemos serem esses espaços tensionados por uma disputa, quando o escravo se propõe a recuperar uma unidade do seu ser e o dono se mobiliza para integrar o escravo em uma unidade de uma coisa que é inteiramente sua propriedade privada.  O tanto de crueldade e violação (dano moral e material ao corpo de ambos os indivíduos, o dono e o escravo, na medida em que o violador é destituído do direito à racionalidade e à integridade emocional mínima que o dignifique com um ser, pessoa, humana ou não humana)  inscrito nessas tensões estaria em relação direta à presença do fenômeno escravismo (e em outra dimensão o acontecimento tipo prostituição) abraçando essa disputa entre o ser e o seu dono.

No entanto, a presença do fenômeno escravismo só poderá ser entendida em uma escala de estrutura social, sem a qual teríamos uma situação específica de crime, de acontecimento fora da norma. Por essa razão iremos desenvolver daqui por diante um pensamento apoiado na revisão crítica de partes da Dissertação de Mestrado Tempos e Tutelas,  contribuição à história do direito e da justiça do trabalho no Brasil, defendida por mim, Dinah Lemos, para a obtenção do título de Mestre em História do Brasil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil, em 1997. Por ora, alinhavaremos um rascunho de recortes  a serem reordenados e reescritos em outra oportunidade. Vamos lá: temos aqui um texto antigo escrito sob a pressão das dinâmicas aceleradas e tensas dos mestrados e doutorados da Universidade brasileira imersa nas lógicas do mercado do final do século XX,  comumente chamadas de lógicas neo-liberais, embora esse termo pareça hoje equivocado já que nomeia acontecimentos de rígido controle das dinâmicas da sociedade. Poderemos amadurecê-lo em uma nova potência usando a experiência política e intelectual adquirida por todos nós (articulados atualmente em uma inteligência coletiva na web)  nos últimos dezesseis anos.

Trata-se de refletir sobre a limitação jurídica do escravismo a um acontecimento pessoal, privado e fora das normatizações historicamente definidas pela palavra contrato. É sobre esse problema teórico que o texto imaturo que vamos colar por aqui, aos recortes e com leves revisões, tenta pensar.

O escravismo brasileiro é percebido por nós, seus descendentes, como um acontecimento da pré-história da civilização. A distância do escravismo brasileiro no tempo é um dos significados mais antigos desse acontecimento, desde o momento da lei da Abolição quando o escravo se torna "coisa do passado já extinto, abolido", e parece ser fruto de uma conjunção de fatores que fluem das noções de Estado, Direito, Justiça, Coisa e Pessoa, que habitam a memória e a cultura dos brasileiros. No Brasil de 1996, a escravidão é ilegal e imoral e a maioria dos mestiços não conhece a sua própria descendência e não reconhece seu parentesco genético e subjetivo com algum escravo ou liberto há quatro ou cinco gerações. A maioria dos brasileiros se reconhece como pessoa livre e descendente de pessoas livres, a condição de coisa, mercadoria ou animal de carga é uma abstração longínqua que – muitas vezes – só serve para complicar a vida dos jovens negros ou mestiços, nos bancos escolares, quando são obrigados a testemunhar o conhecimento de datas, nomes e eventos que nada lhe dizem respeito, do modo como são apresentados, em enfadonhas provas de história.
O estudo do escravismo nas universidades também está marcado pela lógica da abolição, sendo entendida a história do direito do trabalho como “propriamente dito, começa somente depois da Revolução Francesa, durante o século XIX. Antes o que houve foi pré-história. (...) O direito do trabalho só se tornou possível num regime político-social de formal liberdade, de respeito pelo menos jurídico à livre manifestação da vontade ( Evaristo de Morais Filho, 1971, Introdução ao Direito do Trabalho).
As polêmicas sobre a abolição da escravatura no Brasil dizem respeito a sua eficácia. Muitos interpretam a lei áurea como um ato meramente formal, afirmando não ter tido a mudança jurídica efeito positivo na realidade. Nesse caso, ou bem os escravos não eram coisa, ou somos coisa até agora, o que faz com que esse raciocínio não contenha clareza sobre esse problema da oposição entre ser coisa ou pessoa.

A gravidade dos problemas relacionados às doenças mentais, aos distúrbios epidêmicos que assolam as comunidades humanas no Brasil e no mundo, a evidência trágica das epidemias ligadas ao tráfico de drogas e suas conseqüências, os adoecimentos sociais epidêmicos ligados à má alimentação (obesidade, diabetes, problemas cardiovasculares) e à violência urbana indicam estar o conjunto conceitual do conhecimento no campo do Direito do Trabalho carente de uma profunda e radical revisão de paradigmas a começar pelo entendimento do que seja o indivíduo ou a pessoa humana.

Precisamos pensar como se nossos pensamentos fossem nosso próprio lar.

                                                              (versão um - sem revisão)


Pedofilia - Escravismo e Prostituição no Brasil da Era Lula - Parte III


Pedofilia. Ouça a palavra, sinta a palavra, deixe a repetição soar como um mantra em seus ouvidos, em sua pele, suas intimidades. Envolva-se com ela, a palavra, sem ninguém por perto, em absoluta privacidade. Conviva com ela desde sua primeira memória gravada, desde sua pequenez infantil. Sobretudo faça um pacto com ela, a palavra, de que você será criança a vida inteira, infantil para ela, para seu deleite, para seu demasiado poder incondicional e impune.

A escassez de mulheres brancas criou zonas de confraternização entre vencedores e vencidos, entre senhores e escravos. Sem deixarem de ser relações - as dos brancos com as mulheres de cor - de "superiores" com "inferiores" e, no maior número de casos, de senhores desabusados e sádicos com escravas passivas, adoçaram-se, entretanto, com a necessidade experimentada por muitos colonos de constituírem família dentro dessas circunstâncias e sobre essa base. (C&S, Gilberto Freyre)

Pedofilia. Olhe a escrita da palavra, pe-do-fi-li-a, não parece algo singelo? Abstraia o significado que os outros disseram pra você, tente ler apenas as sílabas, sem preconceitos, sem conceitos, sem entendimentos, pe, qual o problema de um “pe”? Pe-pepe-pepe-pepe, cante. Do-dodo-dodo-dodo, brinque com as sílabas. Fiiii- firiri- fifi... Li-lili-liriri-lili...aaaa- aa-aa-aa, aaaa-aa-aa-aa... Divirta-se sem medo, é só uma brincadeira, brincadeirinhaaaaa... É só um olhar profundo, sem fim. Um semi-sorriso enigmático, difícil de entender. Não, não de monalisas, um outro sorriso, canibal, devorador, refletindo aquele sempre mesmo olhar vazio, nojento, parado, quente, fervendo e gelado ao mesmo tempo.

O furor femeeiro do português se terá exercido sobre vítimas nem sempre confraternizantes no gozo; ainda que se saiba de casos de pura confraternização do sadismo do conquistador branco com o masoquismo da mulher indígena ou da negra. Isto quanto ao sadismo de homem para mulher - não raro precedido pelo de senhor para muleque. Através da submissão do muleque, seu companheiro de brinquedos e expressivamente chamado leva-pancadas, iniciou-se muitas vezes o menino branco no amor físico. Quase que do muleque leva-pancadas se pode dizer que desempenhou entre as grandes famílias escravocratas do Brasil as mesmas funções de paciente do senhor moço que na organização patrícia do Império Romano o escravo púbere escolhido para companheiro do menino aristocrata: espécie de vítima, ao mesmo tempo que camarada de brinquedos, em que se exerciam os "premiers élans génésiques" do filho da família.(GF, C&S)

O que fez você estranhar o sorriso enigmático desde a primeira vez que o sorriso enigma lhe sorriu? Se nunca ninguém disse: quando alguém mostrar um sorriso enigma fuja, tenha medo. Porque você teve medo no primeiro instante? De onde saiu esse seu medo? Olhe em volta, depois, quando outros estiverem junto, quando você estiver com outros, outros pequenos e outros grandes, em lugares sem sorriso enigmático, sem olhar sem fundo, e pergunte por que o olhar sem fundo e o sorriso enigma não estarão nunca ali? Que lugar é esse onde o olhar sem fundo aparece? É um lugar no qual o seu destino aparece, o que você realmente deve ser se inaugura e assim será sempre. Para você será eternamente assim.

Nesse período é que sobre o filho de família escravocrata no Brasil agiam influências sociais - a sua condição de senhor cercado de escravos e animais dóceis - induzindo-o à bestialidade e ao sadismo. Este, mesmo dessexualizado depois, não raro guardava em várias manifestações da vida ou da atividade social do indivíduo aquele "sexual udertone", que segundo Pfister, "is never lacking to wellmarked sadistic pleasure". Transformava-se o sadismo do menino e do adolescente no gosto de mandar dar surra, de mandar arrancar dente de negro ladrão de cana, de mandar brigar na sua presença capoeiras, galos e canários - tantas vezes manifestado pelo senhor de engenho quando homem feito; no gosto de mando violento ou perverso que explodia nele ou no filho bacharel quando no exercício de posição elevada, política ou de administração pública; ou no simples e puro gosto de mando, característico de todo brasileiro nascido ou criado em casa-grande de engenho. Gosto que tanto se encontra, refinado num senso grave de autoridade e de dever, num Dom Vital, como abrutalhado em rude autoritarismo num Floriano Peixoto.(GF, C&S)

Por que ninguém fala nada sobre isso e por que eu não posso falar? Vai ver é porque o olhar sem fundo e o sorriso enigma são feitos só para mim, brotam de mim, são meu merecimento. O mundo existe para mim desse jeito, há um precipício, um poço sem fundo, um abismo de um olhar sem fundo e seu sorriso enigma me mostrando ser esse o meu destino, o meu "dever de casa" como os grandes adoram falar, o meu motivo, jogar-me em direção ao olhar sem fundo e ao sorriso enigma e me estilhaçar em deleites vazios. Nunca sei como dizer isso, nunca saberei, só o meu silêncio e uma dor pluma acariciando minha pele inteira, dos pés à cabeça, intimidades uivando gemidos mudos.

Ricardo Benzaquen de Araújo afirma que "o inferno parecia conviver muito bem com o paraíso em nossa experiência colonial", o escravo da antiguidade clássica seria o estrangeiro (não grego, mas bárbaro) acostumado ao poder despótico; o escravo da tradição cristã seria um pecador que, pela punição, se torna uma criança incorporada à casa do senhor. Gilberto Freyre movimentaria o seu texto entre as duas tradições: estão presentes na casa-grande e na senzala tanto o "gosto de mando violento ou perverso" quanto a "luz ambígua da intimidade e da violência, da disponibilidade e da confraternização". (Tempos e Tutelas - contribuição à História da Justiça e do Direito do Trabalho no Brasil, Dinah Lemos, publicado na página do Tribunal Regional do Trabalho - 4ª Região, link Memorial)

Mágico é voltar ao mundo dos outros depois de mergulhar no infinito do olhar sem fundo, eles notam sua reentrada magnífica, mas não sabem por que, e agora o segredo é um novo poder seu. Agora você tem um lugar imune, você o enigma, você sem fundo. Há um doce carisma em ser proibida, escancarada e invisível, devassada e incólume, obscura calma e tranqüilidade aflita. Camaleônica, você se espreguiça entre a lama e a rainha. Que estranho modo de preencher o olhar vazio até o seu fundo e que modo bizarro de abrigar um sorriso inútil.

As noções de normal e anormal parecem dissolver-se naquilo que Ricardo Benzaquen vai buscar em Gilberto Freyre: um mundo real sincrético, plástico, repleto de ambiguidades e quase polimórfico. Esse mundo todo posto em referência a uma norma superior, perversa e eficaz. Insuficiente, porque o mundo real finge que a obedece, o tempo inteiro. (Tempos e Tutelas, Dinah Lemos)


                                         (primeira versão - obras citadas: Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre, Guerra e Paz de Ricardo Benzaquen de Araújo e  Tempos e Tutelas de Dinah Lemos)







Escravismo e Prostituição no Brasil da Era Lula - Parte II

Lee Jeffries
O mal não tem futuro, pois não é originário mas arcaico, anacrônico, e por essa mesma razão antiteológico, nada pode contra a Idéia, isto é, a finalidade da Natureza. Mesmo que a Providência conheça contratempos ou hesitações, sua linha diretriz é a atração do bem como fim e a repulsa do mal como origem sem futuro, ou volta atrás historicamente impossível. O mal é impotência: só pode desdobrar sua potência revelando sua impotência; se o mundo tivesse sido entregue a Satã, não haveria mundo. Isso aí é Kant lido por Patrick Vignoles. Nesta segunda parte do texto Escravismo e Prostituição no Brasil da Era Lula vamos olhar para o assunto "crueldade". Isso aqui é um rascunho, anotações para escrever mais tarde.Não é o texto ainda.

Precisamos tentar entender o processo que levou o país Brasil a um mergulho dentro da radicalidade satânica dos gerenciamentos perversos nos locais de trabalho e nas escolas, justamente em sua primeira experiência de governo socialdemocrata pós ditadura militar; entender o motivo pelo qual João Goulart nos parece, agora, tão mais verdadeiro, mais potência de bem estar social.

Afora os "bárbaros" - os nômades precisamente [os vândalos em 2013] havia os grandes impérios. Todos os impérios, no sentir do poderoso local, eram imensos. Alguns chegaram a ser, à custa de incontáveis mortos, aleijados, torturados, mortos de fome e/ou de peste. Deveras, a glória! As fronteiras destes impérios eram todas de elástico, pois a cada poderoso que acabava de assassinar alguns membros da própria família (família é muito importante) e assumir o poder, o que ele sempre fazia era arrumar um exército de aventureiros vagabundos ou de camponeses sem escolha para ir assaltar e se apropriar de tudo o que o vizinho do lado tinha. Só que dali a pouco - decênios! - o de lá ganhava força e arrasava de volta, e se apropriava do que havia sido "roubado" de seus antecessores. Isso aí é o discreto e modesto José Angelo Gaiarsa. 

Ainda Gaiarsa, nos dois parágrafos a seguir:

Mas durante a batalha, como durante a caçada, os homens desenvolveram a astúcia, a esperteza, qual o melhor jeito de chegar perto sem o outro perceber. Depois, qual o melhor lugar para acertar uma cacetada, uma lança, uma pedrada... Foi assim - no modelo da esperteza implacável da caçada - que os homens desenvolveram todas essas artimanhas que desde sempre dominam as cortes dos poderosos e, ao mesmo tempo, consolidam e distribuem o controle do poderoso sobre todo o povo.

O macho padrão é muito precário, tem pouco interesse pelo lar, se entende mal com as crianças, não trata muito bem a mulher, e isso tudo é "aprendido" em família: "Homem pode", "Não precisa fazer nada". Ele é meio sujo, desorganizado e irresponsável. 

Estou a escrever anotações para falar sobre crueldade no Brasil, lembrando a todo instante que o básico do que estudei está em Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala e na maravilhosa interpretação de Ricardo Benzaquen de Araújo, no livro Guerra e Paz, no qual ele faz uma leitura radical da perversidade como uma estrutura social,  na narrativa de Freyre sobre a cultura brasileira. 

Do nada, agora, me vem à memória aquele dia em que eu, menina de vinte e poucos anos, defendi a divisão do trabalho doméstico em um encontro do Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul, nos idos de 1983 ou 84, não lembro. Éramos pequenos e eu chegava a ser membro de uma tal executiva municipal de Porto Alegre. Lembro bem que o Olívio Dutra disse ser contra essa bandeira porque o certo era todos poderem evoluir para o uso de pratos descartáveis e comida em restaurantes coletivos, e que essa bandeira da divisão do trabalho doméstico era boba. Ele não disse assim, seriamente, disse rindo, que ele jamais lavaria pratos, que a tecnologia resolveria isso. Todos riram e eram todos a maioria esmagadora homens. Lembro vagamente de um outro homem, que não vou dizer o nome porque hoje ele é muito importante, que fez uma brincadeira mais pesada, falando em absorventes femininos, mas os outros mandaram ele parar. Eram brincalhões, queriam debochar do meu assunto, mas não queriam violentar demais. Só um pouquinho ( nas contas deles), o tanto necessário para eu entender que ali o assunto era sério.

                                                          (anotações para a parte II - sem revisão)

Escravismo e Prostituição no Brasil da Era Lula – Parte I


Ó noite onde as estrelas mentem luz, ó noite, única coisa do tamanho do Universo, torna-me, corpo e alma, parte do teu corpo, que eu me perca em ser mera treva e me torne noite também, sem sonhos que sejam estrelas em mim, nem sol esperado que ilumine do futuro.
                                                                                                        Fernando Pessoa  

Quando escrevemos a nossa "Introdução", publicada anteriormente, começamos a estudar os fenômenos (constelações de acontecimentos) nomeados pelas palavras “escravismo” e “prostituição” abandonando as definições consagradas respectivamente como: 1. aprisionamento de seres humanos, sob a definição legal, como no Brasil Colônia e Império, ou como crime, resíduo ilegal de práticas abolidas de maneira consolidada na norma social, na condição de propriedade privada e subordinação a condições de pobreza extrema; e 2.venda regular e cotidiana, a varejo, dos órgãos sexuais e seus invólucros, mediante risco de abuso (sofrimento e dano).

Dissemos que ambos tinham em comum a separação entre o corpo e a vontade do escravo (a) ou da prostituta (o), que o Eu da pessoa ficava apartado de seu corpo, provocando um registro de sensações, impressões, entendimentos no corpo e outro registro diferente no Eu, na memória, identidade, no conhecimento do escravizado ou do prostituído, sendo que a regularidade e permanência dos acontecimentos tendia a provocar o retorno da impressão/conhecimento ocorrido no corpo sobre a memória do Eu. Ou seja, tanto o escravo quanto a prostituta tendiam a introduzir na memória, no conhecimento, no seu Eu a naturalização do fenômeno.

O que vamos estudar hoje é a qualidade que esta partição inicial carrega de permitir e favorecer novas separações em um indivíduo humano. Registre-se uma nota: vamos nos limitar ao estudo dos seres humanos, neste primeiro momento, embora a extensão dos dois fenômenos atinja aquilo que consolidamos chamar de natureza animal e vegetal.

Nossos estudos sobre esses dois fenômenos estarão mergulhados nas reflexões feitas a partir da leitura simples ou do estudo um pouco mais aprofundado de um conjunto de escritores, pensadores, filósofos e poetas dentre os quais listaremos, de um modo impensado e aleatório os que seguem: Michel Foucault, Hannah Arendt, Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Gilles Deleuze e Félix Guattari, Paul Virilio, Ricardo Benzaquen de Araújo, Fernando Pessoa, Qorpo Santo, Paul Veyne, Giorgio Agambem, Gilberto Freyre, Marguerite Yourcenar, Sidney Chalhoub, Elisabeth Roudinesco, Max Weber, Jacques Derrida, Keila Grinberg, Cornelius Castoriadis, Paulo Freire, José Angel Gaiarsa, Michel Maffesoli, Mircea Eliade, Georges Duby, Bertold Brecht, Jacques Derrida, Roland Barthes, Ítalo Calvino e Jean Delumeau.

Listamos estes autores para evitar dois problemas e alinhavar uma solução. O primeiro diz respeito a uma determinada tradição que se propõe a condenar um pensamento à propriedade privada de um determinado escritor, aprisioná-lo, escravizá-lo em nome de direitos autorais, ou em nome de um tipo específico de rigorismo escolar, no qual interlocutores só poderão entender-se ao definirem uma linguagem comum partindo de uma mesma interpretação de um único autor. Isso seria: “segundo fulano, tal coisa”; ora, se dois interlocutores concordam que tal coisa, segundo fulano, é mesmo aquilo que os dois entendem, então passarão ao segundo autor, a um segundo conceito entendido em uma linguagem comum. E assim vai sendo construída uma linguagem oficial, representativa de um grupo social, ou de uma sociedade que alicerça suas representações em autores-inventores e propriedades privadas sobre a invenção.

Ocorre que a invenção só o é no momento em que nasce, tornando-se já outra coisa quando apropriada e redistribuída ao meio por outro sujeito distinto do primeiro enunciador. O próprio meio se modifica e, não sendo o mesmo em um segundo momento, quando a invenção é reapropriada e redistribuída, já não recepcionará a invenção como uma mesma coisa, um mesmo objeto ou ser.  O segundo problema vem a ser o de que a leitura de um texto repleto de citações, além de mais difícil e enovelada em redemoinhos, conduz o leitor à posição de um emudecimento servil, já que as amarrações entre um autor citado, o texto inaugural do autor que se lê e outro autor citado não ficam provadas, restando sempre um céu estrelado de dobras nas quais se perde um conhecimento vedado ao leitor. É como uma pessoa comum assistindo um solo de um exímio artista, seja ele um violonista ou um equilibrista, um atleta, um mágico: sabe o leitor, de antemão, que ele não sabe nada, ou muito pouco sobre como fazer aquilo e que, portanto, não saberá jamais onde estariam os erros, as lacunas, os não-pertencimentos obscurecidos pelo conjunto da obra. Ou seja, quando um texto alinhava uma determinada historiografia de invenções conceituais de forma genealógica, e dessa sucessão deriva uma fórmula, um axioma, uma lógica ele estará irremediavelmente pendendo ao sofisma, mesmo que seu enunciador esteja mergulhando em falácias inadvertidamente. 

Ao listar aleatoriamente os autores que amamos, com os quais enfrentamos momentos difíceis na vida, sem os quais em alguns momentos talvez não tivéssemos sobrevivido e, mais ainda, deixando a possibilidade de citar novos autores ou antigos livros esquecidos na memória que se revela agora, estamos criando uma grande solução: podemos falar sinceramente, sentindo nossa fala como verdadeira e útil e, ainda, apontar caminhos para nossos leitores fazerem seus próprios encontros com os autores que nos ajudaram a encontrar a potência da fala, da escrita. E o texto fica mais limpo, leve, o nosso texto mostrando sua própria cara, dono de si.

A separação entre o corpo e o Eu do escravo (que é também o primeiro ato do fenômeno prostituição) cria, inaugura um fora e um dentro na pessoa humana, tanto no escravizado quanto no seu dono, o proprietário. Esses espaços são tensionados por uma disputa, quando o escravo se propõe a recuperar uma unidade do seu ser e o dono se mobiliza para integrar o escravo em uma unidade de uma coisa que é inteiramente sua propriedade privada.

Você vai dizer, em socorro de toda a história da humanidade e do chão sobre todos os nossos pés, que o enunciado acima serve para qualquer relação entre dois seres humanos, que há um exterior que polemiza em tensões o interior das pessoas, suas identidades, seus desejos, sua psiquê. Eu lhe responderia que o tanto de crueldade e violação inscrito nessas tensões estaria em relação direta à presença do fenômeno escravismo (e em outra dimensão o acontecimento tipo prostituição) abraçando essa disputa entre o ser e o seu dono.

Antes de escrever essa parte um, assisti a uma aula inaugural de Roberto Machado. Ele deve ter aparecido por aqui, na escrita acima. Digo isso para que fique claro que podemos citar autores em meio a nossos textos, nada nos impede. Não só porque a citação deveria ter mais claramente um sentido de ato amoroso, para os que desejam o direito a uma nova autonomia do corpo, da alma e da escrita, mas também porque seria justo, para que fosse possível a fala e pensamento sobre o escravismo e a prostituição, que o enunciador se colocasse razoavelmente fora dos dois fenômenos, inaugurando novidades sobre as formas de manifestação de seu Eu e seu corpo para outrem, como você que me lê agora. Nesse sentido, até mesmo as organizações sociais do uso das roupas, dos adornos, revelam diversos acontecimentos inclusos nos dois fenômenos estudados, pois falar sem ter um dono, sendo uma coisa una (ainda que em movimento) é praticamente estar nu.
                                                                                                                        

                                                 (versão dois - discutindo o significado da palavra sofisma)


O Escravismo e a Prostituição no Brasil da Era Lula - introdução


O Escravismo é uma constelação de acontecimentos. Eles guardam algumas características básicas comuns embora sejam situações de vários tamanhos, imagens e lugares no tempo-espaço. A prostituição é algo da mesma dimensão, uma galáxia de eventos aparentemente distintos, mas contendo elementos comuns definidores de um único objeto de análise. Essas constelações, que algum ramo da filosofia chama de "fenômenos", tem seus componentes socialmente colocados até mesmo em posição antagônica, quando o escravizador é, por sua vez, escravo também e o prostituído compra o corpo de um subalterno.

(Estamos falando de corpos manipulados, invadidos, dobrados, movimentados com crueldade ou cinismo. Falamos sobre a dor no corpo, o cansaço além do desejado, a ausência de identidade entre "eu" e o "meu corpo que é dele" ou "deles". Falamos de fingimento invadindo a identidade de quem finge. Estamos a pensar sobre o quanto um corpo humano pode deixar de ser a manifestação da vontade de quem o habita, do "eu" que o ocupa, e de como esse "eu" pode ser também invadido por esse seu corpo escravizado.)
Tanto o escravismo quanto a prostituição iniciam seu percurso de identidade própria como acontecimento-constelação em uma situação de medo extremo e invasão de um corpo submisso por outro corpo bélico e dominante. Ainda que na sequência o medo seja esquecido e a invasão se naturalize. Ambos, o escravo e a prostituta (essa é uma das poucas palavras nas quais a regra geral do masculino como genérico não tem a exatidão do efeito genérico da palavra no feminino), tipificam modos de vida nos quais estão inclusos tanto pessoas na base da pirâmide social, famélicos,  quanto indivíduos no topo do direito de uso dos valores que a sociedade engendra.

(As falas permitidas, competentes, costumam aceitar que a palavra escravismo signifique somente fome, sujeira, aprisionamento de trabalhadores juridicamente livres. Para as falas permitidas o modo como os encarcerados vivem não é escravismo, porque eles perderam a liberdade num ato jurídico de proteção dos cidadãos supostamente livres. Os loucos aprisionados, legal e ilegalmente, são considerados vítimas de violências exageradas, indevidas, mas a palavra escravismo é mantida dentro de uma extensão e complexidade simplificada, diminuída.)

Os dois acontecimentos-tipo abrigam pessoas que não gostam de estarem nessa situação e, em situações extremas, produzem a sua própria morte, mas também abrigam pessoas que gostam, variando em múltiplos graus de adesão até a adesão máxima, quando  indivíduos submetidos a um modo ou outro de ausência de autonomia sobre seu próprio corpo (que de próprio passa a ser totalmente de outrem) evoluem para uma consciência de si e para uma psiquê que revela ser este o lugar de seus desejos.

(O gerente é um deles. Ele é gordo e assustado e sofre do coração. Ela, a executiva, se move como uma gueixa embrulhada em seu vestido de âncora de mídia grande, seu enorme salto fino do sapato de trabalhar com as pernas sempre cansadas. Ele adora gravatas e sem elas sentir-se-ia nu; ela é dependente, química - é, pois é- de um shopping. Os dois sentem-se pacificados dentro de um restaurante muito, muito caro.)

A proibição de refletir e filosofar livremente sobre esses dois acontecimentos, que não são farta e rigorosamente debatidos em lugar algum, nem em centros universitários e nem no interior, das famílias, e muito menos nas escolas de jovens, alcança a densidade da formação de tabus, que é quando todo mundo sabe, a partir da intuição, e ninguém consegue saber, porque as palavras e as escritas sobre o assunto são proibidas. Sobram apenas alguns textos oficiais circunscrevendo as descrições desses acontecimentos a lugares marginais, fora da Norma.  Na formação desses tabus está o véu que os protege ungindo a ambos com significados simplórios, caricaturais, configurando tanto o escravismo, quanto a prostituição como coisas que "estão lá longe" e jamais "dentro de mim".

(Um tabu é quando você sente como se tivesse nascido sabendo que algo é proibido e não deve nem ser pronunciado, dito em palavras, escrito. Passou pela tua cabeça, alguma vez, a  pergunta sobre se as pessoas deveriam ou não ter a possibilidade de fazer sexo com seus irmãos ou pais? Então, isso é um tabu. O escravismo é sempre ensinado como uma assombração, um crime, um sequestro do escravizado para fora da norma social. A prostituição é um nome que só pode ser usado para significar indivíduos humanos, de ambos os sexos, que ficam abrigados em lugares próprios para seus corpos serem usados por outros seres humanos que pagam para invadi-los, mesmo no caso das escravas de romanas lésbicas que as obrigavam ao sexo oral - é, pois é.)
Muitas perguntas ficam sem resposta quando não podemos refletir sobre os múltiplos significantes que podem abrigar as derivações dos fenômenos "escravismo" e "prostituição". As reflexões de Hannah Arendt sobre como a sociedade alemã inteira aceitou o nazismo na ascensão de Adolf Hitler demonstram a perplexidade a mover o pensamento dessa cientista política, teórica de uma época na qual as sociedades humanas já haviam consagrado o escravismo e a prostituição como fenômenos secundários e marginais, atípicos.

"Mas, de qualquer forma, durante o mesmíssimo período na Alemanha, existiu o fenômeno conhecido como a ‘emigração interna’, e quem conhece alguma coisa sobre essa experiência pode bem reconhecer, mais que num simples sentido formal e estrutural, certas questões e conflitos próximos aos problemas que mencionei. Como seu próprio nome sugere, a ‘emigração interna’ foi um fenômeno curiosamente ambíguo. De um lado, significava que havia pessoas dentro da Alemanha que se comportavam como se não mais pertencessem ao país, que se sentiam como emigrantes; por outro lado, indicava que não haviam realmente emigrado, mas se retirado para um âmbito interior, na invisibilidade do pensar e do sentir. Seria um erro imaginar que essa forma de exílio, essa retirada do mundo para um âmbito interior, existiu apenas na Alemanha, assim como seria um erro imaginar que tal emigração cessou como o fim do Terceiro Reich. Mas naquele mais sombrio dos tempos, dentro e fora da Alemanha era particularmente forte, em face de uma realidade aparentemente insuportável, a tentação de se desviar do mundo e de seu espaço público para uma vida interior, ou ainda simplesmente ignorar aquele mundo em favor de um mundo imaginário, ‘como deveria ser’ ou como alguma vez fora". [Homens em tempos sombrios,  Hannah Arendt, Companhia das Letras, 1987,pg. 26]
Este texto é escrito com o olhar de quem o escreve focado na história do acontecimento "movimento sindical no Brasil". É, pois é. Estamos tentando observar os momentos e as formas em que o movimento sindical brasileiro foi invadido pelos acontecimentos "escravismo" e "prostituição".O que segue é uma reflexão sem rédeas, livre, libertária, dolorosa até, sobre como esses fenômenos se manifestam, como se separam e como se interseccionam, formando um único devir, superfície, fluxo; uma única química.
                                                                                   
      (versão dois. imagem do jornal MULHERIO edição de 1987 - texto sobre bóias-frias)

Abaixo a ditadura, que prende e tortura!


Não estou conseguindo postar no facebook, ele está bloqueado pra postagens, o meu, talvez confusão da rede, talvez experiências de censura, sei lá. Tô postando aqui, provisoriamente, não sei se vai entrar, vamos ver.


A Sonia Severo da Silva pede que eu fale sobre religião e o cristianismo. Soninha, eu tenho menos de meia hora por dia para postar no FB, e embora esse assunto seja muito importante, estou com duas prioridades na pauta deste mural meu: o congresso dos servidores públicos federais (e a discussão sobre o programa judicial eletrônico) e um debate sobre a importância e o significado de Gilles Deleuze, uma versão do autonomismo, que é uma das correntes de pensamento que estão mais próximas da grande tradição anarquista. Preciso atuar nesses dois debates porque estamos vendo surgir, se iluminar, uma ditadura no Brasil que vem sendo construída desde 1990, mais ou menos, e o autonomismo é a única linguagem que tem condições teóricas de defender os meninos black bloc que estão sendo as "Geni" da vez: quando eles eram só punks das ruas ninguém se interessava por eles, embora fossem vistosos e polêmicos, e agora os meninos anarquistas estão sendo presos e agredidos e, ainda por cima, linchados pela esquerda tradicional. Preciso defendê-los, ajudar a resistência a defendê-los. Essa minha atitude esta compatível com o fluxo de uma das mais fortes tradições cristãs: o cristianismo ligado aos pobres e agredidos seres humanos comuns. Penso que o que esse autor que você citou, um intelectual defendendo a inexistência real de um indivíduo Jesus Cristo, quer combater é o modo como o cristianismo acaba servindo ao sistema de dominação imperialista; não vou ler agora, mas desconfio que ele não esteja falando em religião, no conteúdo das religiões, naquilo que dentro da religião é religião e não política. Esses agnósticos e ateus, ou simplesmente racionalistas positivistas, que só miram na figura de Jesus Cristo e o apagam com uma borracha pseudo científica são mais um dos discursos que andam vagando, perdidos, no interior da barbárie que vivemos. Temos discursos perdidos à direita e à esquerda. A barbárie é isso mesmo: uma desconfiguração da cultura hegemônica e o aparecimento de uma salada de frutas de sub-culturas, ou pedaços de tradições desmontadas. A barbárie é visivelmente esquizofrênica. É um verdadeiro coro de náufragos. A civilização do futuro recolherá somente aquilo que for útil ao seu "modo de produção da vida", mas duvido que Jesus Cristo desapareça. Ele, assim como Robim Hood e todas as versões dos guerreiros solitários e sem poder, e Maria Madalena em todas as versões de femininos marginalizados (Joana D'arc, as "Genis" e as bruxas medievais, as Casandras (mito grego da vidente fóbica) e as figuras magras e nuas dos sanyasis, os pregadores do desapego, são arquétipos do bom do ser humano: o cuidado, a compaixão, a entrega aos mais fracos. Nesse caso, há uma linha de ligação entre esse cristo e os blacks blocs que estão apanhando para defender todos os brasileiros do imperialismo senil. Assim que eu conseguir sair da linha de produção das galeras brasileiras, das senzalas e dos campos de cana de açúcar atuais, desse escravismo das telas em rede de programas dedicados à massacrar os seres comuns, quando me aposentar, vou escrever mais sobre religião. Segure o tema pra mim, querida colega. Continue mandando coisas pra eu ler e ver, mesmo que rapidinho. O FB funciona assim e os comuns também. Abração, e muito obrigada!


Sem revisão, mesmo, primeira versão, tentativa de postagem (dois dias depois, uma revisão rápida e postagem permitida no FB, pós leilão de Libras)

Terezinha de Jesus - versão dois - Bar da Rarlet

 
                       
 Licurgo, sentava-se quase sempre à mesa bem do canto, um lugar escuro com visão para todo o bar, uma espécie de guarita de um voyeur. Em sua mesa, a "mesa do Lico" havia um abajur de vidro fosco e rosa antigo com pingentes de cristal branco pendurados. Bebia em geral vinho bom, caro, cabernet sauvignon ou franc, ás vezes merlot ou tannat, garrafa posta ali para durar uma boa parte da noite. Vez ou outra um coquetel feito pelo barman, Marfísio, que ao menos aquilo ganhara em Dallas, o saber fazer coquetéis coloridos, enfeitados com dobraduras que mais pareciam origami, feitas por ele mesmo. O Lico, como era chamado no bordel e também nos lugares onde trabalhava, que ninguém ali sabia direito, achavam que ele era funcionário público, muitos sabiam que era federal, poucos temiam que fosse um polícia desses que trabalha para a CIA, como nos filmes. Todos sabiam que já tinha sido candidato político e depois deixado aquilo por uma confusão sobre a qual ninguém sabia quase nada. Bebia profissionalmente, isto é, bebia para seguir bebendo a vida inteira, um alcoólatra disciplinado, diferente desses mal educados que se desmancham em cachaça e uísque antes dos quarenta anos e depois não podem mais beber pois acabarão sendo internados novamente.
Ele era seboso, embora limpo, e usuário de perfume caro de homem forte. Mas ao mesmo tempo guardava um estilo refinado, com cara de quem é do governo, de quem observa para depois mandar alguém desmontar ou montar algo. Era frequentador regular, falava como um sócio ou parente, metia-se em tudo, mas sempre de um modo discreto, falando baixinho e só com a dona e gerente, com seus ouvidos de pesquisadora de tendências, desejos e opiniões dos clientes assíduos e influentes na comunidade local. E só falava o essencial, deixando de lado malformações desimportantes ao seu julgamento. Naquele primeiro dia do teatro de Ana, Rarlet sentara naquela mesa do Lico tomando cerveja escura e amarga, uma das suas várias bebidas preferidas, naquela hora em que as coisas já se encaminharam, as garotas dançando com os homens do dia e servindo bebidas, enfiadas em micro-vestidos colantes, shorts jeans rasgados, mínimos e abrindo ângulos tórridos de visão das bundas duras e livres, shortinhos ora largos e displicentes, ora bem cortados e quase colegiais; vestidos leves e mínimos, de alcinhas caindo, barras evasiés esvoaçantes como cortinas curtas de voal em janelas com calcinhas bunda adentro entre cheiros e umidades cuidadosamente perfumadas, botas pretas de cano alto, peitos saltando em decotes de meia-taça, cabelos compridos escorrendo em silhuetas de dorsos empinados por lordoses de ofício.
De tempos em tempos, garotas quase nuas dançando em uma barra cilíndrica de alumínio, fixada no centro de um palco colocado no canto oposto ao da mesa do Lico, em uma diagonal traçada da extrema esquerda ao fundo do bar, a mesa do “candidato”, como os estivadores o chamavam, do lado da entrada, discreta e distante do fervo. "Que deu em ti, Rarlet, pra inventar essa velha agora, sem pé nem cabeça, doida?", dissera ele surpreso e irritado, como ficava quando o problema era importante porém ínfimo, quase banal. Já se o caso fosse de proporções municipais ou maiores ainda, como os grandes problemas políticos nacionais e de vários outros países daquele tempo, Licurgo deslizava com naturalidade para uma atitude calma, irônica e discreta, como um entendido capaz de decidir. A bugra atriz tinha dito coisas pra ninguém entender, ali no palco, no começo de uma noite fraca e um tanto vazia, uma ladainha de louca de rua, sobre uma tal menina falando segredos sozinha e depois música de criança cantada por ela como velha em procissão…uma cena estranha e inesperada a deixar os poucos homens presentes e as putas surpresos. As mulheres mesmo estranharam, umas riram, outras amarraram a cara, antevendo. Rarlet sorriu quase nada ao beber um gole bom e passar a língua nos lábios antes de explicar ao Lico: "ela tá pagando, é só uma noite, das mais fracas, entra mais um dinheiro, e é um teatro, uma coisa nova para atrair gente.  Dona Ana, o nome dela, e o preço é bom, tô deixando ver o que acontece. Sempre posso dizer que assim ou assado não quero e ela vai ter que mudar. Vamos vendo... “. O Lico respondeu, "Tu  perguntou o nome todo dela? De onde vem?", o candidato era um investigador desconfiado, "parece louca", disse. Ao que a cafetina respondeu ser certamente uma hiponga de cidade grande, pelo sotaque do extremo sul do Brasil, uma daquelas tantas mulheres mais velhas e cansadas de tantas aventuras vividas, aquelas que vinham para a beira do mar sozinhas e acabavam se enfiando em um dos tantos centros exotéricos e religiosos que havia naquela região. Era provavelmente uma atriz fracassada,  o teatro uma brincadeira para a mulher se distrair. ” Não parece brincadeira, parece uma charada idiota, uma tristeza de mulher velha, um papo de doente mental”, falou Licurgo, ao que a dona respondeu, dura: "ela está pagando, aqui todo mundo paga e quase nunca é bem uma brincadeira e eu falo com ela para acertar o que pode e o que não pode ser".
                              Durante a conversa de Halê com o candidato (naquele lugar todos tinham apelidos, às vezes mais de um), Ladisleine dançava na barra um “pole dance” lânguido, quase triste, também pensando nos sentidos possíveis para a fala da velha, a tal Ana, aquele teatro mais parecendo brincadeira de criança solitária com suas bonecas; a Leine com seu corpo perfeito de Cinderela, de modelo, de miss, pele e cabelos dourados, olhos amendoados e cor de mel claro; a Leine fria e quieta, distante sempre, não fazia amizade com as outras, dava uns sorrisinhos enigmáticos e ausentes, respeitada e invejada por todas por ser a mais cara, mais valiosa, mais jovem e possuidora de uma atitude estranha, parecendo desprezar tudo aquilo, tudo no mundo, toda a vida  de todos ali. Dançava pensando na atriz: de repente a velha fora parar no palco, arrastando umas tralhas, uns panos, sacolas, uma boneca barbie amarrada em uma faixa enrolada do ombro ao outro lado do quadril; dona Ana sentara-se no chão do palco, pernas cruzadas, com as coisas a sua volta. Rarlet, como combinado com a velha, mandara apagarem as luzes, menos aquela na base do palco. A velha havia demorado tempo demais, ali parada, imóvel, os outros já preocupados. E quando todos já estavam olhando demais, focados, falara: "Nunca entendi como ele conseguia fazer aquilo, como naquela festa de natal, a família inteira reunida e circulando em uma confusão de senta e levanta, alcança bandejas de salgados e doces, enche e esvazia copos, risadinhas e vozes de todo o tipo e ele me olha, então, em um rápido instante em que ficamos sós em meio a todos, como se os outros estivessem em outro mundo, outro plano paralelo, súbito só eu e ele, sem testemunhas, e ele empurra sorrateiramente uma pequena barra de chocolate tirada do bolso de seu paletó, empurra na mesinha do canto, olhando pra mim daquele modo cúmplice e safado que me dava nojo e medo, e eu sorrio fingindo gostar, colaborar, e ele diz baixinho, 'pra ti', e eu pego o chocolate e guardo no bolso do casaco. Aquele 'pra ti' nojento". Ai, a velha silenciou, passou a mão na boneca, lentamente, e continuou: "Todos não vendo como se vissem e nos deixassem a sós, como se fosse um direito dele ter esse plano de vida só comigo, como uma lei, a mim só restando fingir gostar, um fingimento cheio de medo e nojo escondidos em meu sorriso de menina que seduz todos os homens do mundo". Dona Ana havia encenado, falando ora como quem conta história pra criança dormir, ora como uma batuqueira das mais fortes baixando preto velho. Ela falou tudo aquilo e desembestou logo, direto, em uma musiqueta cantada com voz de sertanejo antigo: "Terezinha, de Jesus, deu-se a queda e foi ao chão, acudiram três cavalheiros, todos os três de arma na mão…o primeiro foi seu pai, o segundo seu irmão, o terceiro foi aquele…”. E a velha parou naquele ponto da música, naquele “aquele”, deixando o tal aquele sumir aos poucos como um mantra budista, de olhos serrados, apertando a boneca no peito, a susie pelada e de cabelos loiros desgrenhados, segurando a voz sumindo um tempo de causar surpresa e chamar atenção, e súbito levantou e saiu do palco, agarrada nas tralhas, de cabeça baixa, envolvida em um sumiço abrupto. Indo embora sem se despedir de ninguém, mesmo porque ninguém a conhecia; só pegando e saindo porta afora. Leine dançava absorta, pensando em toda a cena da velha, pensando na velha, e em dúvida sobre o que pensar.
Licurgo, lá no seu canto, ficou não gostando daquilo. Rarlet, curiosa, iria conversar com Ana, saber seu nome, ver por onde a mulher já não tão nova e com aquela trança grisalha desejava ir. Leine dançava enroscada na barra de alumínio uma dança lenta, alongada, luxuriante pensando em Terezinha, a Terezinha da dona Ana, as terezinhas tantas, tão meninas dos homens do mundo.