Escrituras Heréticas - blog da Dinah Lemos

Por causa dela




Uma conversa com moças feministas motivou um comentário meu que acabou sistematizando ideias sobre os problemas do feminismo dentro da resistência à barbárie no Brasil (e no mundo). Falávamos sobre os limites da figura do Lula, o Luiz Inácio, e sobre esses limites dentro da precariedade atual da resistência brasileira, tanto orgânica quanto teórica. Nesse ponto, uma das meninas perguntou: "a saída, então, é feminista?". Minha resposta precisa ser amadurecida e melhor explicada, mas começa assim:

O problema da saída feminista (estamos falando de um novo mundo inaugurado em ruptura com essa hecatombe capitalista) é sua potência de justiça e justeza. O feminismo do século XIX tinha justeza (cabia bem certinho na época) e justiça (era sincero, acreditava em si), em suas reivindicações centrais de direito ao trabalho digno (e não apenas para operárias pobres), de direito ao voto e ao estudo. O feminismo da década de 60 tinha justeza (articulava-se às novas possibilidades culturais e técnicas do próprio capitalismo em uma fase ainda de expansão das forças produtivas) e justiça (radicalizava a bandeira da liberdade em um sentido ético pacifista). Mas o feminismo do início do século vinte e um empacou ao não romper com os limites da esquerda tradicional, tanto a socialdemocrata quanto a de tipo soviético burocrático: ele não tem justeza porque não rompe com o capitalismo em um momento histórico em que as forças produtivas estão sendo contaminadas por máquinas perversas e não tem justiça porque suas lideranças fingem autonomia, crença em si, mas sabem que são apenas um braço de articulações partidárias controladas e construídas por cúpulas compostas por homens. Temos, então, o feminismo da ONU, da Hilary Clinton, que quer dar validade a um projeto genocida do capital financeiro ao oferecer-se como bloqueador de danos e franquia ideológica legitimadora. Temos o feminismo cristão, que se mantém subordinado aos líderes homens e sua tradição teológica e o feminismo da esquerda tradicional, que sempre foi e continua sendo o "departamento feminino do partido", e foi cooptado pelo feminismo da ONU ao centrar bandeiras em aspectos legais e punitivos da violência transbordante. Finalmente, temos o perigoso feminismo radical que perde a justeza por descolar-se de seu tempo sombrio, levantando bandeiras de liberdades possíveis em 1950, mas inviáveis em cenário de guerra civil e militar intermitente e dentro da mais avassaladora barbárie (meninas de shortinhos são presas indefesas de uma selvageria estúpida e precisam deslocar-se sob proteção), e não tem justiça, porque a principal bandeira feminista do "direito ao próprio corpo" foi metamorfoseada em um direito estranho e inovador, que admite o corpo humano como máquina e, portanto, passível de ser fabricado, montado e desmontado pela sofisticada tecnologia de produção de corpos-máquinas, simulacros de corpos humanos. E essa é a grande polêmica sobre ética que o pessoal da tecnologia de ponta e do capital financeiro evita para impor sua versão de um mundo novo, mundo Matrix, marcado pelo apartheid de duas espécies humanas distintas e de diferentes tipos de campos de concentração neonazistas.

A saída feminista está em uma inovadora justeza (semelhante à do Papa Francisco), onde as lideranças feministas ousem buscar uma sinceridade fora do controle dos partidos das tradições masculinas, sinceridade teórica, epistemológica, aberta ao debate entre "irmãs" e longe do "partido". Sobretudo, a saída feminista depende do caminho que vê uma justiça na condição de sexo (mulher, homem e gêneros híbridos) a partir do direito às memórias de longa duração (tradições) combinado (aí sim, livremente) com direitos fundados pelo conhecimento da tecnologia inventada pela humanidade. Mas essa tecnologia precisa ser pensada pelo conjunto da resistência, pelo pensamento humanista reinaugurado dentro de um foco anticapitalista. E, nesse caso, a liderança feminista precisa colocar-se no interior do campo de produção de uma nova liderança brasileira e mundial para o pensamento, ou melhor, a práxis de esquerda.

Talvez a saída precise do Luís Inácio, não sei e não acredito em purismos, ainda mais estando tão ameaçados como estamos. Mas talvez o Lula não consiga erguer um novo voo sem uma bela e poderosíssima jovem mulher de candidata à vice, uma mulherona, um mulheraço capaz de despertar a ideia "eu vou votar no Lula por causa dela".

(ilustração encontrada no site https://catracalivre.com.br/geral/arte-e-design/indicacao/as-melhores-ilustracoes-de-frida-kahlo/ )

Lalalá


Tento ler esses textos de sites e blogs, textos de homens quase sempre, homens de 50 a 70 anos, um pouco menos, um pouco mais, e acabo parando no quarto ou quinto parágrafo. Eles querem dar uma arrumada geral na política brasileira, desejam um grande acordo. Como se todos os homens velhos e com nível superior devessem se reunir, escrever um projeto cheio de "protocolos", entregar para o Lula, para o Ciro, para o Requião, para o Caiado, para o Nelson Jobim e muitos outros e forçar esses possíveis líderes de todos os brasileiros a retomar um grande acordo nacional. Os homens mais velhos, em geral brancos, sabem que precisam inventar um acordo eficiente. Só que a distância entre o saber deles e a necessária potência para que isso se realize é abissal. As mulheres jovens e estudadas, blogueiras e ou navegantes da web, assistem os vídeos do Lula falando e não conseguem sentir/ver potência. Elas notam o quanto ele parece um homem exausto. Todos eles parecem velhos demais. Não por serem mais velhos, mas por serem responsáveis pelo que aconteceu com o Brasil de 1988 em diante, até o desastre absurdo e quase sem sentido do governo Temer. As mulheres jovens e estudadas  em geral não contam para ninguém que não creem em um acordo entre elites políticas, elas experimentam em seus corpos um animal político muito jovem, que não sabe ainda falar. Elas são bonitas, inteligentes e não param de pensar, ver e pensar novamente. Só precisam de tempo para encontrar linguagens e falar. E elas não têm pressa. E os moços estudados gostam dessas meninas, e como gostam...

Cartas abertas à esquerda gaúcha


Joguei as cartas do Tarô, à minha modesta maneira. Eu jogo três cartas, a primeira é o problema, a segunda é a solução, a terceira é o caminho. Desta vez deu, nessa ordem: o louco, a força e a morte. Resumindo ao máximo: o problema é o caos atual no mundo, a solução é um novo ordenamento e o caminho é a total e radical transformação das mentalidades. Disso derivou o texto abaixo, dedicado aos meus companheiros mais sofridos de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, na véspera do Natal. Escrevi num impulso, peço perdão pelas falhas, revisarei depois de amadurecer a reflexão.

A tese de que o Psol cravou uma alavanca (impulsionando o MBL) em 2013 para derrubar Dilma e o PT é trágica, porque orienta as lideranças intermediárias do PT a buscar culpados dentro do campo da esquerda. Essa tese foi inventada para combater movimentos sociais dissidentes e para alavancar uma disputa eleitoral dentro do campo da esquerda, tanto para eleições do executivo e legislativo, quanto para eleições internas aos partidos e relacionadas a disputas de direções sindicais e de diferentes movimentos sociais. Essa tese iniciava no pressuposto de que a direção do PT tinha o controle eficiente da frente com o PMDB, no controle do governo federal, e que esse controle levaria o PT até às eleições de 2018, onde o inimigo seria o PSDB. Dentro dessa tese está a compreensão de que toda a revolução da informática, que acabaria por inaugurar um novo modo de produção do ordenamento social e da vida cultural no planeta inteiro, essa revolução toda era NEUTRA, era apenas tecnologia eficiente, e que esse novo modo de produção seria NEUTRO em relação ao ordenamento jurídico e politico das nações, bastaria gerenciar todo o acontecimento de um modo reparador dos danos causados pelo capitalismo aos subalternos. E a direção do Psol pensava da mesma maneira, pois era conivente com a mesma tese, mas em sua contrapartida de oposição, de que a revolução da informática era neutra e a direção do PT conduzia seu gerenciamento de um modo deformado, ineficiente. O fenômeno que derrubou o PT de uma maneira insurrecional (um golpe unindo forças de junção inconsistente e utilizando meios de natureza extralegal) não era originário em desenhos partidários formais brasileiros, era um fenômeno mundial e nascido da necessidade ORGÂNICA das FORÇAS PRODUTIVAS que pediam um novo MODO DE PRODUÇÃO DA VIDA HUMANA, ANIMAL E VEGETAL. E o que alavancava essa necessidade, o que engravidava o Planeta de uma urgência, era a parte -dentro das forças produtivas- que equivalia ao conteúdo tecnológico, as máquinas, os saberes cibernéticos. Nem o PT e nem o Psol, em suas direções, sabiam disso. E isso é um pensamento fundado por Karl Marx, e de fácil aplicação. Por que não conseguiram ver? Por que não viam (e ainda não veem) a cibernética como uma produção de máquinas, viam-na como uma beleza estranha, uma novidade adorável, uma sereia inevitável.
E o que impede os dirigentes do PT e do Psol de fazerem essa auto-crítica? Um transtorno coletivo de natureza psicológica, derivado da crença CRISTÃ (predominante no PT e influente no Psol) de que não ver o DIABO e pactuar com ele seria um pecado capital. É essa ideia cristã de origem PATRIARCAL que sustenta a compreensão de que o LÍDER tem que ver toda a verdade e se não o fizer tem que ser sacrificado. Na origem PATRIARCAL dessa ideia acoplada ao mito cristão está a lógica do MACHO ALFA, o que comanda o rebanho, o que deve subjugar os machos mais fracos e todas as fêmeas, pela força (que foi sempre o valor predominante como inteligência durante toda a história da humanidade até o século XV, quando começa a fragilizar) e, se não o fizer, será deposto  e, importante, ABANDONADO à morte. Esse mito cristão do MACHO VENCEDOR IMUNE AO PECADO ordena toda a ética das nações ocidentais do mundo humano, ele produziu a genética original da esquerda tradicional, a que existiu até meados do início do século XXI.
Assim, para sair de dentro desse luto transtornado, a parte ainda vital da esquerda brasileira precisa relembrar-se do que ocorreu com os negros africanos por ocasião da chegada dos espanhóis e portugueses na África, quando as tribos dominantes vendiam aos colonizadores e escravocratas os prisioneiros capturados das tribos vencidas; precisam relembrar-se do que ocorreu com os indígenas das Américas pré-colombianas (Chile, Peru, Bolívia, Venezuela), quando os espanhóis foram entendidos como “deuses aportados nas praias” e reverenciados. A parte sobrevivente da esquerda brasileira, a composta por pessoas que ainda não têm seu conteúdo emocional afundado numa trama de dor irreversível, precisa – URGENTEMENTE- romper com essa mitologia machista, patriarcal, arquetípica, do MACHO VENCEDOR IMUNE, para que possa se perdoar, perdoar seus líderes e acolhe-los como membros participantes da comunidade, ainda que depostos como dirigentes. Precisamos que a esquerda sobrevivente rompa com o mito do pecado original, de que a pena – aos que erram – é o martírio, a tortura, o degredo, a crucificação. E eu estou falando aqui sobre – e contra – o DIREITO PENAL inscrito nas lógicas do DIREITO COSTUMEIRO, direito vivido.
 Eu falo contra o martírio. Será preciso que todos os crentes que amam a vida e a humanidade, que professam a fé na compaixão, na fraternidade, na liberdade e na dignidade humanas, realizem em suas mentes o entendimento de que  SE JESUS DEVESSE VOLTAR, SE ESSE FEITO DEVESSE SE REALIZAR SÓ PODERIA NASCER DA NECESSIDADE DE QUE TODOS OS HOMENS E TODAS AS MULHERES DESCESSEM DE TODAS AS CRUCIFICAÇÕES, na condição de “Jesuses e Jesusas” (reencarnados)  E VIVESSEM UM INAUGURAL E DIVINO PERDÃO. O mundo humano não carece de um único Jesus, a eficiência divina só poderia brotar de uma gigantesca multidão abençoada como possuidora de Deus dentro de si, como sendo o próprio Deus.

Parem de brigar entre amigos, meus companheiros, pelo amor dos deuses de cada um. Pelos Jesuses e Jesusas que estão sendo crucificados na atualidade. Comunguem em compaixão.

A Verdade é a nossa única arma


                Qorpo Santo foi o codinome - nome de guerra - que um gaúcho considerado louco se deu, lá por 1865, época em que escreveu várias peças de teatro vindo a se tornar, cem anos depois, um dos ícones do teatro nonsense brasileiro. Lembrei-me dele quando comecei a investigar sobre a hipótese de que o que se abate sobre os brasileiros nada mais é do que um processo em parte planejado e em parte fruto de uma configuração relativamente autônoma das dinâmicas de nosso tempo de declínio de uma civilização chamada de “moderna”. Autônoma no sentido de ser resultado de uma configuração complexa e global de memórias em desabamento. Planejado no sentido de ser um novo tipo de guerra, consequência do que chamaram de globalização, mundial portanto.

   Da wikipédia: "Gaslighting ou gas-lighting é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima.
           O termo deve a sua origem à peça teatral Gas Light e às suas adaptações para o cinema, quando então a palavra popularizou-se. O termo também tem sido utilizado na literatura clínica".


                                De certo modo, todo esse processo engendrado pela articulação do modo de gestão da "sociedade do espetáculo e das multidões", como um projeto de Guerra Mundial contra os "matáveis", os "humanos descartáveis", se utiliza de instrumentos que podemos verificar nos estudos sobre esse modo de assédio moral que a wikipédia apresentou acima. O modo como a repressão avança no Brasil tem essa matriz: ela anuncia os dissidentes, a oposição, como loucos, inadequados, retiráveis de cena. Do mesmo modo os escravos foram retirados de seus cenários na África, no início do escravismo brasileiro moderno. E eles só conseguiram resistir em Quilombos que nada mais eram do que criação de território real e simbólico. A maioria dos escravos que conseguiram reduzir os danos, ganhando qualidade de vida em meio ao sistema escravocrata, o fez aderindo ao branqueamento, que eram estratégias perversas de esquecimento da africanidade e de adoção de memórias elitistas, autoritárias, formadoras futuras de uma determinada "classe média" autoritária e transtornada, paranoica e estúpida, com a qual convivemos até hoje. 

                                    Entendo que o que sofremos hoje, no Brasil, não é uma ditadura, embora a gente possa xingar e chorar usando esse termo, não faz mal. Estamos sofrendo mesmo. Mas uma ditadura é um conjunto orgânico mais lento. Brincando um pouco: uma ditadura é um "troço" que é para ser um dinossauro, ela é um acontecimento de tipo "nacional" e ela acontece em países considerados inferiores, do ponto de vista da civilização moderna (que hoje desaba): latino-americanos, ou de predominância cultural dentro do espectro muçulmano, ou Islâmico, ou oriental (a grosso modo porque isso é infinitamente complicado). Mas como isso (que nos humilha tanto e impõe a nós a risada assustadora de verde-amarelos loucos e idiotizados) é uma guerra, isso é feito ao mesmo tempo em países de ponta da civilização moderna (França, Grécia, digamos a Europa inteira, quase), claro que em desenhos diferentes. Isso pode ter vários episódios assustadores para logo, logo se abrir em uma festa participativa e "democrática", claro, conduzida pelo reino da grande mídia. Uma guerra tem exércitos diferentes e tem trincheiras, que podem ser móveis. Uma guerra tem alvos imediatos e secundários, e obedece lógicas militares, de ocupação, de destruição das defesas inimigas. Isso que sofremos não é um regime, isso não é um acontecimento econômico explicável por planilhas de gastos, custos e produtividades. Hoje a Rede Globo só fala sobre Cuba, de um modo idêntico a uma ditadura, construindo uma imagem com se Fidel e Mussolini ou Franco fossem uma única e mesma alma, contorcendo-se para fazer isso, durante o dia inteiro. E toda a esquerda mundial dobra-se em reverência apaixonadas por aquele povo, daquela pequenina ilha, que se afirma (negramente) socialista. E a Globo precisou deixar um documentário mostrar um jovem cubano dizendo: "Não, não um novo socialismo. O mesmo socialismo. Seguiremos socialistas". 
                                    Quando uma guerra termina? Quando o exército vencedor aceita parar de atacar e aceita fazer um acordo de gerenciamento do conjunto do poder sobre as sociedades envolvidas. Precisamos entender o que o conjunto das famílias que sustentam o tal G8 têm em mente. Onde eles pretendem chegar? Qual é o projeto deles para os próximos 50 anos (de redução populacional no mundo, por exemplo, ou de construção de um mundo jurídico para duas espécies humanas distintas). Não basta colocar a juventude na linha vermelha. A julgar pela dinâmica da primeira guerra mundial, onde as trincheiras eram matadouros permanentes, os jovens acabarão desistindo. Precisamos visualizar com nitidez o inimigo. E se essa guerra é apoiada em estratégias de gaslighting (enlouquecimento do cenário, do real) então precisamos imbuir-nos de espíritos de Qorpo Santo e precisamos construir territórios simbólicos imunes - quilombos emocionais e filosóficos - onde a resistência possa, como dantes, falar a verdade, sinceramente. Falar, por exemplo, que o Fidel Castro perdeu a voz ao microfone ao anunciar as nacionalizações e estatizações de grandes empresas estrangeiras, no início da revolução cubana vitoriosa, porque a grandeza de um país soberano foi grande demais para a garganta dele e seu frágil corpo humano, naquele infinito e eterno momento histórico. Um país soberano, ah, ah, diria Qorpo Santo, ah,ah,ah!!!

DEBATE – SOBRE EUTANÁSIA – Paulo César Teixeira, Dinah Lemos, Nico Sales e Arlete Cunha


 “Holanda cogita autorizar suicídio assistido a quem ‘cansou de viver’. Proposta do governo contempla ajuda para a morte de pessoas que acham já ter vivido o suficiente, apesar de não estarem doentes, nem enfrentarem sofrimentos”. Essa é a manchete e a abertura de um artigo no site brasil.elpais.com e a matéria foi escrita por Isabel Ferrer. Postada no facebook pelo escritor e jornalista gaúcho (brasileiro) Paulo César Teixeira, conhecido como Foguinho, gerou um debate reproduzido aqui, em formato editado pelos participantes. Direito, inovação ética? Cruel abandono?
Paulo César Teixeira -  Reconheço que é uma questão complexa, que abala profundamente estruturas culturais e religiosas, mas também tendo a aceitar como uma escolha irremovível do indivíduo. Não é na Holanda que os templos estão sendo substituídos por livrarias, por falta de crentes? Não deve ser por acaso. Soube também que em outro país avançado nestas questões culturais - o Canadá -, a legislação passou a respeitar o costume de tribos indígenas de o filho abandonar o pai, já ancião, nas geleiras do norte, para que ele aguarde a chegada da morte. Penso que segue, de algum modo, uma trilha paralela. Lembro de um professor de Antropologia canadense comentar isso quando fiz filosofia na UFRGS nos anos 80. Há também relatos parecidos em comunidades do Japão. Curioso, não? Diferentes geografias, costumes alinhados.
Dinah Lemos  -  Um grande tema aqui. Eu não abro mão, não consigo pensar de outra maneira a não ser que não posso abrir mão da referência fundamental de que um ser humano vivo deve usufruir do direito de amar a vida e se entender com ela, com angústias e medos, mas com histórias vividas sobre isso, e superações, até a hora em que seja levado pela morte. A morte como um lugar dentro do território sagrado, onde não devemos querer entrar. Sim, a passagem, o momento admite a intervenção humana para a possibilidade de uma morte sem dor. Por outro lado, claro que uma pessoa que tenha seu "território simbólico" totalmente desaparecido deveria ter a possibilidade de morrer, mas, eu sempre pensaria em vê-la encontrar novos espaços, novos encontros, ainda que em um lugar estranho. Acho que uma pessoa levada para dentro de um "centro de encontro de velhos solitários" poderia ter bons momentos com outros solitários. Mas não um asilo depressivo.  É claro que se o território onde a pessoa solitária está é ruim, frio, desagradável, e se essa pessoa tiver 80 anos ou mais, ela poderá vir a desejar a interrupção de sua vida. Mas os esquimós e outras nações antigas tinham que lidar com a perda de saúde dos velhos e o medo das doenças da velhice e das mortes terríveis. Era de se esperar que houvesse uma tradição assim, deles buscarem eutanásias que os protegessem dessas doenças terminais da velhice. Mas hoje o mundo é outro, a medicina é outra. Não dá pra buscar exemplos da antiguidade e aplica-los em um território tecnológico e simbólico totalmente distinto. Eu não falo no direito sobre o próprio corpo, eu falo sobre o direito a ter oferecido para si e pela coletividade afeto, qualidade de vida, solidariedade, ternura, vontade de viver. Ora, se há um sentimento de abandono e a vontade de morrer para evitar a solidão, eu penso que há algo muito errado e cruel na coletividade, e isso deveria ser arrumado, antes de naturalizar a morte de velhos deprimidos. Mais um indicador da minha opinião: prefigurações de um novo direito, no qual a perda da qualidade de vida passaria a ser um acontecimento natural a produzir um inédito direito à morte. Noções de administração dos fetos e dos velhos antes da morte. A morte e o nascimento como acontecimentos agora fabricados, disciplinados, controlados por um sistema higienizador das regularidades humanas.
Paulo César Teixeira  - Como falei antes, Dinah, respeito a complexidade do tema, antes de tudo. Mas não me sinto capacitado a analisar culturas tão distintas apenas pelo viés tecnológico. Também não creio em evolução histórica, no sentido de que os tempos atuais são necessariamente melhores em comparação com os anteriores. Essa racionalidade me escapa. Por fim, também não creio que as soluções buscadas pela coletividade irão solucionar todos os impulsos e mistérios do ser humano. Em resumo, estou bem longe de concordar contigo.
Dinah Lemos - Entendo o que você fala e acho também que tem cabimento em nosso mundo. Também não quero dizer que, em nome de um suposto "direito à vida" abstrato, uma pessoa velha em agudo sofrimento psíquico de solidão não possa ficar tomando calmantes fortes até seu coração parar enquanto ela está dormindo. Aceito sua opinião, apenas, como historiadora, tenho a tendência a ler o processo histórico. Foi isso que tentei fazer. Mas é um grande debate...
Paulo César Teixeira - Não concordei com o modo apressado com que você fez a leitura do costume das outras civilizações. Você as leu pela ótica e racionalidade de nossa cultura, o que considero um erro crasso, que, no entanto, é bastante comum em nosso meio. Mas estamos sempre juntos.
Dinah - Bom, eu digitei uma resposta ligeira, Foguinho. Não é minha intenção resumir o olhar a um filtro apenas. Registrei um significado que acredito estar lá, naquele acontecimento e que não estaria aqui, não obstante acabe sempre estando, uma vez que os velhos pobres morrem sofrendo muito e que os mais pobres sofrem desde os 40 anos, com as perdas dos dentes e muitos sofrimentos. Eu vejo isso aqui onde vivo. Então eu não fiz a leitura de toda a riqueza de conteúdos daquelas culturas, apenas fiz um registro que se colava na minha subjetividade sobre o tema. Acho até que esse tipo de eutanásia desvelaria a má qualidade de vida de muitos, nesse século vinte e um terrível, eu não sou contra a sua reflexão, pensando bem. Aceito a ideia em debate, sobre a lei que permite, mas defenderia que as pessoas fossem estimuladas a tentar viver ainda e buscar algo novo, ainda.
Paulo César Teixeira -  O que mais me atrai nesse tema _ e me levou a compartilhar o post _ não é qual a melhor lei, a melhor política social a ser aplicada, e sim o quanto uma iniciativa dessas, tomada por um governo constituído, estremece as profundezas de nossas crenças e certezas mais arraigadas. Entende? Não estou em busca de uma resposta. O abalo que a discussão provoca me satisfaz, e é ele que vai abrir caminho para futuras respostas.
Dinah Lemos  - Sem dúvida. Aliás, estão entrando falas mais "vivas" e deixando de ter sentido as falas de propaganda de um conceito simples. Há algo novo acontecendo, tá na cara...
Arlete Cunha  -É uma grande discussão! Deixo aqui uma HildaHilst: "Os cascos enfaixados para que eu não ouça o teu duro trote? É assim, cavalinha, que me virás buscar? Ou porque te pensei severa e silenciosa, virás criança num estilhaço de louças? Amante, porque te desprezei? Ou com ares de rei, porque te fiz rainha!"
Paulo César Teixeira  - Que ótimo!
Nico Sales  -Existe também a motivação econômica de um país (e um continente) com uma população cada vez mais idosa e longeva. De certa forma essa proposta "dá conta" disso e todos os gastos públicos com esse contigente crescente de pessoas..
Paulo César Teixeira - Gente, a proposta não é de extermínio em massa de velhos. Pelo que entendi - e não estou defendendo a proposta, apenas gosto do debate que ela provoca -, é uma brecha na legislação para que seja possível o "suicídio assistido" em casos rigorosamente excepcionais, em que a pessoa não deseja mais viver, ainda que não esteja doente ou com dores insuportáveis. A bem dizer, é uma eutanásia da alma. Não creio que possa ter qualquer impacto minimamente significativo nos custos econômicos com a população idosa.
Nico Sales - Mas não parece arbitrária a limitação etária? A mim parece, e por isso vejo pelo viés da economia...
Dinah Lemos - Adolescente se matando já tem muito, os índices de servidores públicos também estão aumentando no mundo inteiro. Há uma diferença entre suicídio e a tal de eutanásia, ou algo do gênero. O suicídio não precisa de permissão. Ele ocorre. E de várias maneiras. Esse acontecimento é uma morte induzida por medicação, algo não traumático e indolor. E sem culpa de ninguém. Então, é realmente em uma situação de dor emocional crônica, grave e sem recuperação e precisaria de uma junta médica... Precisaria de um entendimento, um laudo, psiquiátrico de que o sujeito esta em pleno gozo de sua capacidade de escolha, de que ele está convencido de que sua dor emocional não tem cura (que conversa, eu vi algo parecido no diretório nacional do PT, em 1986, quando as feministas levaram a bandeira do aborto e alguns dirigentes mais jovens se botaram a comparar com esse debate, sobre a autanásia. Conversas sobre limites da vida. Na época, eu fiquei furiosa e decepcionada. Pensava eu que eles estavam atrapalhando ao “aumentar o tamanho do conjunto temático”).
Nico Sales - Pois é. Mas acho interessante de qualquer forma a discussão também. Li algumas opiniões sobre essa notícia e fiquei me perguntando, nessa mudança de paradigma sobre a morte e a relação disso com o Estado: suicídio assistido é mais autonomia ou mais regulação?
Dinah Lemos - Aí entra o que o Foguinho colocou em debate. O suicídio, creio eu, ocorre, ponto. A palavra carrega um tabu e uma natureza paradigmática. O que o Paulo César Teixeira colocou em análise, creio, foi algo dentro da seguinte dimensão: o sujeito é mais velho e infeliz de um modo crônico. Bom, se o Estado regula isso (sim, é mais regulação estatal), então a figura da pessoa cronicamente infeliz, de um modo devastador, ganha o direito (isso é filosofia do direito) a sair de cena com o apoio da sociedade civil e de sua Cultura (coloco em maiúsculo para diferenciar do significado mais diminuto, de um conhecimento adquirido ou de memórias étnicas. Falo de um conjunto paradigmático presente no senso comum). Entra aí um conteúdo cultural que é totalmente distinto do que o cristianismo instalou no mundo desde dois mil anos. A vida passa a não ser apenas 'vida nua" (Agamben), ela se torna um acontecimento político mais complexo e o Estado poderá favorecer, em sua regulação jurídica, outros quadros de final da vida e começo da morte.
Nico Sales -  Sim.. a minha dúvida é qual o embasamento filosófico que limita essa assistência à terceira idade. Não porque me interessa que haja uma ampliação da lei, que nem sei se concordo, mas porque não vejo justificativa que não me faça ver a limitação como uma hipocrisia e como uma medida de alívio dos gastos públicos.
Paulo César Teixeira  - Sob esse ponto de vista, estou inteiramente de acordo com a perspectiva que o Nico abre para a discussão, muito mais abrangente em comparação ao ângulo meramente econômico. Não bastasse regular todos os aspectos da vida, o estado também se julga capaz de regular a morte do indivíduo. Muito Foucault isso, hein?
Nico Sales -  Pois é. Tensionei a questão da idade para pensar a base ética da proposta e suas ressalvas (e o que isso revela de interesses nela contidos), não por acreditar que a lei deva ser ampliada. Até porque nisso tudo me parece que há mais uma nova tecnologia de controle em curso do que qualquer outra coisa... Por que não interessa ao estado investir em meios que dêem conta de valorizar a vida desses que agora ele "autoriza" a morrer? De qualquer forma o debate tem mil nuances que infelizmente é difícil de dar conta por aqui :/
Dinah Lemos  - Não precisamos ‘dar conta’, só levantar problemas. Estamos em um momento civilizacional, de passagem de um modo de vida a outro, em que os centros de pesquisa estão começando a fabricar seres humanos. O primeiro feto com material genético de três pessoas foi produzido no México. As elites tecnológicas vão produzir seres humanos. Então o início da vida está deixando de ser natural. Teremos, por óbvio, o debate sobre o fim da vida. Mas eu acho que o direito de morrer não reduz o direito de viver do sujeito velho. O indivíduo velho não vai morrer sem ter certeza, em caso de escolha. Ou então estaremos supondo que esse indivíduo não tem mais capacidade de decidir, digamos assim, que ele seria uma espécie de ‘menor incapaz’.  Começamos a ver pessoas viverem mais de cem anos e fora de uma comunidade que dá valor a essa longevidade. Há tecnologia para prolongar a vida, mas a sociedade estimula uma Cultura na qual o jovem, o novo, a inovação é o mais inteligente, lúcido e desejável. O velho longevo vira plateia de um mundo que não é mais seu. Acho um debate pertinente.
Paulo César Teixeira -  Sei que essa conversa já foi longe demais, mas gostaria de acrescentar algo sobre o tal "romantismo mórbido" ao qual me referi antes. Recordo que, em minha juventude, no final dos anos 70, havia casos recorrentes de jovens que se matavam, pelo menos nos círculos sociais que eu frequentava. Ou se jogavam do alto de um prédio na Borges de Medeiros, ou fechavam portas e janelas e abriam o gás da cozinha, por aí vai. Certamente, para tal frequência de casos de suicidas entre a juventude da época, que - pelos relatos que dispomos - não se restringiu a Porto Alegre ou ao Brasil, foi um fenômeno aparentemente bem mais amplo, contribuía o ambiente de desolação e falta de perspectivas da época, assim como o abuso do consumo de "drogas". De qualquer modo, este é um assunto que, até hoje, não vi ser analisado em profundidade, talvez porque a morte e o suicídio, em particular, sejam temas ainda desconfortáveis para nós. A propósito, abaixo transcrevo um trecho que fala exatamente sobre isso, do Esquina Maldita:
“O fascínio da humanidade pela ideia do suicídio sempre existiu, mas em alguns períodos pareceu ganhar maior amplitude, como na parte final do XVIII. José Antônio Silva chama atenção para o fato de que, de acordo com relatos históricos, consta ter havido nesse período uma onda de suicídios na Europa supostamente motivada pela publicação, em 1774, de Os sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe – obra que narra os extremos de uma paixão cujo limite é a própria morte. Em certa medida, o fenômeno talvez tenha se repetido na década de 1970.
Sem dúvida, um dos componentes trágicos dos anos 1970 é o saldo de jovens que enlouqueceram ou cometeram suicídio. As drogas, certamente, contribuíram muito com esse processo. “Perdi amigos que nunca mais voltaram”, relata José Antônio, usando a gíria da época. O poeta e compositor piauiense Torquato Neto, um dos idealizadores do Tropicalismo, por exemplo, se matou em 1972, um dia após completar 28 anos. “A paisagem não sustenta o teu lirismo”, escreveu ele. No meio underground, o exemplo do tropicalista se tornou emblemático. “Era comum ouvir alguém citando Torquato no Alaska”, recorda José Antônio.(...)

Em busca de explicações para a onda de loucura e suicídios que se abateu sobre a juventude ao longo da década de 1970, Giba Rocha lembrou uma entrevista que realizou como repórter da Folha da Manhã com o cantor Gilberto Gil. Em certo momento da conversa, o artista baiano contou que Caetano Veloso (amigo e parceiro da Tropicália) mal conseguiu balbuciar uma palavra quando experimentou pela primeira e única vez a maconha, de tão impactado que ficou com os efeitos da erva. “Esse exemplo me vem à mente quando percebo que pessoas com uma percepção de vida muito aguçada nem deveriam se drogar. Muitos dos que piraram ou se mataram nos anos 1970 tinham uma hipersensibilidade por natureza, que foi levada ao limite pelo uso de drogas. Provavelmente tenham sido vítimas de uma overdose de sensibilidade.”

Debate Paulo Torelly e Dinah Lemos - sobre o tamanho do mal




Paulo Torelly - Olá, Dinah Lemos: não estava em POA no final de semana e acabei não te respondendo antes, pelo que me desculpo. Não alimento nenhuma teoria da conspiração ao ponto de acreditar em algo pensado nos detalhes, mas concordo contigo que os retrocessos de hoje decorrem de uma concepção autocrática de mundo e de sociedade dos segmentos dirigentes e hoje golpistas, o que sempre existiu e ganha força na atual conjuntura. Há muito defendo ser imprescindível a democratização das entidades da sociedade civil para podermos constituir uma cultura de respeito do ser humano pelo ser humano. Mas é inegável a gravidade e o impacto da notícia aqui compartilhada diante deste agora assumido desprezo pelos princípios do direito. O fato é que os modelos totalitários de governo se colocaram e ainda se colocam – para todas as ideologias – como uma das hipóteses possíveis de gestão estatal na modernidade. Não podemos esquecer que em abril de 1964 nem mesmo os maiores golpistas podiam imaginar – mesmo que desejassem – os desdobramentos que culminaram com o AI-5 em dezembro de 1968. Lembro de Octavio Ianni, amigo de FHC e grande crítico de todos os seus governos: “O macartismo, o reganismo e o thatcherismo sugerem que mesmo em regimes liberais-democratas podem ocorrer surtos autoritários, com ingredientes fascistas. Aliás, seria ilusório esquecer que alguns ingredientes da cultura nazi-fascista germinam todo o tempo, contínua ou ciclicamente, no bojo da sociedade burguesa.” (IANNI, Octavio. 'A sociedade global.' 9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 28-29.). O que também faz lembrar o alerta de Zygmunt Bauman e de todos os críticos do nazi-fascismo: “A resistência em aceitar a lição do Holocausto manifesta-se primariamente nas múltiplas tentativas de exorcizar ou marginalizar o Holocausto como um episódio histórico único” (BAUMAN, Zygmunt. 'Modernidade e ambivalência. Trad. Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p. 27.). GOLPE É GOLPE! Fiquemos atentos!!!

Dinah Lemos - Obrigada pelo comentário. Muito bom, mas acho que mistura uma análise correta e densa com uma abordagem de que seria uma espécie de repetição formal cíclica de um monstro da maldade, uma violência em excesso produzida pelos sistemas de dominação de elites humanas, em tempos diferentes. E que poderíamos perceber esses momentos e reagir para garantir um status quo anterior a isso, um estado de menor incidência dessa mesma maldade, uma incidência em patamares suportáveis. Eu acho essa lógica, própria da socialdemocracia, ineficiente, inválida, porque ela não observa um processo que é histórico e que eu vou marcar a partir de 1500, com o renascimento e as grandes navegações posteriores aos séculos XII ao XIV. Esse processo, segundo Einstein, vai bater em um muro no que diz respeito ao 'progresso tecnológico". Eu entendo que esse muro está visível já e que as elites capitalistas estão tomando as rédeas para executar uma 'solução final' muito, mas muito mais definidora do modo de produção da vida no planeta do que os delírios vorazes do nazismo. Então, não lidamos com um excesso a ser contido por uma socialdemocracia conhecida. Precisamos de uma nova construção epistemológica. Precisamos pensar mais, mais corajosamente, escrever mais audaciosamente, de um modo investigativo, e sair do conforto simbólico de um passado que não voltará.

Espelho, espelho meu: o PT morreu?




A lógica "farsa ou tragédia", para resgatar um tipo de olhar sobre a situação política brasileira atual, não consegue dar conta dos cenários visíveis. Há uma complexidade inaugural a transformar parte do cenário em piada e outra parte em uma ponta do Iceberg de uma guerra sanguinária. A parte piada ganha sua síntese na figura do presidente Temer, um homem perfeito para a enxurrada de caricaturas e colagens em postagens nas redes sociais. Mas seguem a esta figura tão idêntica à personagem de comédia de vampiros, ou de filmes antigos sobre o Drácula – um paradigma da solidão -, seguem um cortejo de ironias grosseiras ou refinadas a atravessarem imagens de vários políticos e políticas sobre os quais não falarei agora, até porque os assuntos “mulheres” e “feminismo” estão inseridos na parte trágica do acontecimento. Não obstante todos os ridículos que se possa elencar, de roupas, passando por cirurgias plásticas, continuando por histerias e chegando em mitologias da gueixa assustadoramente renovadas e ocidentalizadas. Deixemos o gênero descansar de todas as violações recentes.
Há muitos perguntando se o PT está morto, se ele vai desaparecer nas sombras da insignificância ou mesmo se até a sigla corre o risco de sumir. Esse é um dos assuntos mais difíceis de tratar se a intenção for superar os problemas e desafios surgidos na era Lulalá e Dilma coração valente.  Li um comentário interessante no facebook, na TL de uma moça, a Niara de Oliveira, onde ela diz que a indignação dos petistas mais parece cenas dos filmes daquele grupo de comediantes, o Monty Python, porque "sabe aquela história de quem se acha muito esperto e acaba ficando arrogante ao ponto de ficar burro? é o retrato do petê. foi jogando, dominando tudo, armando jogada-batendo escanteio-defendendo-fazendo gol e ainda correndo pra arquibancada comemorar, e acabou se achando imbatível. alguém foi observando os furos, os fios soltos e costurando um outro tapete... quando estava pronto, puxou. só faltou ouvirmos o ‘até tu, brutus?’ no desfecho final". Um comentário delicioso para quem tem sido oposição à esquerda desde o primeiro mandato do Lula, mas ainda impreciso porque permanece a pergunta sobre o que virá depois do Temer, já que a palavra “fora” está colando como o velho e bom ‘araldite’ no nome desse senhor. Eu já disse o que já foi dito por discursos visíveis que para encontrar respostas certas é preciso fazer perguntas certas. A minha pergunta então seria: como construir uma alternativa à nova hegemonia capitalista, no Brasil e no mundo, hegemonia esta que aponta para uma guerra genocida e sanguinária contra os subordinados descartáveis? Ou seja, ainda que toda a população odeie as elites escravocratas, coronelistas, injustas, cruéis, como diria o personagem infantil, o Chaves, “quem poderá nos defender”? Penso que:
 O Brasil é um país que tem suas narrativas visíveis construídas por, grosso modo, dois tipos de elites: as 'escravocratas' e as 'abolicionistas'. Para os cientistas, vou dizer que ambas as palavras eu utilizo em um esquema que é movido livremente entre o tipo ideal weberiano e o caleidoscópio deleuziano (Gilles Deleuze) das 'máquinas', dos 'fluxos', das 'séries' e dos devires. Então isso aí são palavras circo, encenações, mas são palavras projetos, ideias. E estão postas em uma cena sadomasoquista, ou se preferirem, em um tipo de cenário bipolar (tá na moda e todo mundo mais ou menos entende). Essa bipolaridade foi construída em trezentos anos de escravismo formal e o antropólogo Ricardo Benzaquen de Araújo intui muito bem o que eu vou chamar de “transtorno psicológico coletivo na formação da nação brasileira” (essa ideia é minha, o Ricardo prepara as bases para ela no livro Guerra e Paz – Casa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre, mas não a desenvolve), quando afirma que temos uma sociedade se movendo equilibradamente em um hibridismo entre violência e confraternização. A palavra 'hibridismo' tem a ver com perversidade, falta de regras, distorção, mistura, meleca, falsidade, simulacro, desordem. Pois bem, esse equilíbrio é sempre tenso, dilacerante e dilacerado e, importantíssimo, não é dialético, ele não gera mudanças em novas situações-síntese. É como se a história do Brasil transcorresse em dois movimentos, um no tempo linear e evolutivo onde os acontecimentos capitalistas se desenvolvem (colônia, império, exportação, escravismo, república velha, abolição, 1930-Vargas, ditadura, desenvolvimentismo, exército, estado nacional, populismo, ditadura militar, etc) e outro movimento, no tempo cíclico, de repetições traumáticas, sempre referenciado na lógica da bipolaridade entre escravocratas e abolicionistas. Esta lógica é cultural, especificamente brasileira e funda a Nação, ela é linguagem, relações sociais. Dessa lógica deriva uma espécie de esquizofrenia da discursividade – ou narrativas - permitida para ser visível, que são os discursos produzidos pelas elites econômicas, políticas e intelectuais. O hibridismo estudado por Ricardo Benzaquen se multiplica em espelhos, na minha análise, em uma espécie de cacofonia gerada pela sobreposição dos movimentos reais do desenvolvimento do capitalismo em um país como o Brasil e as narrativas sincréticas das elites escravocratas e abolicionistas. Resumindo, para entrar no estilo conciso e claro da Niara de Oliveira, a moça do comentário feliz no facebook, eles não são mentirosos, nem o pessoal do PT e nem o pessoal dos golpistas, eles são a representação de uma perversidade tatuada na matriz das relações sociais no Brasil. De certa forma, eles são loucos, porque se fossem lúcidos não achariam razoável a convivência pacificada e cotidiana entre escravistas e abolicionistas, depois da tal Lei Áurea, da lei da abolição da escravatura de 1888. Porque, na verdade, nunca deveria ter podido ser pacífica a convivência entre essas duas noções, a menos que elas fossem híbridas, misturadas, perversas desde sempre.
Assim, o golpe de 2016 é um ataque do discurso escravocrata contra o discurso abolicionista na intenção de conter o ponto, a passagem, onde a psiquê coletiva se movia em direção a ruptura com a discursividade permitida e iniciava a formação de padrões quilombolas de discursos coletivos sobre a Nação. Por “padrões quilombolas” entendo as narrativas produzidas no interior de espaços da sociedade que se pretendiam exteriores às falas e ideias que conseguem aparecer nas grandes mídias (e mesmo nas mídias de grande visibilidade, ainda que alternativas).  Esses padrões insurgentes não vinham dos discursos oficiais dos partidos presentes nos governos Lula e Dilma e que se declaram “de esquerda”, sequer do Psol e do Pstu. Ambos os partidos pequenos citados vinham tecendo narrativas ainda espremidas dentro do espaço de discursividade permitida, que durante o pós-ditadura militar era o discurso de gerenciamento de uma democracia (frágil, inexata, mas lá, supunha essa discursividade que a democracia estava lá). A ruptura em padrões quilombolas se dava tanto em pressões de bases de todos os partidos do campo abolicionista, em movimentos sociais não facilmente cooptáveis (como são cooptáveis no Brasil os movimentos sindicais e de periferias urbanas) e em oposições sindicais e populares, quanto em um reaparecimento de novas versões anarquistas de insurgência em sociedade. Ou seja, o discurso abolicionista não era mais eficiente para hegemonizar uma narrativa sobre a democracia no Brasil, sobre a história do Brasil, sobre os possíveis futuros do país. Nesse sentido, o segundo mandato Dilma é um travamento do governo dentro de impossibilidades na relação entre o tempo linear (das decisões dos caminhos do capitalismo no Brasil) e o tempo cíclico (do discurso, da cultura). Se os escravocratas não dessem um golpe, os abolicionistas seriam empurrados pelas práticas quilombolas e o Brasil entraria em um cenário insurgente.
A derrubada do discurso abolicionista no cenário atual é um acontecimento novo, em um país da tradição escravista moderna (1500 a 1888), onde o mito da abolição integra os principais pilares da ideia de Nação. Nesse sentido, o PT é uma incógnita, porque ele era necessário ao capitalismo, o discurso abolicionista sempre foi necessário ao capitalismo. Bom, a pergunta é: estará o capitalismo em uma crise estrutural? Há vários teóricos dizendo que sim e que agora teremos um período de desmanchamento civilizacional impar em toda a história da humanidade. O PT não é cachorro morto. Para o bem e para o mal. Talvez a crise maior, ou o maior dilema fique colocado, como batata quente, no colo dos grupos e partidos de esquerda que sempre se pretenderam alternativa ao Partido dos Trabalhadores, já que se o abolicionismo não mais interessar ao Capital, se as elites donas do mundo não mais se sentirem apegadas a valores democráticos, como está parecendo pela insana crueldade cometida contra jovens nas ruas das grandes cidades, então precisaremos de uma nova narrativa. E dificilmente o Petê saberá ergue-la. Mas dificilmente essa nova narrativa poderá abrir mão de nosso precário e sofrido passado abolicionista.

Talvez Monty Python sejamos todos nós, os subordinados descartáveis, precisando desesperadamente nos proteger de qualquer inquisição que apareça a qualquer momento. Talvez a gente precise urgentemente pensar juntos.

Diálogos ecumênicos versus guerras tribais


O texto que segue surgiu em um comentário de uma postagem sobre o policiamento dentro dos campus universitários, segundo decisão já feita em Santa Catarina, na universidade federal. Gosto de entender como o conjunto da sociedade está se movendo para depois tentar ver problemas localizados. Não estamos mais em um tempo democrático, onde se pode almejar que um conjunto populacional imenso dentro de um território enorme realize, em cada comunidade, em cada município uma mesma noção de cidadania, de pertencimento. Isso começou a ser destruído na década de 1990, no Brasil, embora nunca fosse realmente um grande acontecimento. A cidadania plena sempre foi um sonho, nesse país de tradição escravista. Mas na saída da ditadura militar foi recuperado um processo anterior que já vinha sendo pensado desde o Estado Novo do Getúlio Vargas e do Oliveira Vianna, dos intelectuais de 30 e sua proposta de erguer um Volksgeist (espírito do povo) brasileiro baseado na cidadania generalizada. Acontece que tudo isso desabou a partir de 90, e o que o PT construiu, a partir de 2003, foi mais na linha da inclusão em direitos mínimos, em políticas afirmativas também, que praticamente acabaram por fortalecer dinâmicas de formação de tribos específicas, mas não em estruturação de um conjunto harmônico de cidadania política. Até porque durante todo esse tempo dos mandatos do PT foi avançando, na sociedade brasileira, o processo das terceirizações (ainda que os petistas se orgulhem de terem desacelerado esse acontecimento), que foram decisivas para a desagregação das solidariedades em comunidades específicas. O próprio discurso central do PT começou, a uma certa altura, a apontar para um determinado valor da "pobreza", da "simplicidade", em oposição a uma ideia genérica de "classe média", favorecendo a antipatia entre esses dois setores sociais e favorecendo também a proliferação do assédio moral à parte mais fragilizada dos setores de classe média. O espaço público ficou sempre controlado pela grande mídia, seja ela evangélica ou mais modernosa, como a Rede Globo. E foi justo nesse período que explodiu a revolução da informática no Brasil, inaugurando uma "desterritorialização simbólica" de gigantescas proporções. Tivemos então a proliferação de uma cultura do hiper-consumo, da aceleração e da velocidade como deuses, uma cultura agonística ao máximo, decadente, sendo o agonístico hipertrofiado uma espécie de endeusamento da competição, do super herói, dos Olimpos, das celebridades. Um dos espaços onde a concentração de renda foi defendida como um valor positivo foi no espaço do futebol, onde os considerados craques tiveram legitimado o direito, diante da opinião pública, de receberem salários de um milhão e meio por mês e de terem integrado em seus corpos montantes patrimoniais de até trinta ou quarenta milhões de reais. Isso dentro de uma normalidade - portanto dentro de uma normatização - onde a maioria dos jogadores de futebol continuaram com remunerações mínimas. Outro espaço onde a cidadania foi desconfigurada foi o da beleza feminina, que já era comandada por esteriótipos, mas passou a produzir normalidades que legitimaram a anorexia como uma doença a ser investigada por todas as meninas que pudessem "ir até lá". Foi nesse processo que houve uma ruptura do conceito de cidadão e cidadã, uma implosão interna e uma fragmentação desse conceito em um feixe esquizofrênico e que realizaria progressivamente o "devir tribal", esse devir digamos medieval, de feudos, de espécies de micro nações autônomas. Essas micro nações entrariam no cenário social para competir, para lutar entre si. O conceito de "agonístico", aqui, tem a ver com a disposição para a luta, para o enfrentamento e ele está em ruptura com o conceito de cidadania. Em uma sociedade toda ela agonística não há como evitar o policiamento no espaço exterior às tribos. Nessa situação, não há mais esse espaço público como em uma República, o espaço público agora é a Floresta, o espaço do homo sacer de Giorgio Agamben, o lugar dos "matáveis". Em situação de barbárie, como estamos, os lugares da Universidade tendem a se restringir às salas de aula, e olhe lá.  A própria "universidade" tende a desaparecer, agora cedendo espaço para espécies de "mosteiros" de temáticas e linguagens localizadas. Como sair disso? Não será indo para trás, não poderemos voltar atrás, teremos que integrar tribos e tentar sair dessa idade média a longo prazo. Precisamos começar a pensar em novas linguagens, em ecumenismo, em diálogos entre pequenas nações. Nunca, desde o ano mil do calendário cristão, a palavra diálogo teve tanta importância para o destino e até a sobrevivência da espécie humana. Mas, veja bem, a palavra em sua significação verdadeira, verídica, e não em suas simulações dissimuladas e agonísticas.

O lado de fora do textão

Ilustração: Brecht Vandenbruck

Apresento um pensamento e uma escrita anti-textão. É a premissa. Um textão carrega um determinado séquito de adeptos. Para confronta-lo sempre precisaremos ter outro textão, com outro séquito. A lógica dos textões é uma legitimidade intrínseca, um ordenamento entre as palavras que encaixa no território político do vivente que diz e dos viventes que aplaudem de um modo exatamente perfeito. É próprio da episteme do textão ele ser naturalmente perfeito para seus seguidores. Decorre que haverá outro grupo de outros viventes que também entenderão o seu textão como perfeito, as duas perfeições se roçando, se tocando, negociando uma mesma realidade, um mesmo contexto ontológico. O textão assim é um negócio entre partes. Uma mesma guerra, um mesmo ritual. Assim, o textão reflete a guerra quando reflete um exército dentro dela. É possível sair da guerra por dentro dela mesma? Sair da guerra por meio de um fim? Essa era a questão das duas grandes guerras mundiais e de todas as guerras menores. Exceto algumas guerras milenares que já prefiguravam a impossibilidade de sair da guerra por dentro dela: a guerra das etnias religiosas no oriente médio e a guerra das etnias brancas contra as negras, no recorte do continente africano, e nas Américas. E outras guerras étnicas. Fora a dúvida sobre as possibilidades futuras do homem e da mulher. Ou de que homem e de que mulher. Sempre deixaremos o grande oriente de fora, por ora. Ele com suas milenares muralhas a conter a guerra do lado de fora. Esse "lado de dentro" do grande oriente agora se expande de um modo inédito e imprevisível. O tempo não urge para quem não segue ninguém. Para quem tem inadequação consagrada. O circo perdeu grande parte da graça porque ele não funciona sem o pão. E os economistas falam sobre como produzir o pão e a gente não entende e têm medo. A inadequação agora se conjuga, surpreendentemente, com as grandes muralhas do grande oriente. A inadequação agora é um lado de dentro, um outro lado de dentro que não tem mais tempo algum e, portanto, tem todo o tempo do mundo. E, vamos começar a reflexão a partir daqui, esse lado de dentro agora ocidental e mundial é, por natureza, doméstico, comum e sacrificável. Eu estou falando de uma economia que me autoriza e que é a única sobre a qual eu posso falar.

Deus é mãe

                                   


                                Há uma fala hegemônica entre os "pobres" que é definida no ditado popular "manda quem pode e obedece quem precisa". Bom, aqueles caras, Lenin e sua turma, costumavam dizer que não há como fazer uma revolução sem partido. O sujeito e a sujeita comuns sabem disso, como o ditado demonstra: é preciso aparecer alguém 'outro' que 'mande' outra coisa, para que se possa escolher a quem se deve obediência. 

                                     Olha, eu também preferiria que ninguém obedecesse ninguém e que as escolhas humanas fossem magicamente regidas por um somatório encantado de autonomias, essa é a minha mais arraigada crença, religião, da qual eu precisei para sobreviver do nascimento até os 19 anos e, depois que me perdi do Partido dos Trabalhadores, dos 32 anos até hoje. Mas acho que a minha religião é a mais improvável na história da humanidade. Ao menos até o século XXI, em seus primeiros 20 anos, a autonomia dos indivíduos humanos só cabe aos artistas, e mesmo entre esses, só aos mais audaciosos e inauguradores. 

                                    Sendo assim, eu diria que a sujeita e o sujeito comuns tentam nem se lembrar que os malvados comandam as sociedades, pois temem afundar na depressão, no "banzo" do negro africano recém-chegado ao Brasil, o 'boçal' do Império brasileiro antes da proibição do tráfico negreiro, antes da República Velha. Agora o banzo se chama depressão e é uma melancolia mortal de saudades de um lugar inexistente no mundo; e os deprimidos ou tomam drogas permitidas, ou proibidas ou entram em uma religião de gritos, ou outra de silêncios e não são mais só os negros, já é um quase todo mundo. 

                                      Assim, os comuns colocam sua descrença no sistema em um canto da consciência e se entregam a um cotidiano no qual a fé em alguma crença projeta a vida em dois sentidos: conformar-se com o mal do ambiente, acreditar em uma bondade interior ao si mesmo do sujeito e da sujeita que crê e desejar que o exterior produza um poder alternativo que modifique a impossibilidade de seguir alguém justo, bom. Esse é o desejo do 'salvador', do 'herói', do 'deus' ou de uma representação do 'deus'. Poderia ser um partido, mas infelizmente não tivemos essa chance até hoje, apenas ensaios muito tímidos e de fácil desmonte. 

                          O Papa Francisco já sabe disso, alguns pouquíssimos teóricos e pensadores acadêmicos e orgânicos (a um sonho e não a uma organização real) também já entendem o drama da ausência de 'religião', algo a respeitar no mundo, na sociedade. Alguns outros religiosos também meditam sobre isso. Então, o sujeito e a sujeita comuns se esforçam por esquecer a Samarco e o desastre da inundação da cidade de Mariana pela lama tóxica da barragem da mineradora de Minas Gerais, Brasil. E se esforçam para não dar atenção aos náufragos da Síria; e se esforçam para nem pensar nos desgovernos no Brasil. Não querem saber de um exterior que, convulsionado, comprime a suas vidas a um "temor do tirano" cotidiano. Rezam para que o que vier a acontecer não seja perto de onde ele vive. 

                                  Para Giorgio Agamben, essa é a impotência do homo sacer, o matável, o sujeito e a sujeita comuns que vivem uma vida nua, desprotegida de um estatuto normativo respeitável, 'religere'. O indivíduo dentro do Campo de Concentração só poderá ser libertado por algo exterior, de fora, um agente salvador. Para Lenin e Trotsky, um partido. Para algumas feministas, uma PartidA. Está mesmo quase impossível, mas a água atravessará a muralha, deus é mãe.

A aposentadoria reduz gastos públicos e aumenta empregos e bem-estar social




Estou tendo sentimentos estranhos: entre uma tristeza e outra, uma indignação e outra, uma revolta e outra sinto um modesto bem-estar derivado da sensação de memória de que o tempo não passou, ou que ele passou muito pouco e que eu estou em meio ao cenário da década de 1970, em uma ditadura, eu jovem portanto, só que agora não tenho adultos cruéis mandando em mim, sou uma senhora aposentada.

Sinto-me livre e com direitos de ir e vir (e manifestar-me aqui no facebook e em blogs) e vivendo uma vida livre de aposentada. É um ótimo sentimento de que consegui sair do inferno e chegar em um paraíso pessoal. Talvez muitos velhos sintam isso: sobreviveram às ditaduras, conseguiram se aposentar e chegar em uma vida calma e doce. 

Retirar a aposentadoria dos velhos é suprimir uma espécie de "luz no fim do túnel" para todas as pessoas que são obrigadas a trabalhar para viver. O trabalho é penoso para a grande maioria das pessoas, ainda e até mais ainda no século XXI já que agora os ritmos, velocidades e formas gerenciais da era da informática compõem uma espécie de neo-escravismo de entrada em um novo mundo, o dos robôs, androides, avatares. 

A aposentadoria é um direito fundamental para os velhos da espécie humana. E, não se enganem, a gente fica velho desde o momento da menopausa. Os homens na mesma época ou antes até, dado o tamanho do desgaste na opressão do mundo do trabalho capitalista. Em 2016, a experiência cotidiana de qualquer brasileiro ou brasileira demonstra, comprova, que todos temos alguma ou mais de uma doença séria ou merecedora de cuidados importantes, isso desde os quarenta e cinco ou cinquenta anos.

Reduzir a jornada para quatro ou cinco horas, aos cinquenta anos e aposentar-se integralmente aos cinquenta e cinco seria uma possibilidade de reduzir enormemente os gastos com doenças, prolongar a vida boa útil e, com isso, retornar ao mundo da organização da vida coletiva para fazer coisas boas aos jovens e crianças, tais como cuidar dos netos, das hortas públicas, de atividades lúdicas e educativas para os pobres. E, de quebra, seria um incentivo para a redução do desemprego dos jovens.

Os ricos brasileiros e do mundo inteiro não querem tirar a aposentadoria dos velhos pobres e remediados para ajudar alguém. Dinheiro pra eles é brinquedo e fórmulas tais como "dívidas públicas" ou "superávit" são engrenagens da brincadeira de produzir pobreza, sofrimento e guerras. Os ricos brasileiros e do mundo inteiro são loucos, malvados e burros.

Nós só precisamos ser inteligentes livremente e falar uns com os outros em espaços públicos. Se fizermos isso conseguiremos tirar os loucos burros do poder.

O segredo da maçonaria e a verdade feminista



Apareceu no facebook uma lista de cento e um homens brasileiros maçons. Nela estão presentes Tiradentes, Fábio Junior (o cantor), Alceu Collares (prefeito de Porto Alegre pelo PDT de Brizola), Fernando Gabeira e até Luis Eduardo Greenhalgh, o advogado famoso do Partido dos Trabalhadores; todos esses nomes entremeados por nomes de generais e políticos da tradição da direita brasileira. Nos comentários da postagem alguém fala que Tiradentes não era maçom, se fosse não teria sido morto e despedaçado; que outros da lista também não o são. O objetivo desta listagem neste post não é ser fiel à verdade mas sim querer dizer que eles, os maçons, estão em qualquer estrutura social, que eles são onipresentes e oniscientes e que pretenderiam ser onipotentes em seu desejo utópico, isto é, serem os tais "illuminati", seres super-humanos que dominariam o mundo completa e irrevogavelmente. Uns semi-deuses, mais ou menos. Em muitos momentos eles conseguem vender essa ideia e disseminar essa vontade. Em muitos lugares eles conseguem hegemonizar toda a estrutura em questão, tornar-se uma pregnância. 

O segredo da maçonaria é mover-se de modo a fazer os "outros" não saberem quem é maçom e quem não é. Eles acabam obrigando o conjunto de um ambiente a conviver com eles sem debater a sua presença. Funciona como se só eles tivessem o direito a uma clandestinidade e como se essa clandestinidade gerasse poder aos seus adeptos; um poder difuso e obscuro, um risco de que o sujeito que subordina você possa ter o apoio de muitos outros para fazer isso ou o que quer que seja determinado por esse conjunto desconhecido e inacessível. É interessante analisar sobre o porque essa ordem secreta foi um recurso importante para o golpe do impeachment da Dilma. A maçonaria como tal não define os rumos da espécie humana atualmente, quem faz isso é quem é dono dos meios de produção (incluso os meios de produção dos discursos públicos). Mas, assim como as igrejas evangélicas, ou islâmicas, ou cristãs, pode fornecer o meio para um determinado espaço de articulação discursiva de tomada de poder. E, não se enganem, não obstante um dos pilares desse ordenamento seja a condição masculina de seus membros, esse não é o pilar central e insubstituível. O que define a maçonaria é sua capacidade de ser ao mesmo tempo hiper-exposta e hiper-invisível, por meio de seu "segredo". Ora, isso é passível de ser feito por ambientes mistos e até mesmo com participação de sujeitos ambivalentes ou híbridos no que diz respeito ao gênero. O que não poderia nunca, jamais e em tempo algum, faltar na ordem maçônica são dois ingredientes: primeiro - seus dirigentes precisam ser também dirigentes de lugares importantes de poder na sociedade onde vivem; segundo - é preciso que poucos maçons sejam muito conhecidos e muitos maçons sejam clandestinos, invisíveis à sociabilidade. Bom, esses dois ingredientes fundamentais da maçonaria são muito utilizados também pelas organizações da tradição filosófica marxista-leninista. Registre-se que em quaisquer desses ordenamentos secretos a participação feminina é dificultada, contida nas bases, assediada a limites definidos pelas cúpulas masculinas. As cotas seriam apenas mais um indicador desse modo operacional restritivo. 

Talvez também por isso o impeachment da primeira presidenta do Brasil, em 2016, tenha alçado voo por meio de uma articulação maçônica. Muito se falou sobre esse impeachment ter sido uma espécie de "estupro político" e, diante do ocorrido, os movimentos feministas amplificaram as denúncias sobre a predominância social e histórica de uma determinada "cultura do estupro". Podemos definir a cultura do estupro como aquele conjunto de filosofias que se constroem sobre uma base na qual há um espaço restrito e mais seguro (por suposto) para as mulheres fora do qual elas estarão à mercê da invasão, violação e tortura por parte de qualquer um, por suposto um estranho. Esse espaço restrito uma vez foi o ambiente doméstico, depois pode tornar-se a base das organizações religiosas e políticas e, também, o chão das fábricas e as salas de aulas. Os feminismos denunciam que as estatísticas apontam serem os estupros praticados predominantemente em ambiente familiar e que as mulheres não estão protegidas em lugar algum; as feministas tentam conduzir mulheres a níveis superiores de espaços de poder e até mesmo nas ordens religiosas e secretas as mulheres lutam para ter maior influência. A cultura feminista, assim, é o conjunto de filosofias que se propõem a ampliar o direito de ir e vir e a liberdade de manifestação das mulheres. Nas organizações de tipo marxista-leninista há a presença de mulheres nas cúpulas, ainda que de um modo dificultado e restrito, mas assim como a tal "política" sempre foi um ambiente de domínio para sujeitos pertencentes às ordens secretas maçônicas, desde o surgimento dessa estrutura organizativa na idade média, a "revolução" veio sendo um lugar privilegiado para sujeitos masculinos das ordens secretas da esquerda.

Nunca saberemos quantos maçons existem e o quanto eles se fizeram presentes dentro dos partidos de esquerda brasileiros e dentro dos governos liderados por Lula e Dima Rousseff. Nunca saberemos quantos maçons habitaram ou irão habitar as televisões e os ministérios da cultura. O que já sabemos, e isso é decisivo na mudança de rumos e de éticas na história da humanidade, é que não há espaço escondido e restrito no qual as mulheres estejam mais seguras em um mundo onde predominam as atitudes competitivas, bélicas, consumistas. As mulheres, consideradas a parte mais frágil da espécie humana juntamente com as crianças e os velhos, só estão seguras em ambiente pacificado e com predomínio de princípios jurídicos ligados à ideias de proteção, cuidado. Fora de ambientes tutelados pela paz, as mulheres são sujeitas a todo o tipo de assédio, de violação e a vários tipos de "estupro", inclusive o político.

O silêncio interior



Um desmonte partidário, desconfiguração de diferenças entre partidos políticos, começa a ser descrito no interior da linguagem que se ergue nesse novo governo excepcional (todos concordam que não é um governo normal?). Os interinos afirmam que representarão o próprio Estado, sem limitarem-se aos seus próprios partidos. Foi o que disse José Serra, em 20.05.16, ao globo news da Miriam Leitão, falando sobre o comportamento da diplomacia no "Temerismo". Ora, isso nada mais é do que a velha fórmula "O Estado sou eu", de Luís XIV, fórmula que o próprio Serra disse combater, anos atrás. Em paralelo, o PT decide não proibir alianças com o PMDB nos municípios, revelando que a tese do “golpe” não atinge a esfera municipal. Como pode haver uma ditadura ‘aprisionando’ a ‘presidenta afastada’ no palácio da Alvorada (quem vai lá tem que mostrar a identidade para seguranças postos lá pelo governo interino) e, em paralelo, amizades fraternas entre os dois lados em municípios brasileiros?  Bom, a linguagem está um caos, uma torre de babel, e disso decorre que os partidos tendem a ser camaleônicos, abrigando misturas de fascismos, teologias repressivas, liberalismos nos detalhes e condutas, republicanismos fakes, esquerdismos fakes, marxismos banalizados e inúteis, trotskismos evangélicos e pregações evangélicas que não precisariam ser, mas são esquizofrênicas. A prova é a presença de discursos que criticam ardentemente os humoristas políticos e elogiam os reality shows, ao mesmo tempo em que criticam ardentemente o neoconservadorismo yuppie, dos cabelinhos escovados. Alguém ligado à Marina Silva disse isso nas redes sociais. Ou então quando um homossexual diz, ameaçador, estar certo de que as diferentes manifestações de gêneros e sexualidades devem ser protegidas e todos os ‘preconceitos’ punidos com exemplar rigor, sugerindo que os modos de ver a vida devem ser forçados a uma uniformização por meios repressivos e não pelo debate cultural. Alguém ligado à Dilma disse isso nas redes sociais. Meleca geral.
Disso abre-se um portal para fluxos defensivos nas ruas, nas escolas, nas praças, no teatro, no cinema, nos quais os partidos não existirão, dando lugar para pequenos agrupamentos, tribos políticas, múltiplos 'ninguéns', inúmeras partições, partidos reais? Ora, mas isso não se mantém, disse um. Será? Será que a prática de 'estar na rua juntos' não veio para se consolidar como um modo de fazer política? Invertendo a lógica é de se perguntar então até quando as polícias especializadas em repressão às tribos nas ruas conseguirão manterem-se agressivas e agredindo? Há que se considerar que uma das coisas em questão é justamente a importância filosófica e prática da rua e do espaço doméstico. Em uma sociedade onde a casa só é um bom lugar, um lugar de poder e vida boa se for a casa dos ricos, dos classe média bem colocados e dos habitantes rurais e praianos, podemos investigar os motivos para os moradores das grandes cidades, dos grandes centros urbanos, nos quais a casa dos pobres, da classe média mais empobrecida e dos jovens dos grandes edifícios são lugares dormitório onde só haverá a televisão e o computador para realizar afetos, vínculos comunitários, podemos investigar se a rua, as praças não estão já há mais tempo se revelando espaços de construção de uma nova forma de inclusão política. Ou seja, a família só é a célula básica da estrutura política para os “de cima”, para os “dos castelos”. Para os sem poder econômico a família não protege, não garante mais nada.
Com um olhar sobre as novas relações entre o que é público e o que é privado, vemos que vivemos um desmonte das tradições republicanas não só porque uma determinada elite econômica brasileira resolveu, do nada, retroagir, voltar a tempos de violência pura, ação direta militar. Podemos começar a falar, se somos adeptos da liberdade de manifestação, em um caos generalizado, na linguagem e nas formas. Nesse caos, o que há de mais sólido parece ser a ineficácia e a desagregação das velhas fórmulas dos partidos políticos nacionais e uma espécie de tentativa de defesa dos não representados pelos partidos em ruína e nem pela elite econômica por meio da simples e direta presença nas ruas, nas praças e em lugares marcados como tentativas de defesa das coletividades, como as escolas. A partir dessas desconstruções irruptivas, da linguagem e das formas, poderíamos investigar se isso que vivemos trata-se mesmo de um ‘golpe’ ou se é uma espécie de migração formal, por meio de uma precipitação por transbordamento, de uma civilização em direção a outra. Afinal, a passagem do Império Romano para a modernidade ocidental precisou de uma idade média de mil anos porque foi esse o tempo necessário para uma produção tecnológica capaz de inaugurar o mercantilismo e os correspondentes escravismos e colonialismos modernos, dos quais derivou a existências dos chamados “primeiro mundo” e “mundo subdesenvolvido”. Esse tempo de mil anos teve suas formas correspondentes, suas roupas, seus deslocamentos espaciais, suas linguagens. Mas, considerando a velocidade da produção tecnológica moderna, aumentada por uma aceleração incrível, seria de investigar a hipótese de termos chegado a uma situação na qual não mais seria materialmente possível passar de uma civilização a outra por meio de sucessivas modas e mudanças de estruturas alavancadas de tempos em tempos por momentos súbitos promovidos aos “golpes”, às “guerras nacionais” e às “revoluções partidárias”, mas agora por novos processos descritíveis apenas por palavras tais como “transbordamento”, “precipitação”, “degradação” e etc, palavras mais aproximadas das ideias de acontecimentos próprios da natureza, daquilo que não é fabricado pela espécie humana, mas se realiza a partir dos ventos, das marés, do cosmos, das águas, das pressões, das químicas micromoleculares.

A humanidade sempre se moveu a partir de dois fenômenos: a memória e a invenção. No momento político brasileiro atual podemos levantar a hipótese de que as memórias estão em uma desordem de tais proporções que mundos díspares, do ponto de vista cronológico, começam a se organizar, e que formas rudimentares e tribais se estruturam em paralelo a formas vinculadas a tradições de tempos coloniais, feudais propriamente ditas. Do lado da invenção temos, pulsando em um silêncio majestoso, as dinâmicas governadas pela tecnologia da informática que apenas anunciam a hipótese de um futuro sem outra palavra a descreve-lo que não a palavra incrível. Vivemos atualmente dentro de um filme de ficção científica, dinossauros e blade runners e os protagonistas somos nós mesmos. E eu termino esse texto com uma citação da Clarice Lispector: “Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da Terra e da Lua. Então ele, o silêncio, aparece. E o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da gente.”

Obrigada, PT!


Se a opinião pública não fosse controlada pela grande mídia e se a mídia não fosse controlada pelo Capital eu acharia razoável o argumento de que a jogada do Maranhão na presidência da Câmara teria sido indevida. Isso supondo que ela fosse fruto de uma artimanha dos defensores do mandato de Dilma, e não de um aviso do presidente anterior, suspenso pelo STF. Mas todos os acontecimentos são híbridos, desde a retirada da ditadura militar como formato de controle político. Em todos os acontecimentos desde então, vide a manipulação eleitoral via o binômio pesquisa/mídia, tem havido violência do poder econômico. Foi isso exatamente que capturou o Partido dos Trabalhadores e seus aliados (e não podemos dizer "se tivesse sido de outro modo", porque ninguém conseguiu fazer de outro modo). Deriva daí que o Congresso Nacional é um dos produtos finais da violência enorme dos gerenciamentos de controle social.  E resulta que um dia esse produto final realizaria seu esplendor, sua maturidade dentro de um ethos desde sempre não apenas autoritário, mais que isso, perverso.
Aliás, o começo deste hibridismo no qual as leis, as regras, são descumpridas ou insuficientes foi o modo como se deu a ocupação do território nacional, com seu escravismo de características únicas no mundo moderno. Só aqui, diferentemente do processo abertamente violento dos Estados Unidos, a confraternização entre escravos e senhores era estimulada e vivida como moldura de uma crueldade acintosamente perversa. No campo jurídico, esse hibridismo migra para a primeira república, e subsequentemente para todas as outras, por meio da própria Abolição da escravatura. A Lei Áurea foi um ato violento, pois a força dos escravocratas impôs a ideia de indenização aos donos dos escravos, seguindo a lógica de que o mal chamado “mercado” é um “deus”. Essa força impediu a reflexão, tímida na época, sobre a necessidade de indenização aos prejudicados pela injustiça da escravidão. Ora, se era uma injustiça a ser abolida, precisaria ser retirada do cenário produzido por ela, ou seja, precisaria ter identificados seus responsáveis e estes precisariam ser coagidos a indenizar os prejudicados. Ao contrário, a pressão dos escravocratas no parlamento da época acabou impondo a ideia de que simplesmente abolir a regra do escravismo, sem indenizar ninguém, seria uma dádiva generosamente ofertada pelos donos das minas, das charqueadas, das grandes plantações de café e açúcar. Afinal, precisamos relembrar, as extinções de escravismos e colonialismos da era moderna foram realizadas como generosidades efetuadas pelos que os produziram e estiveram apoiadas em justificativas muito mais relacionadas a ideias de produtividade e eficiência dos mecanismos do tal “mercado” do que a algum tipo de descoberta lógica no campo da ética.Então, é preciso entender todos os acontecimentos como imersos em um tipo de guerra, no Brasil, desde sua fundação, em 1500, como um território invadido e colonizado por um império. Em uma guerra há um hibridismo na codificação: parte dela se dá com um grande acordo sobre regras onde haverá um vencedor aceito por todos; outra parte é um espaço de violência pura, na qual todos os lances são válidos e vence o mais forte, o mais sagaz, o mais violento (e a violência máxima é o ataque inesperado com força descomunal, como em Hiroxima). Há, inclusive, uma parte que é o hibridismo do hibridismo e ela realiza um conjunto de jogadas-trapaças, que são jogadas inesperadas, mas supostas na estrutura geral do acordo sobre regras.
Além da especificidade brasileira, é preciso lembrar que toda a história da humanidade até hoje foi conduzida pela violência do mais forte, que, em última instância é a lei do pai, do patriarca. O patriarca é simbolicamente “o mais forte” porque um dia ele foi de fato o mais forte, em termos de força física, e ele ocupa aquele lugar em representação a todos os homens efetivamente mais fortes; e também em representação às mulheres mais fortes e associadas aos homens fortes. E ele será destituído, derrubado, morto, exilado ou silenciado em um mosteiro ou asilo quando não mais puder representar esse conjunto hierárquico de força bruta. E outro representante maior do signo da força bruta ascenderá ao poder, podendo ser eleito por um conselho de anciãos ou mesmo por um colégio de eleitores confiáveis. Essa é a ideia que fundamenta a palavra "deus" nas religiões monoteístas, bélicas e articuladoras de muitos impérios. O conceito de "verificável" do pensamento científico também abriga um conteúdo bélico e patriarcal, pois muitos acontecimentos humanos não podem ser medidos, talvez a maioria deles, e entre os que podem ser verificados, reproduzidos, somente os que os poderes patriarcais escolhem são alavancados por um conhecimento tecnológico de verificação. Mesmo a ação de uma maioria, uma parte da população insuflada por uma liderança, poderá ser um acontecimento violento e inaugurador de intenso sofrimento coletivo, como o nazismo, por exemplo. Então, precisamos nos mover dentro de uma guerra, mesmo quando queremos combate-la e extingui-la.
A jogada do Maranhão não produziu violência, ao contrário, ela jogou um balde de água, conteve a velocidade dos mais fortes, acalmou os ânimos.  Foi quase uma trégua, dado o fato de ter sido anulada por ele mesmo, na madrugada do dia seguinte. No intervalo de um dia, uma pequena jogada mostrou a importância da presidência da Câmara dos deputados federais e o motivo pelo qual ela esteve ocupada, durante todo o período de aprovação do processo de impeachment da presidenta, pelo Eduardo Cunha e tudo o que ele significa.  Obviamente o processo retomaria seu curso, a derrubada da presidenta Dilma, já que o que determina esse acontecimento é o controle do congresso pelas bancadas da bala, do boi e da bíblia, garantido pela grande mídia, com liderança central da Rede Globo de televisão. Esse controle, não obstante inúmeras diferenças de escala e particularidades próprias ao mundo dos espetáculos e das multidões, é o mesmo que produziu a lei da Abolição e a retirada de cena da ditadura militar.
Falo tudo isso para assinalar que uma parte do golpe efetuado hoje, 11 de maio de 2016, não revela uma grande inauguração macabra e de consequências trágicas incalculáveis, como parte do discurso dos defensores do mandato da presidenta eleita, Dilma Rousseff, quer registrar. Sim, um grupo grande de brasileiros está muito triste e preocupado; sim, viveremos um período de ampliação dos acontecimentos repressivos. Mas não é corajoso e lúcido afirmar que caímos em um abismo. Ainda não é, não obstante as ameaças que são praticadas e anunciadas na atualidade contra grande parte dos seis bilhões de habitantes do planeta. O risco de que bilhões de humanos sejam jogados na condição em que foram os sírios é visível a olho nu. Mas os brasileiros ainda estão bem longe de uma situação de devastação das cidades e da sociedade civil, em que pese as enormes dificuldades de garantias de direitos constitucionais pétreos para a maioria dos habitantes dos centros urbanos. A hegemonia que realiza um ataque formal por meio do impeachment da presidenta já vinha sendo desenhada faz tempo e todos sabemos que se a aliança com o PMDB não produzisse o lastro para a eleição de presidentes do Partido dos Trabalhadores, Dilma não teria sido eleita.  Ora, mas se todo o processo de chegada do PT ao poder se deu a partir de alianças com forças que hoje o derrubam, a queda da Dilma estaria a anunciar um cansaço por parte dos donos do poder com relação a estratégias e formas humanistas e republicanas? E esse cansaço, produtor do ataque midiático e político ao governo do PT, resultaria em um mergulho imediato do Brasil e dos brasileiros em um momento de radical e imediata perda dos espaços exíguos de garantias constitucionais?
Não creio que a derrota tenha essa dimensão, embora esse risco esteja posto. A diferença é que a nossa memória, a dos descendentes dos escravos e dos abolicionistas, está muito mais potente agora, mais capaz de introduzir novas regras no jogo, novos instrumentos de pacificação e desconstrução das guerras conhecidas, de muitas guerras já vividas. Sim, estamos muito mais ameaçados do que estivemos durante a década de 1980, mas desde o início das terceirizações e das práticas de desregulamentação e exposição dos trabalhadores e das trabalhadoras ao assédio moral como regra de gerenciamento, já na década de 1990, começamos a sofrer importantes perdas de direitos. Temos uma enorme população plenamente consciente de que não pode perder mais nada.  Parte dessa capacidade de resistência e entendimento devemos à experiência vivida no período de governos do Partido dos Trabalhadores e seus aliados, tanto por seus acertos quanto por seus erros, uma vez que o erro cometido produz sua crítica e movimenta as possibilidades . A ideia mestra de “governabilidade”, por exemplo, carrega um duplo significado, mais uma vez híbrido: de um lado ela é constrangedora porque explicita o real controle do poder nas mãos do Capital, o verdadeiro dono de todas as engrenagens; de outro, ela é revolucionária, porque alimenta a experiência de que violentos são eles, os donos do poder. Nós, os escravos e abolicionistas de sempre, somos pacíficos e ordenadores do bem estar comum e os únicos recursos potentes que temos são a memória coletiva humana, a consagrar a ética da pacificação, do cuidado e do equilíbrio ecológico, como única chance de sobrevivência no planeta.

Precisamos perdoar o PT e assumir, daqui para a frente, uma nova história, com novos atores e novas regras do jogo. E, para que isso aconteça, precisamos interpretar o dia de hoje, com a derrubada da presidenta eleita Dilma por meio de uma articulação de um congresso nacional comprometido com uma elite autoritária e perversa, não como o mergulho nosso em um abismo do qual só poderemos sair por meio do desespero e de catarses políticas sangrentas, ao modo de sacrifícios culposos. Precisamos entender o 11 de maio de 2016 como um novo começo para a luta pela democracia no Brasil, utilizando tudo o que pudemos consolidar de esclarecimento e dignidade coletiva acumulada até agora e desde as lutas quilombolas e rebeldes do Brasil escravista colonial. Perdoar o PT, assim, significa não mais entendê-lo como uma espécie de “pai” impotente a quem se deva responsabilizar pela ausência de um “pai poderoso”. Perdoar o PT significa dizer: “Obrigada!Obrigado!Obrigadx! Valeu! Mas daqui pra frente sou eu mesma (mesmo, mesmx)! Somos nós e nossas cacofonias, dissonâncias e multiplicidades étnicas e éticas!”. Ou seja, vamos sair, nos mesmos, do espectro do patriarcado para poder lutar contra os patriarcas escravocratas de sempre. Vamos nós mesmas, mesmos, mesmxs, sem lenço e sem documento. Nunca esquecendo que é imprescindível que essas novas regras de luta, essas novas bandeiras, articulem a leveza dos jovens e a memória dos velhos para que se possa partejar qualquer tipo de tentativa de nação, ou nações, no território Brasil.