Escrituras Heréticas - blog da Dinah Lemos

A aposentadoria reduz gastos públicos e aumenta empregos e bem-estar social




Estou tendo sentimentos estranhos: entre uma tristeza e outra, uma indignação e outra, uma revolta e outra sinto um modesto bem-estar derivado da sensação de memória de que o tempo não passou, ou que ele passou muito pouco e que eu estou em meio ao cenário da década de 1970, em uma ditadura, eu jovem portanto, só que agora não tenho adultos cruéis mandando em mim, sou uma senhora aposentada.

Sinto-me livre e com direitos de ir e vir (e manifestar-me aqui no facebook e em blogs) e vivendo uma vida livre de aposentada. É um ótimo sentimento de que consegui sair do inferno e chegar em um paraíso pessoal. Talvez muitos velhos sintam isso: sobreviveram às ditaduras, conseguiram se aposentar e chegar em uma vida calma e doce. 

Retirar a aposentadoria dos velhos é suprimir uma espécie de "luz no fim do túnel" para todas as pessoas que são obrigadas a trabalhar para viver. O trabalho é penoso para a grande maioria das pessoas, ainda e até mais ainda no século XXI já que agora os ritmos, velocidades e formas gerenciais da era da informática compõem uma espécie de neo-escravismo de entrada em um novo mundo, o dos robôs, androides, avatares. 

A aposentadoria é um direito fundamental para os velhos da espécie humana. E, não se enganem, a gente fica velho desde o momento da menopausa. Os homens na mesma época ou antes até, dado o tamanho do desgaste na opressão do mundo do trabalho capitalista. Em 2016, a experiência cotidiana de qualquer brasileiro ou brasileira demonstra, comprova, que todos temos alguma ou mais de uma doença séria ou merecedora de cuidados importantes, isso desde os quarenta e cinco ou cinquenta anos.

Reduzir a jornada para quatro ou cinco horas, aos cinquenta anos e aposentar-se integralmente aos cinquenta e cinco seria uma possibilidade de reduzir enormemente os gastos com doenças, prolongar a vida boa útil e, com isso, retornar ao mundo da organização da vida coletiva para fazer coisas boas aos jovens e crianças, tais como cuidar dos netos, das hortas públicas, de atividades lúdicas e educativas para os pobres. E, de quebra, seria um incentivo para a redução do desemprego dos jovens.

Os ricos brasileiros e do mundo inteiro não querem tirar a aposentadoria dos velhos pobres e remediados para ajudar alguém. Dinheiro pra eles é brinquedo e fórmulas tais como "dívidas públicas" ou "superávit" são engrenagens da brincadeira de produzir pobreza, sofrimento e guerras. Os ricos brasileiros e do mundo inteiro são loucos, malvados e burros.

Nós só precisamos ser inteligentes livremente e falar uns com os outros em espaços públicos. Se fizermos isso conseguiremos tirar os loucos burros do poder.

O segredo da maçonaria e a verdade feminista



Apareceu no facebook uma lista de cento e um homens brasileiros maçons. Nela estão presentes Tiradentes, Fábio Junior (o cantor), Alceu Collares (prefeito de Porto Alegre pelo PDT de Brizola), Fernando Gabeira e até Luis Eduardo Greenhalgh, o advogado famoso do Partido dos Trabalhadores; todos esses nomes entremeados por nomes de generais e políticos da tradição da direita brasileira. Nos comentários da postagem alguém fala que Tiradentes não era maçom, se fosse não teria sido morto e despedaçado; que outros da lista também não o são. O objetivo desta listagem neste post não é ser fiel à verdade mas sim querer dizer que eles, os maçons, estão em qualquer estrutura social, que eles são onipresentes e oniscientes e que pretenderiam ser onipotentes em seu desejo utópico, isto é, serem os tais "illuminati", seres super-humanos que dominariam o mundo completa e irrevogavelmente. Uns semi-deuses, mais ou menos. Em muitos momentos eles conseguem vender essa ideia e disseminar essa vontade. Em muitos lugares eles conseguem hegemonizar toda a estrutura em questão, tornar-se uma pregnância. 

O segredo da maçonaria é mover-se de modo a fazer os "outros" não saberem quem é maçom e quem não é. Eles acabam obrigando o conjunto de um ambiente a conviver com eles sem debater a sua presença. Funciona como se só eles tivessem o direito a uma clandestinidade e como se essa clandestinidade gerasse poder aos seus adeptos; um poder difuso e obscuro, um risco de que o sujeito que subordina você possa ter o apoio de muitos outros para fazer isso ou o que quer que seja determinado por esse conjunto desconhecido e inacessível. É interessante analisar sobre o porque essa ordem secreta foi um recurso importante para o golpe do impeachment da Dilma. A maçonaria como tal não define os rumos da espécie humana atualmente, quem faz isso é quem é dono dos meios de produção (incluso os meios de produção dos discursos públicos). Mas, assim como as igrejas evangélicas, ou islâmicas, ou cristãs, pode fornecer o meio para um determinado espaço de articulação discursiva de tomada de poder. E, não se enganem, não obstante um dos pilares desse ordenamento seja a condição masculina de seus membros, esse não é o pilar central e insubstituível. O que define a maçonaria é sua capacidade de ser ao mesmo tempo hiper-exposta e hiper-invisível, por meio de seu "segredo". Ora, isso é passível de ser feito por ambientes mistos e até mesmo com participação de sujeitos ambivalentes ou híbridos no que diz respeito ao gênero. O que não poderia nunca, jamais e em tempo algum, faltar na ordem maçônica são dois ingredientes: primeiro - seus dirigentes precisam ser também dirigentes de lugares importantes de poder na sociedade onde vivem; segundo - é preciso que poucos maçons sejam muito conhecidos e muitos maçons sejam clandestinos, invisíveis à sociabilidade. Bom, esses dois ingredientes fundamentais da maçonaria são muito utilizados também pelas organizações da tradição filosófica marxista-leninista. Registre-se que em quaisquer desses ordenamentos secretos a participação feminina é dificultada, contida nas bases, assediada a limites definidos pelas cúpulas masculinas. As cotas seriam apenas mais um indicador desse modo operacional restritivo. 

Talvez também por isso o impeachment da primeira presidenta do Brasil, em 2016, tenha alçado voo por meio de uma articulação maçônica. Muito se falou sobre esse impeachment ter sido uma espécie de "estupro político" e, diante do ocorrido, os movimentos feministas amplificaram as denúncias sobre a predominância social e histórica de uma determinada "cultura do estupro". Podemos definir a cultura do estupro como aquele conjunto de filosofias que se constroem sobre uma base na qual há um espaço restrito e mais seguro (por suposto) para as mulheres fora do qual elas estarão à mercê da invasão, violação e tortura por parte de qualquer um, por suposto um estranho. Esse espaço restrito uma vez foi o ambiente doméstico, depois pode tornar-se a base das organizações religiosas e políticas e, também, o chão das fábricas e as salas de aulas. Os feminismos denunciam que as estatísticas apontam serem os estupros praticados predominantemente em ambiente familiar e que as mulheres não estão protegidas em lugar algum; as feministas tentam conduzir mulheres a níveis superiores de espaços de poder e até mesmo nas ordens religiosas e secretas as mulheres lutam para ter maior influência. A cultura feminista, assim, é o conjunto de filosofias que se propõem a ampliar o direito de ir e vir e a liberdade de manifestação das mulheres. Nas organizações de tipo marxista-leninista há a presença de mulheres nas cúpulas, ainda que de um modo dificultado e restrito, mas assim como a tal "política" sempre foi um ambiente de domínio para sujeitos pertencentes às ordens secretas maçônicas, desde o surgimento dessa estrutura organizativa na idade média, a "revolução" veio sendo um lugar privilegiado para sujeitos masculinos das ordens secretas da esquerda.

Nunca saberemos quantos maçons existem e o quanto eles se fizeram presentes dentro dos partidos de esquerda brasileiros e dentro dos governos liderados por Lula e Dima Rousseff. Nunca saberemos quantos maçons habitaram ou irão habitar as televisões e os ministérios da cultura. O que já sabemos, e isso é decisivo na mudança de rumos e de éticas na história da humanidade, é que não há espaço escondido e restrito no qual as mulheres estejam mais seguras em um mundo onde predominam as atitudes competitivas, bélicas, consumistas. As mulheres, consideradas a parte mais frágil da espécie humana juntamente com as crianças e os velhos, só estão seguras em ambiente pacificado e com predomínio de princípios jurídicos ligados à ideias de proteção, cuidado. Fora de ambientes tutelados pela paz, as mulheres são sujeitas a todo o tipo de assédio, de violação e a vários tipos de "estupro", inclusive o político.

O silêncio interior



Um desmonte partidário, desconfiguração de diferenças entre partidos políticos, começa a ser descrito no interior da linguagem que se ergue nesse novo governo excepcional (todos concordam que não é um governo normal?). Os interinos afirmam que representarão o próprio Estado, sem limitarem-se aos seus próprios partidos. Foi o que disse José Serra, em 20.05.16, ao globo news da Miriam Leitão, falando sobre o comportamento da diplomacia no "Temerismo". Ora, isso nada mais é do que a velha fórmula "O Estado sou eu", de Luís XIV, fórmula que o próprio Serra disse combater, anos atrás. Em paralelo, o PT decide não proibir alianças com o PMDB nos municípios, revelando que a tese do “golpe” não atinge a esfera municipal. Como pode haver uma ditadura ‘aprisionando’ a ‘presidenta afastada’ no palácio da Alvorada (quem vai lá tem que mostrar a identidade para seguranças postos lá pelo governo interino) e, em paralelo, amizades fraternas entre os dois lados em municípios brasileiros?  Bom, a linguagem está um caos, uma torre de babel, e disso decorre que os partidos tendem a ser camaleônicos, abrigando misturas de fascismos, teologias repressivas, liberalismos nos detalhes e condutas, republicanismos fakes, esquerdismos fakes, marxismos banalizados e inúteis, trotskismos evangélicos e pregações evangélicas que não precisariam ser, mas são esquizofrênicas. A prova é a presença de discursos que criticam ardentemente os humoristas políticos e elogiam os reality shows, ao mesmo tempo em que criticam ardentemente o neoconservadorismo yuppie, dos cabelinhos escovados. Alguém ligado à Marina Silva disse isso nas redes sociais. Ou então quando um homossexual diz, ameaçador, estar certo de que as diferentes manifestações de gêneros e sexualidades devem ser protegidas e todos os ‘preconceitos’ punidos com exemplar rigor, sugerindo que os modos de ver a vida devem ser forçados a uma uniformização por meios repressivos e não pelo debate cultural. Alguém ligado à Dilma disse isso nas redes sociais. Meleca geral.
Disso abre-se um portal para fluxos defensivos nas ruas, nas escolas, nas praças, no teatro, no cinema, nos quais os partidos não existirão, dando lugar para pequenos agrupamentos, tribos políticas, múltiplos 'ninguéns', inúmeras partições, partidos reais? Ora, mas isso não se mantém, disse um. Será? Será que a prática de 'estar na rua juntos' não veio para se consolidar como um modo de fazer política? Invertendo a lógica é de se perguntar então até quando as polícias especializadas em repressão às tribos nas ruas conseguirão manterem-se agressivas e agredindo? Há que se considerar que uma das coisas em questão é justamente a importância filosófica e prática da rua e do espaço doméstico. Em uma sociedade onde a casa só é um bom lugar, um lugar de poder e vida boa se for a casa dos ricos, dos classe média bem colocados e dos habitantes rurais e praianos, podemos investigar os motivos para os moradores das grandes cidades, dos grandes centros urbanos, nos quais a casa dos pobres, da classe média mais empobrecida e dos jovens dos grandes edifícios são lugares dormitório onde só haverá a televisão e o computador para realizar afetos, vínculos comunitários, podemos investigar se a rua, as praças não estão já há mais tempo se revelando espaços de construção de uma nova forma de inclusão política. Ou seja, a família só é a célula básica da estrutura política para os “de cima”, para os “dos castelos”. Para os sem poder econômico a família não protege, não garante mais nada.
Com um olhar sobre as novas relações entre o que é público e o que é privado, vemos que vivemos um desmonte das tradições republicanas não só porque uma determinada elite econômica brasileira resolveu, do nada, retroagir, voltar a tempos de violência pura, ação direta militar. Podemos começar a falar, se somos adeptos da liberdade de manifestação, em um caos generalizado, na linguagem e nas formas. Nesse caos, o que há de mais sólido parece ser a ineficácia e a desagregação das velhas fórmulas dos partidos políticos nacionais e uma espécie de tentativa de defesa dos não representados pelos partidos em ruína e nem pela elite econômica por meio da simples e direta presença nas ruas, nas praças e em lugares marcados como tentativas de defesa das coletividades, como as escolas. A partir dessas desconstruções irruptivas, da linguagem e das formas, poderíamos investigar se isso que vivemos trata-se mesmo de um ‘golpe’ ou se é uma espécie de migração formal, por meio de uma precipitação por transbordamento, de uma civilização em direção a outra. Afinal, a passagem do Império Romano para a modernidade ocidental precisou de uma idade média de mil anos porque foi esse o tempo necessário para uma produção tecnológica capaz de inaugurar o mercantilismo e os correspondentes escravismos e colonialismos modernos, dos quais derivou a existências dos chamados “primeiro mundo” e “mundo subdesenvolvido”. Esse tempo de mil anos teve suas formas correspondentes, suas roupas, seus deslocamentos espaciais, suas linguagens. Mas, considerando a velocidade da produção tecnológica moderna, aumentada por uma aceleração incrível, seria de investigar a hipótese de termos chegado a uma situação na qual não mais seria materialmente possível passar de uma civilização a outra por meio de sucessivas modas e mudanças de estruturas alavancadas de tempos em tempos por momentos súbitos promovidos aos “golpes”, às “guerras nacionais” e às “revoluções partidárias”, mas agora por novos processos descritíveis apenas por palavras tais como “transbordamento”, “precipitação”, “degradação” e etc, palavras mais aproximadas das ideias de acontecimentos próprios da natureza, daquilo que não é fabricado pela espécie humana, mas se realiza a partir dos ventos, das marés, do cosmos, das águas, das pressões, das químicas micromoleculares.

A humanidade sempre se moveu a partir de dois fenômenos: a memória e a invenção. No momento político brasileiro atual podemos levantar a hipótese de que as memórias estão em uma desordem de tais proporções que mundos díspares, do ponto de vista cronológico, começam a se organizar, e que formas rudimentares e tribais se estruturam em paralelo a formas vinculadas a tradições de tempos coloniais, feudais propriamente ditas. Do lado da invenção temos, pulsando em um silêncio majestoso, as dinâmicas governadas pela tecnologia da informática que apenas anunciam a hipótese de um futuro sem outra palavra a descreve-lo que não a palavra incrível. Vivemos atualmente dentro de um filme de ficção científica, dinossauros e blade runners e os protagonistas somos nós mesmos. E eu termino esse texto com uma citação da Clarice Lispector: “Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da Terra e da Lua. Então ele, o silêncio, aparece. E o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da gente.”

Obrigada, PT!


Se a opinião pública não fosse controlada pela grande mídia e se a mídia não fosse controlada pelo Capital eu acharia razoável o argumento de que a jogada do Maranhão na presidência da Câmara teria sido indevida. Isso supondo que ela fosse fruto de uma artimanha dos defensores do mandato de Dilma, e não de um aviso do presidente anterior, suspenso pelo STF. Mas todos os acontecimentos são híbridos, desde a retirada da ditadura militar como formato de controle político. Em todos os acontecimentos desde então, vide a manipulação eleitoral via o binômio pesquisa/mídia, tem havido violência do poder econômico. Foi isso exatamente que capturou o Partido dos Trabalhadores e seus aliados (e não podemos dizer "se tivesse sido de outro modo", porque ninguém conseguiu fazer de outro modo). Deriva daí que o Congresso Nacional é um dos produtos finais da violência enorme dos gerenciamentos de controle social.  E resulta que um dia esse produto final realizaria seu esplendor, sua maturidade dentro de um ethos desde sempre não apenas autoritário, mais que isso, perverso.
Aliás, o começo deste hibridismo no qual as leis, as regras, são descumpridas ou insuficientes foi o modo como se deu a ocupação do território nacional, com seu escravismo de características únicas no mundo moderno. Só aqui, diferentemente do processo abertamente violento dos Estados Unidos, a confraternização entre escravos e senhores era estimulada e vivida como moldura de uma crueldade acintosamente perversa. No campo jurídico, esse hibridismo migra para a primeira república, e subsequentemente para todas as outras, por meio da própria Abolição da escravatura. A Lei Áurea foi um ato violento, pois a força dos escravocratas impôs a ideia de indenização aos donos dos escravos, seguindo a lógica de que o mal chamado “mercado” é um “deus”. Essa força impediu a reflexão, tímida na época, sobre a necessidade de indenização aos prejudicados pela injustiça da escravidão. Ora, se era uma injustiça a ser abolida, precisaria ser retirada do cenário produzido por ela, ou seja, precisaria ter identificados seus responsáveis e estes precisariam ser coagidos a indenizar os prejudicados. Ao contrário, a pressão dos escravocratas no parlamento da época acabou impondo a ideia de que simplesmente abolir a regra do escravismo, sem indenizar ninguém, seria uma dádiva generosamente ofertada pelos donos das minas, das charqueadas, das grandes plantações de café e açúcar. Afinal, precisamos relembrar, as extinções de escravismos e colonialismos da era moderna foram realizadas como generosidades efetuadas pelos que os produziram e estiveram apoiadas em justificativas muito mais relacionadas a ideias de produtividade e eficiência dos mecanismos do tal “mercado” do que a algum tipo de descoberta lógica no campo da ética.Então, é preciso entender todos os acontecimentos como imersos em um tipo de guerra, no Brasil, desde sua fundação, em 1500, como um território invadido e colonizado por um império. Em uma guerra há um hibridismo na codificação: parte dela se dá com um grande acordo sobre regras onde haverá um vencedor aceito por todos; outra parte é um espaço de violência pura, na qual todos os lances são válidos e vence o mais forte, o mais sagaz, o mais violento (e a violência máxima é o ataque inesperado com força descomunal, como em Hiroxima). Há, inclusive, uma parte que é o hibridismo do hibridismo e ela realiza um conjunto de jogadas-trapaças, que são jogadas inesperadas, mas supostas na estrutura geral do acordo sobre regras.
Além da especificidade brasileira, é preciso lembrar que toda a história da humanidade até hoje foi conduzida pela violência do mais forte, que, em última instância é a lei do pai, do patriarca. O patriarca é simbolicamente “o mais forte” porque um dia ele foi de fato o mais forte, em termos de força física, e ele ocupa aquele lugar em representação a todos os homens efetivamente mais fortes; e também em representação às mulheres mais fortes e associadas aos homens fortes. E ele será destituído, derrubado, morto, exilado ou silenciado em um mosteiro ou asilo quando não mais puder representar esse conjunto hierárquico de força bruta. E outro representante maior do signo da força bruta ascenderá ao poder, podendo ser eleito por um conselho de anciãos ou mesmo por um colégio de eleitores confiáveis. Essa é a ideia que fundamenta a palavra "deus" nas religiões monoteístas, bélicas e articuladoras de muitos impérios. O conceito de "verificável" do pensamento científico também abriga um conteúdo bélico e patriarcal, pois muitos acontecimentos humanos não podem ser medidos, talvez a maioria deles, e entre os que podem ser verificados, reproduzidos, somente os que os poderes patriarcais escolhem são alavancados por um conhecimento tecnológico de verificação. Mesmo a ação de uma maioria, uma parte da população insuflada por uma liderança, poderá ser um acontecimento violento e inaugurador de intenso sofrimento coletivo, como o nazismo, por exemplo. Então, precisamos nos mover dentro de uma guerra, mesmo quando queremos combate-la e extingui-la.
A jogada do Maranhão não produziu violência, ao contrário, ela jogou um balde de água, conteve a velocidade dos mais fortes, acalmou os ânimos.  Foi quase uma trégua, dado o fato de ter sido anulada por ele mesmo, na madrugada do dia seguinte. No intervalo de um dia, uma pequena jogada mostrou a importância da presidência da Câmara dos deputados federais e o motivo pelo qual ela esteve ocupada, durante todo o período de aprovação do processo de impeachment da presidenta, pelo Eduardo Cunha e tudo o que ele significa.  Obviamente o processo retomaria seu curso, a derrubada da presidenta Dilma, já que o que determina esse acontecimento é o controle do congresso pelas bancadas da bala, do boi e da bíblia, garantido pela grande mídia, com liderança central da Rede Globo de televisão. Esse controle, não obstante inúmeras diferenças de escala e particularidades próprias ao mundo dos espetáculos e das multidões, é o mesmo que produziu a lei da Abolição e a retirada de cena da ditadura militar.
Falo tudo isso para assinalar que uma parte do golpe efetuado hoje, 11 de maio de 2016, não revela uma grande inauguração macabra e de consequências trágicas incalculáveis, como parte do discurso dos defensores do mandato da presidenta eleita, Dilma Rousseff, quer registrar. Sim, um grupo grande de brasileiros está muito triste e preocupado; sim, viveremos um período de ampliação dos acontecimentos repressivos. Mas não é corajoso e lúcido afirmar que caímos em um abismo. Ainda não é, não obstante as ameaças que são praticadas e anunciadas na atualidade contra grande parte dos seis bilhões de habitantes do planeta. O risco de que bilhões de humanos sejam jogados na condição em que foram os sírios é visível a olho nu. Mas os brasileiros ainda estão bem longe de uma situação de devastação das cidades e da sociedade civil, em que pese as enormes dificuldades de garantias de direitos constitucionais pétreos para a maioria dos habitantes dos centros urbanos. A hegemonia que realiza um ataque formal por meio do impeachment da presidenta já vinha sendo desenhada faz tempo e todos sabemos que se a aliança com o PMDB não produzisse o lastro para a eleição de presidentes do Partido dos Trabalhadores, Dilma não teria sido eleita.  Ora, mas se todo o processo de chegada do PT ao poder se deu a partir de alianças com forças que hoje o derrubam, a queda da Dilma estaria a anunciar um cansaço por parte dos donos do poder com relação a estratégias e formas humanistas e republicanas? E esse cansaço, produtor do ataque midiático e político ao governo do PT, resultaria em um mergulho imediato do Brasil e dos brasileiros em um momento de radical e imediata perda dos espaços exíguos de garantias constitucionais?
Não creio que a derrota tenha essa dimensão, embora esse risco esteja posto. A diferença é que a nossa memória, a dos descendentes dos escravos e dos abolicionistas, está muito mais potente agora, mais capaz de introduzir novas regras no jogo, novos instrumentos de pacificação e desconstrução das guerras conhecidas, de muitas guerras já vividas. Sim, estamos muito mais ameaçados do que estivemos durante a década de 1980, mas desde o início das terceirizações e das práticas de desregulamentação e exposição dos trabalhadores e das trabalhadoras ao assédio moral como regra de gerenciamento, já na década de 1990, começamos a sofrer importantes perdas de direitos. Temos uma enorme população plenamente consciente de que não pode perder mais nada.  Parte dessa capacidade de resistência e entendimento devemos à experiência vivida no período de governos do Partido dos Trabalhadores e seus aliados, tanto por seus acertos quanto por seus erros, uma vez que o erro cometido produz sua crítica e movimenta as possibilidades . A ideia mestra de “governabilidade”, por exemplo, carrega um duplo significado, mais uma vez híbrido: de um lado ela é constrangedora porque explicita o real controle do poder nas mãos do Capital, o verdadeiro dono de todas as engrenagens; de outro, ela é revolucionária, porque alimenta a experiência de que violentos são eles, os donos do poder. Nós, os escravos e abolicionistas de sempre, somos pacíficos e ordenadores do bem estar comum e os únicos recursos potentes que temos são a memória coletiva humana, a consagrar a ética da pacificação, do cuidado e do equilíbrio ecológico, como única chance de sobrevivência no planeta.

Precisamos perdoar o PT e assumir, daqui para a frente, uma nova história, com novos atores e novas regras do jogo. E, para que isso aconteça, precisamos interpretar o dia de hoje, com a derrubada da presidenta eleita Dilma por meio de uma articulação de um congresso nacional comprometido com uma elite autoritária e perversa, não como o mergulho nosso em um abismo do qual só poderemos sair por meio do desespero e de catarses políticas sangrentas, ao modo de sacrifícios culposos. Precisamos entender o 11 de maio de 2016 como um novo começo para a luta pela democracia no Brasil, utilizando tudo o que pudemos consolidar de esclarecimento e dignidade coletiva acumulada até agora e desde as lutas quilombolas e rebeldes do Brasil escravista colonial. Perdoar o PT, assim, significa não mais entendê-lo como uma espécie de “pai” impotente a quem se deva responsabilizar pela ausência de um “pai poderoso”. Perdoar o PT significa dizer: “Obrigada!Obrigado!Obrigadx! Valeu! Mas daqui pra frente sou eu mesma (mesmo, mesmx)! Somos nós e nossas cacofonias, dissonâncias e multiplicidades étnicas e éticas!”. Ou seja, vamos sair, nos mesmos, do espectro do patriarcado para poder lutar contra os patriarcas escravocratas de sempre. Vamos nós mesmas, mesmos, mesmxs, sem lenço e sem documento. Nunca esquecendo que é imprescindível que essas novas regras de luta, essas novas bandeiras, articulem a leveza dos jovens e a memória dos velhos para que se possa partejar qualquer tipo de tentativa de nação, ou nações, no território Brasil.