Escrituras Heréticas - blog da Dinah Lemos

Querida Zeferina - carta oito - estupro e cultura

               



                                      Querida tataravó,


                              Decidi acomodar uma série de cartas sinceras e irreverentes em um arquivo privado, para serem publicadas quando o que vivemos agora, no Brasil, tenha se tornado história, quando estivermos mortos, a maioria de nós.  Elas não têm nada demais, apenas registram uma mágoa que era legítima até dois mil e quinze, mas agora não existe mais, pois fomos tomados todos, nós os subordinados aos que mandam nesse país, por uma condição de refugiados que nos apavora e nos põe em guarda, desolados e combatentes. Mas ainda retornarei ao assunto das mágoas, sempre legítimas, sempre necessário o direito de serem faladas e entendidas.
                                    Nessa carta aqui, também iniciada em 2012, o assunto era uma cena de estupro que eu não vi,  mas ouvi. Estava eu falando a você sobre a Simone de Beauvoir e o Fernando Henrique Cardoso em suas teses sobre a condição de coisa no agir da espécie humana. Lembro agora de Paul Veyne, no História da Vida Privada, quando ele diz ser o escravismo um objeto de estudo mutante, que não se deixa apreender inteiramente nunca, isto é, a cada vez que tentamos entender uma situação de indivíduos ou coletividades escravizadas notamos que há conteúdos ou formatos que escapam ao nosso entendimento. São híbridos. Lembro também de um brasileiro chamado Ricardo Benzaquen de Araújo que definiu um conceito (um enredo conceitual) sobre o território simbólico e emocional no qual acontece a situação de escravidão. Ele descreveu como uma situação onde violência e confraternização se realizam juntas, imbricadas, sem que haja propriamente um confronto, uma antítese e uma consequente síntese. A situação do escravo e do dono é um lugar onde não há negociação entre contraditórios, há um enredo mole, líquido, polimórfico e perverso. Uma perversidade que começa na maldade, mas cansa e acaba se estendendo para formas sadomasoquistas ambíguas, perenes, equilibradas. Daí Ricardo buscar em Gilberto Freyre, outro brasileiro pensador da década de trinta do século vinte, a ideia de equilíbrio híbrido e estável.
                                    Esta carta trazia um relato de uma cena muito incômoda testemunhada por mim, lá por 2009 em Imbituba, Santa Catarina, Brasil. “No início de minha vida no exílio que escolhi, pois fugi de Porto Alegre, como já contei, não sabia dirigir carros, ainda, embora já estivesse com quase cinquenta anos, por essa razão aluguei uma casa perto do trabalho, longe da praia onde moro agora. Na casa ao lado havia um jovem aparentando uns 28 anos e uma mulher mais jovem ainda que o visitava nos fins-de-semana. Eles faziam sexo umas duas vezes por dia, durante os dois dias de sábado e domingo, e ela gritava, desesperada, pedindo para ele parar: "Chega! Chega”! Gritava como se fosse esfaqueada, torturada. Depois ela soltava risadas nervosas e debochadas. Na primeira vez entrei em alerta máximo e pensei em chamar a polícia, socorrê-la, salvá-la; depois vieram as risadas e entendi ser aquilo um ritual estranho. O pescador que alugava o andar de baixo de sua casa para mim, estivador aposentado, disse ser uma cena habitual, parecendo um estupro mas sendo apenas um jeito ruidoso e maluco de fazer sexo. Naquele dia, eu imaginei que ela estivesse sofrendo uma penetração anal violenta, dolorida; gritava pedindo para que ele parasse, gritava sem parar. A meu ver ela sofre de alguma maneira, é incômodo e a deixa esgotada, abusada, sofrida. Imaginei uma cena onde a mulher está à mercê de sofrer uma violência insuportável, mas essa violência acontece de um modo mitigado. Parece então estar a mocinha magra e branca atuando para dar limite a seu parceiro, acelerar a ejaculação e reduzir o risco de ser machucada, ela grita por achar que é assim que se deve fazer, representar, existir como fêmea no mundo do encontro sexual. Ela aprendeu a fazer sexo dessa maneira. É uma cultura que preserva a idéia de sexo violento, no qual a mulher padece de dores na vagina e no ânus. Sangramentos, deformações. Muitas prostitutas provavelmente comportam-se assim e mulheres casadas, fiéis e cristãs praticantes, também. Mas todos estamos cansados - sobretudo cansadas - de saber que o pênis dos homens comuns está longe de ter tanta potência de invasão e desejo de maus tratos como esses gritos descrevem, em se tratando de uma mulher adulta e experiente. Creio que, até onde eu vivi, a maioria dos homens tende a machucar o parceiro penetrado, vez ou outra, mas mais por imperícia e ignorância do que por uma perseverante maldade. Essa falta de competência do parceiro que penetra ocorre até mesmo em relações entre lésbicas, porque até ali predomina a intuição humana de que o sexo deve mover-se por meio de uma virilidade inconsequente, insensível ao sentimento e ao corpo alheio. E é intuição porque brota de um entendimento anterior à linguagem, ao pensamento; sentida como inata, natural, orgânica. O que esse ato sexual da menina branca e do guri de vinte e oito anos(ato no sentido de teatro) faz é recordar o estupro de crianças ou pessoas muito jovens por adultos transtornados, ou a violência de um coito anal  consentido porém descuidado. É um código, uma linguagem, uma memória. E, ainda, as risadas nervosas e debochadas acabam por dar a impressão de ser uma memória traumática, como poderia ser a de uma menina rotineiramente abusada pelo padrasto, pelo irmão ou tio, ou mesmo o próprio pai. Mas por que me ocorre tudo isso? Por que eu conheço esse imaginário, essa intuição? Acho que ela é um tabu, uma presença demonstrada desde o berço do bebê, mas não falada, não pensada. Uma tradição arquetípica presente nas cartas do tarô, na bíblia, no alcorão, nas rezas em todos os cantos do mundo humano há setenta milhões de anos”.
                                               Mas o que é o viril, Zeferina? Lembro-me agora de uma vez, no trabalho em Porto Alegre, quando rimos tão divertidas e aconchegadas, nós, as jovens operárias do judiciário trabalhista brasileiro. Foi lá por mil novecentos e oitenta e nove, pouco menos ou mais, quando éramos ingenuamente políticos todos nós. Foi outra cena. Uma de nós estava lendo um processo e falou, em voz alta, para ser ouvida e respondida: “mas o que é o varão”? Isso porque em processos judiciais é preciso saber exatamente o conteúdo jurídico implicado no termo para tentar evitar erros de interpretação. A moça que perguntou queria saber o exato sentido da palavra, ali naquele contexto. Foi quando assomou, em uma cena mágica, um belíssimo homem adulto no balcão, lindo mesmo, forte, belo, jovial, energizado. Eu diria agora, em 2017, já velha, um belíssimo exemplo de acontecimento viril. No segundo seguinte à pergunta o sujeito mostrou-se e disse: “É o marido!”. E nós quedamos embevecidas, entre risadinhas disponíveis ao sexo bom. Ele riu, foi atendido e foi embora. Voltamos a trabalhar, na época, tranquilas, porque em oitenta o local de trabalho, comparado com o de hoje, era muito bom. Penso agora que a mesma intuição onde o ativo sexual tem a prerrogativa – e talvez a função – de atacar e machucar tem, no interior de suas composições simbólicas e emocionais, a noção de proteção, prazer e segurança para o subordinado.
                                              Dizia eu na carta posta aqui, em 2012, “As práticas sexuais da humanidade estão longe de serem efetivamente viris, no sentido de levarem as mulheres e homens penetrados a maravilhosos orgasmos ou, ao menos, a um intenso prazer. No sentido de viril como aquele responsável por garantir a segurança, a tranquilidade, a conveniência e perfeição do ato sexual feito por um sujeito inteligente, capaz de seduzir e convencer com a palavra e o gesto sutil. As tentativas do movimento feminista para divulgar a reflexão sobre o tema foram pouco difundidas e durante muito pouco tempo; logo depois do feminismo ser combatido, no Brasil, pelo próprio sindicalismo nascente após a ditadura militar e pelo pensamento autoritário comum, surgiram as delegacias de mulheres, as organizações não governamentais, as leis de proteção ao idoso, à mulher, aos negros e às crianças, fazendo com que a preocupação contra a violência e o abuso ganhasse o foco da filantropia, do controle do excesso, do combate ao espancamento, ao assassinato, ao encarceramento privado e ilegal. No entanto, as feministas das décadas de 1970 e 80 propunham a reflexão sobre todos os aspectos, até os mais sutis, da violência embutida no erótico e no sexual, dentro da tradição cultural. As primeiras feministas da luta contra a ditadura queriam discutir o prazer conjunto entre os parceiros humanos. Em  2012, o sexo que aparece e é falado nas grandes mídias não existe, na realidade cansada e assustada a imensa maioria; o avanço do empoderamento das mulheres é um discurso voltado para o consumo individual, imerso na fragilidade. O imaginário do estupro é mais forte do que as modernas regras civilizadas porque talvez ele esteja relacionado com o conjunto do mundo e da história humana, o mundo do trabalho, da escravização. Ficam duas perguntas: a violência tem mais potência de realizar e manter memória, na espécie humana atual, do que a confraternização, solidariedade e delicadeza? O campo mórfico das atitudes violentas tem mais ressonância desde sempre, nos humanos, do que o campo mórfico da solidariedade”? Eram estas as perguntas da carta posta aqui.
                                               Hoje, retomando aquela carta, Zeferina, eu me pergunto como é possível termos um país devastado pelo medo e o aumento explosivo da violência urbana e, ainda assim, sendo cenário de sorridentes e belas mulheres falando nas televisões sobre direitos das mulheres e injustiça dos homens. Elas usam saltos muito altos, às vezes muito finos, ou muito grossos, roupas inventadas como se fossem fantasias de carnaval, ou outras que se parecem um pouco –ainda que apenas insinuem – com aquelas roupas da nobreza europeia dos reis e rainhas do século dezoito, antes da revolução francesa. Algumas delas brincam de intimidades femininas, risonhas e despreocupadas, em frente às telas das tevês. E nós aqui, chorando, sofrendo, apanhando nas ruas. Homens e mulheres perdendo empregos, salários devidos e não pagos, perdendo postos de saúde, remédios e escolas, perdendo frágeis casinhas erguidas com sofreguidão. Isso tudo traz a minha memória aquela antiga frase do Paul Veyne, quando ele diz ser o escravismo um cenário mutante e terrivelmente resistente. Ou Ricardo Benzaquen, afirmando ser a perversidade escravista híbrida e estável. Só um sujeito escravista pode divertir-se pujantemente enquanto o outro, objeto de seu domínio, tem medo, sofre e chora. E somente um escravo consegue acionar uma cena na qual ele teatraliza a inversão de um domínio, inversão possibilitada pelo excesso, o vício e a insensatez do mandante.  A escravidão é uma fórmula, um enredo, próprio da história e não da bioquímica do macho e da fêmea, penso eu. Há quem pense exatamente o contrário e defenda o desmanchamento dessas constituições físicas da mulher e do homem, milenares, para dar lugar a invenções bioquímicas. Estes se pensam como sendo os melhores humanos, os que pensam melhor, os inventores. E eles estão no poder.


versão dois. 
                                                                                                     





Querida Zeferina - carta sete - Fernando Henrique Cardoso e Simone de Beauvoir

  



Querida Zeferina,


                           Uma vez briguei, indignada, com o Zézinho, porque ele havia dito ser a luta feminista uma luta burguesa. Na época, oitenta, era um campo de atuação política chamado de “luta das mulheres”, creio que para diluir as possibilidades que o “ista” acoplado a “femin” erguia. Era quase ilegal uma jovem mulher identificar-se como “feminista”, naquele tempo onde as que se identificavam assim, em Porto Alegre, cabiam em duas ou três Kombis (a Van da época). Seriam, caso fossem mais do que uma brincadeira entre nós, Kombis lotadas de sonhos imprecisos e desconhecimentos sobre os caminhos possíveis. Nem lembro como foi a briga, sei apenas que ele dava risinhos em caretas-espelhos olhando para mim, caretas tensas, rígidas, rápidas, cortantes, a revelarem uma mulher sem conteúdo que merecesse pleno respeito, posta a sua frente, furiosa. Eu.  Ele era um líder, o José Carlos de Oliveira, na época parecia ter lido todos os livros interessantes do mundo e havia se construído como dono de uma livraria chamada “Combate Socialista”. Trabalhei na livraria do Zé. Lembro do dia em que sentamos no chão para assistir a uma conversa quase íntima com Luiz Carlos Prestes. E ele me disse aquilo. Um homem pequeno, franzino, de pele bem branca, enormes e aveludados olhos negros e uma cabeleira farta, preta e encaracolada. Eu contagiada pelas intensidades emocionais de uma escolha minha em tornar-me uma das “feministas de carteirinha” de Porto Alegre, escolha que provocaria, mais tarde, em minha vida pessoal, a passagem de muitos furacões, durante muito tempo, embora tenha realizado as condições subjetivas para a minha própria salvação na vida madura.  E o cara me diz aquilo, que só de escrever aqui, nesta carta, já me dá vontade de nem continuar o assunto. E agora estou eu, em 2017, combatendo o uso corrompido do feminismo por Hollywood, o feminismo da multidão de fãs da Meryl Streep, da Madonna e da Hillary Clinton, e prevendo que uma gigantesca greve mundial de mulheres, chamada para o oito de março de 2017, rompa brutalmente o vínculo ainda mantido entre a memória desta data e a memória das operárias que morreram queimadas por serem operárias e não por se pensarem como feministas, as memórias da revolução russa e as memórias das diferentes tradições marxistas do planeta azul. Ponho-me aqui encurralada entre um desprezo registrado em oitenta e uma deprimente constatação de que aquela afirmada captura do feminismo pelos discursos padronizados dentro do capitalismo, defendida pelo Zé, está em questão hoje. Imagino Zeferina do lado do Zézinho, ambos rindo carinhosamente e curiosos sobre por quais caminhos seguirei nesse assunto ocupado por aquelas unanimidades que tanto irritavam Nelson Rodrigues, o crítico e teatrólogo brasileiro. Penso: a unanimidade é sempre burra e o feminismo é inteligente. “Qual feminismo”? Vocês dois, às gaitadas de galpão, me perguntam.
                                             Daí, sem saber por onde ir, sozinha dentro de uma única e velha Kombi intelectual, resolvi ler, finalmente, a Simone de Beauvoir. Surpreendo-me, encantada, com a evidência, ao menos nas cinquenta primeiras páginas do “O Segundo Sexo”, de que a Simone entendia o trabalho doméstico como um lugar vazio de dignidade. Fico então feliz e tranquila por ter, ao menos, um fio da meada de um longo e emaranhado novelo por meio do qual posso me assegurar de que há saída desse labirinto no qual a maioria das mulheres do mundo se encontra agora. Há saída, vamos bem devagar.
                                        “Se a mulher se enxerga como o inessencial que nunca retorna ao essencial é porque não opera, ela própria esse retorno”. Não vou citar as páginas, procurem.  “As mulheres não dizem nós”, escreveu Simone de Beauvoir, os proletários e os negros conseguem se ver como um sujeito coletivo, ela falou. “Efetivamente, ao lado da pretensão de todo indivíduo de se afirmar como sujeito, que é uma pretensão ética, há também a tentação de fugir de sua liberdade e de se constituir em coisa”. Exatamente aqui parei e lembrei-me de Fernando Henrique Cardoso, quando ele dizia – junto com outros tantos intelectuais das universidades brasileiras da década de sessenta – que o negro escravo só não era coisa quando cometia um crime. Depois fui me olhar no espelho, eu, quase uma velha de quase sessenta anos, e pensei:
                                     “eles nos colocaram novamente mudas, Zeferina; transformaram em coisa tudo aquilo que não fosse ideal vendido pelos artistas, modelos, jogadores de futebol, cantores e âncoras de televisão. Tudo aquilo que não fosse discurso de pós-pós-doutor de centros acadêmicos impulsionados desde os Estados Unidos, a França, a Alemanha e o Japão. Transformaram nossos bordados, rendas e colchas de crochê em nadismos da tradição, nossas comidas feitas em casa, nossas limpezas contínuas e intermináveis, nossos cuidados de fraldas de todos os tamanhos em resiliências aparvalhadas dentro de um mundo incompetente em distribuir food trucks (as antigas carrocinhas de cachorro quente) e restaurantes étnicos para todas as populações, incompetente em distribuir restaurantes e creches baratas em tempo integral, para filhos de operárias postas em jornadas de 12 horas por dia coladas em sistemas operacionais informatizados. E o que está fora do que eles desejam, esses humanos famosos e falantes, é coisa ou crime. E nós ficamos aqui, em casa, quase todas héteros tão fora de moda (mas não todas), comportadas com nossos velhos homens ou nossas já acalmadas solidões de mulheres velhas, nós e eles e as nossas casas embrulhadas em um lugar novamente, como sempre – desde milênios – transformado em um nada sem direito à palavra política, civil, pública”. Fiquei furiosa.
                                     Voltei pra frente do computador, ajeitei a página da próxima carta e escrevi: “Querida Zeferina, esses bem falantes nas telas das multidões, eles que vão todos às putas que os pariram”. Mania que essa gente famosa tem de chamar a casa e os corpos das gentes de coisa. Que gente doida! Como se sonhos de sermos carismáticas, importantes, livremente irreverentes, livremente ociosas ou intelectuais devessem nos inundar e definir. Como se a história dos homens, dos coronéis, das fábricas, dos centros tecnológicos, dos donos e dos grandes artistas devesse definir o essencial da espécie humana.
                                       Zeferina, queria eu ter dito ao Zé uma vidência falada assim: “a única coisa que vai sobrar de pé no mundo, no século vinte e um, vai ser aquilo que a pessoa puder chamar de lar, de minha casa, de “minha terra”, minha cidade”. E isto se ela, a pessoa, puder falar assim. O resto vai estar virado em coisas. Coisas mutantes de significado, coisas atiradas ao pedaços nos lixos, nas sarjetas, nos campos de refugiados, nas telas de televisão, por aí.

                                        Segundo Simone, “mantida à margem do mundo, a mulher não pode definir-se objetivamente através desse mundo e seu mistério cobre apenas um vazio”. Mas ela, Simone de Beauvoir, era o que de melhor se podia ser em 1949, depois da segunda grande guerra. Para honrá-la, deveríamos ser muito mais múltiplas e complexas do que ela. Deveríamos, sobretudo, poder habitar uma pequena Kombi de um pensamento individual, sem referência em telas de tevê, e, desde este pequeno lugar, nos entendermos como nós. Nós. 


versão um

Querida Zeferina - carta seis - o fim do espaço público



Querida Zeferina,


Imagino que teu filho, pai da minha avó, tenha nascido entre 1880 e 1890, bem próximo da lei áurea, a lei que aboliu a escravidão negra no Brasil. Nasceu no Rio Grande do Sul, não é? E, embora tenha ido parar em uma região próxima às charqueadas, quando adulto, ele nasceu nesta capital, Porto Alegre, onde choramos hoje o medo de uma nova forma de estado de exceção. As charqueadas eram lugares de escravismo mais brutal, os negros fugitivos enviados pra lá, de todo o Brasil, morrendo não raro em dois anos, em meio à lida em lugares encharcados de sangue de gado, contaminações, sofrimentos, apodrecimentos e sal. O relato colhido por meus ouvidos diz ter sido este bisavô um dos três filhos retirados de ti para serem criados por “dindas” brancas e bem situadas na vida, os três que você pariu claros, sararás. Zeferina uma alforriada, possivelmente uma filha de ventre livre. Negros branqueados por terem pai de descendência portuguesa. Os outros, reza a lenda, ficaram com você para serem pobres e esquecidos. Havia um desses filhos negros que era um violeiro, artista, e era muito bonito.
O Graciano era seu amante, casado com uma branca, mas dela não teve filho algum. Muitos filhos dele você teve, filhos teus, mas só os claros foram entregues para “gente de bem”. Depois falo daquele seu neto que virou senador, que incrível!  Estou pensando que muitas dessas amantes pobres do século dezenove eram, na verdade, uma espécie de prostituição em espaço privativo, ou seja, uma prostituta de um homem só, mulheres forçadas a um tipo de vínculo ainda escravo, porém agora cheio de nuances mais ainda ambíguas do que as que sempre houve, no Brasil, desde as primeiras indígenas amásias, nos tempos do descobrimento. Algumas chegaram ao poder e à relevância de Chica da Silva, a negra que experimentou um lugar nobre, de amante favorita e oficial do contratador João Fernandes.  Tem até um filme, com a Zezé Motta de Chica e o Valmor Chagas como comendador. Um filme caro e famoso, do diretor Cacá Diegues. O mito de que eram mulheres com um poder especial guardado em suas vaginas mágicas. Chica da Silva teve treze filhos. Você teve quanto, Zeferina? Ninguém sabe ao certo, uns dez também. Imagina dez vezes grávida, dez vezes parindo. Parindo um verdadeiro exército.  Ficaram para a história apenas seus três filhos mais claros, um deles meu bisavô. Dele, nasceu minha avó, lá por 1909, e dela, nasceu minha mãe, lá por 1930, já no primeiro tempo de Getúlio Vargas mandando no Brasil.
 O escravismo é tão perto de nós, no tempo, que às vezes eu penso ser a ideia de algo longínquo e inexistente plantada não apenas pela enganação da lei áurea, mas, sobretudo, por termos várias gerações de gente descendente de imigrantes italianos e – em menor número –alemães, nos quadros intelectuais das universidades brasileiras. Tivemos vários mestiços e alguns poucos mais negros ou negros sem grandes misturas, nos bancos das universidades desde os tempos do Brasil império até o começo das políticas afirmativas dos governos petistas, já no século vinte e um. Mas mesmo esses negros ou pardos estiveram sob forte influência do mito do fim da escravidão, abolida por uma lei decidida e imposta pelos donos dos plantéis de escravos. Foi assim que chegamos aos tempos atuais com a predominância da ideia de que existem apenas resquícios, preconceitos sem fundamentos materiais, sem serem acontecimentos orgânicos da sociabilidade, sem efetuarem estruturas concretas, apenas mitologias a serem extintas por insistente propaganda propositiva de um novo viés comportamental – predominantemente estético, cabelos como bandeiras – a ser adotado pelas pessoas comuns, negras puras ou não. Nesse entendimento, os pardos, mestiços de todo o tipo, os branqueados por gerações de tentativas de fuga através de linhagens de “criados por gente de bem” não são pensados pelas teorias acadêmicas destes que foram sempre brancos, principalmente de origens italianas, ou os poucos negros, e gentes de outras etnias migrantes, ocupantes dos postos de enunciação discursiva nas universidades. Nós, os descendentes dos filhos que não foram esquecidos, os entregues para “dindas” brancas criarem, colocados em escolas boas, feitos intelectuais em vários graus diferentes de importância e poder dentro do mercado de trabalho, nós não somos considerados negros, nem pensados como envolvidos por efeitos daquela dominação, nem temos direito à palavra como setor social com semente na cena da escravidão e morada em seus prolongamentos atuais. Somos mudos, invisíveis silenciados para este assunto. Somos condenados a uma brancura que não possuímos, sem, contudo, deixarmos de sofrer as penas de uma presença étnica exterior aos núcleos que se sabem realmente brancos. Nós somos os mestiços sem direito a qualquer inclusão étnica.
Essa carta havia começado por uma explicação dolorida sobre como os governos do Partido dos Trabalhadores não conseguiram realizar o propósito inicial da fundação deste partido, qual seja o de romper com os paternalismos da Era Vargas, atitudes de elites nos governos regionais e nacional do Brasil que, sem deixar de ser vinculadas a coronelismos locais, orgulhavam-se de seus contornos desenvolvimentistas e estimuladores de alguns níveis de bem estar social, ampliação de espaços jurídicos republicanos e, portanto, expansão de possibilidades de exercício de cidadania para largos setores da população subalterna. Era uma carta focada na preocupação sobre o entendimento do que, afinal de contas, poderíamos entender como sendo um “espaço público” no país Brasil. Qual poderia ser uma narrativa sobre a história desse espaço público, suas inconsistências, suas aberturas de identidades civis.
Fico imaginando que não havia esse desejo, ideia, conceito de “espaço público”, naquele tempo de crueldades normais. Lamento muito comentar, mas aqui não é uma rede social e então eu posso dizer sem rodeios: o espaço público desapareceu no Brasil, agora em 2017. Não sei se ele existe em algum outro lugar do mundo, mas aqui ele sumiu como some qualquer possibilidade de paz em um casamento, quando é anunciado o seu término, aquela frase finalmente dita: eu quero o divórcio. Na verdade, no segundo seguinte a essa frase se instala uma paz nascida naquilo que é irremediável. A morte muitas vezes é assim, uma bala perdida, um atropelamento, um acidente de carro, ou de avião, fatal. Da noite para o dia. Os casamentos sempre terminam em um dia, é um, é dois e já! Fim. Mas depois fica aquela ideia de que há muito tempo já era muito ruim: “eu só fui feliz com ele durante quatro anos, depois levei com a barriga, aguentei de tudo”. O fim do espaço público, no Brasil, está com essa sensação de algo que aconteceu em um dia, mas que vinha de antes, muito antes.  Como nos casamentos, depois de alguns meses deles desfeitos as partes envolvidas sentem saudades, mesmo daquele longo período no qual as coisas já eram levadas com a barriga. Fica pesando a morte, ficamos sentindo a dúvida se não teria sido possível remendar, arrumar antes do fim. Fica sempre a culpa.
Assim acabou a democracia no Brasil, não sei dizer quando se pode identificar aquele momento da calma de quem entende que realmente acabou, se quando da votação contra a Dilma – por amor às famílias deles – ou se quando caiu o avião do Teori e logo depois morreu a Marisa. Para ser sincera não há mais o que se possa dizer que realmente se realize como uma fala pública. Até nas redes sociais se diz que estão contaminadas por robôs e invadidas por organizações secretas de exércitos de grandes elites financeiras. Há um enorme silêncio se abrindo nos computadores pessoais. Tudo o que é dito carrega uma escolha definitivamente privada.
Eu sei que o pessoal que lê tem dificuldade para entender o que quero dizer e onde quero chegar. Um dia desses uma leitora reclamou. Lamento, mas escrevo para minha tataravó obviamente morta. Então não há problema algum na falta de entendimento, em qualquer tipo de angústia ou abandono, se tudo é privado, se o espaço público desapareceu, não há a necessidade de entendimento legalizado, normal, regulamentar. Falamos desde nichos domésticos e o meu é esse tipo de carta aqui. Todas as dinâmicas de alteridade em espaços civis, públicos, foram silenciadas, extintas, extirpadas. Mais do que proibidas, foram desconfiguradas por fragmentações esquizofrênicas das linguagens políticas. No mundo todo acontece essa extinção, mas a partir de mecanismos distintos em cada lugar, cada país, cada continente. E se não há mais dinâmicas normativas e públicas de alteridade, as diferenças, as contradições acabam sendo ou jogos de nobrezas distintas, conflitos entre feudos, tribos ou gangues, ou guerras sanguinárias. Você começou a entender, mas não me peça explicações, elas seriam o nado da tartaruga emaranhada em farrapos de uma rede de pescar, sozinha, sem um socorro humano. Explicações fadadas ao naufrágio em tessituras agressivas das redes sociais. Escolha seu lado, aguente as nojeiras que nele habitam, submeta-se às hierarquias dos muros que te conferem um pouco de pertencimento e cale-se. Ah, você dirá, mas onde há mais de um humano sempre haverá alteridade. Pode até ser, mas quando um casamento termina, uma morte acontece, há um luto, há um comer, dormir e rezar. Mas não estou falando com você, repito, falo com Zeferina, a avó da minha avó, que é morta, e isso confere a essa carta um lugar de fofoca. As fofocas são escondidas nos lugares onde o surgimento da alteridade é clandestino. Lembra-se do filme 1984? Aquele que ninguém pode falar com ninguém? Sim, sei, você lembra de outros filmes, como THX1138, de George Lucas, por exemplo.
Voltando ao assunto: como uma mulher negra, talvez nascida de ventre livre, tornada amante de um homem branco, saberia ver seus filhos mais negros rejeitados e seus filhos mais claros escolhidos, reconhecidos pelo amante branco? Se você se detiver examinando esse problema verá o quanto ele tem uma enorme violência bordada, pregada, costurada dentro da situação. Como uma mãe vai tendo filhos e vai vivendo uma vida inteira testemunhando o abandono de um grupo deles e a proteção de outra parte, pelo homem que a tem como propriedade privada? Pensa. Ela não podia reclamar, aquilo era uma situação normal, cotidiana. Certo, Zê?  Talvez agora você tenha começado a entender, mas não falo com você, falo com ela.

Querida Zeferina, o que poderia ter você a ver com Simone de Beauvoir? Vamos continuar nossa fofoca por aí.

versão três.  foto: Luiz Eduardo Robinson Achutti

Querida Zeferina - carta cinco - amor infinito





Querida Zeferina,

                         Desde o século passado queria ler o livro Werther, do Goethe. Um livro famoso na sua época. Ele contava a história de um moço que se matou. Era uma sequência de cartas do jovem Werther para não me lembro quem, um editor eu acho. Li recentemente. Era um amor doente, uma solidão tremenda. Esse livro provocou uma epidemia de suicídio em 1774. O suicídio é contagioso, parece. Muitas formas de violência são contagiosas, acho até que tudo é contagioso na espécie humana, mas a violência e o medo são mais. Pois nesse livro o autor, o Goethe, quis escrever bem e então mudava o vocativo inicial. Não quero fazer isso, estou triste. Não quero imitar ninguém, escrever bem – ou melhor do que simplesmente sei escrever escrevendo – ou tornar a leitura confortável. Sei que estão e estarão lendo, porque a única forma de falar contigo é jogar essa fala no mundo. Mas quero falar contigo e não com o mundo, esforço-me neste sentido. Então como te chamo pode ser algo semelhante à reza, ao mantra, àqueles começos de confissão, que afinal pareciam ser a parte mais sincera do evento. Ao menos pra mim, que só me confessei criança, querendo ir a algum lugar com roupa bonita de domingo, ver alguém, estar com gente em um lugar estranho e sedutor. Então tinha aquele “senhor, me perdoa porque pequei”, ou algo assim, não lembro. Depois vinha um envergonhado relato sobre copos quebrados e brigas com o irmão. Nada que importasse ao padre, em uma vida de criança tão disciplinada e sem graça. Isso era em 1966. O padre devia achar que crianças como eu era não sabiam nem mesmo o que significava pecar. Não consigo imaginar alguém indo lá e contando uma daquelas merdas enormes que acontecem na vida da gente adulta. Contamos para alguém considerado amigo de verdade. As piores merdas não contamos a ninguém.
Essa carta começou em 2012, como várias outras. “É sábado, sol e vento, e eu estou cansada de proibições. Sobretudo, sinto falta da crença de que nós, seres humanos, possamos nos incluir em um ambiente de sinceridade, fraternidade, leveza e paz. Há uma predominância, hoje em dia, de falas dirigidas à contenção preventiva de supostas atitudes inusitadas, antes mesmo que elas se anunciem, fazendo com que as atitudes agressivas inundem as relações, como fantasmas, desejos invisíveis, mudos e incomensuráveis. Há um afastamento do ato de crer em relação ao ato de pensar o que, sem dúvida, ergue deuses tirânicos metamorfoseados em razões científicas e deuses brutais refugiados na ausência do pensamento”. Não sei exatamente o que estava querendo dizer, mas sei que hoje, 2017, está muito pior.
                   Sou sobrevivente de uma doença antiga. Sobre ela existe até mesmo um mito grego, descrevendo uma mulher vagando em desespero inútil.  Creio ter sido um conjunto de sintomas compartilhado por gente que se matou ou morreu aterrorizada e imóvel em um canto de hospício. Agora temos os antidepressivos, pílulas aliviando e reduzindo aquela dor insuportável a um discreto comportamento permanentemente um tanto assustado, um pouco assustador de vez em quando. Mesmo depois dessa cicatriz em meu modo de sentir, e ainda que eu avise a todos ser uma pessoa com cicatrizes, volta e meia aparece alguém inadvertidamente querendo expor-me a medições de forças, angústias disfarçadas de otimismo, aprendizados estúpidos e sem sentido, velocidades desequilibrantes e desnecessárias e toda sorte de burrices consolidadas. Não quero falar com ninguém, só com Zeferina, só contigo.
Aconteceu uma coisa no Brasil, Zê, daquelas que não dá pra falar para o padre, naquela casinha dele, cheia de cortinas, penumbras, janelas protegidas com aramados de madeira. Uma coisa bem grande, que é quando ninguém fala mais nada sobre aquilo.  Essa carta aqui era pra dizer, em 2012, que os caras que mandam tinham inventado um modo de agir, no Brasil, no qual os gerentes, chefes e diretores falavam sorrindo, falavam sobre grandes novidades importantes e a gente - que achava ser apenas mais um modo de nos fazer sentir dores nas juntas e em todo o corpo, sentir medo e solidão - ficava com cara de assustado. E os gerentes continuavam sorrindo, como se a gente estivesse assustado por ser burro, louco ou idiota. Ou tudo isso junto. O bom dessa coisa grande que aconteceu agora, em 2017, é que agora todo mundo já ficou sabendo que não é louco, nem idiota. Talvez um pouco burro a gente continue a se achar. Somos desengonçados, para falar a verdade. Mas antes éramos individualmente incompetentes, inadequados, incômodos, desagradáveis, desnecessários. Agora estamos nos sentindo todos juntos, ao mesmo tempo mudos, dormindo e acordando pacientes, tementes. Eu não diria nem para o padre, mas isso não é algo que tenha desabado dos céus, de repente. Uma coisa que junta todo mundo num medo comum não pode aparecer do nada, a menos que seja um tsunami, uma bomba atômica. Mas daí não seria esse medo ordeiro, silencioso, normal, seria um desespero para ser socorrido, uma gritaria pedindo ajuda. Esse medo de hoje é muito interessante, Zeferina, ele precisa ser escondido dentro de cada um, mesmo que todos saibam, ao mesmo tempo, que ele está ali, em todos.
Na cidade grande, como Porto Alegre, ou na praia, onde moro, em todo lugar há este medo como um filtro, como aquelas pinturas das faces das mulheres, quando elas querem parecer estar com seus próprios rostos, mas estão com máscaras e todo mundo vê. Como quando as mulheres estão sobre saltos enormes e finos e fingem que andam em paz, enquanto aquilo dói ou avisa que vai doer. As modelos magérrimas nos desfiles andando sobre enormes saltos, como se estivessem caminhando livres. Uma verdadeira arte do disfarce: confesso que não confesso nada.   Medos com máscaras diferentes, conforme o lugar, mas todos sabendo ser o mesmo medo. Um enorme medo normal, inconfessável, sobre o qual esquecemos por não poder falar nem para um padre. E se alguém fala, nossa! Todos olham com cara de psiu! Cala a boca!     
               “O sino da igreja católica bateu às sete horas da manhã de domingo”, escrevi quando morava no centro de Imbituba, em 2009.  E segui nessa carta, naquela época, quando o medo era infinitamente menor e mais individual, “há sempre um recomeço, quando um grande coletivo humano mergulha na destruição; sempre brotam casais sobreviventes, das cinzas”. Por que escrevi “casais”? Talvez pelo sino da igreja, pelas ideias de dilúvio e arca de Noé. Mas não precisariam ser exatamente “casais”, poderia ser um “todo mundo” de algum lugar qualquer. Não poderiam ser casais em um navio, creio que só se fossem lugares inteiros onde todo mundo conseguisse se livrar desse medo comum, todo mundo junto. Mas se nem isso fosse possível, se esse medo fosse por causa de uma bomba atômica qualquer, então poderiam ser cartas, quem sabe. Cartas de um amor abandonado. Não o do jovem Werther, mas um que não pudesse morrer. Um amor gigante, sereno, infinito.

        Versão quatro       

Querida Zeferina - carta quatro - Simone de Beauvoir está morta

(Uma grande fofoca sobre a história do Brasil – 1977/2017)



Querida Zeferina,


Comecei a ler Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo. Um texto de mil páginas, e ela talvez seja a mulher mais importante do feminismo do século vinte. Eu fui o que se chamava “militante” feminista desde o final de 1979 até 1989. Hoje se diz ativista. Dez anos. Durante esses anos todos aprendi que tinha sido feminista desde menina, quando protestava por ajudar na cozinha e meu irmão não. Depois de noventa fiquei sabendo que não só não era mais “militante feminista”, porque não mais pertencia a um grupo organizado, seja uma ong ou uma secretaria de partido, bem como carregava uma memória que não interessava a qualquer uma das organizações feministas de Porto Alegre. De militante desde criancinha, passei a ocupar o status de uma mulher comum, ou qualquer. Diz a fofoca que foi porque fiquei louca. Bom, continuei me achando militante feminista, mas já tinha sobrevivido mais de dez anos sem ler diretamente a Simone de Beauvoir, talvez a fala dela entrando em mim por vias transversas, outros textos, outros livros. A partir de noventa passei a não ter necessidade daquela leitura. Descobri recentemente que é um livrão. Agora, sem qualquer compromisso, estou com aquela mulher. Nas duas primeiras folhas senti zero identificação: eu sou tão menor e tão maior que ela.
Descobri hoje que o subtítulo deste meu livro deveria ser: uma grande fofoca sobre a história do Brasil. E, ainda, ao modo das teses acadêmicas, um corte preciso de datas, 1977, quando comecei a ser “militante”, e 2017, ano em que escrevo, ou reescrevo estas cartas para ti. Sim, porque alguém poderia dizer que esse livro seria “isso”, ou “aquilo”, ou “aquilo outro”, e que sendo isso seria inconsistente, sendo aquilo seria inadequado e sendo aquilo outro seria falho. Daí lembrei-me da tese defendida faz anos por mim, a de que a fofoca é revolucionária, porque é uma fala proibida e, não obstante, milenar, sempre presente, imune à censura feroz. O recorte de datas condizente com o começo da minha participação política e o momento atual. Então, eu fazendo fofocas sobre a história do Brasil para minha tetravó, obviamente morta. Vou ler a Simone e explicar uma hora dessas, aos pedaços e parcialmente, do que gostei e o que entendi como próprio daquela época muito particular quando ela escreveu. Ela, Simone de Beauvoir, é um arquivo pessoal, embora seja também um arquivo de época e, portanto, coletivo. Eu sou um arquivo pessoal, embora seja um corpo de restância de um rastro – isso é de Derrida - muito importante na história do Brasil. O rastro, não eu (antes que me chamem de megalomaníaca, como fizeram inúmeras vezes). Eu fui a gaúcha que foi entregar as assinaturas em favor da emenda popular da saúde da mulher na assembleia nacional constituinte, em 1987. Não fui eleita ou indicada em qualquer instância de movimento de mulheres ou feminista do Rio Grande do Sul. Eu não sei como é que aquilo aconteceu, só sei que fui posta num ônibus do PCB – o partidão – por uma amiga que eu não vou botar nome de ninguém neste livro, que é fofoca e não dá, né Zê? Criatura, aquela campanha foi tão doida, mergulhada em um memória coletiva – uma intuição consagrada – que acabou nos vendo como diabas, figuras medonhas, de tal sorte que só eu e Lelê – vou dizer só esse apelido – conseguimos chegar até aquele ônibus e não tenho a menor ideia de como aquilo se deu, que nem reuniões mais as mulheres do começo daquela campanha conseguiram continuar fazendo. Aquela situação de terror informal e a mulherada entregando folhas de emendas assinadas, umas para as outras, e aquilo chegando até a minha casa, sendo postas as folhas massarocadas por baixo da porta, gente me entregando montinhos de papel. Lembro que a Lelê desmaiou na porta do edifício onde eu morava. E eu subindo nesse ônibus, que era do PCB, e indo a Brasília sentada em cima de um pacote pardo com quatro mil assinaturas de pessoas, homens e mulheres, com seus documentos oficiais, na época ou o título de eleitor ou o registro geral, que o CPF não era ainda o padrão.
Então, a Simone de Beauvoir é um arquivo pessoal e é um arquivo de época e eu sou um arquivo pessoal e um rastro restante. Uma pegada, um osso enterrado, um monte de folhas assinadas da emenda que colocaram pelo vão da porta de casa quando eu já tinha embarcado. Cheguei impressionada com Brasília e a entrega das emendas e me deparei com aquele amontoado de folhas de emenda assinadas, ao abrir a porta. Como se tudo aquilo tivesse se desenrolado em um desespero propriamente heroico, as mulheres tendo que enfiar folhas pelo vão da porta, nos últimos minutos, na esperança de que alguém conseguisse fazer aquilo ir adiante. Depois eu volto a contar essa história.
Então “o meu arquivo pessoal tem uma configuração incomum”, escrevi em 2012: “Todos acabam tendo. Mas o meu mostra um tipo de loucura produzida nos grandes centros urbanos e uma especificidade que o caracteriza como pertencente a uma fronteira, abrindo o sentido de produção de novos formatos de memória, novos hábitos, em ruptura com as tradições milenares”. Em 2012, eu falava de um modo hermeticamente contido, não acredito que desse pra entender, exceto se se considerasse uma espécie de abstração poética. Mas eu falava, envergonhada e temente, numa busca de auto entendimento e de preservação de registros como “um patrimônio de importância vital”, “em um momento histórico no qual as memórias são perdidas, desfeitas, mergulhadas nas profundidades do excesso”. Falava com muito medo e agora não. Em 2012, escrevia de um modo agoniado, obscuro, ininteligível. E escrevia, Zeferina, naquele modo quase autista, coisas assim: “Isso será decisivo, na era que se inicia, aos que querem sobreviver”. E, ainda: “Não a memória de uma massa amorfa aprisionada nos censos nacionais, mas os arquivos de uma específica família, de cada família para si, a sua particular identidade na multiplicidade de suas raízes e bifurcações”. E mais: “Com o desenvolvimento da investigação, os arquivos pessoais irão adquirindo um determinado espírito (um fluxo de devir infinito) e, alguns, serão ousados o tanto necessário para que lhes seja dado um nome. O meu arquivo pessoal se chama Zeferina”. Não era um nome de arquivo, você é uma tataravó morta, verdade seja dita. O nome do meu arquivo pessoal é Dinah Lemos.
E escrevi, tímida e louca ainda, em 2012: “Na tradição dos últimos milênios, um arquivo pessoal ganhava o sobrenome de um homem, fundador de uma árvore genealógica inscrita em uma determinada propriedade privada e acumulação de riqueza e poder. Alguns raros arquivos pessoais com sobrenome de homens ganharam status de espírito e fluxos de devires infinitos ao serem convertidos em arquivos públicos, coletivos e indestrutíveis, imortais. Por exemplo: Cristo, Buda, Marx, Freud, Lacan”. Bom, digo hoje, em 2017: lembro ter lido em um livro sobre a história de Jesus, que as palavras “Jesus” e “Cristo” eram genéricas, na época, ou seja, significavam algo assim como “o cara salvador”. Tipo o “Lula da Silva”, no Brasil de 2017, quando quem está no governo quer prende-lo e a maioria da população o escolhe para ser presidente do país. Bom, “Lula da Silva” é um nome próprio, mas a ideia é a de um sujeito que, ainda com todos os problemas nos quais estamos mergulhados, poderia arrumar o governo e o Brasil de um modo melhor do que qualquer outro indivíduo.
Já tendo fugido de Porto Alegre e antes de 2013, escrevi, finalmente: “Agora, no terceiro milênio, surgirão os arquivos pessoais bloqueados para esse tipo de conversão. Nietzsche tentou dizer isso”. Outros falaram sobre, recuperando a ideia bíblica da torre de babel, mas só agora, em 2017, muitos já sabem que um número grande demais de seres humanos não tem a menor ideia do que está acontecendo com o mundo humano e seu planeta.
Justo agora achei Simone de Beauvoir. Isso acontece com quem passa a vida lendo, a gente se depara com um livro que estava ali, na estante, há décadas, e ele então te pede para ser lido. Agora vou ler O Segundo Sexo, um livro de mil páginas que sempre foi tão bem entendido por um número muito grande de gentes. Bom, a Simone também é uma morta, mas as frases do seu livro não falam comigo, ela não tem vida para mim e seu texto é perfeito. Eu não, nem você, né Zê?
                                                                         
                            versão cinco         foto: calles onde se anda, Luiz Eduardo Robinson Achutti

Querida Zeferina - carta três - neonazistas

           

 Querida Zeferina,

                                     Estou morta. Achei uma francesa que mora aqui e fomos caminhar até a praia vermelha, ir e voltar somando mais de dez quilômetros. Estava o mar uma água azul de tão transparente. Um paraíso. Cheguei passando mal do intestino por causa da úlcera e entrei correndo. A mulher caminha muito, a francesa. Aqui era uma carta escrita em 2012, e eu já preocupada em entender os nazismos que nascem e ninguém nota, crescem e meia dúzia se assusta, tenta avisar, mas ninguém entende. Depois todo mundo se apavora, ohhh, mas daí é só um enorme esforço para juntar os cacos, as sobras, os restos humanos de uma experiência sem volta. Dizia eu, em 2012: “Os neonazistas são as pessoas contaminadas por uma espécie de instinto de morte, predominante nelas, que as faz ficar como aqueles personagens de filmes de terror, invadidos pelo mal. Elas parecem normais, se comportam como seres felizes e resolvidos e são intensamente destrutivas, velozes, vorazes, perversas e dissimuladas”.  
                           Escrevia eu, em 2012, que Porto Alegre havia sido invadida por essas contaminações, desde meados de 1993. Por que lembrei dessa data? Foi o último ano, se bem me lembro, que tirei férias de um mês inteirinho. Dali em diante, foram sempre de dez em dez dias. Acho que logo após a promulgação da nova Constituição de 1988 tive a impressão que todo mundo correu para se atirar em uma cadeira, como naquela dança das cadeiras, como se todos soubessem que havia, ainda, mesmo com uma bela “constituição cidadã”, havia poucas cadeiras e muitos ficariam sem ter onde sentar. O nazismo começa nesse silêncio de quando todos sabem que muitos vão se dar mal se “chuparem bala”. Essa é uma figura de linguagem interessante. Chupar bala seria estar em um estado contemplativo, desarmado, muitas vezes uma criança brasileira. Aqui sempre se deu balinhas para as crianças e temos até um dia, o dia de Cosme e Damião, no qual há a tradição de distribuir balas para os pequenos. Então, quem não chupa bala está pronto para atacar, para a guerra. Ali, na tentativa de pegar a onda nova, na ânsia de estar entre os primeiros que conseguem ver o tempo curto, exíguo, já começaram a circular hordas de bárbaros às margens do rio. O Guaíba já estava impróprio nesta época, mas ainda não tanto. O enorme rio – aprendemos que era um estuário sem saber o que era isso - já sujo quando uma vez a gente o abraçou. Juntamos uma multidão e colocamos todos lado a lado nas margens do rio. Quando eu era pequena tomei banho nele, o Guaíba.   
                         O pessoal que não chupa bala acabou se associando à ascensão dos adeptos da inevitabilidade do domínio absoluto de todos os espaços pela nova tecnologia; ascensão deles no mundo inteiro, no país, nos centros urbanos já desordenados, nos quais as árvores e os rios eram enfeites, não importando o conteúdo do rio ou a longevidade de cada tronco passível de ser cortado para dar passagem a um novo viaduto. A miséria era normal, respeitada pelas políticas de contenção, aceita por todos como um fenômeno perene, inextinguível. O pessoal que não chupa bala pouco se importando com a inevitável destruição das memórias de cada um: viva a revolução das imagens e das condutas! Invadia a Porto Alegre, já no início da década de noventa, um mecanismo de expansão daquela espécie de instinto de morte.Talvez esse início de um novo acontecimento dentro do fractal “nazismo” abrigasse um fundo filosófico presente em grande parte dos seres humanos que é o da intuição acerca de um deus computador programando todas as formas e as coisas no cosmos. Decorre, dentro disso, que tudo o que surge e se impõe é obra divina e não há como evitar. O que mais se ouvia, na década de noventa em Porto Alegre é: “a transformação tecnológica de todo os cenários da vida cotidiana é irreversível”.
                                                Fomos educados para ver o nazismo como a perversidade mais cruel da extremada loucura coletiva, um adoecimento psicológico de toda uma sociedade, tanto os que o defenderam quanto os que dele tiveram tanto medo a ponto de silenciar quando ele nascia. Engraçado como todos temos uma intuição que sabe ver o nazismo quando ele aparece e sabe nos colocar sem reação e assustados. Aquele nazismo alemão surgiu com o brilho dessa crença na irreversibilidade das forças mais potentes. Depois eles tornaram-se os campos de concentração da Alemanha durante o poder de Adolf Hitler, ficamos sabendo muitas e muitas vezes, no final do século vinte, em filmes, documentários, entrevistas, livros, palestras, cursos em universidades. Tinha sido o “holocausto” e tinha sido reversível, ao menos no que tange a sua interrupção. Eu mesma aprendi sobre aquele sofrimento todo sei lá quando, certamente muito antes de entrar para a universidade em 1977. Aprendia-se todo ano, várias vezes, em lugares diferentes. Posso afirmar que devo ter aprendido simultaneamente sobre os indígenas brasileiros e sobre os negros escravizados e essas duas populações sofridas em território do meu país não me impressionavam como o tal holocausto. A escravidão teria sido então uma burrice bruta e má motivada por uma espécie de ignorância primitiva, como se os dois lados envolvidos, os africanos sequestrados e os portugueses sequestradores fossem os dois lados de uma engrenagem precária porque selvagem, ambos ignorantes de soluções mais civilizadas. O holocausto era contado como muito mais assustador porque revelava um enlouquecimento de toda uma população a produzir as torturas mais aterrorizantes em sistemas de produção industrial de sofrimentos humanos indescritíveis, como escreveu Primo Levi. Indescritíveis porque todos os sobreviventes teriam sido forçados a colaborar em troca de comida ou de não serem mortos. Víamos o pelourinho, os troncos, os negros sangrando nos desenhos de história; víamos ferros usados para tortura nas senzalas brasileiras e achávamos tudo aquilo uma burrice de precariedades pré-históricas, como se agora fôssemos uma outra espécie muito mais decente, exceto por esse risco do nazismo, sobre o qual éramos alertados sistematicamente. Mas, ao ver os negros sangrando nos troncos e os feitores erguendo enormes chicotes, não tínhamos medo, aqui era só um passado sobre o qual não tínhamos qualquer responsabilidade. Mais que isso, aquilo não era um perigo retornável, como era o nazismo. O holocausto então era um vírus que poderia voltar e o escravismo não, a escravidão ficava em um passado de um modo irreversível.
                                Mas esse pessoal que não chupa bala sabe que os terrores de época sempre se dizem irreversíveis, depois desaparecem para retornar com novas inevitabilidades. São ondas. Essa história de holocausto foi inventada como uma vacina, mas vacinas só funcionam para os vírus que as geraram. Escrevi, em 2008, sobre um candidato gaúcho concorrendo a prefeito de uma cidade grande (não é Porto Alegre, não posso dizer qual é que me matam), em uma imagem junto a sua mulher, “parecem dois gordos, sem brilho, falsos, feios, iguais aos de sempre, políticos de carreira”. E ainda escrevi: “Foi uma vanguarda inteira que falou em revolução e fez carreira rumo ao poder. Todos ficaram mais feios do que os oprimidos comuns e menos intensos do que os dominadores de sempre. Eles ficaram falsos, mas não o “falso” em português, que soa como uma crítica moralista demais. Eles ficaram fakes, falsos como uma obra de arte reluzente e sem significado no qual se possa crer. Eles eram assim, a nossa república de Weimar. Os bandos fascistas estavam se formando, mas talvez também não evoluíssem muito. Tudo o que não fosse Casa Grande & Senzala, no Brasil, era fake”.
Agora você deve estar dando gaitadas, risadas de galpão, no túmulo, como dizem, Zeferina. Sei lá onde estaria esse túmulo. No ar, no céu, no mar, no rio. Acredito que você ri, às pencas, porque agora todos temem as revoltas nos presídios brasileiros. Porque eles, os que não chupam bala, não dizem, mas as rebeliões podem fazer parte de um acontecimento irreversível. Os escravos, depois alforriados vagabundos, ou pobres ou bandidos, deles nunca se disse terem vivido um holocausto. Sobre eles não se pensou nunca que teria se despejado um dos piores nazismos do mundo. E, agora, os que nunca chupam bala não sabem dizer ao certo de onde brota o acontecimento irreversível, se de Trump ou de Hollywood. Está mais divertido do que nunca, para vocês, mortos, porque ninguém mais sabe que gosto a bala tem.
                                                                                  
Versão dois - 2016. foto: Ivam Martins.formigas

Querida Zeferina - carta dois - espíritos absolutos

    
2 – Espíritos absolutos

                                      Querida Zeferina,

                                          Nunca me esqueci de uma resenha de um livro na Folha de São Paulo, faz uns 12 anos, 2004 talvez. Era sobre a difusão de conteúdos dos pensadores mais clássicos, em filosofia, política, economia, antropologia e psicanálise, de tal maneira que muitos humanos comuns sabiam falar sobre eles sem ter lido mais do uma página sobre o autor. A mãe, que se orgulha de ler em inglês, traduziu uma parte pra mim e o autor dizia que talvez esse grande grupo de leigos soubesse falar melhor sobre os conteúdos porque falavam de entendimentos que se impunham à maioria. Os especialistas não raro forçavam interpretações talvez arriscadas demais, ou condizentes com os seus partidos políticos da época. Hoje, escrevendo essa carta, fui ao Google e achei o autor, Pierre Bayard, um professor, psicanalista e escritor francês, segundo uma resenha no topo da lista dessa colossal e infinita biblioteca virtual. O nome do livro era Como falar dos livros que não lemos, editado em português no ano de 2007, pela editora Objetiva. A resenha dizia ser “o domínio de uma obra ‘lida’ um conhecimento frágil e fugidio”. Outra resenha trazia, como título, a ideia de que alguém, para falar sobre um livro não lido, precisaria ter lido um conjunto enorme de livros, dando a impressão da existência de uma capacidade de erudição erguida como uma pirâmide centralizando toda a linguagem a partir do seu topo, em uma gigantesca engrenagem de produção de escritas no mundo humano, de cinco mil anos até hoje. Talvez esse livro do Bayard tenha sido uma vidência sobre o desmoronamento dessa pirâmide e a abertura para um mar de resenhas, páginas, frases soltas nas redes sociais, linguagens e entendimentos dispersos e sem vínculos. Não há mais um controle eficiente sobre o que pode ser escrito e o que deve ser lido e como ler, então posso escrever para ti, Zeferina. Finalmente.
                                       Nunca li Hegel, mas sei de sua escrita sobre o espírito absoluto de todo o acontecimento humano, e sempre imaginei ser esse espírito a verdade derradeira e inquestionável sobre todas essas escritas, livros e frases, a verdade sobre essa pirâmide controlada pelos discursos dos eruditos, a se projetar na história dos tempos futuros, desmentindo – total ou parcialmente – o dito pelos especialistas em livros de autores célebres.  Talvez eu tenha lido alguma coisa, sei lá, interpretações sobre Hegel, textos esquecidos ao modo anunciado por Pierre Bayard em seu livro nunca lido por mim, dele eu tenho conhecido a dedicada tradução literal da minha mãe, de seu primeiro capítulo, palavras de mãe que eu adorei e jamais esqueci. Assim que falar com um morto pode ter algum sentido hegeliano, pode estar relacionado a comunicar-se com a verdade geral, aquela que governa tudo no mundo.  Então falar de um modo sem medo de não ser entendida ou aceita. Ser indefinida ou imprecisa, rascunhar e reescrever sem dizer de si própria “eu sou uma escritora com direito a texto”, ou “eu não sou ninguém, ou eu sou ninguém e não posso deitar um texto no mundo, só posso ler os outros”. Não julgar, não ser julgado; repensar e estar em contato sempre, no ato presente, com essa verdade geral. Algo como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, mas invertido, um Machado de Assis virado ao avesso, um direito a ser sem ser Machado de Assis ou alguém com direito a palavra. Mas é mais que isso porque é falar com uma mulher que deu à luz outra pessoa, um homem muito cruel, e este era o pai de outra que era minha avó. De verdade. Então seria falar sobre herança, talvez herança de desejos e de identidades. E, ainda, falar de identidade, relendo o Zigmunt Bauman, e de uma identidade agoniada, por vezes submetida a homens cruéis, vezes rebelde, em ruptura com esses mesmos homens, os homens do Érico Veríssimo, fugindo deles, Zeferina e as outras, mulheres rebeladas, dissimuladas, traumatizadas, elas também cruéis um sem número de vezes. Há coisas importantes sobre os homens gaúchos não contadas nos livros do Érico Veríssimo.
                                          Falando em desejos, o tal espírito absoluto hegeliano poderia também abrigar alguma ideia de “homem da vida”, não? Pois é, essa carta começou em 2010, dessa maneira: “Esfriou bastante. Estou cansada de abrir caixas e carregar móveis, com dores por todo o corpo, talvez por isso minha voz trêmula ao telefone. Falava com um Tristão. Acho que quase todas as mulheres que aceitam ou procuram homens para amar acabam tendo um Tristão. As mulheres do final do século vinte e início do vinte e um então, muitas delas, tendo mais de um desses em suas vidas: o cara no qual ela joga todas as fichas, se atira como se fosse mergulhar em uma linda piscina natural de peixinhos coloridos e água ensolarada e, quando se dá conta, em geral entre os trinta e os quarenta e tantos anos, quando não há mais tempo para uma nova estratégia, quando se dá conta o cara estava apenas passando por ali. Ulisses sem Penélope, o cara apenas passava em uma viagem na qual você, eu, não iria ser parte da bagagem dele por mais de um período. Não para a vida toda, não o homem da vida. A mesma mitologia que nos levava a acreditar em Tristões, nos encorajava a empunhar bandeira a céu aberto contra a ditadura militar, em 1979, como se essa ditadura fosse muito fraca e imoral que pudéssemos derrubá-la com gritos, e, ao mesmo tempo, muito forte e miserável que devêssemos apenas gritar nossos desejos ingênuos: queremos só o que é nosso. Mas, afinal, o que mesmo era nosso? Nunca soube o motivo da ligação, minha voz acabou trêmula pelo frio e pelo cansaço de ter de falar com ele, mais uma vez, uma fala sem destino, sem vínculo, mais um momento de abandono. Falei como sempre, sobre o mundo, sobre a vida. Antigamente, na época da ilusão, me encorajava pensando que se eu sobrevivesse ele reconsideraria. Penélopes esperando as voltas dos homens. Que nada, ele virou um homem comum, desses que se vê nos espaços públicos e você nem vê outra coisa a não ser uma multidão informe e sem graça, ilhada em uma covardia exagerada, temerosa, assustada, impotente. Só mais tarde entendi que aquele homem não era o cara certo pra mim”. 
                                          Essa é uma história muito louca das mulheres, penso agora, seis anos depois. Das mais tímidas evangélicas, até as mais bem sucedidas prostitutas, passando pelos inúmeros pontos intermediários na escala milenar dos livros lidos, as descrições das santas às abandonadas, todas facilmente elegem o último homem que tiveram como o único homem de verdade dado a ela pelo destino. Passamos facilmente de um grande amor a outro, até que as circunstâncias da vida determinem o fim da procura, uma acomodação, uma solidão ou uma vitória “meu marido”. Seguia a carta de 2010: “Minhas mágoas estão começando a sair, desmanchadas pelo ar e vento desse mar lindo e grande. A máquina de lavar instalada, grandona, bonita e eficiente, um pátio enorme e cheio de vento e sol. Minhas reflexões estão menos urgentes, levando-me a crer que talvez dê tempo, talvez eu não morra tão cedo”.

                                     Eu queria que desse tempo para escrever muitas cartas para Zeferina, pra ti, mas hoje o tema do Tristão não mais me atrai. Isso aí foi uma lenda medieval onde dois reinos enviaram seus filhos para se enfrentarem, eles eram uma princesa e um príncipe, Tristão e Isolda, e se apaixonaram, mas se combateram e foram infelizes até a morte.  Estava então escrevendo, em 2010, sobre aquilo das mulheres contarem sobre os homens que vão embora, que as amam mal, as abandonam. Aquilo que as mulheres ora os condenam e choram “ele destruiu a família”, ora dizem “ele era uma droga mesmo”. Depois dos trinta anos até as mais feministas, na maior parte dos casos, começam a se preocupar com o objetivo “família”, mesmo de um modo discreto, velado. “Vou casar” dizem sorrindo o sorriso da vitória. “Em uma união estável” no mínimo, no sobre das redes sociais. O “homem da vida” seria um espírito absoluto? Ou seria uma parte desse espírito, um pedacinho dele para cada uma das mais afortunadas, isto sendo um lugar de pequenas variações, contradições e sínteses, amarradas por grandes conteúdos mutantes, mas sempre retornando almas fundamentais, como essa do “homem da vida”.  Confesso que desde o primeiro momento em que vi essas meninas vestidas de preto, lá por 2012 começaram no Brasil, autodenominadas “vadias”, senti aquela decepção feminina típica, tradicional, arquetípica, tão cruel, um misto de inveja e de crítica madura da mulher mais velha acerca das brincadeiras alegres das mocinhas de pele fresca e macia. Pensei “mas no meu tempo eram saias de panos de fralda, entremeadas de rendas, tudo muito transparente, seios jovens dentro de camisetas de algodão, sem sutiã, uma coisa hippie; gritávamos por liberdade”. Ponderei “agora elas gritam por liberdade também, mas não a mesma que bradávamos em 1978, e com essas roupas de novela das oito da Rede Globo, roupas de teatro, e afrontam diretamente os homens, impõem desafios ostensivos, cospem no chão quase”, e conclui “isso não vai dar certo, isso não fara nem cócegas no desejo mais profundo de cada uma delas e de todas as outras para quem elas falam”. Desprezei, mas aplaudi como era obrigado dentro do código de conduta rígido daquela esquerda que se impunha, mas que logo se viu desmantelada pelos homens mais distantes do espírito absoluto “homem da vida” que o Brasil poderia produzir. Talvez homens barba-azul, minotauros de gravata e ternos escuros.  Você sabe muito bem de que homens estou falando, Zeferina, os homens do Érico Veríssimo. Coitadas das meninas dos movimentos das “vadias”, das chamadas “marchas”, parece até que elas foram o espírito absoluto, o de Hegel mesmo, vomitando as bacantes da tragédia grega de Eurípedes em um cenário prestes a mergulhar em uma convulsão chamada por muitos de golpe, um sofrimento a conta-gotas e que se tornou permanente, a partir de 2016. E eu com essa detestável conduta de velha de sempre, cética de uma descrença de china velha dos campos, também eles absolutos, do Rio Grande do Sul, pensando o que as velhas sempre souberam, pensando “eu sabia”. Sabia o que as velhas sempre sabem,  ao menos as gaúchas, as Anas Terras, isso que o tal espírito absoluto está careca de saber. As meninas precisam ser protegidas, as mulheres jovens precisam de homens fortes e mulheres velhas cuidando delas. Essa propaganda de mulheres jovens andando livres por aí não é a verdade da grande pirâmide dos livros, não está no espírito absoluto do Hegel. As mocinhas frescas precisam de proteção para que possam vadiar em lugares protegidos, vadiar em paz, lamento dizer essa verdade, Zeferina, tu sabes, assim como as mulheres adultas sonham com bons maridos, a certa altura da vida. As ditaduras não são derrubáveis, elas vão embora quando se cansam de nos agoniar.

versão dois. foto: Ireno Jardim

Querida Zeferina - carta um - pronto falei



                       

                                         Querida Zeferina,



                                   Isso é um livro e eu não estou louca. Tranquilo. É uma série de cartas para minha tetravó, ou tataravó, sei lá como se diz. É de verdade, não é ficção. Falei “vou escrever um livro de cartas para ela” olhando o velho. Ele era um psiquiatra e psicanalista achado numa lista do convênio. Ano dois mil. Era conhecido em Porto Alegre, fiquei sabendo depois. Velho, deve estar muito mais velho agora, se vivo. Gostei dele, finalmente um “mais velho” carinhoso, claro, lúcido. Ele ficou irritado, disse que não, eu deveria escrever sobre amor, falou enérgico, paterno. Zeferina, o nome dela. Vou escrever cartas para uma antepassada que viveu no final do século dezenove, mulher dona de vida desgraçada, difícil demais para as moças certinhas de hoje, normal na época, normal para as muito pobres de hoje. Ela era uma espécie de escrava. Talvez alforriada, escrava de verdade, talvez uma índia humilhada demais, mas sem comprovante de compra, de venda. Talvez filha de ventre livre, a lei de 1871 prevendo o nascimento de bebês não mais escravos. O velho achou que era perigoso eu enlouquecer mesmo escrevendo para uma morta. Bom, agora o mundo humano tão transtornado, tão desavergonhado e eu, mais que sobreviver, consegui livrar-me das maldades no caminho e chegar na minha casa linda, no marido bom de verdade, por que não essas cartas agora? Escrevo para ela (pra ti) e me divirto. É uma história simples, sem truques. Tem a ver com a ausência de interlocutores para os saudáveis de memória, eles estão sós de dar dó. A maioria já enlouqueceu. Agora são 2016 anos e não sei até quando esse referencial do profeta crucificado vai durar. Talvez o dia da invenção de um ano um, inaugural, o mundo humano consiga começar outra história, mas agora ainda é Cristo.
                                   A mulher de 92 anos está ficando senil, mas não é Alzheimer. Isso de inventarem um nome para o acontecido no sujeito quando todos estranham o dito ou o feito, daí dizem “um distúrbio psíquico”, “uma degeneração do cérebro”, é só o trabalho de inventar uma série de novos nomes à medida do aparecimento de variações. A mulher tinha medo do tal Alzheimer desde os cinquenta anos, pois a mãe dela morreu com 65, atropelada na chuva em um lugar estranho e de noite, mas eu não quero falar disso agora.
                                    Isso é um livro porque eu preciso tentar fazer com que seu texto seja encontrado daqui há cem anos, então só se for um livro porque nas redes sociais, na web, tudo pode virar nada, desaparecer a qualquer momento. Só sendo um livro poderá ser encontrado. Isso é uma carta íntima para minha tetravó, então eu não preciso escrever tão certinho como manda o figurino. Claro, tem que dar para ler, mas não precisa ser algo obediente e nem oficial. Seria ridículo o sujeito querer deixar uma prova de que existiu e teve as suas próprias verdades e, ainda, ele ter que obedecer as normas de todo o mundo. Então todos os loucos e transtornados deveriam ter seus rastros varridos do mapa, e – vou te dizer, Zeferina, a maioria está louca. Então...não vou procurar uma escola para aprender a escrever depois de velho. Era só o que me faltava! Não é, Zeferina? O sujeito psiquiatra e analista de imediato entendeu que eu era deprimida e que escrever para uma mulher morta talvez desde a primeira década de mil e novecentos era praticamente afundar num espaço perigoso, louco. Logo pensei, não sou louca. Tinha certeza. Mas deixei pra lá, que o velho não ia entender mesmo e eu estava pagando pra ele me ajudar a sair da tristeza imensa, sem tamanho. Mas, olha, sequestraram uns trinta hóspedes de um hotel, sei lá onde, no Brasil, hoje. Não foi aqui em Imbituba. E os massacres nos presídios foram uns dias atrás, segunda e terça. Tem uma guerra e ela está migrando para fora dos presídios. E na Europa estão morrendo refugiados de frio, acampados em barracas molhadas, sob temperaturas de dezenove graus negativos.  Dá pra fazer uma lista de merdas terríveis acontecendo. Bom, mas a mulher de noventa e dois está ficando apática, depois meiga demais, depois apática novamente. Mas louca não, apenas esquece o que disse ontem. E amanhã, do que disse hoje. Fiz uma colcha de crochê para meu neto.
                                      Essa carta começou com o título “Primeira oração” e era tímida. Foi publicada em 2012, mas escrita em 2010. Começava assim: “No primeiro ano de exílio, caminhei todos os dias à beira mar. Via minha cidade natal como um lugar bombardeado, destruído pelas profusões do mundo pós-industrial, um mundo chinês, com cheiro de esgoto e asfalto, suado e fedorento. Aquela bomba atômica, o progresso, detonada ninguém sabe quando (onde começa o excesso, o exagero?) e produzindo cacos, pedaços, desesperos. O desenvolvimento organizando químicas na cidade e em seus habitantes envoltos em seus próprios lixos e fezes, usando um conjunto de fantasias e adereços, rindo e fingindo brincar e se divertir, obcecados e cegos; neurose, melancolia e histeria, tudo ao mesmo tempo. Estive com eles (e sem eles, só, encolhida entre memórias de um passado próximo mitológico e eufórico) até conseguir um meio de fuga, a ilha. Morreria logo se ficasse no continente. Na ilha ficaria tempo suficiente viva, o tempo necessário à escritura dos sonhos acumulados em um tesouro pessoal, herdado por mim e destinado a mim por um número incalculável de mulheres de todos os tempos, guerreiras a proteger seus sonhos e conduzi-los até suas descendentes. Estou ouvindo Astor Piazzola e Gerry Mulligan, "Summit": minhas lembranças em um lamento expandido ao sul da América do Sul. Tudo se resume a conseguir ir embora carregando um tango argentino e quarenta caixas de papelão abarrotadas de livros, panfletos, jornais estudantis e sindicais, cadernos, revistas, anotações, poesias, cartas e bilhetes em um pedaço qualquer de papel. O mar estava lindo, de manhã, com reflexos prateados de um sol atenuado por nuvens; um nativo arrancando tatuíras com uma espécie de ancinho. Esses nativos não conseguiram trazer o tal desenvolvimento, acho que nem tentaram ou tornar-se habitante de uma grande cidade nem era sonho deles e, portanto, não ficaram com aqueles olhares agônicos dos meus conterrâneos corredores, todos os dias, como formigas apressadas, às margens de uma água quente e malcheirosa, moribunda, chamada de rio”. Em dois mil e dez eu ainda tentava ser discreta, coerente, protegida. Não indicar o lugar de saída, Porto Alegre, e o lugar de chegada, a praia do Rosa.  Envergonhada, querendo não ser louca. Mas agora ferrou geral, a maioria dos líderes mundiais são loucos ou desesperados.  Volta e meia aparece um deles sorrindo, vencendo alguma eleição, e todos dizem: “Agora vai! Agora vai!”, mas a gente continua com a impressão de estarmos virando um fim ou um início. Há os líderes fingido sanidade permanente e eterna, como o Obama. Mas não pareceu sempre um robô? E a esquerda velha gostava dele. O mudo indo embora na descarga do vaso sanitário e o Obama ria amarelo sempre do mesmo jeito , grande ator, merecia um Oscar de efeitos especiais. Calma, respeite a carta. Mas carta para uma morta? Fiz uma colcha de crochê para meu neto, Zeferina. Ela é toda irregular, inventada. Conta historinhas para ele, a colcha conta. Toda colorida. Porque quem sobreviver a esse, este, fim de um mundo, saberá fazer obras primas.

versão dois