Escrituras Heréticas - blog da Dinah Lemos

O Escravismo e a Prostituição no Brasil da Era Lula - introdução


O Escravismo é uma constelação de acontecimentos. Eles guardam algumas características básicas comuns embora sejam situações de vários tamanhos, imagens e lugares no tempo-espaço. A prostituição é algo da mesma dimensão, uma galáxia de eventos aparentemente distintos, mas contendo elementos comuns definidores de um único objeto de análise. Essas constelações, que algum ramo da filosofia chama de "fenômenos", tem seus componentes socialmente colocados até mesmo em posição antagônica, quando o escravizador é, por sua vez, escravo também e o prostituído compra o corpo de um subalterno.

(Estamos falando de corpos manipulados, invadidos, dobrados, movimentados com crueldade ou cinismo. Falamos sobre a dor no corpo, o cansaço além do desejado, a ausência de identidade entre "eu" e o "meu corpo que é dele" ou "deles". Falamos de fingimento invadindo a identidade de quem finge. Estamos a pensar sobre o quanto um corpo humano pode deixar de ser a manifestação da vontade de quem o habita, do "eu" que o ocupa, e de como esse "eu" pode ser também invadido por esse seu corpo escravizado.)
Tanto o escravismo quanto a prostituição iniciam seu percurso de identidade própria como acontecimento-constelação em uma situação de medo extremo e invasão de um corpo submisso por outro corpo bélico e dominante. Ainda que na sequência o medo seja esquecido e a invasão se naturalize. Ambos, o escravo e a prostituta (essa é uma das poucas palavras nas quais a regra geral do masculino como genérico não tem a exatidão do efeito genérico da palavra no feminino), tipificam modos de vida nos quais estão inclusos tanto pessoas na base da pirâmide social, famélicos,  quanto indivíduos no topo do direito de uso dos valores que a sociedade engendra.

(As falas permitidas, competentes, costumam aceitar que a palavra escravismo signifique somente fome, sujeira, aprisionamento de trabalhadores juridicamente livres. Para as falas permitidas o modo como os encarcerados vivem não é escravismo, porque eles perderam a liberdade num ato jurídico de proteção dos cidadãos supostamente livres. Os loucos aprisionados, legal e ilegalmente, são considerados vítimas de violências exageradas, indevidas, mas a palavra escravismo é mantida dentro de uma extensão e complexidade simplificada, diminuída.)

Os dois acontecimentos-tipo abrigam pessoas que não gostam de estarem nessa situação e, em situações extremas, produzem a sua própria morte, mas também abrigam pessoas que gostam, variando em múltiplos graus de adesão até a adesão máxima, quando  indivíduos submetidos a um modo ou outro de ausência de autonomia sobre seu próprio corpo (que de próprio passa a ser totalmente de outrem) evoluem para uma consciência de si e para uma psiquê que revela ser este o lugar de seus desejos.

(O gerente é um deles. Ele é gordo e assustado e sofre do coração. Ela, a executiva, se move como uma gueixa embrulhada em seu vestido de âncora de mídia grande, seu enorme salto fino do sapato de trabalhar com as pernas sempre cansadas. Ele adora gravatas e sem elas sentir-se-ia nu; ela é dependente, química - é, pois é- de um shopping. Os dois sentem-se pacificados dentro de um restaurante muito, muito caro.)

A proibição de refletir e filosofar livremente sobre esses dois acontecimentos, que não são farta e rigorosamente debatidos em lugar algum, nem em centros universitários e nem no interior, das famílias, e muito menos nas escolas de jovens, alcança a densidade da formação de tabus, que é quando todo mundo sabe, a partir da intuição, e ninguém consegue saber, porque as palavras e as escritas sobre o assunto são proibidas. Sobram apenas alguns textos oficiais circunscrevendo as descrições desses acontecimentos a lugares marginais, fora da Norma.  Na formação desses tabus está o véu que os protege ungindo a ambos com significados simplórios, caricaturais, configurando tanto o escravismo, quanto a prostituição como coisas que "estão lá longe" e jamais "dentro de mim".

(Um tabu é quando você sente como se tivesse nascido sabendo que algo é proibido e não deve nem ser pronunciado, dito em palavras, escrito. Passou pela tua cabeça, alguma vez, a  pergunta sobre se as pessoas deveriam ou não ter a possibilidade de fazer sexo com seus irmãos ou pais? Então, isso é um tabu. O escravismo é sempre ensinado como uma assombração, um crime, um sequestro do escravizado para fora da norma social. A prostituição é um nome que só pode ser usado para significar indivíduos humanos, de ambos os sexos, que ficam abrigados em lugares próprios para seus corpos serem usados por outros seres humanos que pagam para invadi-los, mesmo no caso das escravas de romanas lésbicas que as obrigavam ao sexo oral - é, pois é.)
Muitas perguntas ficam sem resposta quando não podemos refletir sobre os múltiplos significantes que podem abrigar as derivações dos fenômenos "escravismo" e "prostituição". As reflexões de Hannah Arendt sobre como a sociedade alemã inteira aceitou o nazismo na ascensão de Adolf Hitler demonstram a perplexidade a mover o pensamento dessa cientista política, teórica de uma época na qual as sociedades humanas já haviam consagrado o escravismo e a prostituição como fenômenos secundários e marginais, atípicos.

"Mas, de qualquer forma, durante o mesmíssimo período na Alemanha, existiu o fenômeno conhecido como a ‘emigração interna’, e quem conhece alguma coisa sobre essa experiência pode bem reconhecer, mais que num simples sentido formal e estrutural, certas questões e conflitos próximos aos problemas que mencionei. Como seu próprio nome sugere, a ‘emigração interna’ foi um fenômeno curiosamente ambíguo. De um lado, significava que havia pessoas dentro da Alemanha que se comportavam como se não mais pertencessem ao país, que se sentiam como emigrantes; por outro lado, indicava que não haviam realmente emigrado, mas se retirado para um âmbito interior, na invisibilidade do pensar e do sentir. Seria um erro imaginar que essa forma de exílio, essa retirada do mundo para um âmbito interior, existiu apenas na Alemanha, assim como seria um erro imaginar que tal emigração cessou como o fim do Terceiro Reich. Mas naquele mais sombrio dos tempos, dentro e fora da Alemanha era particularmente forte, em face de uma realidade aparentemente insuportável, a tentação de se desviar do mundo e de seu espaço público para uma vida interior, ou ainda simplesmente ignorar aquele mundo em favor de um mundo imaginário, ‘como deveria ser’ ou como alguma vez fora". [Homens em tempos sombrios,  Hannah Arendt, Companhia das Letras, 1987,pg. 26]
Este texto é escrito com o olhar de quem o escreve focado na história do acontecimento "movimento sindical no Brasil". É, pois é. Estamos tentando observar os momentos e as formas em que o movimento sindical brasileiro foi invadido pelos acontecimentos "escravismo" e "prostituição".O que segue é uma reflexão sem rédeas, livre, libertária, dolorosa até, sobre como esses fenômenos se manifestam, como se separam e como se interseccionam, formando um único devir, superfície, fluxo; uma única química.
                                                                                   
      (versão dois. imagem do jornal MULHERIO edição de 1987 - texto sobre bóias-frias)

3 comentários:

  1. Abriu portas, escancarou janelas, derrubou paredes, botou muros abaixo... Só faltou abrir a cortina, mas já dá pra ver através dela...! 7bjs

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  2. Falta muita leitura aqui dos clássicos sobre classe e trabalho. A prostituição não é mais ou menos "escravidão" que qualquer outra forma de trabalho sob condições de capitalismo. É uma internalização de valores morais pequena burguesas sobre sexo e seu papel "apropriado" que faz a prostituição aparecer mais como "corpos manipulados, invadidos, dobrados, movimentados com crueldade ou cinismo" que outras formas de trabalho.

    O problema com esse tipo de análise rala é que presume, no final das contas, que vender atos sexuais é mais horrenda do que trabalhar como empregada doméstica, esposa, ou na indústria de serviços para um salário mínimo. Todas as prostitutas que conheço (e conheço centenas) abandonaram esses sub-empregos pq os consideram MAIS exploradores que a própria prostituição.

    E aí que está o problema principal que se deite no coração dessa análise tão abstrata: as condições empíricas das vidas das mulheres e homens que optam pelo trabalho sexual. Eles não vivem num mundo idealizado, pós-revolucionário: vivem no mundo capitalista cão. Sua opções não incluem "trabalho decente": só abrangem várias formas de trabalho problemático e indecente.

    Entender a prostituição como "escravidão" neste quadro, sem simultaneamente criticar quais são as outras opções disponíveis nas horizontes de oportunidades dessas pessoas é naturalizar o sistema capitalista neo-liberal e suas relações de trabalho, que não são nada livres.

    É achar que trabalhar por 60 horas, cada semana, numa fábrica para um salário mínimo ou se ralar lavando calcinha de madam, é, de alguma forma ou outra, "mais digna" que a prostituição - mesmo que quase todo mundo que trabalha na prostituição REJEITA tais trabalhos como solução para seus problemas de vida.

    Que tirar as pessoas da prostituição? Então é necessário construir mais trabalhos dignos que os paguem mais ou menos tão bem quanto a prostituição. Querer criminalizar a prostituição enquanto a gente normaliza as péssimas condições de trabalho disponíveis na economia neo-liberal é simplesmente escravizar as vulneráveis ainda mais: força elas a trabalhar em empregos que já rejeitaram sob ameaça da criminalização.

    Somente alguém que nunca sentou para conversar com prostitutas (nota o plural), poderia achar que esse tipo de labuto é "escravidão" em comparação com os outros trabalhos que existem para mulheres pobres na indústria feminilizada de serviços.

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    1. Adorei teu comentário! Muito legal ter alguém tão discordante, mesmo. Mas você se revoltou porque não entendeu o que eu disse. Não falei que a prostituta que você fala é uma escrava, pelo contrário, concordo com quase tudo o que você disse, embora não com tuas palavras. Eu falei que a maioria das pessoas está invadida por esses fenômenos: o escravismo e a prostituição. Acho que as prostitutas não são mais prostituídas que a maioria dos assalariados. Tente ler novamente, estou falando em termos filosóficos. Mas muito obrigada por tua participação Ana Paula da Silva.

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