Larga-mar e cassarinas

A maré vazante faz emergir um espelho, fina camada de dez centímetros de água tépida se estendendo em um percurso de um quilômetro de extensão em toda a pequena baía cercada de montanhas. Uma cortina de cassarinas, árvores altas e finas,  de frente para o mar, negras em um fundo azul neon iluminando o início de noite, às 20 horas, e essa camada de água prateada escura, quarenta metros antes da rebentação, ondulando em marolas longas e que se encontram em um vai-e-vem de extenso e desencontrado percurso, isso chamado pelos nativos de "larga-mar". Caminho nessa água vendo os pés navegarem pisando em um chão de areia dura e plana, desenhada em estrias paralelas ondulantes, ao lado uma da outra em uma distância de cinco centímetros. Há um "caminhar sobre as águas" neste meu momento, penso ao ver outros três vultos de mulher fazendo a mesma coisa que eu. Ao longe, mas bem perto da rebentação, três pequenos barcos de pescador estão iluminados enquanto seus homens descansam, comem e terminam seu dia esperando um amanhecer para seus arrastões de redes onde tudo o que estiver nadando cai: não é tempo de pesca dos grandes cardumes de tainha ainda, eles pegam qualquer arraia ou papa-terra que se atravessar em seu caminho. Caminho nas águas do larga-mar pensando em como posso deixar claro ao mundo a capacidade minha de falar em nome de Deus: até os ateus costumam proibir e desautorizar essa fala, quando dizem que Deus é uma invenção de quem não sabe nada sobre o que está falando, que a fé é um fingimento sobre coisas das quais você não sabe. Somando fileiras, outros tantos cultos e igrejas monoteístas afirmam ser essa palavra um nome com rígidos limites de significados: ele só pode ser dito ou pensado da maneira como está descrito em milenares livros sagrados.

No entanto, Deus é uma das poucas palavras que carrega, em primeiro lugar, a lei maior de poder ser pronunciada por qualquer um, em qualquer lugar, seja em que situação for. É uma palavra de uso público e irrestrito, sempre dita sob a posse absoluta de quem a pronuncia. Não obstante as severas proibições dos ateus e crentes das grandes religiões, Deus e palavra dita e pensada da maneira singular de cada vivente em um uso pleno de validade e eficácia jurídica. Então, há um "caminhar sobre as águas", não apenas metafórico, quando quatro vultos de mulheres deslizam no larga-mar da praia das cassarinas negras, banhadas pela luz neon do início de uma noite de verão. Não é metafórico porque ao menos uma dessas mulheres se sente, naquele momento, não só capaz de falar com Deus, mas livre para contar ao mundo os efeitos de uma comunicação sincera e potente.

Sinceramente, só posso falar com Zeferina, uma pequena deusa menor e pessoal, que, em sendo uma deusa, habita o universo no qual os deuses existem e compõem um todo visto pelos  monoteístas  como uma coisa só, ainda tendo por veículo de aparecimento aos humanos a figura de um único homem profeta, seja lá o nome que esse profeta recebe, aqui ou lá. Assim, deixo à Zeferina a árdua tarefa de se entender e se mover no mundo divino, no espaço do Sagrado, facilitando e muito as coisas para mim, que tenho Zeferina vertendo em fractais de um passado que me é próprio, privado, particular; um devir que está compondo minhas entranhas, ossos e sentidos, esses que caminham nas águas do larga-mar de uma baía de pescadores brasileiros, na luz neon do início de uma noite de verão.


Volto à casa contente com o início do assunto, sabendo que o próximo passo é deixar explícito o que sei do Sagrado e dos fractais; volto sabendo que, se não convencer ninguém de meu direito e capacidade para falar em nome de Deus, terá sido apenas um fracasso meu e de Zeferina, uma deusa menor, e essa fala continuará um devir privado, como todas as falas que oram agora, neste instante, em qualquer canto do mundo. Boa noite, Zeferina.








Orações e locais sagrados


O Porto fala. Pela manhã, há dias em que ele resplandece um mar prateado envolvendo aqueles enormes guindastes azuis e os navios e os grupos de contêiner, um mar parecendo tecido em purpurina, tão iluminada a aparição do Porto quando a estrada sobe a lomba e depois desce o morro, descortinando aquela cena faiscante. Sinto-me homenageada, como uma resposta a minha oração: -bom dia, Zeferina... Só isso é a minha oração e ela me parece perfeita, plena. Na descida da lomba de entrada na cidade,  vejo aquele porto e agradeço àquela divindade fluido do passado, passando por dentro de mim, minhas moléculas, meus destinos possíveis, com a emoção de um encontro verdadeiro com o Sagrado. Não é uma visão, não é um misticismo inventado. Acontece se você se permitir ligar o mundo que está fora, com a memória acumulada de seu corpo, e deixar as coisas, os espaços falarem, expandirem seus significados perante o seu olhar. Todos têm um passado e alguém em seu passado que carrega a bandeira do herói, da guerreira, da sabedoria. Mesmo os que não encontram nenhum mito em sua própria genealogia, carregam memórias de pessoas como Bob Marley e Frida Khalo,  por exemplo, dentro das suas identidades. Zumbi e Dandara foram guerreiros negros e são percebidos como lendas e sentidos como mitos pelos corações dos negros brasileiros que zelam pela memória de seus ancestrais. Mas esses pequenos deuses reais - pois estão em verdade sustentando nossos entendimentos, protegendo-nos de medos criados contra nós, alimentando nossas coragens cotidianas - não podem receber preces, são deuses proibidos pela tradição predominante, ao menos no mundo ocidental, certamente nos países cobertos pelos mantos dos grandes monoteísmos, no mundo inteiro. Não creio que a Índia, não obstante suas dezenas de milhares de divindades tenha preservado a tradição primeva de adoração e prece dedicada aos ancestrais, em cada família.
Zeferina foi uma descoberta. Entendi ter algo germinando em mim desde o momento em que me vi só, infeliz e marginalizada. Quando salvei-me da exclusão por meio do exílio em minha ilha, pronunciei aquele nome pela primeira vez e ele saiu de minha boca, voz, garganta, como o perfume noturno das pequenas madressilvas da cerca viva de meu jardim. Desde então essas preces e esses locais sagrados se constroem em mim, em práticas diárias, livres, frágeis, delicadas, sinceras, comovidas. Com o tempo, fui sentindo necessidade de reverenciar Zeferina, na rótula de entrada da rodovia, quando o vale cercado de montanhas se oferece aos meus olhos como se fosse um sorriso transcendente do mundo, no porto, na cidade portuária onde trabalho, aquele porto com seus enormes guindastes azuis e no horizonte que se vê do alto da entrada do morro, quando se chega no centro da cidade, um gigantesco horizonte, abraçados o mar e o céu  numa linha infinita e pacificada. No vale, agradeço pela proteção aos meus amigos, amigas, filho, marido, pais,  irmãos, parentes e outras pessoas que estejam ocupando meus pensamentos; no porto, peço conselhos e ajuda para entender e suportar as dificuldades do mundo do trabalho e no horizonte tento dizer alguma verdade ainda não dita por mim, aos meus próprios ouvidos: um desejo, uma intenção.

 Esses dias, dirigindo meu carro pela estrada, indo para o trabalho, me perguntei: O que é uma prece, uma oração?
Tanto tementes a Deus e crentes de todos os matizes, quanto ateus e agnósticos, todos reverenciam um lugar do Sagrado, aquilo com força simbólica de dar a vida um sentido, significados que façam tudo ser válido.
Todos esperam: seja uma organização social que adora shoppings e um mar de carros com novos desenhos de lataria; seja quem crê em um enorme e suntuoso hospital, com emergências e unidades de tratamento intensivo de última geração; seja quem se socorre do que era muito antigamente a força divina, por meio de magias, rezas de cura, chás e unguentos. Podemos ver isso tudo junto, pensado como justo e sendo uma coisa de um tipo para a elite e outra coisa de outro tipo para os subalternos, juntando-se esses arranjos todos em um universo de direitos e deveres para todos e para cada um, aceito por todos, pelo que usa chás e unguentos para diabetes, úlceras, pelo que faz tomografias anuais, todos esperando as doenças sem cura, esquecidos desse fim, quietos, apaziguados, ou assustados, chorando por dentro, silenciosamente em pânico.
Todos tem fé em algum conjunto de acontecimentos que julgam representar o sentido eterno do Universo ou o destino que esse Universo reserva à humanidade.
Quando se aproximam da morte, a sua própria ou a de uma pessoa amada, rezam de verdade, tentando encontrar uma abertura para um Deus talvez bravo, racional e onipresente; um poder transcendente, hiperinteligente, masculino, soberano. Mesmo os ateus rezam fervorosamente, a seu modo e sem saberem que estão a rezar, para que um grande cientista descubra, em uma semana, uma vacina ou pílula milagrosa que cure a doença que o estará carregando para fora do mundo ateu, quando recebem a notícia de um estado terminal.  Os que rezam por desespero jogam frases gastas, há muito memorizadas, ao vento. O mesmo vento leva seus desesperos mais adiante, quando oram de verdade. E isso tudo é fé e oração, pois a oração é sempre válida, a crença não obedece a um tribunal humano, seja ele científico ou teológico.
Quando estão felizes e saudáveis, os humanos do século XXI costumam fazer rituais de celebração: beber líquidos intoxicantes e inebriantes, dançar em grandes ou pequenos grupos, comprar objetos novos, adereços, máquinas, tecidos feitos com derivados do petróleo, metais e pedras transformados em enfeites valiosos, cobiçados e usados com algum tipo de proteção armada por parte dos que governam: os diamantes e rubis incrustados em ouro e platina, só usados pelos poucos que tem poder para exibir suas jóias em revistas baratas e vendidas em bancas de jornais para todos os que não podem usá-las verem a imagem dos escolhidos pelo destino que até hoje a humanidade vivenciou.
Tudo isso é crença, embora os cientistas profissionais e autorizados pelos governos não permitam que se chame isso de religião. Os que governam as linguagens conduzem todos os povos a chamar uma parte do mundo de "Ciência e Tecnologia" e outra parte de "Religião e Metafísica", ou seja, resumindo: quem conhece a linguagem "patrícia" ( em Roma antiga eram patrícios os que descendiam de adeptos do mesmo culto da elite, os que não conheciam as tradições sagradas eram plebeus, escravos e estrangeiros) da "Ciência e Tecnologia", quem domina esse conhecimento pode e deve fazer rituais com bebidas, alucinógenos, músicas tribais, metais e pedras desenhadas e vendidas em templos chamados de "shoppings", máquinas complexas e indecifráveis, sapatos com saltos finos e enormes para as mulheres se equilibrarem em cima deles e destruírem suas  colunas enquanto riem e debocham das gueixas do antigo oriente, com seus pés atados; televisões e geladeiras falantes e tecidos finos e raros derivados do petróleo, mas ninguém pode chamar isso de rituais. Até pode, mas a linguagem permitida, a linguagem oficial dos governos despreza e desautoriza quem diz que isso tudo não é mais razoável do que um ritual cristão, budista , islâmico ou xamânico.
Os que tem fé na racionalidade do moderno mundo humano quase nunca rezam as orações dos lugares que este mesmo mundo chama de templos, igrejas, lugares de religião; esses lugares são reservados para uma imensa maioria desabrigada pela "Tecnologia",  que não aprende as linguagens científicas e não pode comprar metais, pedras, máquinas complexas e indecifráveis, embora fique contente ao adquirir tecidos e máquinas simplificadas, com defeitos, mal feitas, bugigangas frágeis que eles mesmos fazem, os de um país para os de outro país, por um pedaço de pão.
Poucos, dentre os modernos e racionalistas, rezam; os que oram procuram templos ricos, suntuosos, ornamentados e construídos segundo uma determinada tradição, místicas igrejas medievais ou em estilo antigo, gótico, clássico romano ou mesmo moderníssimas igrejas planejadas por famosos arquitetos do século XX; fazem suas preces diante de altares exuberantes ou sóbrios e comandados por sacerdotes reconhecidos como representantes de um poderoso Deus de uma poderosa religião reconhecida pelos governos de todos os países; esses poucos não estudam teologia, ou os textos bíblicos com alguma dedicação e sistemática; deixam essa tarefa aos sacerdotes e às instituições de suas igrejas internacionais. Apenas repetem preces milenares já decoradas desde a primeira infância; orações que são escritas pelos governos em tribunais, em prédios públicos, em hospitais e repetidas pela grande mídia.
Eles já não sabem mais entender quando foi que começaram a agir dessa maneira; alguns até mesmo debocham das ideias de início e fim. A maioria, tanto crentes quanto ateus, tem a mais absoluta certeza de que não tem tempo. A esmagadora maioria crê ser a vida necessariamente assim.
Mas mesmo esses modernos e racionalistas incluídos, patrícios, quando se desesperam fazem suas preces; ainda que sejam desordenados e febris "pais nossos" inconclusos. Essas pequenas e fugidias preces também são válidas e eficazes porque todos os seres e as coisas do mundo são percebidas e entendidas no espaço do Sagrado.
                                                                     (versão três: como sempre, inconclusa, imprecisa. Os trabalhadores não têm direito a preparar bem seus escritos)



Fazendo feijão

Virgínia Woolf  entrou na minha casa na forma de um livro parado na estante e assustador. Deram-me um livro chamado "Os diários de ...", justo no momento mais devastado da minha vida, quando eu havia perdido quase todas as relações afetivas até então construídas; e veio o livro parar na prateleira como se ficasse lá, me olhando, com uma intenção de denúncia.  Eu tinha um medo horrível de ser como ela, de ficar esperando a morte todos os dias, nada mais importando. Na mesma época, alguém me segredou: há quem acredite que você será a próxima; diziam isso sobre Dóris, uma feminista inteligente e intelectual, exitosa em seu suicídio, nos idos de final dos anos 80, início dos 90. Aquilo tudo teve a força do afeto, por mais incrível que pareça, ligando meu famoso botão da rebeldia; não vou me matar, não serei nunca o que querem que eu seja, não honrarei expectativas banais. Como é lindo o movimento feminista, doce e lento, corpo-a-corpo, tão lento como uma tartaruga de duzentos anos.

O Zézinho falara, lembro-me perfeitamente do sorriso irônico e impaciente dele naquela hora, olhando pra mim como se eu fosse exageradamente ingênua: -"o feminismo é obra da burguesia!", referindo-se à luta pelo direito ao voto feminino, à invenção da pílula anticoncepcional e à bandeira da igualdade de direitos entre gêneros; dizia ele que a guerra levara o Capitalismo a necessitar das mulheres no trabalho assalariado e em atividades públicas, externas ao mundo doméstico. Lembro-me de tê-lo olhado com indignação, sentindo a opinião dele como má fé própria dos homens que fazem política, eu não suportando a pressão dos homens de esquerda para consagrar uma interpretação do mundo na qual as mulheres adequadas e respeitáveis eram as que pronunciavam solenemente a desimportância, a secundariedade dos desejos femininos diante dos desejos operários revolucionários. E isso tudo foi antes daquela Virgínia Woolf invadir minha estante, denunciando-me em meu solitário fracasso.

Choro, soluçando, agora. Seco os olhos, as lágrimas caindo aos borbotões, com a manga da camiseta verde musgo. Choro de alívio por ter conseguido passar por todas as ameaças dos últimos 30 anos. O José Carlos  Oliveira (não lembro se é "de Oliveira"), o Zézinho, era chamado, de modo pejorativo, Zé-guerrilha, nem sei por quem, era uma fofoca, um comentário que eles faziam entre si, os meninos do Setor Jovem do MDB, lá por 1978, quando eu convivia com eles. Parece que "inimigos" o nomeavam dessa maneira, ao estilo que hoje chamam de buylling. O Zézinho provavelmente defendia Cuba e a Revolução Russa com unhas e dentes, daquele modo ansioso e agitado como ele era sempre, mas era, na verdade, um trotskysta, daqueles que apareciam na história da esquerda brasileira como não tendo nunca, jamais, pensado em guerrilha. Na solenidade de réquiem dedicada à ele, na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, Brasil, lembro-me do Adão Villa Verde e do Gerson Almeida falando, devastados por uma emoção grandiosa, repetirem as últimas palavras do Zé, pronunciadas no hospital onde morrera, antes da infecção pelo HIV se tornar uma enfermidade controlável: ele havia dito ser urgente e decisiva a imersão radical do conjunto dos militantes da esquerda no espaço institucional. O Zézinho queria uma ocupação pacífica e persistente das estruturas do Estado: era um democrata-socialista, defensor do que foi tentando e ainda é objetivo do Partido dos Trabalhadores: ganhar eleições e,digamos, virar o jogo por meio de uma conquista de espaços de hegemonia, ao estilo do que dizem que pensou Gramsci, que eu nunca li.

Ganhei o livro da Virgínia Woolf  na época em que senti, sem entender nada, que a esquerda gaúcha estava se deixando sensibilizar por ambições pessoais, pequenos desejos de notoriedade e sucesso profissional; eu querendo gritar essa denúncia, eu exageradamente lúcida, cazuziana, cassandramente "Amy Winehouse" do feminismo gaúcho da década de 1980. O livro dos diários de Virgínia como que me acusava, da prateleira: você é incompetente para o futuro que se anuncia, você será sempre descrita como megalomaníaca, desajustada e vaidosa. Mais tarde percebi ser o desespero destino de muitos daqueles jovens com vinte anos em 1977, principalmente os que teimavam em buscar um devir libertário em meio a discursos de tomada de poder.
Como aparecem os saqueadores em um momento de mudança civilizacional?  Como os bárbaros invadem?
Durante muitos anos acordei, invariavelmente, com um sentimento de medo, um incômodo grande, como se  não quisesse ter despertado. Acordei muitas manhãs com pena de ter acordado. Só voltei a gostar de acordar quando encontrei a solução do exílio, a ilha e a distância eficiente daqueles labirintos sem ética da cidade natal. Aqui, finalmente, li o livro da Virgínia Woolf e a achei uma mulher comportada, inteligente, criativa e vítima da depressão; se ela vivesse nos dias de hoje tomaria antidepressivos e faria análise. Prefiro Clarisse Lispector. A tradição de comprimir as mulheres em limites mórficos redutores é devastadora, compacta e só pode ser quebrada no exílio das bruxas.  Chega, por hoje, esses assuntos são muito complicados e preciso cortar o charque e a linguiça.  Estou fazendo feijão.

                                                                      versão três: meio desobediente e inconclusa



O novo ascetismo: anarco-eremitas



Antigamente as pessoas escreviam e-mails, agora só vemos a utilização de mensagens curtas em redes sociais e em celulares. Você percebe como a tecnologia evoluiu com uma velocidade a cada ano maior? Você entende que a transformação constante das formas de ver, ouvir, falar e sentir cria um sentimento latente, sub-reptício, de ausência de importância para os significados de todas as coisas que não são grandes, fundos e definitivos rastros? Os ídolos, os governantes, as celebridades, os grandes cientistas, empresários, inventores, modelos, atrizes, atletas, os grandes traficantes, os mais terríveis criminosos, as vítimas mais famosas. Ainda escrevemos e-mails, no trabalho, ou para comunicações mais formais; talvez alguém na contramão dedique-se a compor longas cartas em correspondência eletrônica. Você sabe, isso vai parar,  essa velocidade cada vez maior vai bater em um muro, esse limite é quase visível. Teremos de nos acalmar.

Adiantaria construir, com cuidado e retidão, uma teoria esclarecedora de que isso é um totalitarismo de proporções inéditas e, portanto, de desmanchamento inimaginável? O remédio poderia ser uma enorme, fantástica e rigorosa explicação? Um grande livro para ser distribuído ao mundo inteiro, explicando que não podemos continuar vivendo dessa maneira?  E se fosse possível encontrar um sujeito imune e munido de um discurso inaugurador, a quem ele remeteria sua linguagem? Pensar se o sujeito acontece, se ele brota de si, se ele nasce de intersecções coletivas e realiza uma nova sociabilidade confundindo-se com ela seria um caminho de entendimento? Por meio de que atitudes podemos ter esperança de mudar o desmanchamento cruel desse mundo no qual vivemos?

Parece haver o caminho da oração, do abandono do"ego" em osmoses de entrega absoluta a devires de quem quer que impulsione os acontecimentos, seja quem for e como se pareça. Mas não estamos  vendo os caminhos de oração interferirem na velocidade com a qual o mundo é desorganizado pela tecnologia sempre em mutação. Além das entregas a deuses nomeados há, sem dúvida, uma entrega generalizada à drogadição, cada vez em maiores proporções, isto é, aumentam os que rezam e aumentam os que se tornam dependentes da adição de algo, para fazerem as suas vidas valerem a presença no mundo, seja o uso de drogas ilegais, seja o uso de álcool, de tabaco, de açúcar, de gordura, de refrigerantes, de objetos comprados alucinadamente em castelos/igrejas do deus Consumo, chamados "shopping". 

Há alguém que saiba o que (ou quem) está resistindo a isso, a essa grande colisão? Defender tribos ou animais em extinção é resistir? Protestar em redes sociais é algo que bloqueia a profusão de inaugurações sem controle de quem quer que seja? Existe alguma possibilidade, diante da colossal violência praticada por um por cento sobre noventa e nove por cento da população humana, e, de resto, sobre os demais viventes no Planeta Terra, a mais ínfima possibilidade de que o espaço virtual amplie a liberdade de expressão dos indivíduos e aumente os entendimentos coletivos propiciando uma contenção do desmanchamento generalizado das memórias? O espaço virtual pode abrigar o dom de consolidar memórias e entendimentos?

E se isso for um único e devastador redemoinho? Um furacão só não desordena aquilo que não atinge.
Percebe? Quantas pessoas neste mundo se mantém descrentes de toda essa parafernália produzida pela maneira capitalista de organizar o Planeta e se sentem habitando um tempo que não é o seu? Os eremitas, as múltiplas formas do ascetismo hodierno onde estão?

Você deve estar pensando em monges passando fome no deserto.  Ascetismo: "Prática da abstenção de prazeres e até do conforto material, adotada com o fim de alcançar a perfeição moral e espiritual. O asceta submete-se a dieta rigorosa e a frequentes jejuns, sendo que os antigos cristãos se sujeitavam até a castigos físicos, como a flagelação". Do dicionário on-line. Não, não é isso. Todas as formas de sujeito e de coletividade conhecidas foram tragadas pela metamorfose compulsiva, isto é, os antigos eremitas estão por aí, pendurados em ausências enfeite, eles mesmos um prenúncio de um nada. Falo de uma nova espécie de ascetismo, não sei bem sobre o que falo, sinto, sinto ardentemente, convicta, apaixonada. Quero descobrir o que seria isso: uma subjetividade não egocêntrica surfando na inconstância dos acontecimentos, na perda de memória; abrigando entendimentos invioláveis, pétreos, inesquecíveis.


Vocês estão aí, eu sei. Não sou única. Não tenho tempo para estudar  a Bíblia e os outros livros sagrados; não me é permitido ter tempo para ler com calma os filósofos: Hegel, Marx, Nietzsche, Adorno, Lacan, Deleuze, Guattari, Safatle e tantos outros. Mal consigo estar atenta e forte. Não sei afirmar por onde anda o sujeito e no que ele configura coletividades ou é posto por elas. Sei que passa por mim uma recusa intensa do que é o mundo hoje, do que são as diversas ordens simbólicas da propriedade concentrada, da formação do Capital. Meu ascetismo não se manifesta na disciplina da abstenção dos prazeres materiais, ele é mais uma recusa constante de aceitar esse mundo do consumo e da velocidade, da guerra e do desperdício, da crueldade e da imposição; meu ascetismo é meio louco e passa, às vezes, pelo vinho, pelo cigarro, pela comida com carne e molho. E pelos remédios para suportar o medo e a tristeza de ser obrigada, todos os dias, a trabalhar de um modo insano, para sustentar uma cultura insana que nos subordina. A perfeição moral e espiritual, para mim (o meu "mim" se sente existindo, embora tenha quem diga que somos todos objetos afetados por um destino) é querer tudo e todos tranquilos, pacificados, criativos, fluentes, exatos e cheios de esperanças. 

Somos anarco-eremitas, todo mundo sabe que somos criadores de uma nova experiência de recusa do que nos é oferecido como "prazer mundano". E estamos por aí, sós. Significado de só: único. Sujeito? Será? Sim, acho que sim, o que está acontecendo vem de dentro de nós, novos ascetas, e é criação. 

                                                               versão 4 (escrita a versão 1 em 2009, melhorada, um pouquinho, em 19.01.2013)


As meninas e Nosferatus



Aquela mulher era uma escritora, sem dúvida, porque a única coisa que a deixava em paz era escrever. Escritores não são as pessoas aplaudidas em suas publicações, são todos os que têm necessidade de escrever para continuar vivendo, são escritores, são da casta dos escritores. Só isso. Não importa se escrevem mal ou bem, apenas precisam escrever para se sentirem tranquilos. Ela era uma escritora porque somente as palavras a tratavam com normalidade. Entenda-se: quando completou 20 anos, percebeu que o grupo ao qual tinha se vinculado rapidamente, com entusiasmo e lealdade, a achava estranha: foi um breve momento em que não a escolheram para participar da chapa do diretório acadêmico da faculdade. Ninguém disse o porquê e todos sabiam que ela desejava muito estar naquela diretoria. Porque ninguém disse o porquê ela entendeu que o motivo era ela mesma. Ela mesma era inadequada. Ponto. Foi por essa época o nascimento de seu vínculo com as palavras escritas. O renascimento, porque desde os dez anos de idade seu pai já a avisara: você escreve como gente grande. Foi a arma que seu pai lhe deu. Um pai não precisa dar mais nada a um filho, apenas uma única arma ele deve oferecer: o filho andará mundo a fora, para sempre, empunhando aquela ferramenta. E só isso importa. Os filhos desarmados perambulam sem sentidos, ao vento dos acontecimentos mais inconsistentes.
Depois daquele aviso, de que ela não era normal, de que não era percebida como normal sentiu, no meio de uma calçada, atravessando uma rua do centro da cidade natal, sentiu um instante de desaparecimento de sua condição de indivíduo. Sumiu, por um instante, de si mesma. Entendeu que era um horror e que deveria esquecer, com-ple-ta-men-te, no minuto seguinte, aquele instante de lucidez: não vou conseguir vencer, eu não sou capaz de conter o monstro que me habita. Esqueceu imediatamente.
Mais tarde, já vitoriosa em sua sobrevivência heróica, carregava o consolo de saber que os monstros de cada um acabavam por emergir, cedo ou tarde. Vingativa? Sim, era, mas isso era um direito seu. Aqueles monstros camuflados um dia iriam gostar de mim, ela pensava. Todos sempre foram intensamente solitários, era uma questão de tempos diferentes o aparecimento da solidão de cada um. Como aquele amigo dela, rejeitado toda a juventude por todos. Agora ele era um belo homem de quase cinquenta anos, acostumado a ser só, mantendo cotidianos cuidados intensos consigo mesmo, para conseguir ficar vivo e lúcido e vendo, agora, aquela gente viver decadências de diversos tipos. Quem sobrevive a uma juventude estigmatizada e se mantém lúcido e saudável vê os outros decaindo e não tem a menor piedade. É mesmo um luxo só o encontro entre duas pessoas humilhadas na infância e na juventude, quando elas se tornam adultos tranquilos e consistentes. Elas riem juntas do sofrimento dos seus algozes, sem pena. Penso que os jovens rebeldes foram usados para erguer os partidos de esquerda no Brasil da ditadura militar; penso que os adultos que os utilizaram não estavam preocupados com a segurança, o futuro e o bem estar daqueles jovens. Penso que alguns daqueles adultos fizeram sexo com meninas sabendo que não iriam se responsabilizar pela segurança emocional e física das garotas.
Pois bem, as garotas cresceram, entenderam, tiveram filhos, os educaram, limparam e alimentaram do modo como podiam, cheio de precariedades. Seus filhos casaram, as criticaram, herdaram algum instrumento de defesa e estão por aí, em alguma trincheira, quase todos desprezando os adultos que manipularam suas mães e pais.
Vou escrever um livro chamado “Nosferatus”: um cristal de reflexos de acontecimentos masculinos violentos e solitários; tenho de reler Bom dia para os defuntos de  Manuel Scorza, e O outono do patriarca, do Vargas Llosa.
Ah...tenho de rever o filme Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia.
Olho o meu reflexo no vidro da prateleira e vejo, feliz, realizada, que estou velha, estou velha.

                                                       versão dois: (ainda em elaboração, inconclusa, imprecisa, íntima, frágil)


Funck feminista




Um programa de televisão com uma linda mulher loira, magérrima e irônica, mais uma mulher velha e  professora e mais uma comediante risonha. Elas dizendo que o orgasmo que se tem só, chamado "clitoriano" é fácil demais e pode virar vício. Todas convencidas e ensinando: mulheres podem e devem buscar experiências mais interessantes e atingir orgasmos vaginais e prazer no corpo inteiro. Acompanhadas de um parceiro masculino. Plin, plin.


Uma história real de orgasmos vaginais breves com homens jovens aos vinte anos, namorados e maridos, delicados  amores  alegres e superficiais.  Elas tendo filhos e trabalhando duro, e sentindo ir-se a juventude até a separação e a irremediável solidão. Todas tendo orgasmo clitoriano:  sem homem, nem ninguém, só a fantasia de um coito muito viril e de longa duração sustentando esse agora enorme gozo. Avalanche inundando a  percepção. Vida nua.

A perfeição totalitária é um doente depressivo e paranoico falando, compulsivo, diante do analista: todos devem ser como ela quer. Assim, a democracia atual vomita uma profusão discursiva em elogios a si mesma e abocanha todos os enunciados possíveis de um passado onde existiam atores sociais em disputa de idéias e propósitos. Agora, todos devem amar, viver e trabalhar na mais perfeita ordem. Os orgasmos devem bater continências  vaginais. 

As notícias de desastres, matanças, assassinatos vêm pela manhã e à noite as novelas e o futebol. Na janta é proibido sofrer e todos devem ser felizes, conformados e esperançosos. Depois deve ser feito sexo, duas ou três vezes por semana, com preliminares e orgasmos vaginais. É proibido divulgar ou denunciar a ausência de orgasmo; é proibido dizer desaforos no facebook, penalizada a ocorrência de xingamentos a nomes próprios de pessoas dignas.

Uma velha gorda e bêbada que manda emails histéricos parecendo estar feliz e realizada sempre, sempre, sempre e, no entanto, sofre kafkianamente. “Ademais, a mulher também possui uma região sexual convexa – o clitóris, menor, mas talvez mais potente em prazer do que o órgão masculino (orgasmos cada vez mais sustentados)"  diz Mary Jane Alan Watts, que as intelectuais só podem ler escondido e no banheiro. Está me dando vontade de ler Virgínia Woolf.

Uma elite política da era do cara que quis ser uma espécie de filho de Getúlio, e todo mundo adorou de um modo tão paraguaio. Uma multidão de jovens negros em prisões imundas e seus filhos fumando crack nas ruas ou sobrevivendo bem, limpos e dançando funck, uma música que vem do jazz e tem uma letra terrorista muitas vezes:  fala de um sexo estúpido, boçal. As senhoras estudadas odeiam: devem ter educados orgasmos vaginais. Com homens.

                                                                                  versão dois

Cinquenta tons de vermelho




A casa estava silenciosa. Ela aproveitava para arrumar  arquivos naquele notebook já antigo.  Rever e repensar tudo o que foi guardado era uma tarefa fundamental, sem a qual não se poderia erguer uma forte memória pessoal, útil a pesquisas mais qualificadas no futuro (o que mais importava era o que fosse preservado como rastro, como prova). Acordara sonhando estar escrevendo uma carta para o diretor associado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, São Paulo, Brasil. Por que tinha aquele desejo/sonho em estabelecer um contato milagroso com pessoas influentes?  De onde vinha aquela sensação de que poderosos podem ser convencidos a serem bons e generosos por uma "Sherazade" qualquer? Sonhando com aquele encontro, mágico e decisivo, foi pesquisar, no Google e em páginas de academias consagradas, sobre o tema "arquivo pessoal".  Encontrou diversos textos em uma conceituada revista acadêmica. Acordando, de súbito, para a realidade nua e crua, achara todos aqueles conteúdos muito falsos e improfícuos. Tinha essa ânsia em conquistar uma pessoa inscrita nos círculos do poder e achá-la potencialmente lúcida, embora posicionada em situação antagônica aos pensadores excluídos, no jogo do Capital. Desde muito cedo tentara seduzir homens montados em armaduras do arquétipo do general do exército de ocupação. Ela era constituída em uma estrutura/sintoma, uma ex-prisioneira, outrora cooptada pelo torturador bonzinho, como se poderia ler no livro de Flávio Koutzi, "Pedaços de Morte no Coração", aquilo que fizeram com alguns dos presos políticos que conseguiram sobreviver à ditadura argentina, uma dissociação no centro de suas estruturas lógicas de ética: "eu caminho em uma corda bamba, entre dois julgamentos sobre a atitude de um dominador/ agenciador/ gerente/ comandante; isso me faz obter alguma genialidade, mas também me faz incomunicável, incoerente, esquizofrênica, isolada enfim". Ela não deveria esquecer nunca (embora estivesse sempre esquecendo, a todo momento):  não tinha que contatar com quem quer que seja no campo dos que ficaram no poder enquanto ela era conduzia progressivamente ao exílio, territorial e simbólico. Interessante era mesmo aquele seu amigo íntegro e exilado, no meio da cidade natal;  e exilado da sua maneira esquizoparticipativa. Ela adorava aquela definição do Deleuze & Guattari que diz ser o esquizofrênico uma vibração para fora, na borda das significações da cultura desta civilização que decaí e morre, no final do segundo milênio cristão.
                                        
                                                                             (versão dois : em análise, não divulgue)