Dos erros da esquerda


Hoje resolvi imitar um amigo blogueiro que publica textos de um modo espontâneo, sem deixar num canto amadurecendo, sem esperar ter certeza, sem querer segurança em uma ideia já publicada por alguém  e já aceita. Costumo escrever assim, mas hoje serei mais audaciosa ainda. Vou dizer em público que um dos maiores erros da esquerda mundial - e da brasileira - foi aceitar a transformação do título acadêmico - da pós-graduação - de "doutor" em mercadoria para vender e distribuir no mercado, esse mercado das "commodities", dos produtos descartáveis, dos plásticos, das coisas sem importância decisiva. Mesmo tendo uma origem histórica patriarcal e elitista, o título de doutor foi construído na inauguração da Era moderna a partir de muito sofrimento de pessoas como Galileu e Nicolau Copérnico, por exemplo. Não sou doutora, e há algum tempo deixei de acreditar que isso poderia retirar autoridade intelectual à minha fala e escrita. Ganhei esse desprendimento depois de ler e ver uma profusão de futilidades e e inconsistências ditas e escritas por doutores (os com título e não a multidão de advogados e médicos, esses inclusos em outra tradição de uso da palavra "doutor") e, sobretudo, depois de me sentir terrivelmente abandonada diante do fracasso "tsunâmico" da esquerda brasileira e mundial. Só por isso, por orfandade absoluta, consigo agora afirmar que a adesão ao sistema de propinas e caixa dois pode ter sido um erro devastador do Partido dos Trabalhadores, provocado por uma espécie de emburrecimento da estrutura de produção de ideias no interior de uma  instituição que desde o início da modernidade havia sido inaugurada como  lugar de solução potente e eficaz dos problemas mundanos, a universidade, a Universidade Pública. Precisamos então pensar, e muito sobre o significado, o conjunto dos significados historicamente determinados, dessa palavra que perdeu sua capacidade de sustentar outra palavra chave, a República.

É isso, essa a ideia, o chute inicial. Aproveitem, reflitam e acrescentem novas ideias e relatos inteligentes e honestos ao que foi dito acima. Os doutores, se quiserem silenciem, como sempre fizeram quando um menor, um hipossuficiente em títulos falava algo incômodo, tanto faz agora. Registre-se um exemplo, para enriquecer o tema, de que o Luis Inácio Lula da Silva era um líder, um líder mundial e brasileiro, e a palavra líder sempre teve um conjunto de sentidos totalmente distintos  dos sentidos da palavra "doutor". E que, portanto, conferir a ele inúmeros títulos de "doutor honoris causa" foi, de certa maneira, um dos modos de construir sobre ele uma imagem deturpada, enfraquecê-lo, desarma-lo.

A saída do modelo aristocrático, machista e racista, de produção de saber, de linguagem permitida, de máquinas e tecnologias, modelo este reconfigurado na passagem do poder intelectual dos mosteiros e das igrejas, na idade média, para os novos padrões "científicos" da Era moderna via universidades, jamais poderia se dar pela simples e falsificadora transformação do nome - nome do lugar do saber - em mercadoria para consumo estético de uma fração de classes superiores e médias. Muito menos poderia se dar pela popularização - de fato populista - do uso do nome "doutor" como um enfeite de políticas afirmativas do Estado.

O saber, Saber com S maiúsculo, nasce, emerge, em lugares estranhos, incríveis, inéditos e desconhecidos dos poderes constituídos. Ele pode emergir e ser apreciado e entendido por uma elite no poder, pode virar linguagem e técnica usada pelos poderes instituídos, pode até ser desenvolvido por gente dessas elites, mas ele não pode ser contido em disciplinas limitadoras, redutoras de sua inviolável e pétrea capacidade de invenção. Na modernidade, a duras penas, pensadores construíram dentro da palavra "doutor" uma determinada validade e eficácia que nesse mundo pós-moderno e apocalíptico foi perdida. Da mesma forma, a ideia de "liderança", embora distinta da ideia de "doutor", jamais poderia ser manipulada por mecanismos de produção de mercadorias de baixo valor, ou de valor disciplinável. Há um saber, no corpo e na mente do líder - ou da líder, agora em tempos feministas - não apropriável por estruturas de controle social e produção de gestões de riquezas. É exatamente em uma insubordinação inédita que nasce o gesto de liderança.
 Pensemos de um modo inédito. Pensemos para passar.

Por causa dela




Uma conversa com moças feministas motivou um comentário meu que acabou sistematizando ideias sobre os problemas do feminismo dentro da resistência à barbárie no Brasil (e no mundo). Falávamos sobre os limites da figura do Lula, o Luiz Inácio, e sobre esses limites dentro da precariedade atual da resistência brasileira, tanto orgânica quanto teórica. Nesse ponto, uma das meninas perguntou: "a saída, então, é feminista?". Minha resposta precisa ser amadurecida e melhor explicada, mas começa assim:

O problema da saída feminista (estamos falando de um novo mundo inaugurado em ruptura com essa hecatombe capitalista) é sua potência de justiça e justeza. O feminismo do século XIX tinha justeza (cabia bem certinho na época) e justiça (era sincero, acreditava em si), em suas reivindicações centrais de direito ao trabalho digno (e não apenas para operárias pobres), de direito ao voto e ao estudo. O feminismo da década de 60 tinha justeza (articulava-se às novas possibilidades culturais e técnicas do próprio capitalismo em uma fase ainda de expansão das forças produtivas) e justiça (radicalizava a bandeira da liberdade em um sentido ético pacifista). Mas o feminismo do início do século vinte e um empacou ao não romper com os limites da esquerda tradicional, tanto a socialdemocrata quanto a de tipo soviético burocrático: ele não tem justeza porque não rompe com o capitalismo em um momento histórico em que as forças produtivas estão sendo contaminadas por máquinas perversas e não tem justiça porque suas lideranças fingem autonomia, crença em si, mas sabem que são apenas um braço de articulações partidárias controladas e construídas por cúpulas compostas por homens. Temos, então, o feminismo da ONU, da Hilary Clinton, que quer dar validade a um projeto genocida do capital financeiro ao oferecer-se como bloqueador de danos e franquia ideológica legitimadora. Temos o feminismo cristão, que se mantém subordinado aos líderes homens e sua tradição teológica e o feminismo da esquerda tradicional, que sempre foi e continua sendo o "departamento feminino do partido", e foi cooptado pelo feminismo da ONU ao centrar bandeiras em aspectos legais e punitivos da violência transbordante. Finalmente, temos o perigoso feminismo radical que perde a justeza por descolar-se de seu tempo sombrio, levantando bandeiras de liberdades possíveis em 1950, mas inviáveis em cenário de guerra civil e militar intermitente e dentro da mais avassaladora barbárie (meninas de shortinhos são presas indefesas de uma selvageria estúpida e precisam deslocar-se sob proteção), e não tem justiça, porque a principal bandeira feminista do "direito ao próprio corpo" foi metamorfoseada em um direito estranho e inovador, que admite o corpo humano como máquina e, portanto, passível de ser fabricado, montado e desmontado pela sofisticada tecnologia de produção de corpos-máquinas, simulacros de corpos humanos. E essa é a grande polêmica sobre ética que o pessoal da tecnologia de ponta e do capital financeiro evita para impor sua versão de um mundo novo, mundo Matrix, marcado pelo apartheid de duas espécies humanas distintas e de diferentes tipos de campos de concentração neonazistas.

A saída feminista está em uma inovadora justeza (semelhante à do Papa Francisco), onde as lideranças feministas ousem buscar uma sinceridade fora do controle dos partidos das tradições masculinas, sinceridade teórica, epistemológica, aberta ao debate entre "irmãs" e longe do "partido". Sobretudo, a saída feminista depende do caminho que vê uma justiça na condição de sexo (mulher, homem e gêneros híbridos) a partir do direito às memórias de longa duração (tradições) combinado (aí sim, livremente) com direitos fundados pelo conhecimento da tecnologia inventada pela humanidade. Mas essa tecnologia precisa ser pensada pelo conjunto da resistência, pelo pensamento humanista reinaugurado dentro de um foco anticapitalista. E, nesse caso, a liderança feminista precisa colocar-se no interior do campo de produção de uma nova liderança brasileira e mundial para o pensamento, ou melhor, a práxis de esquerda.

Talvez a saída precise do Luís Inácio, não sei e não acredito em purismos, ainda mais estando tão ameaçados como estamos. Mas talvez o Lula não consiga erguer um novo voo sem uma bela e poderosíssima jovem mulher de candidata à vice, uma mulherona, um mulheraço capaz de despertar a ideia "eu vou votar no Lula por causa dela".

(ilustração encontrada no site https://catracalivre.com.br/geral/arte-e-design/indicacao/as-melhores-ilustracoes-de-frida-kahlo/ )

Lalalá


Tento ler esses textos de sites e blogs, textos de homens quase sempre, homens de 50 a 70 anos, um pouco menos, um pouco mais, e acabo parando no quarto ou quinto parágrafo. Eles querem dar uma arrumada geral na política brasileira, desejam um grande acordo. Como se todos os homens velhos e com nível superior devessem se reunir, escrever um projeto cheio de "protocolos", entregar para o Lula, para o Ciro, para o Requião, para o Caiado, para o Nelson Jobim e muitos outros e forçar esses possíveis líderes de todos os brasileiros a retomar um grande acordo nacional. Os homens mais velhos, em geral brancos, sabem que precisam inventar um acordo eficiente. Só que a distância entre o saber deles e a necessária potência para que isso se realize é abissal. As mulheres jovens e estudadas, blogueiras e ou navegantes da web, assistem os vídeos do Lula falando e não conseguem sentir/ver potência. Elas notam o quanto ele parece um homem exausto. Todos eles parecem velhos demais. Não por serem mais velhos, mas por serem responsáveis pelo que aconteceu com o Brasil de 1988 em diante, até o desastre absurdo e quase sem sentido do governo Temer. As mulheres jovens e estudadas  em geral não contam para ninguém que não creem em um acordo entre elites políticas, elas experimentam em seus corpos um animal político muito jovem, que não sabe ainda falar. Elas são bonitas, inteligentes e não param de pensar, ver e pensar novamente. Só precisam de tempo para encontrar linguagens e falar. E elas não têm pressa. E os moços estudados gostam dessas meninas, e como gostam...

Cartas abertas à esquerda gaúcha


Joguei as cartas do Tarô, à minha modesta maneira. Eu jogo três cartas, a primeira é o problema, a segunda é a solução, a terceira é o caminho. Desta vez deu, nessa ordem: o louco, a força e a morte. Resumindo ao máximo: o problema é o caos atual no mundo, a solução é um novo ordenamento e o caminho é a total e radical transformação das mentalidades. Disso derivou o texto abaixo, dedicado aos meus companheiros mais sofridos de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, na véspera do Natal. Escrevi num impulso, peço perdão pelas falhas, revisarei depois de amadurecer a reflexão.

A tese de que o Psol cravou uma alavanca (impulsionando o MBL) em 2013 para derrubar Dilma e o PT é trágica, porque orienta as lideranças intermediárias do PT a buscar culpados dentro do campo da esquerda. Essa tese foi inventada para combater movimentos sociais dissidentes e para alavancar uma disputa eleitoral dentro do campo da esquerda, tanto para eleições do executivo e legislativo, quanto para eleições internas aos partidos e relacionadas a disputas de direções sindicais e de diferentes movimentos sociais. Essa tese iniciava no pressuposto de que a direção do PT tinha o controle eficiente da frente com o PMDB, no controle do governo federal, e que esse controle levaria o PT até às eleições de 2018, onde o inimigo seria o PSDB. Dentro dessa tese está a compreensão de que toda a revolução da informática, que acabaria por inaugurar um novo modo de produção do ordenamento social e da vida cultural no planeta inteiro, essa revolução toda era NEUTRA, era apenas tecnologia eficiente, e que esse novo modo de produção seria NEUTRO em relação ao ordenamento jurídico e politico das nações, bastaria gerenciar todo o acontecimento de um modo reparador dos danos causados pelo capitalismo aos subalternos. E a direção do Psol pensava da mesma maneira, pois era conivente com a mesma tese, mas em sua contrapartida de oposição, de que a revolução da informática era neutra e a direção do PT conduzia seu gerenciamento de um modo deformado, ineficiente. O fenômeno que derrubou o PT de uma maneira insurrecional (um golpe unindo forças de junção inconsistente e utilizando meios de natureza extralegal) não era originário em desenhos partidários formais brasileiros, era um fenômeno mundial e nascido da necessidade ORGÂNICA das FORÇAS PRODUTIVAS que pediam um novo MODO DE PRODUÇÃO DA VIDA HUMANA, ANIMAL E VEGETAL. E o que alavancava essa necessidade, o que engravidava o Planeta de uma urgência, era a parte -dentro das forças produtivas- que equivalia ao conteúdo tecnológico, as máquinas, os saberes cibernéticos. Nem o PT e nem o Psol, em suas direções, sabiam disso. E isso é um pensamento fundado por Karl Marx, e de fácil aplicação. Por que não conseguiram ver? Por que não viam (e ainda não veem) a cibernética como uma produção de máquinas, viam-na como uma beleza estranha, uma novidade adorável, uma sereia inevitável.
E o que impede os dirigentes do PT e do Psol de fazerem essa auto-crítica? Um transtorno coletivo de natureza psicológica, derivado da crença CRISTÃ (predominante no PT e influente no Psol) de que não ver o DIABO e pactuar com ele seria um pecado capital. É essa ideia cristã de origem PATRIARCAL que sustenta a compreensão de que o LÍDER tem que ver toda a verdade e se não o fizer tem que ser sacrificado. Na origem PATRIARCAL dessa ideia acoplada ao mito cristão está a lógica do MACHO ALFA, o que comanda o rebanho, o que deve subjugar os machos mais fracos e todas as fêmeas, pela força (que foi sempre o valor predominante como inteligência durante toda a história da humanidade até o século XV, quando começa a fragilizar) e, se não o fizer, será deposto  e, importante, ABANDONADO à morte. Esse mito cristão do MACHO VENCEDOR IMUNE AO PECADO ordena toda a ética das nações ocidentais do mundo humano, ele produziu a genética original da esquerda tradicional, a que existiu até meados do início do século XXI.
Assim, para sair de dentro desse luto transtornado, a parte ainda vital da esquerda brasileira precisa relembrar-se do que ocorreu com os negros africanos por ocasião da chegada dos espanhóis e portugueses na África, quando as tribos dominantes vendiam aos colonizadores e escravocratas os prisioneiros capturados das tribos vencidas; precisam relembrar-se do que ocorreu com os indígenas das Américas pré-colombianas (Chile, Peru, Bolívia, Venezuela), quando os espanhóis foram entendidos como “deuses aportados nas praias” e reverenciados. A parte sobrevivente da esquerda brasileira, a composta por pessoas que ainda não têm seu conteúdo emocional afundado numa trama de dor irreversível, precisa – URGENTEMENTE- romper com essa mitologia machista, patriarcal, arquetípica, do MACHO VENCEDOR IMUNE, para que possa se perdoar, perdoar seus líderes e acolhe-los como membros participantes da comunidade, ainda que depostos como dirigentes. Precisamos que a esquerda sobrevivente rompa com o mito do pecado original, de que a pena – aos que erram – é o martírio, a tortura, o degredo, a crucificação. E eu estou falando aqui sobre – e contra – o DIREITO PENAL inscrito nas lógicas do DIREITO COSTUMEIRO, direito vivido.
 Eu falo contra o martírio. Será preciso que todos os crentes que amam a vida e a humanidade, que professam a fé na compaixão, na fraternidade, na liberdade e na dignidade humanas, realizem em suas mentes o entendimento de que  SE JESUS DEVESSE VOLTAR, SE ESSE FEITO DEVESSE SE REALIZAR SÓ PODERIA NASCER DA NECESSIDADE DE QUE TODOS OS HOMENS E TODAS AS MULHERES DESCESSEM DE TODAS AS CRUCIFICAÇÕES, na condição de “Jesuses e Jesusas” (reencarnados)  E VIVESSEM UM INAUGURAL E DIVINO PERDÃO. O mundo humano não carece de um único Jesus, a eficiência divina só poderia brotar de uma gigantesca multidão abençoada como possuidora de Deus dentro de si, como sendo o próprio Deus.

Parem de brigar entre amigos, meus companheiros, pelo amor dos deuses de cada um. Pelos Jesuses e Jesusas que estão sendo crucificados na atualidade. Comunguem em compaixão.

A Verdade é a nossa única arma


                Qorpo Santo foi o codinome - nome de guerra - que um gaúcho considerado louco se deu, lá por 1865, época em que escreveu várias peças de teatro vindo a se tornar, cem anos depois, um dos ícones do teatro nonsense brasileiro. Lembrei-me dele quando comecei a investigar sobre a hipótese de que o que se abate sobre os brasileiros nada mais é do que um processo em parte planejado e em parte fruto de uma configuração relativamente autônoma das dinâmicas de nosso tempo de declínio de uma civilização chamada de “moderna”. Autônoma no sentido de ser resultado de uma configuração complexa e global de memórias em desabamento. Planejado no sentido de ser um novo tipo de guerra, consequência do que chamaram de globalização, mundial portanto.

   Da wikipédia: "Gaslighting ou gas-lighting é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima.
           O termo deve a sua origem à peça teatral Gas Light e às suas adaptações para o cinema, quando então a palavra popularizou-se. O termo também tem sido utilizado na literatura clínica".


                                De certo modo, todo esse processo engendrado pela articulação do modo de gestão da "sociedade do espetáculo e das multidões", como um projeto de Guerra Mundial contra os "matáveis", os "humanos descartáveis", se utiliza de instrumentos que podemos verificar nos estudos sobre esse modo de assédio moral que a wikipédia apresentou acima. O modo como a repressão avança no Brasil tem essa matriz: ela anuncia os dissidentes, a oposição, como loucos, inadequados, retiráveis de cena. Do mesmo modo os escravos foram retirados de seus cenários na África, no início do escravismo brasileiro moderno. E eles só conseguiram resistir em Quilombos que nada mais eram do que criação de território real e simbólico. A maioria dos escravos que conseguiram reduzir os danos, ganhando qualidade de vida em meio ao sistema escravocrata, o fez aderindo ao branqueamento, que eram estratégias perversas de esquecimento da africanidade e de adoção de memórias elitistas, autoritárias, formadoras futuras de uma determinada "classe média" autoritária e transtornada, paranoica e estúpida, com a qual convivemos até hoje. 

                                    Entendo que o que sofremos hoje, no Brasil, não é uma ditadura, embora a gente possa xingar e chorar usando esse termo, não faz mal. Estamos sofrendo mesmo. Mas uma ditadura é um conjunto orgânico mais lento. Brincando um pouco: uma ditadura é um "troço" que é para ser um dinossauro, ela é um acontecimento de tipo "nacional" e ela acontece em países considerados inferiores, do ponto de vista da civilização moderna (que hoje desaba): latino-americanos, ou de predominância cultural dentro do espectro muçulmano, ou Islâmico, ou oriental (a grosso modo porque isso é infinitamente complicado). Mas como isso (que nos humilha tanto e impõe a nós a risada assustadora de verde-amarelos loucos e idiotizados) é uma guerra, isso é feito ao mesmo tempo em países de ponta da civilização moderna (França, Grécia, digamos a Europa inteira, quase), claro que em desenhos diferentes. Isso pode ter vários episódios assustadores para logo, logo se abrir em uma festa participativa e "democrática", claro, conduzida pelo reino da grande mídia. Uma guerra tem exércitos diferentes e tem trincheiras, que podem ser móveis. Uma guerra tem alvos imediatos e secundários, e obedece lógicas militares, de ocupação, de destruição das defesas inimigas. Isso que sofremos não é um regime, isso não é um acontecimento econômico explicável por planilhas de gastos, custos e produtividades. Hoje a Rede Globo só fala sobre Cuba, de um modo idêntico a uma ditadura, construindo uma imagem com se Fidel e Mussolini ou Franco fossem uma única e mesma alma, contorcendo-se para fazer isso, durante o dia inteiro. E toda a esquerda mundial dobra-se em reverência apaixonadas por aquele povo, daquela pequenina ilha, que se afirma (negramente) socialista. E a Globo precisou deixar um documentário mostrar um jovem cubano dizendo: "Não, não um novo socialismo. O mesmo socialismo. Seguiremos socialistas". 
                                    Quando uma guerra termina? Quando o exército vencedor aceita parar de atacar e aceita fazer um acordo de gerenciamento do conjunto do poder sobre as sociedades envolvidas. Precisamos entender o que o conjunto das famílias que sustentam o tal G8 têm em mente. Onde eles pretendem chegar? Qual é o projeto deles para os próximos 50 anos (de redução populacional no mundo, por exemplo, ou de construção de um mundo jurídico para duas espécies humanas distintas). Não basta colocar a juventude na linha vermelha. A julgar pela dinâmica da primeira guerra mundial, onde as trincheiras eram matadouros permanentes, os jovens acabarão desistindo. Precisamos visualizar com nitidez o inimigo. E se essa guerra é apoiada em estratégias de gaslighting (enlouquecimento do cenário, do real) então precisamos imbuir-nos de espíritos de Qorpo Santo e precisamos construir territórios simbólicos imunes - quilombos emocionais e filosóficos - onde a resistência possa, como dantes, falar a verdade, sinceramente. Falar, por exemplo, que o Fidel Castro perdeu a voz ao microfone ao anunciar as nacionalizações e estatizações de grandes empresas estrangeiras, no início da revolução cubana vitoriosa, porque a grandeza de um país soberano foi grande demais para a garganta dele e seu frágil corpo humano, naquele infinito e eterno momento histórico. Um país soberano, ah, ah, diria Qorpo Santo, ah,ah,ah!!!

DEBATE – SOBRE EUTANÁSIA – Paulo César Teixeira, Dinah Lemos, Nico Sales e Arlete Cunha


 “Holanda cogita autorizar suicídio assistido a quem ‘cansou de viver’. Proposta do governo contempla ajuda para a morte de pessoas que acham já ter vivido o suficiente, apesar de não estarem doentes, nem enfrentarem sofrimentos”. Essa é a manchete e a abertura de um artigo no site brasil.elpais.com e a matéria foi escrita por Isabel Ferrer. Postada no facebook pelo escritor e jornalista gaúcho (brasileiro) Paulo César Teixeira, conhecido como Foguinho, gerou um debate reproduzido aqui, em formato editado pelos participantes. Direito, inovação ética? Cruel abandono?
Paulo César Teixeira -  Reconheço que é uma questão complexa, que abala profundamente estruturas culturais e religiosas, mas também tendo a aceitar como uma escolha irremovível do indivíduo. Não é na Holanda que os templos estão sendo substituídos por livrarias, por falta de crentes? Não deve ser por acaso. Soube também que em outro país avançado nestas questões culturais - o Canadá -, a legislação passou a respeitar o costume de tribos indígenas de o filho abandonar o pai, já ancião, nas geleiras do norte, para que ele aguarde a chegada da morte. Penso que segue, de algum modo, uma trilha paralela. Lembro de um professor de Antropologia canadense comentar isso quando fiz filosofia na UFRGS nos anos 80. Há também relatos parecidos em comunidades do Japão. Curioso, não? Diferentes geografias, costumes alinhados.
Dinah Lemos  -  Um grande tema aqui. Eu não abro mão, não consigo pensar de outra maneira a não ser que não posso abrir mão da referência fundamental de que um ser humano vivo deve usufruir do direito de amar a vida e se entender com ela, com angústias e medos, mas com histórias vividas sobre isso, e superações, até a hora em que seja levado pela morte. A morte como um lugar dentro do território sagrado, onde não devemos querer entrar. Sim, a passagem, o momento admite a intervenção humana para a possibilidade de uma morte sem dor. Por outro lado, claro que uma pessoa que tenha seu "território simbólico" totalmente desaparecido deveria ter a possibilidade de morrer, mas, eu sempre pensaria em vê-la encontrar novos espaços, novos encontros, ainda que em um lugar estranho. Acho que uma pessoa levada para dentro de um "centro de encontro de velhos solitários" poderia ter bons momentos com outros solitários. Mas não um asilo depressivo.  É claro que se o território onde a pessoa solitária está é ruim, frio, desagradável, e se essa pessoa tiver 80 anos ou mais, ela poderá vir a desejar a interrupção de sua vida. Mas os esquimós e outras nações antigas tinham que lidar com a perda de saúde dos velhos e o medo das doenças da velhice e das mortes terríveis. Era de se esperar que houvesse uma tradição assim, deles buscarem eutanásias que os protegessem dessas doenças terminais da velhice. Mas hoje o mundo é outro, a medicina é outra. Não dá pra buscar exemplos da antiguidade e aplica-los em um território tecnológico e simbólico totalmente distinto. Eu não falo no direito sobre o próprio corpo, eu falo sobre o direito a ter oferecido para si e pela coletividade afeto, qualidade de vida, solidariedade, ternura, vontade de viver. Ora, se há um sentimento de abandono e a vontade de morrer para evitar a solidão, eu penso que há algo muito errado e cruel na coletividade, e isso deveria ser arrumado, antes de naturalizar a morte de velhos deprimidos. Mais um indicador da minha opinião: prefigurações de um novo direito, no qual a perda da qualidade de vida passaria a ser um acontecimento natural a produzir um inédito direito à morte. Noções de administração dos fetos e dos velhos antes da morte. A morte e o nascimento como acontecimentos agora fabricados, disciplinados, controlados por um sistema higienizador das regularidades humanas.
Paulo César Teixeira  - Como falei antes, Dinah, respeito a complexidade do tema, antes de tudo. Mas não me sinto capacitado a analisar culturas tão distintas apenas pelo viés tecnológico. Também não creio em evolução histórica, no sentido de que os tempos atuais são necessariamente melhores em comparação com os anteriores. Essa racionalidade me escapa. Por fim, também não creio que as soluções buscadas pela coletividade irão solucionar todos os impulsos e mistérios do ser humano. Em resumo, estou bem longe de concordar contigo.
Dinah Lemos - Entendo o que você fala e acho também que tem cabimento em nosso mundo. Também não quero dizer que, em nome de um suposto "direito à vida" abstrato, uma pessoa velha em agudo sofrimento psíquico de solidão não possa ficar tomando calmantes fortes até seu coração parar enquanto ela está dormindo. Aceito sua opinião, apenas, como historiadora, tenho a tendência a ler o processo histórico. Foi isso que tentei fazer. Mas é um grande debate...
Paulo César Teixeira - Não concordei com o modo apressado com que você fez a leitura do costume das outras civilizações. Você as leu pela ótica e racionalidade de nossa cultura, o que considero um erro crasso, que, no entanto, é bastante comum em nosso meio. Mas estamos sempre juntos.
Dinah - Bom, eu digitei uma resposta ligeira, Foguinho. Não é minha intenção resumir o olhar a um filtro apenas. Registrei um significado que acredito estar lá, naquele acontecimento e que não estaria aqui, não obstante acabe sempre estando, uma vez que os velhos pobres morrem sofrendo muito e que os mais pobres sofrem desde os 40 anos, com as perdas dos dentes e muitos sofrimentos. Eu vejo isso aqui onde vivo. Então eu não fiz a leitura de toda a riqueza de conteúdos daquelas culturas, apenas fiz um registro que se colava na minha subjetividade sobre o tema. Acho até que esse tipo de eutanásia desvelaria a má qualidade de vida de muitos, nesse século vinte e um terrível, eu não sou contra a sua reflexão, pensando bem. Aceito a ideia em debate, sobre a lei que permite, mas defenderia que as pessoas fossem estimuladas a tentar viver ainda e buscar algo novo, ainda.
Paulo César Teixeira -  O que mais me atrai nesse tema _ e me levou a compartilhar o post _ não é qual a melhor lei, a melhor política social a ser aplicada, e sim o quanto uma iniciativa dessas, tomada por um governo constituído, estremece as profundezas de nossas crenças e certezas mais arraigadas. Entende? Não estou em busca de uma resposta. O abalo que a discussão provoca me satisfaz, e é ele que vai abrir caminho para futuras respostas.
Dinah Lemos  - Sem dúvida. Aliás, estão entrando falas mais "vivas" e deixando de ter sentido as falas de propaganda de um conceito simples. Há algo novo acontecendo, tá na cara...
Arlete Cunha  -É uma grande discussão! Deixo aqui uma HildaHilst: "Os cascos enfaixados para que eu não ouça o teu duro trote? É assim, cavalinha, que me virás buscar? Ou porque te pensei severa e silenciosa, virás criança num estilhaço de louças? Amante, porque te desprezei? Ou com ares de rei, porque te fiz rainha!"
Paulo César Teixeira  - Que ótimo!
Nico Sales  -Existe também a motivação econômica de um país (e um continente) com uma população cada vez mais idosa e longeva. De certa forma essa proposta "dá conta" disso e todos os gastos públicos com esse contigente crescente de pessoas..
Paulo César Teixeira - Gente, a proposta não é de extermínio em massa de velhos. Pelo que entendi - e não estou defendendo a proposta, apenas gosto do debate que ela provoca -, é uma brecha na legislação para que seja possível o "suicídio assistido" em casos rigorosamente excepcionais, em que a pessoa não deseja mais viver, ainda que não esteja doente ou com dores insuportáveis. A bem dizer, é uma eutanásia da alma. Não creio que possa ter qualquer impacto minimamente significativo nos custos econômicos com a população idosa.
Nico Sales - Mas não parece arbitrária a limitação etária? A mim parece, e por isso vejo pelo viés da economia...
Dinah Lemos - Adolescente se matando já tem muito, os índices de servidores públicos também estão aumentando no mundo inteiro. Há uma diferença entre suicídio e a tal de eutanásia, ou algo do gênero. O suicídio não precisa de permissão. Ele ocorre. E de várias maneiras. Esse acontecimento é uma morte induzida por medicação, algo não traumático e indolor. E sem culpa de ninguém. Então, é realmente em uma situação de dor emocional crônica, grave e sem recuperação e precisaria de uma junta médica... Precisaria de um entendimento, um laudo, psiquiátrico de que o sujeito esta em pleno gozo de sua capacidade de escolha, de que ele está convencido de que sua dor emocional não tem cura (que conversa, eu vi algo parecido no diretório nacional do PT, em 1986, quando as feministas levaram a bandeira do aborto e alguns dirigentes mais jovens se botaram a comparar com esse debate, sobre a autanásia. Conversas sobre limites da vida. Na época, eu fiquei furiosa e decepcionada. Pensava eu que eles estavam atrapalhando ao “aumentar o tamanho do conjunto temático”).
Nico Sales - Pois é. Mas acho interessante de qualquer forma a discussão também. Li algumas opiniões sobre essa notícia e fiquei me perguntando, nessa mudança de paradigma sobre a morte e a relação disso com o Estado: suicídio assistido é mais autonomia ou mais regulação?
Dinah Lemos - Aí entra o que o Foguinho colocou em debate. O suicídio, creio eu, ocorre, ponto. A palavra carrega um tabu e uma natureza paradigmática. O que o Paulo César Teixeira colocou em análise, creio, foi algo dentro da seguinte dimensão: o sujeito é mais velho e infeliz de um modo crônico. Bom, se o Estado regula isso (sim, é mais regulação estatal), então a figura da pessoa cronicamente infeliz, de um modo devastador, ganha o direito (isso é filosofia do direito) a sair de cena com o apoio da sociedade civil e de sua Cultura (coloco em maiúsculo para diferenciar do significado mais diminuto, de um conhecimento adquirido ou de memórias étnicas. Falo de um conjunto paradigmático presente no senso comum). Entra aí um conteúdo cultural que é totalmente distinto do que o cristianismo instalou no mundo desde dois mil anos. A vida passa a não ser apenas 'vida nua" (Agamben), ela se torna um acontecimento político mais complexo e o Estado poderá favorecer, em sua regulação jurídica, outros quadros de final da vida e começo da morte.
Nico Sales -  Sim.. a minha dúvida é qual o embasamento filosófico que limita essa assistência à terceira idade. Não porque me interessa que haja uma ampliação da lei, que nem sei se concordo, mas porque não vejo justificativa que não me faça ver a limitação como uma hipocrisia e como uma medida de alívio dos gastos públicos.
Paulo César Teixeira  - Sob esse ponto de vista, estou inteiramente de acordo com a perspectiva que o Nico abre para a discussão, muito mais abrangente em comparação ao ângulo meramente econômico. Não bastasse regular todos os aspectos da vida, o estado também se julga capaz de regular a morte do indivíduo. Muito Foucault isso, hein?
Nico Sales -  Pois é. Tensionei a questão da idade para pensar a base ética da proposta e suas ressalvas (e o que isso revela de interesses nela contidos), não por acreditar que a lei deva ser ampliada. Até porque nisso tudo me parece que há mais uma nova tecnologia de controle em curso do que qualquer outra coisa... Por que não interessa ao estado investir em meios que dêem conta de valorizar a vida desses que agora ele "autoriza" a morrer? De qualquer forma o debate tem mil nuances que infelizmente é difícil de dar conta por aqui :/
Dinah Lemos  - Não precisamos ‘dar conta’, só levantar problemas. Estamos em um momento civilizacional, de passagem de um modo de vida a outro, em que os centros de pesquisa estão começando a fabricar seres humanos. O primeiro feto com material genético de três pessoas foi produzido no México. As elites tecnológicas vão produzir seres humanos. Então o início da vida está deixando de ser natural. Teremos, por óbvio, o debate sobre o fim da vida. Mas eu acho que o direito de morrer não reduz o direito de viver do sujeito velho. O indivíduo velho não vai morrer sem ter certeza, em caso de escolha. Ou então estaremos supondo que esse indivíduo não tem mais capacidade de decidir, digamos assim, que ele seria uma espécie de ‘menor incapaz’.  Começamos a ver pessoas viverem mais de cem anos e fora de uma comunidade que dá valor a essa longevidade. Há tecnologia para prolongar a vida, mas a sociedade estimula uma Cultura na qual o jovem, o novo, a inovação é o mais inteligente, lúcido e desejável. O velho longevo vira plateia de um mundo que não é mais seu. Acho um debate pertinente.
Paulo César Teixeira -  Sei que essa conversa já foi longe demais, mas gostaria de acrescentar algo sobre o tal "romantismo mórbido" ao qual me referi antes. Recordo que, em minha juventude, no final dos anos 70, havia casos recorrentes de jovens que se matavam, pelo menos nos círculos sociais que eu frequentava. Ou se jogavam do alto de um prédio na Borges de Medeiros, ou fechavam portas e janelas e abriam o gás da cozinha, por aí vai. Certamente, para tal frequência de casos de suicidas entre a juventude da época, que - pelos relatos que dispomos - não se restringiu a Porto Alegre ou ao Brasil, foi um fenômeno aparentemente bem mais amplo, contribuía o ambiente de desolação e falta de perspectivas da época, assim como o abuso do consumo de "drogas". De qualquer modo, este é um assunto que, até hoje, não vi ser analisado em profundidade, talvez porque a morte e o suicídio, em particular, sejam temas ainda desconfortáveis para nós. A propósito, abaixo transcrevo um trecho que fala exatamente sobre isso, do Esquina Maldita:
“O fascínio da humanidade pela ideia do suicídio sempre existiu, mas em alguns períodos pareceu ganhar maior amplitude, como na parte final do XVIII. José Antônio Silva chama atenção para o fato de que, de acordo com relatos históricos, consta ter havido nesse período uma onda de suicídios na Europa supostamente motivada pela publicação, em 1774, de Os sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe – obra que narra os extremos de uma paixão cujo limite é a própria morte. Em certa medida, o fenômeno talvez tenha se repetido na década de 1970.
Sem dúvida, um dos componentes trágicos dos anos 1970 é o saldo de jovens que enlouqueceram ou cometeram suicídio. As drogas, certamente, contribuíram muito com esse processo. “Perdi amigos que nunca mais voltaram”, relata José Antônio, usando a gíria da época. O poeta e compositor piauiense Torquato Neto, um dos idealizadores do Tropicalismo, por exemplo, se matou em 1972, um dia após completar 28 anos. “A paisagem não sustenta o teu lirismo”, escreveu ele. No meio underground, o exemplo do tropicalista se tornou emblemático. “Era comum ouvir alguém citando Torquato no Alaska”, recorda José Antônio.(...)

Em busca de explicações para a onda de loucura e suicídios que se abateu sobre a juventude ao longo da década de 1970, Giba Rocha lembrou uma entrevista que realizou como repórter da Folha da Manhã com o cantor Gilberto Gil. Em certo momento da conversa, o artista baiano contou que Caetano Veloso (amigo e parceiro da Tropicália) mal conseguiu balbuciar uma palavra quando experimentou pela primeira e única vez a maconha, de tão impactado que ficou com os efeitos da erva. “Esse exemplo me vem à mente quando percebo que pessoas com uma percepção de vida muito aguçada nem deveriam se drogar. Muitos dos que piraram ou se mataram nos anos 1970 tinham uma hipersensibilidade por natureza, que foi levada ao limite pelo uso de drogas. Provavelmente tenham sido vítimas de uma overdose de sensibilidade.”

Debate Paulo Torelly e Dinah Lemos - sobre o tamanho do mal




Paulo Torelly - Olá, Dinah Lemos: não estava em POA no final de semana e acabei não te respondendo antes, pelo que me desculpo. Não alimento nenhuma teoria da conspiração ao ponto de acreditar em algo pensado nos detalhes, mas concordo contigo que os retrocessos de hoje decorrem de uma concepção autocrática de mundo e de sociedade dos segmentos dirigentes e hoje golpistas, o que sempre existiu e ganha força na atual conjuntura. Há muito defendo ser imprescindível a democratização das entidades da sociedade civil para podermos constituir uma cultura de respeito do ser humano pelo ser humano. Mas é inegável a gravidade e o impacto da notícia aqui compartilhada diante deste agora assumido desprezo pelos princípios do direito. O fato é que os modelos totalitários de governo se colocaram e ainda se colocam – para todas as ideologias – como uma das hipóteses possíveis de gestão estatal na modernidade. Não podemos esquecer que em abril de 1964 nem mesmo os maiores golpistas podiam imaginar – mesmo que desejassem – os desdobramentos que culminaram com o AI-5 em dezembro de 1968. Lembro de Octavio Ianni, amigo de FHC e grande crítico de todos os seus governos: “O macartismo, o reganismo e o thatcherismo sugerem que mesmo em regimes liberais-democratas podem ocorrer surtos autoritários, com ingredientes fascistas. Aliás, seria ilusório esquecer que alguns ingredientes da cultura nazi-fascista germinam todo o tempo, contínua ou ciclicamente, no bojo da sociedade burguesa.” (IANNI, Octavio. 'A sociedade global.' 9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 28-29.). O que também faz lembrar o alerta de Zygmunt Bauman e de todos os críticos do nazi-fascismo: “A resistência em aceitar a lição do Holocausto manifesta-se primariamente nas múltiplas tentativas de exorcizar ou marginalizar o Holocausto como um episódio histórico único” (BAUMAN, Zygmunt. 'Modernidade e ambivalência. Trad. Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p. 27.). GOLPE É GOLPE! Fiquemos atentos!!!

Dinah Lemos - Obrigada pelo comentário. Muito bom, mas acho que mistura uma análise correta e densa com uma abordagem de que seria uma espécie de repetição formal cíclica de um monstro da maldade, uma violência em excesso produzida pelos sistemas de dominação de elites humanas, em tempos diferentes. E que poderíamos perceber esses momentos e reagir para garantir um status quo anterior a isso, um estado de menor incidência dessa mesma maldade, uma incidência em patamares suportáveis. Eu acho essa lógica, própria da socialdemocracia, ineficiente, inválida, porque ela não observa um processo que é histórico e que eu vou marcar a partir de 1500, com o renascimento e as grandes navegações posteriores aos séculos XII ao XIV. Esse processo, segundo Einstein, vai bater em um muro no que diz respeito ao 'progresso tecnológico". Eu entendo que esse muro está visível já e que as elites capitalistas estão tomando as rédeas para executar uma 'solução final' muito, mas muito mais definidora do modo de produção da vida no planeta do que os delírios vorazes do nazismo. Então, não lidamos com um excesso a ser contido por uma socialdemocracia conhecida. Precisamos de uma nova construção epistemológica. Precisamos pensar mais, mais corajosamente, escrever mais audaciosamente, de um modo investigativo, e sair do conforto simbólico de um passado que não voltará.