Somos todos extraterrestres sem linguagem comum



 Você entende quando eu falo em "desmanchamento da sociabilidade"? As palavras não são só “cadeira”, “mesa”, “comida”. As palavras abrigam imagens que foram acontecendo na história da humanidade. As frases são entendidas por quem ouve quando elas carregam imagens que são comuns a todos que estão falando e ouvindo. Portanto, para que a linguagem exista e seja entendida é preciso que a realidade, o real, aconteça mais ou menos da mesma maneira para quem fala e ouve, para o grupo, comunidade, sociedade que fala uma mesma linguagem.
 Sociabilidade é a capacidade que um agrupamento, comunidade ou sociedade humana tem de possuir uma linguagem comum, construída por meio de uma história comum e narrativas inteligíveis por todos sobre essa história comum, ainda que divergentes. Por exemplo: a sociabilidade no Brasil colônia foi definida pelos portugueses machos adultos que aqui aportaram. Os indígenas foram perseguidos e aprisionados, os negros foram trazidos da África em algum momento subsequente (não lembro quando foi o primeiro navio negreiro), as mulheres brancas obedeciam às lógicas e formas de comportamento definidas pelos machos livres e adultos. Não havia uma sociabilidade entre os colonizadores e os negros chamados de "boçais". Eram chamados de boçais os negros recém-chegados na terra Brasil e que não sabiam falar o português e nem sabiam onde tinham vindo parar e porque tinham sido sequestrados, ou ao menos por quem, já que o sequestro para escravização era comum na África e as tribos o praticavam habitualmente. Era como se fossem ETs, os negros carregados pra cá e o “ser extraterrestre” só desaparecia quando se tornavam “escravos no Brasil”.  E a sociabilidade dos indígenas não interessava aos colonizadores, já que eles “sabiam de si” e tinham uma sociabilidade anterior aos portugueses. Eles eram, por isso, muito mais difíceis de escravizar. Porque tinham linguagem própria alicerçada nesse território onde viviam e porque tinham uma sociabilidade nativa. Então uma nova sociabilidade organizou o espaço público e os espaços privados. Cabia aos negros recém-chegados aprender a entendê-la e viver nela. Aí eles se tornavam os negros “ladinos”, aqueles que sabiam falar e entender as regras gerais e os modos de adaptação possíveis.
Agora vivemos em um mundo onde quase todos os humanos entendem o que está acontecendo a todos, porque há uma produção de imagens sobre o mundo todo para todo o mundo e há traduções das linguagens locais, narrativas gerais sobre cada lugar particular. Então, isso seria uma espécie de sociabilidade mundial. Muitos teóricos e pensadores chamam essa sociabilidade de “pós-moderna” porque ela se realiza principalmente a partir de modos de organização social que desorganizam estabilidades formais e fazem surgir mutações, hibridismos, nomadismos contínuos, mudanças sobre mudanças. Essa sociabilidade pós-moderna também é pensada pelos mais sábios do mundo como um mito antigo e bíblico que é a torre de babel, onde cada pequeno grupo fala uma linguagem e ninguém se entende.  Alimentam, como combustível, essa sociabilidade atual e global efeitos gerais acionados por algo semelhante a “categorias” (porque são entendidos como o próprio real, o lugar ontológico, aquilo que é independente do desejo humano) que são: a velocidade máxima, o controle máximo, a visibilidade máxima, a potência máxima, entre outros que se tornam menos importantes. Assim, os acontecimentos que antes formavam a história humana e, a partir da história, formavam linguagem dentro de uma sociabilidade passaram a ser conduzidos ao esquecimento e passaram a não ter valor simbólico na formação da linguagem.
 Vivemos em uma sociedade de múltiplos e contínuos desmanchamentos vorazes e visíveis a olho nu. Por isso a sociabilidade geral é corrompida por irrupções de desordens que brotam em camadas soterradas do inconsciente coletivo e dos subgrupos culturais. É uma espécie de enlouquecimento generalizado. Na falta de consistência das formas de agir e viver, na mudança permanente de imagens e seus significados, reside um derretimento da linguagem comum. Um sujeito fala uma frase e o outro sujeito entende de um modo diferente do que o primeiro entendeu quando estava falando. Na ausência de linguagem comum, ficamos todos jogados à condição do negro escravo boçal, aquele recém-chegado da África em um navio negreiro. Somos extraterrestres num país onde os donos, os que mandam, os que são terrestres, são o Neymar, a Gisele, o Brad Pitt e a Angelina Jolie, e os demais seres de máxima potência e visibilidade. Eles são imagens entendidas na linguagem como perfeitas e verdadeiras, sendo aquilo que se distancia deles, na condição de valor, acontecimentos imperfeitos e menos verdadeiros. Até chegarmos na máxima mentira e ausência de significado descritível que são os menos potentes seres humanos.  Todos esses seres de potência e visibilidade integram os significados da linguagem e da sociabilidade global e pós-moderna, ficando o real, real, ele mesmo, jogado em uma sopa confusa e mutante.
Então, não se trata mais de “problemas dos negros”, “pautas das mulheres”, “a questão da pobreza”, “assuntos dos gays”. Trata-se de negros, brancos e amarelos que se utilizam da ideia “problemas dos negros” para falarem outras coisas; mulheres e homens que se utilizam da ideia “pauta das mulheres” para falarem outras coisas; negros, brancos, amarelos, homens e mulheres que se utilizam da ideia “assuntos dos gays” para criarem alguma condição similar ao “negro ladino” do tempo da escravidão colonial no Brasil, ou seja, terem algum poder sobre a produção de linguagem e, portanto, de ordenamento social.  
Então, o que os pensadores estão preocupados não é só um problema de “política equivocada” ou de “má-fé política” de grupos que conseguem produzir linguagem e sociabilidade. Os pensadores estão preocupados com a falta de consistência das linguagens e sociabilidade produzidas. Essas sociabilidades produzidas são voláteis e não se fixam em ordenamentos construtores de história. É quase como se todo mundo estivesse desejando e esperando o surgimento de uma grande ditadura mundial que obrigasse um “pão” a ser o mesmo pão para todos os habitantes do Planeta, um ser humano de tipo “x” ser o mesmo tipo humano em todos os lugares do mundo, um ser humano de tipo “y” ser o mesmo tipo humano em todos os cantos e ilhas. O que é a verdade com a máxima potência, velocidade e visibilidade é que não suportamos mais ver um jovem islâmico querer ser um estuprador e suicida militante no mesmo espaço-tempo-memória em que um americano quer ser um levantador de peso transformado num “Hulk” e operado para virar uma fêmea da espécie humana e se pensando uma lésbica que tem corpo de homem e gosta de transar com mulheres.
Isso é, o que os sábios estão vendo é um problema de corrosão geral da linguagem. A linguagem precisa de memória coletiva organizada. Sem essa memória o sujeito tende a migrar para aglutinações de bandos inaugurais, como os emos, os sertanejos universitários, os pagodeiros, os diversos formatos de religiões fragmentadas, os novos formatos de religiões tradicionais, etc. Bandos que se formam sobre uma perda de memória generalizada. É um grande equívoco chamar qualquer desses acontecimentos voláteis de fascismo. É muito mais profundo o colapso do que apenas uma psicose de um número limitado de memórias aglutinadas a partir de espaço-temporalidades diferentes, mas no campo de uma utopia moderna, como o fascismo. Luis Dumont analisa o caso alemão e explica como o povo alemão inteiro tornou-se nazista em um determinado momento. Mas é uma fratura específica na Alemanha, outra específica na Espanha, outra em Portugal e etc, mas todas de inconscientes primevos misturados com uma mesma utopia moderna: a que propõe a sociedade não capitalista de livre mercado, mas totalitária e industrial. Agora temos uma crise que cola memórias muito arcaicas com memórias pós-revolução da informática, memórias de quem não vê a vida real, apenas telas. Um real em processo permanente de desmanchamento não pode ser chamado de fascista, pois o fascismo foi um ordenamento rígido.
Pois é... mas penso que em uma conversa estamos realizando linguagem. Estou escrevendo um texto sobre isso e vc está me ajudando a pensar. Vc e outro amigo antigo, que é meio estranho ao senso comum, mas se mantém lúcido sempre. Você e outro e mais outro amigo. Então, todos os lados da conversa são um pedaço de verdade. O juiz é um pedaço da verdade quando realiza o Direito, ele mesmo, a coação do coletivo dentro do ordenamento. E o juiz também é um pedaço da verdade quando ele realiza um poder que é limitado, que é criticado por novas ordens que irão lhe suceder. Assim, o sistema penal enfrenta crises de época e mudança de formato, conforme o surgimento de uma nova civilização. E o ladrão tem razão, o assassino também, porque no início ele não estava lá, no lugar de quem mata. Algo o conduziu ao lugar de quem mata e ele quer se diferenciar desse algo. Quando ele diz "não fui eu", ele está alinhando o seu suposto "si mesmo" ao lugar do ordenamento. Como quem diz: eu morro por um engano, o meu "si mesmo" pertence ao mundo da ordem. E assim ele relega a um "acidente" ou a um "outrem malvado" a condição de desrespeito. Porém, há um pequeno pedaço de verdade em um militante islâmico, um evangélico, um transgênero homem/mulher lésbica em corpo operado, um indígena, um juiz, um assassino.

 Querida pessoa que lê, estar em lugar de absoluta solidão em relação ao restante dos seres humanos, quando se é sábio, pode conferir a você uma paz de espírito grande que vem a ser um capital emocional arquetípico da velhice dos anciãos. O mundo precisa de nós, velhos que não precisam mais de psicanalistas, velhos que entram e uma espécie de "Olimpo" de quem finalmente entende a mais absoluta verdade da civilização que agora desmorona: ou somos bandos submetidos a ordenamentos frágeis e instáveis ou somos indivíduos com identidade única e por isso, tragicamente solitários. Ao entendermos, nós os velhos sábios, assumimos essa solidão dos deuses, esse absoluto estar só na percepção da beleza imensa do mundo. Deveria haver um diploma para velhos que realizam essa libertação da necessidade de um padre, de uma confissão, de um analista, de uma análise excludente, de uma culpa e de uma pena. Estou me sentindo linda e pronta.

Monólogos sobre o nadar



                        Era uma festa de juízes e juízas, com eles distribuídos em várias mesas de modos nada aleatórios. Diretores, assessores, chefes e seus respectivos maridos, esposas, noivos, namorados ou outra opção, inclusive, já que era todo mundo tão colorido, nos últimos tempos, em muitos lugares. Eis que aparece, no palco, um coral de treze pessoas, vestidas como loucas em pose absurda. Aplausos da festa divertida. Naquele cenário, eles eram seis mulheres, vestidas de ícones de moda de época, de um lado, um travesti alto e loiro portando um salto plataforma de trinta centímetros, no meio, e seis homens, vestidos como gaúchos da fronteira sul do Brasil, ou soldados de outra fronteira qualquer, no lado esquerdo de quem vê e direito de quem é. E tudo aconteceu assim: postura de mímicos, parados em estátuas. Luzes de palco. Aplausos protocolares. Os atores tossem e se coçam, atrapalhados, se acomodam, e dizem, de um modo anormal, todos juntos, intercalando solos de pequenas falas de uma, duas pessoas, ou um grupo determinado: “A humanidade viveu dez séculos sem manifestações teatrais, entre o final do Império Romano e o ressurgimento dessas práticas, na Idade Média. Então surgiu um teatro "vinculado ao ofício religioso", onde "o drama litúrgico não se distinguia da liturgia cristã". Procurando inspiração para escrever algo e concorrer a um prêmio, encontrei [essa palavra dita uma vez por uma mulher e outra vez por um homem, que se olham, disputando a autoria] esse recorte em O Texto no Teatro, Sábato Magaldi (2008). Na verdade, não estou preocupada (o) [outro casal diz a palavra, a mulher primeiro e o homem, só o “o”, em disputa de gênero] em escrever bem, só [fala o travesti]. Ou em “sentir-me feliz comigo mesmo (a) [um homem e uma mulher] ao escrever o que me vem do fundo da alma [travesti]. Também não quero apenas ganhar um concurso de escritos para ter meu texto publicado em um livro, com direito a dar autógrafos [uma soprano canta esse predicado]. Talvez fosse pífio [diz o travesti, com uma risadinha]. O celular fez um barulhinho agora e já não corro mais para ver quem é, não penso mais que encontrarei alguma solução, para algo, em uma mensagem das redes sociais. Não sou tolo (a) [todos juntos, menos o travesti que duvida, olhando em volta]. Voltando [travesti]. Como conseguiram passar mil anos sem fazer teatro? Bom, isso deve ser na Europa. No Oriente os caras fazem teatro desde sempre, em religião, mesmo que chovam canivetes [as mulheres dizem, olhando para os homens] por lá. Como os descendentes foram fazer só [travesti] teatro litúrgico, só [travesti] depois de mil anos do fim de uma civilização? Só [duas mulheres, olhando para o traveco, em desafio] duas folhas, para contos, é o regulamento [homens e mulheres]. Bom, então: eu queria escrever um dos textos mais lindos do mundo [só as mulheres, olhando para o público com ar idílico], ganhar com ele um concurso [os homens], em 2015, no Brasil [traveco, com cara de comportado], ser publicado (a) [um homem e uma mulher, em disputa de gênero] e encantar o mundo, as pessoas que lessem [travesti, irônico]. Tornar-me “ah” [travesti], “a (o) [disputa de gênero] que escreveu aquilo”. Entraria para o seleto clã [travesti] de pessoas que realizaram algo que importa na vida. E se eu fizesse de conta que só estou participando e penso algo disso que já foi dito, em tudo o que já apareceu por aqui, aí, acolá? Tipo: o sucesso é inútil, todas as pessoas são importantes, todas as vidas são belas, e tal e tal? Escrevi essa coisinha bonita só porque me deu autoestima (todos), e mandei e aí está. Obrigada a todas e todos (mulheres). Somos normais? Somos bons (dois homens e duas mulheres)? Normalmente o normal não é bom (travesti, com tédio). Vai acabar o espaço e eu [travesti] dizendo o de sempre, nada. Como os caras conseguiram ficar mil anos sem escrever e fazer teatro? Como fazer para que desse mar de coisas escritas e divulgadas, nas redes, em livros, nas telas de televisão, em filmes, em teatros, atualmente, surja um conjunto de escrituras que faça sentidos para todo o mundo [cada um diz uma palavra até o todo mundo, onde todos dizem juntos]? Porque se muita gente escreve e lê alguma coisinha, não estaremos lendo todos, coisas significativas, juntos. Kkk [todos juntos]. Escrever e ler importaria se fosse um momento de comunicação. Não existe linguagem sem isso, porque a linguagem não é só um alfabeto, ela é uma constelação de fluxos de entendimento. E divulgar uma porcaria dessas que todo mundo lê, e gosta, tipo falar em tons, adiantaria [só mulheres]? Não [só homens]. Vai acabar o espaço e eu [travesti] não disse nada. Calma, veja bem [mulheres, consolando o travesti]: que transcorram mil anos, desse nosso mundo demente, mas alguém, um dia, dará à luz escrituras importantes para todos e entendidas por todo o mundo. Quais escrituras [travesti]? Vai terminar esse tempo e eu preciso dizer alguma coisa que preste [travesti, olhando para o público, desce do cenário do coral, vai para um solo na beira do palco. Olha, tímido e meigo].  O travesti se prepara, tímido, um minuto, dois, e as mulheres falam, juntas: um minuto! De um modo imperativo. O travesti, então, olha para o público e diz, tenso, “nada, nada, nada...”. Depois pensa e decide dizer: Nadar é bom! E espera aprovação, infantil e sorridente. O público ri, de um modo moderado e disperso. O travesti olha, vai se tornando irado de um modo bipolar, se impõe ao público e diz: “vocês vão repetir, até dizerem direito”. E o coral repete, primeiro só as mulheres, depois só os homens e, depois, todo o coral: direito!  Os juízes e as juízas e seus assessores e diretores, maridos, esposas, namorados e outros falam, de um modo desorganizado e estridente: Direito! E foi assim que tudo se realizou, no fim:
            O travesti se põe como um maestro e rege o público, contando “é um, é dois, é três” como um vocalista de banda de rock, e o público enuncia, em uníssono, de um modo retumbante: nadar é bom! Juntos, perfeitos, indefectíveis. Depois o travesti repete a cena, com mais intensidade e mais rapidamente, como maestro apaixonado, e a turma do público levanta, uns, outros não, fazem poses de ópera e dizem, muito rapidamente: Nadar é bom! Nadar é bom! Nadar é bom!
            Todos aplaudem, o coral e o público, gritam “brabo, bravo”, assobiam, e aplaudem muito tempo. O coral se retira e o público se põe a beber e a comer, ruidosamente.  E o travesti ergue então uma placa de The End, escrito com flores do campo, mostrando para quem vê. E eles ganharam o melhor prêmio do mundo. Daquele mundo.


Incomparável, Dionisíaco e Apolíneo The End.




 Olha, eu penso faz tempo como se eu fosse uma ET de outro planeta assistindo um PASSADO acontecer. Eu não penso como uma pessoa cidadã que quer atuar politicamente. Eu tentei ter direitos políticos quando tinha 20 a 30 anos e não consegui. Antes disso eu nunca tive direitos políticos e sofria assédios violentos contra minha integridade física e moral. Depois disso eu sofri ataques violentos intermitentes contra a minha integridade física e moral até pouco tempo atrás. Agora que me encontro exilada na aposentadoria e em um local mais retirado de moradia (em relação aos grandes centros urbanos), eu entendi que nunca tive direitos políticos, a não ser votar em alguém com quem eu não me identificava. Em todos os níveis eleitorais. Então, pra mim é muito fácil olhar para o mundo atual e entende-lo. Eu entendo que a ideia de contaminação, defendida por Le Pen, é realmente eficiente, como discurso político e como pensamento epistemológico. Não digo que é boa ou má, no campo da ética, apenas eficiente no campo da política e da técnica. Se vc for interpretar o fim do Império Romano e ler os debates sobre suas causas verá que até hoje as divergências não foram resolvidas. De onde brotam os novos tempos? As sínteses de contradições? As realizações sublimes das perfeições trágicas nos embates entre Dioniso e Apolo? O Capitalismo não vai acabar, esse capitalismo de 1500 até 2001, e com esse epílogo que vivemos, de um modo conhecido, técnica, filosófica e politicamente. É preciso olhar para os acontecimentos sem ter um ponto de partida na linguagem conhecida. É preciso surfar em terminologias por meio da intuição, da contra-intuição às vezes derivada de um olhar intensamente imanente, às vezes derivada de um sentimento intensamente metafísico. Por exemplo: por que esse meu longo discurso/pensamento não interessa a ninguém e o texto intuitivo e impreciso da Butler, por ocasião do atentado em Paris do Estado Islâmico em 2015, novembro,  deve ser tão lido? Não será essa contradição que movimenta tantos sentimentos relacionados ao aumento dos votos e das escolhas por fundamentalismos, sejam eles onde e quais forem? Por que se vê o militarismo apenas nas armas quando ele está no controle absolutista dos discursos possíveis no campo das visibilidades? Quando a inteligentzia vai se dar conta de que todos os discursos proibidos aos campos de visibilidades estão migrando para algum tipo de fundamentalismo? E que os "campos de visibilidades" (políticas e técnicas, por certo) estão se abrigando atrás de armas? E que carregando essas armas estão sujeitos sociais invisíveis em sua maioria, ou seja, o poder tradicional e consolidado na modernidade não tem mais controle dos exércitos? A Judith Butler diz: "pensemos, pensemos". Eu não vejo saída a não ser um futuro marcado por escolhas religiosas inaugurais e um volume nunca dantes visto de guerras civis, genocídios, guerras imperialistas, epidemias, desastres ecológicos, etc. É "O APOCALIPSE"? Não, é o fim de um mundo que começou há 100 mil anos, talvez. É o fim de uma espécie humana. Depois a história vai continuar com um novo Retorno que ora se insinua, atônito, apolíneo e dionisíaco ao mesmo tempo, um novo porvir para uma nova e inaugural espécie humana, totalmente diferente da nossa, nem melhor e nem pior. Incomparável.

A professora, o traficante e o consumidor



Dizer que o tráfico de drogas atua na margem do tecido social, e que ali o Estado não chega, ali onde as professoras estariam bravamente, é um erro importante, definidor de limites sobre a capacidade de entendimento e de interferência na produção da Política (com pê maiúsculo, diferente da politicagem). É que o Estado, no Capitalismo Senil, chega em todos os lugares do Planeta Terra, do subsolo aos céus; segundo, esse Estado capturador de tudo o que respira, está destinado a produzir lucro, juros e violência, sendo que as professoras só o representam na medida em que são alienadas e reprodutoras de atitudes e currículos hostis a uma vida digna da população sob controle. Terceiro, que o tráfico de drogas ocupa todo o tecido social e a demanda que o move se situa, principalmente, nos setores localizados no topo da pirâmide da captura da renda, ou seja, o lugar onde o tráfico de drogas mais tem poder e eficiência é no interior dos espaços onde as elites circulam. As chamadas "periferias" são os locais de gestão da distribuição e abrigam o cenário onde a ilegalidade do uso de drogas produz disputas violentas e armadas. Mas, não se enganem, a maioria dos distribuidores de drogas ilícitas são homens cordatos, disciplinados, com famílias ordeiras e bem integrados socialmente. Os psicóticos violentos cumprem um papel dentro do sistema todo, da mesma maneira que os psicóticos violentos cumprem um papel no Estado. São lados da mesma linha vermelha de uma guerra que legaliza a maior droga de todas, a grande mídia. As novelas e os noticiários de grande distribuição, os chamados "filmes de ação" e os realites shows imobilizam o cérebro dos consumidores tanto quanto a cocaína, ou mais, já que são permitidos e estimulados. E os produtores e donos das redes de grandes mídias são o mágico de OZ: eles enxergam e gerenciam tudo. As professoras, portanto, são tão escravas quanto o aviãozinho pequeno que distribui maconha em um território restrito, e a maioria delas oferece drogas, porcarias destrutivas, em sala de aula.

Quando adotamos a ferramenta conceitual que abriga o nome de "Capitalismo Senil" estamos dizendo que todo o cenário humano está capturado pela mesma tragédia. Isto significa dizer que toda a humanidade deverá encontrar um novo destino, menos híbrido, mais ordenado, para que alguém humano possa sobreviver. Esse novo destino depende de um caminho, multifacetado, que não conterá o bem dentro de si e o mal do lado de fora. Quando teimamos em recorrer a padrões do século XVIII europeu, de dicotomia entre razão e metafísica, bárbaros e civilizados, não conseguimos realizar a magia da tragédia, da grande Tragédia (com T maiúsculo), que é exatamente a catarse produtora do abandono dos excessos. Vivemos em uma sociedade de excessos de todo o tipo e de faltas, abandonos correspondentes. Excesso de controle social, de concentração de renda, de violência, de produção de manufaturas, de humilhação, de loucura. Precisamos ver a desgraça se abatendo em nós mesmos e não mais descreve-la como sendo o destino dos iludidos e dos malvados e perversos. Precisamos temer a desgraça sobre nós mesmos, para então adquirirmos potência catártica e um novo conteúdo civilizatório. Não há lugares do bem e lugares do mal, precisamos arrancar a generosidade e a dignidade de dentro de nossas próprias tripas, em meio a todas as adversidades que nos contaminam e nos raros momentos em que não estamos drogados com alguma adição.

Quem tem medo de Eduardo Cunha?




O Brasil é um país escravista. Essa imagem sobre o real está começando a aparecer, entreabertas as brumas de ideologias iluministas que a escondiam desde os idos tempos de 1888/89, quando mentiram que não haviam mais escravos e que havia uma República. Agora a resistência deverá começar a entender que as bandeiras abolicionistas de 1864, quando se discutia a abolição nas assembleias legislativas, eram justas lá, naquele Brasil, talvez, mas agora não nos servem de nada. O abolicionismo atual, atualizado, deverá se dedicar a fortalecer Quilombos. Os quilombos do século XXI serão focos coesos e consistentes de uma contracultura, uma conduta diferenciada que não mais se oriente pelos ideais iluministas e republicanos, precários, ilusórios, mas que se dediquem a fomentar noções de valor para os espaços públicos e privados, nas quais a dignidade de qualquer ser vivo - e seu ambiente - seja levada em conta. Nesses focos, serão erguidas novas religiões de múltiplos profetas, aceitando que vários deles reivindiquem uma parte das heranças de figuras arquetípicas, como Jesus Cristo, Maomé ou Buda; orixás, deusas indianas, ou mesmo ícones como Frida Kahlo (por que não?).
Precisamos de uma constelação de profetas sem fama, sem santificação, xamãs que se entendam como tal, sem que necessitem de reconhecimento célebre, midiatizado perante multidões. A "coisa pública" está ruindo no mundo inteiro, inclusive no campo da linguagem. Consequentemente, o "domus privado" também. As "casas", ou "lares" ruirão não por uma invasão bélica externa, mas por uma degeneração progressiva de identidades, metas, desejos. Só os quilombolas entenderão o desarranjo geral e somente eles saberão consistir "domus de resistência". O restante naufragará em quadros de Bosch, um pintor do apocalipse que compôs, em 1014, imagens de desesperos que nos invadem hoje em dia.
O país Brasil inteiro está aprisionado em fortificações. Não se iluda pensando que os âncoras da rede globo de televisão não estão contidos em um espaço exíguo de comportamentos obrigatórios e angustiantes. Veja que eles estão cada vez mais perdendo a imagem válida de modernos agentes de enunciação de verdades cruas e, a cada dia que passa, reconstituindo suas próprias imagens à semelhança dos ridículos nobres com perucas brancas e espartilhos, eunucos diante de revoltas sangrentas que os encurralam e atemorizam. A diferença pregnante é que embora estejam sendo constituídas prisões de diferentes tipos, a grande maioria delas começam a se desenhar como espaços de escravização, de senzalas, de campos de concentração de humanos e animais não humanos humilhados e descartados conforme a utilidade ou inutilidade deles, aos olhos das gerências das instituições em crise. Por isso a resistência se redesenha em quilombos, porque tudo estará fortificado, tanto prisões, passando por locais de trabalho até os condomínios de elite abrigados em muros altos, o que impõe a construção de redes de contracultura, também fortificadas em seus territórios. O caos é da ordem da linguagem, dos signos e das realidades que se expressam neles. Sem linguagem comum e pública, o país Brasil tende à retomada de suas possessões hereditárias inaugurais, redesenhadas em multiplicidades pós-modernas.
A escolha por caminhos punitivos não começa agora, na redução da maioridade penal. As leis positivadas, desde sempre, tão somente ordenam formas para processos inclusos na produção das fontes materiais - a realidade anterior à linguagem - sustentáculo efetivo para a validade das novas regulações jurídicas. A escolha punitiva não tem, a rigor, um começo, na história do Brasil invadido em 1500 pela moderna colonização europeia, mas poderíamos, a título de esquema, sublinhar um início na Lei da Abolição, que conduziu os escravos a territórios das gentes passíveis de aprisionamento em sistemas penais modernos. De 1888 até a aprovação da redução da maioridade penal, em julho de 2015, no congresso nacional brasileiro, vivemos uma espiral de repetições, em escalas espaço-temporais diferentes, de frágeis recortes pseudodemocráticos – em geral de perfil populista -  no interior de processos predominantemente violentos de controle das revoltas da população comum.
A redução da maioridade penal não é, a rigor, um tema a conduzir os novos quilombolas ao desânimo, já que a própria divisão entre apenados e livres é, em larga medida, ilusória. O sistema penal brasileiro impulsiona, faz tempo, um conjunto de estruturas que têm, no centro, as prisões, configuradas como depósitos de excluídos dos direitos que as democracias clássicas sempre tentaram preservar até aos prisioneiros de guerra. Em conexão estreita e eficaz com o sistema prisional, temos as famílias e redes de parentesco dos encarcerados, contingente populacional que comanda, lidera mesmo, estratégias de conduta moral nas periferias dos espaços públicos e privados protegidos pelas elites de todo o gênero, espaços de Casa Grande, onde vivem os incluídos em direitos de cidadania, nas grandes e pequenas cidades. Essas periferias estão vendo e vivendo, faz tempo, a violência desmedida (esse é o termo para a violência abusiva contra o escravo) contra as crianças, as mulheres, os velhos, os homossexuais, os indígenas e os negros pobres em geral. Digno de nota é a distância, cada vez maior, entre direitos conquistados pelos homossexuais, mulheres e negros protegidos nos espaços de Casa Grande e a ausência progressiva de direitos conferidos aos mesmos setores, em se tratando de pessoas habitantes das periferias excluídas das ilhas de modernidade.
Essa liderança das periferias, não sem razão, coloca-se mais a pergunta de como esses menores que irão para os presídios, agora inseridos nos sistemas punitivos direcionados aos maiores, serão tratados, mais do que a repulsa a nova forma de tipificação de seus crimes. Afinal, entre o abandono, a violação sistemática, os assassinatos e as torturas impingidas a essas crianças e adolescentes, e as futuras estratégias de aprisionamento resta uma distância dramaticamente ambígua.
Recentemente, alguns de nós puderam acompanhar debates nas redes sociais onde jovens negros comentavam sobre o mito do estupro praticado nos presídios. Os comentários duraram pouco tempo nas redes e foram apagados. Li uma postagem, no mural “feminismo sem demagogia”, no qual um moço dizia que os apenados e detidos por tráfico de drogas estavam protegidos desse tipo de violência pois o comando do tráfico havia normatizado a proibição de estupro nesses casos. Esse é um indicador importante. Ele aponta para um novo fluxo de produção de fontes materiais do direito, qual seja, os direitos a serem conquistados por um contingente enorme de brasileiros aprisionados ou ligados em redes de sobrevivência e risco aos habitantes dos presídios, menores ou maiores, tanto faz.  Há, entre os ditados populares, uma frase que corresponde a isso: “se ninguém manda, mando eu”, isto é, se o Estado de Direito é vetado aos habitantes dos presídios, cedo ou tarde essa população consolidará, mais e melhor, seu próprio direito, ou, ao menos, ensaios de direitos dos apenados. Uma vez ampliada a complexidade carcerária, em número de presos e em sistemas prisionais, os próprios presos se organizarão, como já fazem hoje parcialmente, para ampliar espaços de dignidade. Os quilombos começam a se desenhar nas prisões.
Então vamos responder à pergunta que dá título ao texto: quem tem medo de Eduardo Cunha?
Há quem, de tanto medo da composição atual do congresso nacional brasileiro, deseje e até mesmo reivindique a intervenção, até certo ponto ditatorial, do judiciário. Esses se sentem mais tranquilos ao imaginar um Supremo Tribunal Federal desfazendo a autoridade dos congressistas e, com isso, instaurando um perigoso Estado de Exceção, já que o Executivo anda definhando diante de impedimentos de toda ordem. Certamente esses não fazem parte da enorme população de excluídos de processos decisórios em qualquer nível político, já que há muito as esperanças de participação democrática estão aniquiladas no campo da opinião dos comuns.
Para a imensa maioria da população brasileira – civil e militar (isso mesmo que você leu, e isso já é outro texto) – trata-se, tão simplesmente, de pensar sobre que direitos, afinal, as crianças devem ter, dentro de qualquer instituição que as mantenha em situação disciplinar.
Faz parte da mais consolidada memória humana a preservação da infância. Mesmo em um país escravista, como o Brasil, os escravos sempre lutaram para ter e criar filhos. Nossas escolas estão viradas em depósitos de menores e em seus “lares” as crianças padecem de inúmeros riscos de todo o tipo.  Cabe aos novos quilombolas do século XXI tecerem cantos, danças, revoltas e cenários de resistências dentro ou fora das prisões, em defesa dos menores de idade e dos menores de direitos, como as mulheres despossuídas, os negros pobres, os homossexuais abandonados à sorte vil, os indígenas expulsos de seu habitat.
Quem tem medo do congresso nacional brasileiro? Não os quilombolas. Esses têm a potência cravada na memória e Zumbi e Dandara a iluminar seus caminhos.
                                                                                              (primeira versão - sem revisão)


O feminismo é um indecidível


 


O trabalho produtivo e industrial se conecta, na forma de um indecidível (Derrida), uma razão dialética sem síntese, ao trabalho doméstico disciplinado, ao modo como o vivemos hoje em dia. Os dois são formas de traição e perversão da dignidade e saúde do corpo humano e dos corpos dos outros animais e dos vegetais e minerais, e da água é claro. O trabalho doméstico é feito com amor diminuído e subalterno à importância única e exclusiva do trabalho produtivo e de valor comercial: as mulheres tentam manter a sua e a dignidade dos seus familiares, mas fazem isso com boa dose de inveja, maldade, rancor e desligamento de ideias criativas sobre preservação e qualidade daquilo que fazem, ainda que façam tudo, há milênios, com todo o cuidado que lhes sobra, no seu pensamento reduzido à ausência de valores enunciáveis, mulheres emudecidas. À violência e brutalidade da indústria corresponde a repetição inglória do cuidado da vida no lar. O lar acaba sendo um lugar de menos-valia, reduzido à recuperação da força de trabalho industrial ou ao poder do comando industrial.

É nesse lugar doméstico estranho, privado e íntimo, mas também inglório (que não aparece de fato nas televisões, nem -realmente- nas redes sociais), lugar das brigas mesquinhas, repetitivas e inconclusas, nesse lugar das solidões sinceras, que vemos o sexo perder o sentido, a memória e envelhecer.

Não há como localizar o feminismo em algum, ou alguns grupos de pessoas livres desse enredo escravizador do duplo: trabalho industrial versus trabalho doméstico. Na sociedade capitalista, o feminismo só pode ser uma rebeldia exatamente nesses lugares onde os dois trabalhos, o doméstico e o industrial, são humilhados.

Não há feminismo em estado puro na sociedade capitalista. Todo feminismo é sempre um instante dentro de uma construção mais estável e patriarcal. O Patriarcado não é um poder referente aos homens como indivíduos, ele é um conjunto de formas e leis que produziram a divisão entre o trabalho industrial e o trabalho doméstico. Não há desconstrução do Patriarcado que deixe de desconstruir a totalidade do sistema que produz Capital em detrimento de uma vida boa e digna para todos os seres vivos e o seus ambientes. 
 Assim, o feminismo não é atributo de um ou mais grupos de seres individuais. Ele é sempre um fluxo que invade, alimenta e se esvai em direções inéditas, indecidíveis. Não há um discurso feminista pleno e estável. O Feminismo é um acontecimento mutante, inapreensível por qualquer discurso padrão. Feminismo é rebeldia e é anterior a qualquer linguagem.
Seria possível um movimento feminista que construísse a potência de uma revolução anticapitalista? Sim, na medida exata em que ele fosse capaz de propor-se a invadir todos os espaços do mundo dos trabalhos, doméstico e industrial. No momento em que ele fosse capaz disso já não seria mais um movimento feminista, seria algo sem nome. Não há nomes para uma nova civilização não capitalista. O nome sucede o acontecimento.

 

 

Histórias possíveis em processos judiciais da Justiça do Trabalho


Bricolagem, histórias possíveis e preservação de fontes primárias em processos judiciais trabalhistas – parte um           
                                                                                                                        Dinah Lemos

 

O texto que segue foi escrito a partir de uma bricolagem de recortes de um capítulo do livro de Carlo Ginzburg, os fios e os rastros, comentários meus e recortes de outros livros, como Memória e Arquivo, de Elisabeth Roudinesco. Sua primeira versão foi escrita para subsidiar as reflexões, debates e investigações dos alunos da Oficina de Avaliação Documental realizada no Tribunal Regional do Trabalho de Santa Catarina, no Arquivo Geral, em outubro de 2014. Trago aqui algumas ideias já bem amadurecidas em uma busca que se iniciou em 1987, quando fiz meu primeiro e discreto esforço para salvar processos judiciais trabalhistas da destruição total. No momento, estará sendo publicado em partes, em uma página de um grupo de servidores ligados ao Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Rio Grande do Sul.

 

 Parte um

 

“Em seu livro 'O Pensamento Selvagem' (1962, tradução para o português em 1976), o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss usou o termo bricolagem para descrever uma ação espontânea, além de estender o termo para incluir padrões característicos do pensamento mitológico, o qual não obedece ao rigor do pensamento científico. A razão é que, já que o pensamento mitológico é gerado pela imaginação humana, é baseado na experiência pessoal, sendo gerado pelo surgimento de coisas pre-existentes na mente do imaginador. Desse modo, a mitologia descreve o mundo através de narrativas. Num mundo onde há poucas ferramentas linguísticas, se faz necessária a utilização de metáforas e narrativas. Na falta de uma palavra para o "ato sexual", por exemplo, os gregos antigos precisaram lançar mão de toda uma história fantástica para enfim poder dizer ‘coisas de Afrodite’. (Wikipédia) “.

 

           “Quando Lévi-Strauss usa a imagem da bricolagem para distinguir o pensamento mítico do pensamento científico, mostra que o primeiro se apoia no signo e o segundo se vale dos conceitos, afirmando que o signo ‘pretende ser integralmente transparente à realidade, enquanto que o primeiro [a linguagem científica] aceita, e exige mesmo, que uma certa densidade de humanidade seja incorporada a essa realidade’ (1976). Observa ainda que as criações da bricolagem se reduzem sempre a um arranjo novo de elementos, já que novos universos nascem de seus fragmentos. Massimo Canevacci (1996), ao criticar a estreiteza do conceito de bricolagem de Lévi-Strauss, justamente nos permite alargá-lo, superando o pensamento estruturalista de lógicas opostas. Assim, pode-se até mesmo ressaltar que, na verdade, não se pode abrir mão do elemento lúdico que marca esse tipo de composição. Nesse sentido, vale ainda lembrar De Certeau, que, conforme observa Silviano Santiago (2000), ao falar de bricolagem, ‘desloca o eixo da produção de mercadorias’, para o da sua recepção, o consumo, evidenciando sobretudo ‘maneiras de lidar com’. Podemos, pois, nos perguntar se a casa/sociedade organizada pelo excluído, com sucata do consumo, se voltaria para um tipo de universo mítico, tradutor das relações sociais e políticas que lhe motivaram. Nesse sentido, confirma-se nossa ideia de tomá-las como alegorias cotidianas. Diz Lévi-Strauss: (...) a poesia da bricolage lhe vem, também, e sobretudo, de que não se limita a cumprir ou executar; ‘fala’, não somente com as coisas, (...), como também, por meio das coisas: contando, pelas escolhas que faz entre possibilidades limitadas, o caráter e a vida de seu autor. Sem jamais completar seu projeto, o bricoleur põe-lhe sempre algo de si mesmo (1976: 42)”. [De lixo e bricolagem, texto de Ivete Walty, professora da PUC de Minas]

           

            No método da bricolagem, a própria seleção de documentos para a preservação como fonte primária parte não de tipos antecipadamente definidos nos quais os documentos são abrigados, tais como setores da indústria e do comércio, gêneros, estados civis, nacionalidades, naturalidades, escolhas políticas ou religiosas, etnias, faixas etárias, posição de classe, mas inicia com a colagem em catálogos de palavras chaves selecionadas no próprio documento original. Isso quer dizer que não serão buscados enquadramentos das unidades documentais em padrões exteriores a elas, mas, ao contrário, elas abrigarão colagens de nomes próprios, autodefinições, estado civil declarado e enredos subjetivos de uma narrativa particular. Um exemplo: se partimos de um código genérico de “estado civil” podemos cair facilmente na cilada que esquece as caracterizações de “convivente”, “amasiado” e “desquitado”, presentes em processos judiciais das décadas anteriores à lei do divórcio, em centros urbanos e presentes até data muito recente em regiões mais próximas a tradições rurais. Se buscamos as classificações por origem étnica ou conflito de natureza étnica poderemos perder documentos nos quais há a presença importante de racismo ou preconceito sem que os envolvidos declarem abertamente suas condições de origem genética e cultural. A própria pessoa que faz a seleção, se for encaixar um documento em algum tipo de padrão poderá estar fazendo um julgamento redutor dos significados do texto examinado, abandonando informações que serão para sempre perdidas.

            Buscar a particularidade de um documento em uma série (os processos judiciais são uma série com n séries dentro de si) é esquecer de todas as séries a que ele poderia pertencer e fazer com que outras séries apareçam de dentro do documento, a partir do contexto imediato do conjunto textual em questão. As séries estão dentro do documento único e não o contrário, o documento ser encaixado em algum subgrupo de um conjunto.  E as séries vão aparecer, no documento único, em forma de bricolagem, pois a vida real no mundo globalizado costuma ter esse formato.

            Assim, quando os documentos forem buscados e encontrados pelo pesquisador, pelo cientista, serão fonte primária para narrativas específicas e diferenciadas, histórias únicas contadas em cada monografia sobre um município, ou sobre pessoas de um local, diferentes não só no objeto analisado mas também no foco e no estilo de quem conta. E de munícipio para município, estado da federação para outro estado, será sempre um conjunto de histórias diferentes. Não obstante, todas acabarão pertencendo a uma mesma Era na história do país e do mundo e serão abraçadas por semelhanças exatas e descritíveis. Assim, a “contação” de histórias a partir de olhares sobre singularidades, quanto mais disseminada, mais proteção de direitos de personalidade poderá incentivar. O que não impede que os catálogos possam ser examinados visando o enquadramento em séries de processos segundo tipos, conforme uma caraterística desejada esteja presente em um processo. O método de catalogação de baixo para cima, em bricolagens, permite a ampliação de possibilidades em termo de escolhas historiográficas.

            Selecionar como objeto de investigação aquilo que é mais dramático, cômico, trágico, aterrorizante; o fato que revela um grande tema mundial de época manifesto em um caso singular em um município (ex: o cargo de degolador islâmico em um processo de Santa Catarina); aquilo que parece sonho ou arquétipo (crimes, lendas e tipos humanos investigados pela psicologia, psiquiatria e antropologia); aquilo que se impõe como fantástico ou mágico, às vezes a partir de uma frase perdida no meio de um documento: (ex: “ele matou o cachorro que eu gostava na minha frente e fez eu enterrar; e ele me disse que catarina tem que ser escravo de gaúcho”).

 

            O método da bricolagem permite o estudo das emergências, dos acontecimentos em forma embrionária, no momento em que eles ainda não conquistaram visibilidade na História. E essas emergências são as origens das Fontes Materiais do Direito.