Cartas abertas à esquerda gaúcha


Joguei as cartas do Tarô, à minha modesta maneira. Eu jogo três cartas, a primeira é o problema, a segunda é a solução, a terceira é o caminho. Desta vez deu, nessa ordem: o louco, a força e a morte. Resumindo ao máximo: o problema é o caos atual no mundo, a solução é um novo ordenamento e o caminho é a total e radical transformação das mentalidades. Disso derivou o texto abaixo, dedicado aos meus companheiros mais sofridos de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, na véspera do Natal. Escrevi num impulso, peço perdão pelas falhas, revisarei depois de amadurecer a reflexão.

A tese de que o Psol cravou uma alavanca (impulsionando o MBL) em 2013 para derrubar Dilma e o PT é trágica, porque orienta as lideranças intermediárias do PT a buscar culpados dentro do campo da esquerda. Essa tese foi inventada para combater movimentos sociais dissidentes e para alavancar uma disputa eleitoral dentro do campo da esquerda, tanto para eleições do executivo e legislativo, quanto para eleições internas aos partidos e relacionadas a disputas de direções sindicais e de diferentes movimentos sociais. Essa tese iniciava no pressuposto de que a direção do PT tinha o controle eficiente da frente com o PMDB, no controle do governo federal, e que esse controle levaria o PT até às eleições de 2018, onde o inimigo seria o PSDB. Dentro dessa tese está a compreensão de que toda a revolução da informática, que acabaria por inaugurar um novo modo de produção do ordenamento social e da vida cultural no planeta inteiro, essa revolução toda era NEUTRA, era apenas tecnologia eficiente, e que esse novo modo de produção seria NEUTRO em relação ao ordenamento jurídico e politico das nações, bastaria gerenciar todo o acontecimento de um modo reparador dos danos causados pelo capitalismo aos subalternos. E a direção do Psol pensava da mesma maneira, pois era conivente com a mesma tese, mas em sua contrapartida de oposição, de que a revolução da informática era neutra e a direção do PT conduzia seu gerenciamento de um modo deformado, ineficiente. O fenômeno que derrubou o PT de uma maneira insurrecional (um golpe unindo forças de junção inconsistente e utilizando meios de natureza extralegal) não era originário em desenhos partidários formais brasileiros, era um fenômeno mundial e nascido da necessidade ORGÂNICA das FORÇAS PRODUTIVAS que pediam um novo MODO DE PRODUÇÃO DA VIDA HUMANA, ANIMAL E VEGETAL. E o que alavancava essa necessidade, o que engravidava o Planeta de uma urgência, era a parte -dentro das forças produtivas- que equivalia ao conteúdo tecnológico, as máquinas, os saberes cibernéticos. Nem o PT e nem o Psol, em suas direções, sabiam disso. E isso é um pensamento fundado por Karl Marx, e de fácil aplicação. Por que não conseguiram ver? Por que não viam (e ainda não veem) a cibernética como uma produção de máquinas, viam-na como uma beleza estranha, uma novidade adorável, uma sereia inevitável.
E o que impede os dirigentes do PT e do Psol de fazerem essa auto-crítica? Um transtorno coletivo de natureza psicológica, derivado da crença CRISTÃ (predominante no PT e influente no Psol) de que não ver o DIABO e pactuar com ele seria um pecado capital. É essa ideia cristã de origem PATRIARCAL que sustenta a compreensão de que o LÍDER tem que ver toda a verdade e se não o fizer tem que ser sacrificado. Na origem PATRIARCAL dessa ideia acoplada ao mito cristão está a lógica do MACHO ALFA, o que comanda o rebanho, o que deve subjugar os machos mais fracos e todas as fêmeas, pela força (que foi sempre o valor predominante como inteligência durante toda a história da humanidade até o século XV, quando começa a fragilizar) e, se não o fizer, será deposto  e, importante, ABANDONADO à morte. Esse mito cristão do MACHO VENCEDOR IMUNE AO PECADO ordena toda a ética das nações ocidentais do mundo humano, ele produziu a genética original da esquerda tradicional, a que existiu até meados do início do século XXI.
Assim, para sair de dentro desse luto transtornado, a parte ainda vital da esquerda brasileira precisa relembrar-se do que ocorreu com os negros africanos por ocasião da chegada dos espanhóis e portugueses na África, quando as tribos dominantes vendiam aos colonizadores e escravocratas os prisioneiros capturados das tribos vencidas; precisam relembrar-se do que ocorreu com os indígenas das Américas pré-colombianas (Chile, Peru, Bolívia, Venezuela), quando os espanhóis foram entendidos como “deuses aportados nas praias” e reverenciados. A parte sobrevivente da esquerda brasileira, a composta por pessoas que ainda não têm seu conteúdo emocional afundado numa trama de dor irreversível, precisa – URGENTEMENTE- romper com essa mitologia machista, patriarcal, arquetípica, do MACHO VENCEDOR IMUNE, para que possa se perdoar, perdoar seus líderes e acolhe-los como membros participantes da comunidade, ainda que depostos como dirigentes. Precisamos que a esquerda sobrevivente rompa com o mito do pecado original, de que a pena – aos que erram – é o martírio, a tortura, o degredo, a crucificação. E eu estou falando aqui sobre – e contra – o DIREITO PENAL inscrito nas lógicas do DIREITO COSTUMEIRO, direito vivido.
 Eu falo contra o martírio. Será preciso que todos os crentes que amam a vida e a humanidade, que professam a fé na compaixão, na fraternidade, na liberdade e na dignidade humanas, realizem em suas mentes o entendimento de que  SE JESUS DEVESSE VOLTAR, SE ESSE FEITO DEVESSE SE REALIZAR SÓ PODERIA NASCER DA NECESSIDADE DE QUE TODOS OS HOMENS E TODAS AS MULHERES DESCESSEM DE TODAS AS CRUCIFICAÇÕES, na condição de “Jesuses e Jesusas” (reencarnados)  E VIVESSEM UM INAUGURAL E DIVINO PERDÃO. O mundo humano não carece de um único Jesus, a eficiência divina só poderia brotar de uma gigantesca multidão abençoada como possuidora de Deus dentro de si, como sendo o próprio Deus.

Parem de brigar entre amigos, meus companheiros, pelo amor dos deuses de cada um. Pelos Jesuses e Jesusas que estão sendo crucificados na atualidade. Comunguem em compaixão.

A Verdade é a nossa única arma


                Qorpo Santo foi o codinome - nome de guerra - que um gaúcho considerado louco se deu, lá por 1865, época em que escreveu várias peças de teatro vindo a se tornar, cem anos depois, um dos ícones do teatro nonsense brasileiro. Lembrei-me dele quando comecei a investigar sobre a hipótese de que o que se abate sobre os brasileiros nada mais é do que um processo em parte planejado e em parte fruto de uma configuração relativamente autônoma das dinâmicas de nosso tempo de declínio de uma civilização chamada de “moderna”. Autônoma no sentido de ser resultado de uma configuração complexa e global de memórias em desabamento. Planejado no sentido de ser um novo tipo de guerra, consequência do que chamaram de globalização, mundial portanto.

   Da wikipédia: "Gaslighting ou gas-lighting é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima.
           O termo deve a sua origem à peça teatral Gas Light e às suas adaptações para o cinema, quando então a palavra popularizou-se. O termo também tem sido utilizado na literatura clínica".


                                De certo modo, todo esse processo engendrado pela articulação do modo de gestão da "sociedade do espetáculo e das multidões", como um projeto de Guerra Mundial contra os "matáveis", os "humanos descartáveis", se utiliza de instrumentos que podemos verificar nos estudos sobre esse modo de assédio moral que a wikipédia apresentou acima. O modo como a repressão avança no Brasil tem essa matriz: ela anuncia os dissidentes, a oposição, como loucos, inadequados, retiráveis de cena. Do mesmo modo os escravos foram retirados de seus cenários na África, no início do escravismo brasileiro moderno. E eles só conseguiram resistir em Quilombos que nada mais eram do que criação de território real e simbólico. A maioria dos escravos que conseguiram reduzir os danos, ganhando qualidade de vida em meio ao sistema escravocrata, o fez aderindo ao branqueamento, que eram estratégias perversas de esquecimento da africanidade e de adoção de memórias elitistas, autoritárias, formadoras futuras de uma determinada "classe média" autoritária e transtornada, paranoica e estúpida, com a qual convivemos até hoje. 

                                    Entendo que o que sofremos hoje, no Brasil, não é uma ditadura, embora a gente possa xingar e chorar usando esse termo, não faz mal. Estamos sofrendo mesmo. Mas uma ditadura é um conjunto orgânico mais lento. Brincando um pouco: uma ditadura é um "troço" que é para ser um dinossauro, ela é um acontecimento de tipo "nacional" e ela acontece em países considerados inferiores, do ponto de vista da civilização moderna (que hoje desaba): latino-americanos, ou de predominância cultural dentro do espectro muçulmano, ou Islâmico, ou oriental (a grosso modo porque isso é infinitamente complicado). Mas como isso (que nos humilha tanto e impõe a nós a risada assustadora de verde-amarelos loucos e idiotizados) é uma guerra, isso é feito ao mesmo tempo em países de ponta da civilização moderna (França, Grécia, digamos a Europa inteira, quase), claro que em desenhos diferentes. Isso pode ter vários episódios assustadores para logo, logo se abrir em uma festa participativa e "democrática", claro, conduzida pelo reino da grande mídia. Uma guerra tem exércitos diferentes e tem trincheiras, que podem ser móveis. Uma guerra tem alvos imediatos e secundários, e obedece lógicas militares, de ocupação, de destruição das defesas inimigas. Isso que sofremos não é um regime, isso não é um acontecimento econômico explicável por planilhas de gastos, custos e produtividades. Hoje a Rede Globo só fala sobre Cuba, de um modo idêntico a uma ditadura, construindo uma imagem com se Fidel e Mussolini ou Franco fossem uma única e mesma alma, contorcendo-se para fazer isso, durante o dia inteiro. E toda a esquerda mundial dobra-se em reverência apaixonadas por aquele povo, daquela pequenina ilha, que se afirma (negramente) socialista. E a Globo precisou deixar um documentário mostrar um jovem cubano dizendo: "Não, não um novo socialismo. O mesmo socialismo. Seguiremos socialistas". 
                                    Quando uma guerra termina? Quando o exército vencedor aceita parar de atacar e aceita fazer um acordo de gerenciamento do conjunto do poder sobre as sociedades envolvidas. Precisamos entender o que o conjunto das famílias que sustentam o tal G8 têm em mente. Onde eles pretendem chegar? Qual é o projeto deles para os próximos 50 anos (de redução populacional no mundo, por exemplo, ou de construção de um mundo jurídico para duas espécies humanas distintas). Não basta colocar a juventude na linha vermelha. A julgar pela dinâmica da primeira guerra mundial, onde as trincheiras eram matadouros permanentes, os jovens acabarão desistindo. Precisamos visualizar com nitidez o inimigo. E se essa guerra é apoiada em estratégias de gaslighting (enlouquecimento do cenário, do real) então precisamos imbuir-nos de espíritos de Qorpo Santo e precisamos construir territórios simbólicos imunes - quilombos emocionais e filosóficos - onde a resistência possa, como dantes, falar a verdade, sinceramente. Falar, por exemplo, que o Fidel Castro perdeu a voz ao microfone ao anunciar as nacionalizações e estatizações de grandes empresas estrangeiras, no início da revolução cubana vitoriosa, porque a grandeza de um país soberano foi grande demais para a garganta dele e seu frágil corpo humano, naquele infinito e eterno momento histórico. Um país soberano, ah, ah, diria Qorpo Santo, ah,ah,ah!!!

DEBATE – SOBRE EUTANÁSIA – Paulo César Teixeira, Dinah Lemos, Nico Sales e Arlete Cunha


 “Holanda cogita autorizar suicídio assistido a quem ‘cansou de viver’. Proposta do governo contempla ajuda para a morte de pessoas que acham já ter vivido o suficiente, apesar de não estarem doentes, nem enfrentarem sofrimentos”. Essa é a manchete e a abertura de um artigo no site brasil.elpais.com e a matéria foi escrita por Isabel Ferrer. Postada no facebook pelo escritor e jornalista gaúcho (brasileiro) Paulo César Teixeira, conhecido como Foguinho, gerou um debate reproduzido aqui, em formato editado pelos participantes. Direito, inovação ética? Cruel abandono?
Paulo César Teixeira -  Reconheço que é uma questão complexa, que abala profundamente estruturas culturais e religiosas, mas também tendo a aceitar como uma escolha irremovível do indivíduo. Não é na Holanda que os templos estão sendo substituídos por livrarias, por falta de crentes? Não deve ser por acaso. Soube também que em outro país avançado nestas questões culturais - o Canadá -, a legislação passou a respeitar o costume de tribos indígenas de o filho abandonar o pai, já ancião, nas geleiras do norte, para que ele aguarde a chegada da morte. Penso que segue, de algum modo, uma trilha paralela. Lembro de um professor de Antropologia canadense comentar isso quando fiz filosofia na UFRGS nos anos 80. Há também relatos parecidos em comunidades do Japão. Curioso, não? Diferentes geografias, costumes alinhados.
Dinah Lemos  -  Um grande tema aqui. Eu não abro mão, não consigo pensar de outra maneira a não ser que não posso abrir mão da referência fundamental de que um ser humano vivo deve usufruir do direito de amar a vida e se entender com ela, com angústias e medos, mas com histórias vividas sobre isso, e superações, até a hora em que seja levado pela morte. A morte como um lugar dentro do território sagrado, onde não devemos querer entrar. Sim, a passagem, o momento admite a intervenção humana para a possibilidade de uma morte sem dor. Por outro lado, claro que uma pessoa que tenha seu "território simbólico" totalmente desaparecido deveria ter a possibilidade de morrer, mas, eu sempre pensaria em vê-la encontrar novos espaços, novos encontros, ainda que em um lugar estranho. Acho que uma pessoa levada para dentro de um "centro de encontro de velhos solitários" poderia ter bons momentos com outros solitários. Mas não um asilo depressivo.  É claro que se o território onde a pessoa solitária está é ruim, frio, desagradável, e se essa pessoa tiver 80 anos ou mais, ela poderá vir a desejar a interrupção de sua vida. Mas os esquimós e outras nações antigas tinham que lidar com a perda de saúde dos velhos e o medo das doenças da velhice e das mortes terríveis. Era de se esperar que houvesse uma tradição assim, deles buscarem eutanásias que os protegessem dessas doenças terminais da velhice. Mas hoje o mundo é outro, a medicina é outra. Não dá pra buscar exemplos da antiguidade e aplica-los em um território tecnológico e simbólico totalmente distinto. Eu não falo no direito sobre o próprio corpo, eu falo sobre o direito a ter oferecido para si e pela coletividade afeto, qualidade de vida, solidariedade, ternura, vontade de viver. Ora, se há um sentimento de abandono e a vontade de morrer para evitar a solidão, eu penso que há algo muito errado e cruel na coletividade, e isso deveria ser arrumado, antes de naturalizar a morte de velhos deprimidos. Mais um indicador da minha opinião: prefigurações de um novo direito, no qual a perda da qualidade de vida passaria a ser um acontecimento natural a produzir um inédito direito à morte. Noções de administração dos fetos e dos velhos antes da morte. A morte e o nascimento como acontecimentos agora fabricados, disciplinados, controlados por um sistema higienizador das regularidades humanas.
Paulo César Teixeira  - Como falei antes, Dinah, respeito a complexidade do tema, antes de tudo. Mas não me sinto capacitado a analisar culturas tão distintas apenas pelo viés tecnológico. Também não creio em evolução histórica, no sentido de que os tempos atuais são necessariamente melhores em comparação com os anteriores. Essa racionalidade me escapa. Por fim, também não creio que as soluções buscadas pela coletividade irão solucionar todos os impulsos e mistérios do ser humano. Em resumo, estou bem longe de concordar contigo.
Dinah Lemos - Entendo o que você fala e acho também que tem cabimento em nosso mundo. Também não quero dizer que, em nome de um suposto "direito à vida" abstrato, uma pessoa velha em agudo sofrimento psíquico de solidão não possa ficar tomando calmantes fortes até seu coração parar enquanto ela está dormindo. Aceito sua opinião, apenas, como historiadora, tenho a tendência a ler o processo histórico. Foi isso que tentei fazer. Mas é um grande debate...
Paulo César Teixeira - Não concordei com o modo apressado com que você fez a leitura do costume das outras civilizações. Você as leu pela ótica e racionalidade de nossa cultura, o que considero um erro crasso, que, no entanto, é bastante comum em nosso meio. Mas estamos sempre juntos.
Dinah - Bom, eu digitei uma resposta ligeira, Foguinho. Não é minha intenção resumir o olhar a um filtro apenas. Registrei um significado que acredito estar lá, naquele acontecimento e que não estaria aqui, não obstante acabe sempre estando, uma vez que os velhos pobres morrem sofrendo muito e que os mais pobres sofrem desde os 40 anos, com as perdas dos dentes e muitos sofrimentos. Eu vejo isso aqui onde vivo. Então eu não fiz a leitura de toda a riqueza de conteúdos daquelas culturas, apenas fiz um registro que se colava na minha subjetividade sobre o tema. Acho até que esse tipo de eutanásia desvelaria a má qualidade de vida de muitos, nesse século vinte e um terrível, eu não sou contra a sua reflexão, pensando bem. Aceito a ideia em debate, sobre a lei que permite, mas defenderia que as pessoas fossem estimuladas a tentar viver ainda e buscar algo novo, ainda.
Paulo César Teixeira -  O que mais me atrai nesse tema _ e me levou a compartilhar o post _ não é qual a melhor lei, a melhor política social a ser aplicada, e sim o quanto uma iniciativa dessas, tomada por um governo constituído, estremece as profundezas de nossas crenças e certezas mais arraigadas. Entende? Não estou em busca de uma resposta. O abalo que a discussão provoca me satisfaz, e é ele que vai abrir caminho para futuras respostas.
Dinah Lemos  - Sem dúvida. Aliás, estão entrando falas mais "vivas" e deixando de ter sentido as falas de propaganda de um conceito simples. Há algo novo acontecendo, tá na cara...
Arlete Cunha  -É uma grande discussão! Deixo aqui uma HildaHilst: "Os cascos enfaixados para que eu não ouça o teu duro trote? É assim, cavalinha, que me virás buscar? Ou porque te pensei severa e silenciosa, virás criança num estilhaço de louças? Amante, porque te desprezei? Ou com ares de rei, porque te fiz rainha!"
Paulo César Teixeira  - Que ótimo!
Nico Sales  -Existe também a motivação econômica de um país (e um continente) com uma população cada vez mais idosa e longeva. De certa forma essa proposta "dá conta" disso e todos os gastos públicos com esse contigente crescente de pessoas..
Paulo César Teixeira - Gente, a proposta não é de extermínio em massa de velhos. Pelo que entendi - e não estou defendendo a proposta, apenas gosto do debate que ela provoca -, é uma brecha na legislação para que seja possível o "suicídio assistido" em casos rigorosamente excepcionais, em que a pessoa não deseja mais viver, ainda que não esteja doente ou com dores insuportáveis. A bem dizer, é uma eutanásia da alma. Não creio que possa ter qualquer impacto minimamente significativo nos custos econômicos com a população idosa.
Nico Sales - Mas não parece arbitrária a limitação etária? A mim parece, e por isso vejo pelo viés da economia...
Dinah Lemos - Adolescente se matando já tem muito, os índices de servidores públicos também estão aumentando no mundo inteiro. Há uma diferença entre suicídio e a tal de eutanásia, ou algo do gênero. O suicídio não precisa de permissão. Ele ocorre. E de várias maneiras. Esse acontecimento é uma morte induzida por medicação, algo não traumático e indolor. E sem culpa de ninguém. Então, é realmente em uma situação de dor emocional crônica, grave e sem recuperação e precisaria de uma junta médica... Precisaria de um entendimento, um laudo, psiquiátrico de que o sujeito esta em pleno gozo de sua capacidade de escolha, de que ele está convencido de que sua dor emocional não tem cura (que conversa, eu vi algo parecido no diretório nacional do PT, em 1986, quando as feministas levaram a bandeira do aborto e alguns dirigentes mais jovens se botaram a comparar com esse debate, sobre a autanásia. Conversas sobre limites da vida. Na época, eu fiquei furiosa e decepcionada. Pensava eu que eles estavam atrapalhando ao “aumentar o tamanho do conjunto temático”).
Nico Sales - Pois é. Mas acho interessante de qualquer forma a discussão também. Li algumas opiniões sobre essa notícia e fiquei me perguntando, nessa mudança de paradigma sobre a morte e a relação disso com o Estado: suicídio assistido é mais autonomia ou mais regulação?
Dinah Lemos - Aí entra o que o Foguinho colocou em debate. O suicídio, creio eu, ocorre, ponto. A palavra carrega um tabu e uma natureza paradigmática. O que o Paulo César Teixeira colocou em análise, creio, foi algo dentro da seguinte dimensão: o sujeito é mais velho e infeliz de um modo crônico. Bom, se o Estado regula isso (sim, é mais regulação estatal), então a figura da pessoa cronicamente infeliz, de um modo devastador, ganha o direito (isso é filosofia do direito) a sair de cena com o apoio da sociedade civil e de sua Cultura (coloco em maiúsculo para diferenciar do significado mais diminuto, de um conhecimento adquirido ou de memórias étnicas. Falo de um conjunto paradigmático presente no senso comum). Entra aí um conteúdo cultural que é totalmente distinto do que o cristianismo instalou no mundo desde dois mil anos. A vida passa a não ser apenas 'vida nua" (Agamben), ela se torna um acontecimento político mais complexo e o Estado poderá favorecer, em sua regulação jurídica, outros quadros de final da vida e começo da morte.
Nico Sales -  Sim.. a minha dúvida é qual o embasamento filosófico que limita essa assistência à terceira idade. Não porque me interessa que haja uma ampliação da lei, que nem sei se concordo, mas porque não vejo justificativa que não me faça ver a limitação como uma hipocrisia e como uma medida de alívio dos gastos públicos.
Paulo César Teixeira  - Sob esse ponto de vista, estou inteiramente de acordo com a perspectiva que o Nico abre para a discussão, muito mais abrangente em comparação ao ângulo meramente econômico. Não bastasse regular todos os aspectos da vida, o estado também se julga capaz de regular a morte do indivíduo. Muito Foucault isso, hein?
Nico Sales -  Pois é. Tensionei a questão da idade para pensar a base ética da proposta e suas ressalvas (e o que isso revela de interesses nela contidos), não por acreditar que a lei deva ser ampliada. Até porque nisso tudo me parece que há mais uma nova tecnologia de controle em curso do que qualquer outra coisa... Por que não interessa ao estado investir em meios que dêem conta de valorizar a vida desses que agora ele "autoriza" a morrer? De qualquer forma o debate tem mil nuances que infelizmente é difícil de dar conta por aqui :/
Dinah Lemos  - Não precisamos ‘dar conta’, só levantar problemas. Estamos em um momento civilizacional, de passagem de um modo de vida a outro, em que os centros de pesquisa estão começando a fabricar seres humanos. O primeiro feto com material genético de três pessoas foi produzido no México. As elites tecnológicas vão produzir seres humanos. Então o início da vida está deixando de ser natural. Teremos, por óbvio, o debate sobre o fim da vida. Mas eu acho que o direito de morrer não reduz o direito de viver do sujeito velho. O indivíduo velho não vai morrer sem ter certeza, em caso de escolha. Ou então estaremos supondo que esse indivíduo não tem mais capacidade de decidir, digamos assim, que ele seria uma espécie de ‘menor incapaz’.  Começamos a ver pessoas viverem mais de cem anos e fora de uma comunidade que dá valor a essa longevidade. Há tecnologia para prolongar a vida, mas a sociedade estimula uma Cultura na qual o jovem, o novo, a inovação é o mais inteligente, lúcido e desejável. O velho longevo vira plateia de um mundo que não é mais seu. Acho um debate pertinente.
Paulo César Teixeira -  Sei que essa conversa já foi longe demais, mas gostaria de acrescentar algo sobre o tal "romantismo mórbido" ao qual me referi antes. Recordo que, em minha juventude, no final dos anos 70, havia casos recorrentes de jovens que se matavam, pelo menos nos círculos sociais que eu frequentava. Ou se jogavam do alto de um prédio na Borges de Medeiros, ou fechavam portas e janelas e abriam o gás da cozinha, por aí vai. Certamente, para tal frequência de casos de suicidas entre a juventude da época, que - pelos relatos que dispomos - não se restringiu a Porto Alegre ou ao Brasil, foi um fenômeno aparentemente bem mais amplo, contribuía o ambiente de desolação e falta de perspectivas da época, assim como o abuso do consumo de "drogas". De qualquer modo, este é um assunto que, até hoje, não vi ser analisado em profundidade, talvez porque a morte e o suicídio, em particular, sejam temas ainda desconfortáveis para nós. A propósito, abaixo transcrevo um trecho que fala exatamente sobre isso, do Esquina Maldita:
“O fascínio da humanidade pela ideia do suicídio sempre existiu, mas em alguns períodos pareceu ganhar maior amplitude, como na parte final do XVIII. José Antônio Silva chama atenção para o fato de que, de acordo com relatos históricos, consta ter havido nesse período uma onda de suicídios na Europa supostamente motivada pela publicação, em 1774, de Os sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe – obra que narra os extremos de uma paixão cujo limite é a própria morte. Em certa medida, o fenômeno talvez tenha se repetido na década de 1970.
Sem dúvida, um dos componentes trágicos dos anos 1970 é o saldo de jovens que enlouqueceram ou cometeram suicídio. As drogas, certamente, contribuíram muito com esse processo. “Perdi amigos que nunca mais voltaram”, relata José Antônio, usando a gíria da época. O poeta e compositor piauiense Torquato Neto, um dos idealizadores do Tropicalismo, por exemplo, se matou em 1972, um dia após completar 28 anos. “A paisagem não sustenta o teu lirismo”, escreveu ele. No meio underground, o exemplo do tropicalista se tornou emblemático. “Era comum ouvir alguém citando Torquato no Alaska”, recorda José Antônio.(...)

Em busca de explicações para a onda de loucura e suicídios que se abateu sobre a juventude ao longo da década de 1970, Giba Rocha lembrou uma entrevista que realizou como repórter da Folha da Manhã com o cantor Gilberto Gil. Em certo momento da conversa, o artista baiano contou que Caetano Veloso (amigo e parceiro da Tropicália) mal conseguiu balbuciar uma palavra quando experimentou pela primeira e única vez a maconha, de tão impactado que ficou com os efeitos da erva. “Esse exemplo me vem à mente quando percebo que pessoas com uma percepção de vida muito aguçada nem deveriam se drogar. Muitos dos que piraram ou se mataram nos anos 1970 tinham uma hipersensibilidade por natureza, que foi levada ao limite pelo uso de drogas. Provavelmente tenham sido vítimas de uma overdose de sensibilidade.”

Debate Paulo Torelly e Dinah Lemos - sobre o tamanho do mal




Paulo Torelly - Olá, Dinah Lemos: não estava em POA no final de semana e acabei não te respondendo antes, pelo que me desculpo. Não alimento nenhuma teoria da conspiração ao ponto de acreditar em algo pensado nos detalhes, mas concordo contigo que os retrocessos de hoje decorrem de uma concepção autocrática de mundo e de sociedade dos segmentos dirigentes e hoje golpistas, o que sempre existiu e ganha força na atual conjuntura. Há muito defendo ser imprescindível a democratização das entidades da sociedade civil para podermos constituir uma cultura de respeito do ser humano pelo ser humano. Mas é inegável a gravidade e o impacto da notícia aqui compartilhada diante deste agora assumido desprezo pelos princípios do direito. O fato é que os modelos totalitários de governo se colocaram e ainda se colocam – para todas as ideologias – como uma das hipóteses possíveis de gestão estatal na modernidade. Não podemos esquecer que em abril de 1964 nem mesmo os maiores golpistas podiam imaginar – mesmo que desejassem – os desdobramentos que culminaram com o AI-5 em dezembro de 1968. Lembro de Octavio Ianni, amigo de FHC e grande crítico de todos os seus governos: “O macartismo, o reganismo e o thatcherismo sugerem que mesmo em regimes liberais-democratas podem ocorrer surtos autoritários, com ingredientes fascistas. Aliás, seria ilusório esquecer que alguns ingredientes da cultura nazi-fascista germinam todo o tempo, contínua ou ciclicamente, no bojo da sociedade burguesa.” (IANNI, Octavio. 'A sociedade global.' 9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 28-29.). O que também faz lembrar o alerta de Zygmunt Bauman e de todos os críticos do nazi-fascismo: “A resistência em aceitar a lição do Holocausto manifesta-se primariamente nas múltiplas tentativas de exorcizar ou marginalizar o Holocausto como um episódio histórico único” (BAUMAN, Zygmunt. 'Modernidade e ambivalência. Trad. Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p. 27.). GOLPE É GOLPE! Fiquemos atentos!!!

Dinah Lemos - Obrigada pelo comentário. Muito bom, mas acho que mistura uma análise correta e densa com uma abordagem de que seria uma espécie de repetição formal cíclica de um monstro da maldade, uma violência em excesso produzida pelos sistemas de dominação de elites humanas, em tempos diferentes. E que poderíamos perceber esses momentos e reagir para garantir um status quo anterior a isso, um estado de menor incidência dessa mesma maldade, uma incidência em patamares suportáveis. Eu acho essa lógica, própria da socialdemocracia, ineficiente, inválida, porque ela não observa um processo que é histórico e que eu vou marcar a partir de 1500, com o renascimento e as grandes navegações posteriores aos séculos XII ao XIV. Esse processo, segundo Einstein, vai bater em um muro no que diz respeito ao 'progresso tecnológico". Eu entendo que esse muro está visível já e que as elites capitalistas estão tomando as rédeas para executar uma 'solução final' muito, mas muito mais definidora do modo de produção da vida no planeta do que os delírios vorazes do nazismo. Então, não lidamos com um excesso a ser contido por uma socialdemocracia conhecida. Precisamos de uma nova construção epistemológica. Precisamos pensar mais, mais corajosamente, escrever mais audaciosamente, de um modo investigativo, e sair do conforto simbólico de um passado que não voltará.

Espelho, espelho meu: o PT morreu?




A lógica "farsa ou tragédia", para resgatar um tipo de olhar sobre a situação política brasileira atual, não consegue dar conta dos cenários visíveis. Há uma complexidade inaugural a transformar parte do cenário em piada e outra parte em uma ponta do Iceberg de uma guerra sanguinária. A parte piada ganha sua síntese na figura do presidente Temer, um homem perfeito para a enxurrada de caricaturas e colagens em postagens nas redes sociais. Mas seguem a esta figura tão idêntica à personagem de comédia de vampiros, ou de filmes antigos sobre o Drácula – um paradigma da solidão -, seguem um cortejo de ironias grosseiras ou refinadas a atravessarem imagens de vários políticos e políticas sobre os quais não falarei agora, até porque os assuntos “mulheres” e “feminismo” estão inseridos na parte trágica do acontecimento. Não obstante todos os ridículos que se possa elencar, de roupas, passando por cirurgias plásticas, continuando por histerias e chegando em mitologias da gueixa assustadoramente renovadas e ocidentalizadas. Deixemos o gênero descansar de todas as violações recentes.
Há muitos perguntando se o PT está morto, se ele vai desaparecer nas sombras da insignificância ou mesmo se até a sigla corre o risco de sumir. Esse é um dos assuntos mais difíceis de tratar se a intenção for superar os problemas e desafios surgidos na era Lulalá e Dilma coração valente.  Li um comentário interessante no facebook, na TL de uma moça, a Niara de Oliveira, onde ela diz que a indignação dos petistas mais parece cenas dos filmes daquele grupo de comediantes, o Monty Python, porque "sabe aquela história de quem se acha muito esperto e acaba ficando arrogante ao ponto de ficar burro? é o retrato do petê. foi jogando, dominando tudo, armando jogada-batendo escanteio-defendendo-fazendo gol e ainda correndo pra arquibancada comemorar, e acabou se achando imbatível. alguém foi observando os furos, os fios soltos e costurando um outro tapete... quando estava pronto, puxou. só faltou ouvirmos o ‘até tu, brutus?’ no desfecho final". Um comentário delicioso para quem tem sido oposição à esquerda desde o primeiro mandato do Lula, mas ainda impreciso porque permanece a pergunta sobre o que virá depois do Temer, já que a palavra “fora” está colando como o velho e bom ‘araldite’ no nome desse senhor. Eu já disse o que já foi dito por discursos visíveis que para encontrar respostas certas é preciso fazer perguntas certas. A minha pergunta então seria: como construir uma alternativa à nova hegemonia capitalista, no Brasil e no mundo, hegemonia esta que aponta para uma guerra genocida e sanguinária contra os subordinados descartáveis? Ou seja, ainda que toda a população odeie as elites escravocratas, coronelistas, injustas, cruéis, como diria o personagem infantil, o Chaves, “quem poderá nos defender”? Penso que:
 O Brasil é um país que tem suas narrativas visíveis construídas por, grosso modo, dois tipos de elites: as 'escravocratas' e as 'abolicionistas'. Para os cientistas, vou dizer que ambas as palavras eu utilizo em um esquema que é movido livremente entre o tipo ideal weberiano e o caleidoscópio deleuziano (Gilles Deleuze) das 'máquinas', dos 'fluxos', das 'séries' e dos devires. Então isso aí são palavras circo, encenações, mas são palavras projetos, ideias. E estão postas em uma cena sadomasoquista, ou se preferirem, em um tipo de cenário bipolar (tá na moda e todo mundo mais ou menos entende). Essa bipolaridade foi construída em trezentos anos de escravismo formal e o antropólogo Ricardo Benzaquen de Araújo intui muito bem o que eu vou chamar de “transtorno psicológico coletivo na formação da nação brasileira” (essa ideia é minha, o Ricardo prepara as bases para ela no livro Guerra e Paz – Casa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre, mas não a desenvolve), quando afirma que temos uma sociedade se movendo equilibradamente em um hibridismo entre violência e confraternização. A palavra 'hibridismo' tem a ver com perversidade, falta de regras, distorção, mistura, meleca, falsidade, simulacro, desordem. Pois bem, esse equilíbrio é sempre tenso, dilacerante e dilacerado e, importantíssimo, não é dialético, ele não gera mudanças em novas situações-síntese. É como se a história do Brasil transcorresse em dois movimentos, um no tempo linear e evolutivo onde os acontecimentos capitalistas se desenvolvem (colônia, império, exportação, escravismo, república velha, abolição, 1930-Vargas, ditadura, desenvolvimentismo, exército, estado nacional, populismo, ditadura militar, etc) e outro movimento, no tempo cíclico, de repetições traumáticas, sempre referenciado na lógica da bipolaridade entre escravocratas e abolicionistas. Esta lógica é cultural, especificamente brasileira e funda a Nação, ela é linguagem, relações sociais. Dessa lógica deriva uma espécie de esquizofrenia da discursividade – ou narrativas - permitida para ser visível, que são os discursos produzidos pelas elites econômicas, políticas e intelectuais. O hibridismo estudado por Ricardo Benzaquen se multiplica em espelhos, na minha análise, em uma espécie de cacofonia gerada pela sobreposição dos movimentos reais do desenvolvimento do capitalismo em um país como o Brasil e as narrativas sincréticas das elites escravocratas e abolicionistas. Resumindo, para entrar no estilo conciso e claro da Niara de Oliveira, a moça do comentário feliz no facebook, eles não são mentirosos, nem o pessoal do PT e nem o pessoal dos golpistas, eles são a representação de uma perversidade tatuada na matriz das relações sociais no Brasil. De certa forma, eles são loucos, porque se fossem lúcidos não achariam razoável a convivência pacificada e cotidiana entre escravistas e abolicionistas, depois da tal Lei Áurea, da lei da abolição da escravatura de 1888. Porque, na verdade, nunca deveria ter podido ser pacífica a convivência entre essas duas noções, a menos que elas fossem híbridas, misturadas, perversas desde sempre.
Assim, o golpe de 2016 é um ataque do discurso escravocrata contra o discurso abolicionista na intenção de conter o ponto, a passagem, onde a psiquê coletiva se movia em direção a ruptura com a discursividade permitida e iniciava a formação de padrões quilombolas de discursos coletivos sobre a Nação. Por “padrões quilombolas” entendo as narrativas produzidas no interior de espaços da sociedade que se pretendiam exteriores às falas e ideias que conseguem aparecer nas grandes mídias (e mesmo nas mídias de grande visibilidade, ainda que alternativas).  Esses padrões insurgentes não vinham dos discursos oficiais dos partidos presentes nos governos Lula e Dilma e que se declaram “de esquerda”, sequer do Psol e do Pstu. Ambos os partidos pequenos citados vinham tecendo narrativas ainda espremidas dentro do espaço de discursividade permitida, que durante o pós-ditadura militar era o discurso de gerenciamento de uma democracia (frágil, inexata, mas lá, supunha essa discursividade que a democracia estava lá). A ruptura em padrões quilombolas se dava tanto em pressões de bases de todos os partidos do campo abolicionista, em movimentos sociais não facilmente cooptáveis (como são cooptáveis no Brasil os movimentos sindicais e de periferias urbanas) e em oposições sindicais e populares, quanto em um reaparecimento de novas versões anarquistas de insurgência em sociedade. Ou seja, o discurso abolicionista não era mais eficiente para hegemonizar uma narrativa sobre a democracia no Brasil, sobre a história do Brasil, sobre os possíveis futuros do país. Nesse sentido, o segundo mandato Dilma é um travamento do governo dentro de impossibilidades na relação entre o tempo linear (das decisões dos caminhos do capitalismo no Brasil) e o tempo cíclico (do discurso, da cultura). Se os escravocratas não dessem um golpe, os abolicionistas seriam empurrados pelas práticas quilombolas e o Brasil entraria em um cenário insurgente.
A derrubada do discurso abolicionista no cenário atual é um acontecimento novo, em um país da tradição escravista moderna (1500 a 1888), onde o mito da abolição integra os principais pilares da ideia de Nação. Nesse sentido, o PT é uma incógnita, porque ele era necessário ao capitalismo, o discurso abolicionista sempre foi necessário ao capitalismo. Bom, a pergunta é: estará o capitalismo em uma crise estrutural? Há vários teóricos dizendo que sim e que agora teremos um período de desmanchamento civilizacional impar em toda a história da humanidade. O PT não é cachorro morto. Para o bem e para o mal. Talvez a crise maior, ou o maior dilema fique colocado, como batata quente, no colo dos grupos e partidos de esquerda que sempre se pretenderam alternativa ao Partido dos Trabalhadores, já que se o abolicionismo não mais interessar ao Capital, se as elites donas do mundo não mais se sentirem apegadas a valores democráticos, como está parecendo pela insana crueldade cometida contra jovens nas ruas das grandes cidades, então precisaremos de uma nova narrativa. E dificilmente o Petê saberá ergue-la. Mas dificilmente essa nova narrativa poderá abrir mão de nosso precário e sofrido passado abolicionista.

Talvez Monty Python sejamos todos nós, os subordinados descartáveis, precisando desesperadamente nos proteger de qualquer inquisição que apareça a qualquer momento. Talvez a gente precise urgentemente pensar juntos.

Diálogos ecumênicos versus guerras tribais


O texto que segue surgiu em um comentário de uma postagem sobre o policiamento dentro dos campus universitários, segundo decisão já feita em Santa Catarina, na universidade federal. Gosto de entender como o conjunto da sociedade está se movendo para depois tentar ver problemas localizados. Não estamos mais em um tempo democrático, onde se pode almejar que um conjunto populacional imenso dentro de um território enorme realize, em cada comunidade, em cada município uma mesma noção de cidadania, de pertencimento. Isso começou a ser destruído na década de 1990, no Brasil, embora nunca fosse realmente um grande acontecimento. A cidadania plena sempre foi um sonho, nesse país de tradição escravista. Mas na saída da ditadura militar foi recuperado um processo anterior que já vinha sendo pensado desde o Estado Novo do Getúlio Vargas e do Oliveira Vianna, dos intelectuais de 30 e sua proposta de erguer um Volksgeist (espírito do povo) brasileiro baseado na cidadania generalizada. Acontece que tudo isso desabou a partir de 90, e o que o PT construiu, a partir de 2003, foi mais na linha da inclusão em direitos mínimos, em políticas afirmativas também, que praticamente acabaram por fortalecer dinâmicas de formação de tribos específicas, mas não em estruturação de um conjunto harmônico de cidadania política. Até porque durante todo esse tempo dos mandatos do PT foi avançando, na sociedade brasileira, o processo das terceirizações (ainda que os petistas se orgulhem de terem desacelerado esse acontecimento), que foram decisivas para a desagregação das solidariedades em comunidades específicas. O próprio discurso central do PT começou, a uma certa altura, a apontar para um determinado valor da "pobreza", da "simplicidade", em oposição a uma ideia genérica de "classe média", favorecendo a antipatia entre esses dois setores sociais e favorecendo também a proliferação do assédio moral à parte mais fragilizada dos setores de classe média. O espaço público ficou sempre controlado pela grande mídia, seja ela evangélica ou mais modernosa, como a Rede Globo. E foi justo nesse período que explodiu a revolução da informática no Brasil, inaugurando uma "desterritorialização simbólica" de gigantescas proporções. Tivemos então a proliferação de uma cultura do hiper-consumo, da aceleração e da velocidade como deuses, uma cultura agonística ao máximo, decadente, sendo o agonístico hipertrofiado uma espécie de endeusamento da competição, do super herói, dos Olimpos, das celebridades. Um dos espaços onde a concentração de renda foi defendida como um valor positivo foi no espaço do futebol, onde os considerados craques tiveram legitimado o direito, diante da opinião pública, de receberem salários de um milhão e meio por mês e de terem integrado em seus corpos montantes patrimoniais de até trinta ou quarenta milhões de reais. Isso dentro de uma normalidade - portanto dentro de uma normatização - onde a maioria dos jogadores de futebol continuaram com remunerações mínimas. Outro espaço onde a cidadania foi desconfigurada foi o da beleza feminina, que já era comandada por esteriótipos, mas passou a produzir normalidades que legitimaram a anorexia como uma doença a ser investigada por todas as meninas que pudessem "ir até lá". Foi nesse processo que houve uma ruptura do conceito de cidadão e cidadã, uma implosão interna e uma fragmentação desse conceito em um feixe esquizofrênico e que realizaria progressivamente o "devir tribal", esse devir digamos medieval, de feudos, de espécies de micro nações autônomas. Essas micro nações entrariam no cenário social para competir, para lutar entre si. O conceito de "agonístico", aqui, tem a ver com a disposição para a luta, para o enfrentamento e ele está em ruptura com o conceito de cidadania. Em uma sociedade toda ela agonística não há como evitar o policiamento no espaço exterior às tribos. Nessa situação, não há mais esse espaço público como em uma República, o espaço público agora é a Floresta, o espaço do homo sacer de Giorgio Agamben, o lugar dos "matáveis". Em situação de barbárie, como estamos, os lugares da Universidade tendem a se restringir às salas de aula, e olhe lá.  A própria "universidade" tende a desaparecer, agora cedendo espaço para espécies de "mosteiros" de temáticas e linguagens localizadas. Como sair disso? Não será indo para trás, não poderemos voltar atrás, teremos que integrar tribos e tentar sair dessa idade média a longo prazo. Precisamos começar a pensar em novas linguagens, em ecumenismo, em diálogos entre pequenas nações. Nunca, desde o ano mil do calendário cristão, a palavra diálogo teve tanta importância para o destino e até a sobrevivência da espécie humana. Mas, veja bem, a palavra em sua significação verdadeira, verídica, e não em suas simulações dissimuladas e agonísticas.

O lado de fora do textão

Ilustração: Brecht Vandenbruck

Apresento um pensamento e uma escrita anti-textão. É a premissa. Um textão carrega um determinado séquito de adeptos. Para confronta-lo sempre precisaremos ter outro textão, com outro séquito. A lógica dos textões é uma legitimidade intrínseca, um ordenamento entre as palavras que encaixa no território político do vivente que diz e dos viventes que aplaudem de um modo exatamente perfeito. É próprio da episteme do textão ele ser naturalmente perfeito para seus seguidores. Decorre que haverá outro grupo de outros viventes que também entenderão o seu textão como perfeito, as duas perfeições se roçando, se tocando, negociando uma mesma realidade, um mesmo contexto ontológico. O textão assim é um negócio entre partes. Uma mesma guerra, um mesmo ritual. Assim, o textão reflete a guerra quando reflete um exército dentro dela. É possível sair da guerra por dentro dela mesma? Sair da guerra por meio de um fim? Essa era a questão das duas grandes guerras mundiais e de todas as guerras menores. Exceto algumas guerras milenares que já prefiguravam a impossibilidade de sair da guerra por dentro dela: a guerra das etnias religiosas no oriente médio e a guerra das etnias brancas contra as negras, no recorte do continente africano, e nas Américas. E outras guerras étnicas. Fora a dúvida sobre as possibilidades futuras do homem e da mulher. Ou de que homem e de que mulher. Sempre deixaremos o grande oriente de fora, por ora. Ele com suas milenares muralhas a conter a guerra do lado de fora. Esse "lado de dentro" do grande oriente agora se expande de um modo inédito e imprevisível. O tempo não urge para quem não segue ninguém. Para quem tem inadequação consagrada. O circo perdeu grande parte da graça porque ele não funciona sem o pão. E os economistas falam sobre como produzir o pão e a gente não entende e têm medo. A inadequação agora se conjuga, surpreendentemente, com as grandes muralhas do grande oriente. A inadequação agora é um lado de dentro, um outro lado de dentro que não tem mais tempo algum e, portanto, tem todo o tempo do mundo. E, vamos começar a reflexão a partir daqui, esse lado de dentro agora ocidental e mundial é, por natureza, doméstico, comum e sacrificável. Eu estou falando de uma economia que me autoriza e que é a única sobre a qual eu posso falar.